DN | papel

bolso de valores

Sempre letras grandes

Se esta coisa de escrever sobre livros não obedecesse a algumas regras - ainda assim, menos do que as aplicadas noutras áreas -, pode o leitor ficar certo de que o espaço ocupado por esta crónica estaria hoje confinado a um rol contínuo de citações, pescadas à linha nestes trabalhos jornalísticos que Herberto Helder (1930-2015) publicou durante a sua passagem por Angola no Notícia - Semanário Ilustrado, nos anos já distantes de 1971 e 1972. Para quem lê aqui, seria só lucro e, seguramente, esse recurso assumiria o papel de uma via rápida para chegar a este livro memorável. Em sentido duplo, pelo menos: desde logo, porque é notável a forma empática, mas sem cedências "populistas", que o homem que conhecemos como poeta maior utiliza para chegar aos seus destinatários de primeira instância; depois, porque este jornalismo parece, todos os dias, afastar-se de nós mais um pouco, sujeito a códigos e interesses, a espartilhos e "normas de conduta" que só contribuem para eclipsar qualquer surpresa e quaisquer hipóteses de boa (e personalizada) escrita e de exposição de ideias fortes.

Viriato Soromenho Marques

O passado nunca acaba

No dia 3 de janeiro de 2014, na pequena cidade de Euskirchen no estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália, um grupo de 14 trabalhadores da construção civil ao mover uma placa de betão foi atingido por uma violenta explosão causada pelo rebentamento de uma oculta mina aérea de 1,8 toneladas, lançada por um bombardeiro da RAF durante a II Guerra Mundial. O condutor da escavadora, de 50 anos, morreu no local, dois outros, de 23 e 46 anos, ficaram hospitalizados com ferimentos graves. Dois meses depois, em Ypres, na Bélgica, numa região que foi o palco de quatro ferozes batalhas durante a I Guerra Mundial, dois trabalhadores pereceram devido à explosão de uma munição de artilharia, adormecida no solo há quase cem anos. Só na região de Ypres, desde 1918 até hoje, já morreram cerca de 360 pessoas e 500 ficaram feridas em virtude dos milhões de explosivos largados nesse campo de batalha rural, milhares deles aguardando ainda o momento da sua detonação. É aquilo que os belgas designam como a "colheita de aço"... O manobrador de Euskirchen nasceu em 1963. Os pilotos ingleses que transportaram a fatídica mina que trazia o seu nome já devem ter falecido, Teriam idade para serem seus avós. Os operários belgas de Ypres foram mortos em março de 2014 por projéteis lançados por artilheiros nascidos nas últimas décadas do século XIX. Os astrónomos lidam facilmente com a conceção de que a sequência temporal passado-presente-futuro é uma ilusão psicológica útil. Trata-se, como escreveu Kant, de uma "intuição transcendental" de tempo que nos permite habitar a complexidade do mundo, sem endoidecermos com a saturação de informação que gira à nossa volta e dentro de nós. Mas quem confunda a perspetiva da nossa sensibilidade com o conhecimento e a explicação do mundo real está condenado ao erro e à superstição. Ainda hoje se "escutam" as ondas gravitacionais dos primeiros momentos da grande expansão cósmica universal do big-bang. A energia expansiva que fez nascer a matéria da nossa física, há muitos milhares de milhões de anos, continua a moldar a nossa misteriosa marcha no espaço-tempo. Do mesmo modo, a ambição de Guilherme II, a loucura de Hitler, a miopia dos vencedores na Versalhes de 1919, ou a cupidez de Wall Street, em 1929, continuam a vibrar no nosso presente, ao ponto de ainda matarem gente de carne e osso.

Opinião

Uma história de mulheres

Nos tempos que correm, de uma certa consciencialização mediática das causas feministas, ainda há quem faça o pleno elogio à mulher sem cair no, muitas vezes, efémero discurso panfletário. Também serve para o cinema. Contam-se pelos dedos os filmes que contemplaram abertamente a resistência e mágoa daquelas que viram os seus homens partir para a guerra - um dos exemplos emblemáticos é a primeira película a cores de John Ford, Ouvem-se Tambores ao Longe (1939). Por isso saudemos o magnífico gesto de Xavier Beauvois, que chega agora às nossas salas: As Guardiãs. Saudemo-lo, desde logo, pela sua enorme cumplicidade com a história das mulheres. Particularmente as que, durante o primeiro conflito mundial, lavraram a terra e asseguraram a produção, enquanto os filhos e os maridos estavam no campo de batalha. O realizador desse admirável Dos Homens e dos Deuses traz-nos mais um sereno e impressivo olhar sobre aquilo que, dito de forma simples, une a humanidade: o amor, a morte e o trabalho. Este é um filme que nos põe diante de silhuetas femininas a laborar nas searas e terra de cultivo. Imagens que, além de evidenciarem a extrema força das mulheres, também se deixam atravessar pela angústia ancestral que lhes habita o corpo. Elas são o centro e abismo de uma visão seca e profundamente dramática da realidade. Os seus rostos símbolos de uma discreta honra que se manifesta nos muitos silêncios do filme. Aqui, a palavra serve quase só para expressar os sentimentos que, apesar de tudo, têm oportunidade de nascer, ou para anunciar uma morte... Beauvois filma tudo isto com um recatado louvor pictórico, que se torna eloquente na harmonia dos semblantes com a paisagem. Não poucas vezes, a beleza e a dor estão lado a lado. De ambas se faz o majestoso retrato de As Guardiãs.