DN | papel

bolso de valores

Sempre letras grandes

Se esta coisa de escrever sobre livros não obedecesse a algumas regras - ainda assim, menos do que as aplicadas noutras áreas -, pode o leitor ficar certo de que o espaço ocupado por esta crónica estaria hoje confinado a um rol contínuo de citações, pescadas à linha nestes trabalhos jornalísticos que Herberto Helder (1930-2015) publicou durante a sua passagem por Angola no Notícia - Semanário Ilustrado, nos anos já distantes de 1971 e 1972. Para quem lê aqui, seria só lucro e, seguramente, esse recurso assumiria o papel de uma via rápida para chegar a este livro memorável. Em sentido duplo, pelo menos: desde logo, porque é notável a forma empática, mas sem cedências "populistas", que o homem que conhecemos como poeta maior utiliza para chegar aos seus destinatários de primeira instância; depois, porque este jornalismo parece, todos os dias, afastar-se de nós mais um pouco, sujeito a códigos e interesses, a espartilhos e "normas de conduta" que só contribuem para eclipsar qualquer surpresa e quaisquer hipóteses de boa (e personalizada) escrita e de exposição de ideias fortes.

Opinião

Uma história de mulheres

Nos tempos que correm, de uma certa consciencialização mediática das causas feministas, ainda há quem faça o pleno elogio à mulher sem cair no, muitas vezes, efémero discurso panfletário. Também serve para o cinema. Contam-se pelos dedos os filmes que contemplaram abertamente a resistência e mágoa daquelas que viram os seus homens partir para a guerra - um dos exemplos emblemáticos é a primeira película a cores de John Ford, Ouvem-se Tambores ao Longe (1939). Por isso saudemos o magnífico gesto de Xavier Beauvois, que chega agora às nossas salas: As Guardiãs. Saudemo-lo, desde logo, pela sua enorme cumplicidade com a história das mulheres. Particularmente as que, durante o primeiro conflito mundial, lavraram a terra e asseguraram a produção, enquanto os filhos e os maridos estavam no campo de batalha. O realizador desse admirável Dos Homens e dos Deuses traz-nos mais um sereno e impressivo olhar sobre aquilo que, dito de forma simples, une a humanidade: o amor, a morte e o trabalho. Este é um filme que nos põe diante de silhuetas femininas a laborar nas searas e terra de cultivo. Imagens que, além de evidenciarem a extrema força das mulheres, também se deixam atravessar pela angústia ancestral que lhes habita o corpo. Elas são o centro e abismo de uma visão seca e profundamente dramática da realidade. Os seus rostos símbolos de uma discreta honra que se manifesta nos muitos silêncios do filme. Aqui, a palavra serve quase só para expressar os sentimentos que, apesar de tudo, têm oportunidade de nascer, ou para anunciar uma morte... Beauvois filma tudo isto com um recatado louvor pictórico, que se torna eloquente na harmonia dos semblantes com a paisagem. Não poucas vezes, a beleza e a dor estão lado a lado. De ambas se faz o majestoso retrato de As Guardiãs.

Um ponto é tudo

Foi Pessoa agente dos russos?

Já nos habituámos ao caso Trump, vamos tendo o caso Bruno e, como vimos com Arkady Babchenko, na semana passada, estamos prontos para tudo. Relembro o último porque é comum nos hospícios os casos varrerem-se-nos e os mais recentes partirem mais depressa da memória. Babchenko é o jornalista russo exilado na vizinha Kiev, capital da Ucrânia, onde foi assassinado a mando dos russos de Putin. O próprio morto até apareceu no dia seguinte, numa conferência de imprensa, a denunciar o assassínio e a mostrar imagens em que o seu assassino estava a ser preso. Ao lado de Arkady Babchenko, também falou um polícia da secreta ucraniana, explicando que o anúncio do assassínio e o desmentido - a fake news montada - eram necessários, o que foi confirmado pelo ex-cadáver. Os colegas chorosos deste rejubilaram, vimo-los em direto, em quadradinho mais pequeno na pantalha, onde este estranho mundo moderno nos entra em casa todos os dias... Ontem, a polícia ucraniana revelou uma lista de 47 nomes, jornalistas e ativistas, em Kiev, potenciais alvos dos russos. Depois da revelação, alguns dos visados (na lista, mas ainda não pelas pistolas russas) já vieram dizer que suspeitam do tal perigo. Resumindo, a questão é basicamente esta: dos russos espera-se tudo; então, o melhor é inventar mais do que tudo. E a minha crónica é para trazer um certa normalidade, e até tradição, a isto. O meu velho e querido jornal, o DN, noticiou, em 1930, o suicídio de Aleister Crowley na Boca do Inferno. Crowley era uma personalidade internacional, um mago que inspirou um romance a Somerset Maugham e é citado no Paris É Uma Festa, de Hemingway. Ele correspondia-se com Pessoa, por causa do interesse comum pela astrologia, veio a Portugal e acabou tragicamente naquele tumulto de água e rochas em Cascais. Pessoa, que se encontrara com Crowley, testemunhou na polícia e falou, então, para o nosso DN. Pois bem, pouco depois, há uma carta do poeta ao que viria a ser o seu biógrafo, João Gaspar Simões, sobre o triste acontecimento. Revela Fernando Pessoa, na sua carta: "Crowley, que depois de se suicidar foi para a Alemanha, escreveu-me há dias." Aliás, Aleister Crowley só viria a morrer em 1947, uma dúzia de anos depois de Pessoa. Isto para vos dizer que já conhecemos a modernidade há muito e não precisamos do perigo de Putin à porta para ter imaginação.