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Opinião

A hora da verdade para Pedro Sánchez

Em apenas dez dias, Espanha passou a viver um autêntico e inesperado furacão político. Ninguém o previa mas trouxe consigo um novo primeiro-ministro, Pedro Sánchez, a queda do governo conservador de Mariano Rajoy e a sua saída de líder do PP, após a moção de censura apresentada e ganha no Parlamento de Madrid pelo PSOE ter colhido o apoio de todos os outros partidos - do Podemos aos independentistas da Catalunha e País Basco, e aos nacionalistas bascos. Foi um passo histórico na democracia espanhola, por vários motivos. Nunca antes um governo tinha caído numa moção de censura, nunca antes um partido tinha chegado ao poder sem ter ganho as eleições e nunca antes o conseguira com tão poucos deputados na Câmara Baixa, 84 de 350.

Viriato Soromenho Marques

O passado nunca acaba

No dia 3 de janeiro de 2014, na pequena cidade de Euskirchen no estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália, um grupo de 14 trabalhadores da construção civil ao mover uma placa de betão foi atingido por uma violenta explosão causada pelo rebentamento de uma oculta mina aérea de 1,8 toneladas, lançada por um bombardeiro da RAF durante a II Guerra Mundial. O condutor da escavadora, de 50 anos, morreu no local, dois outros, de 23 e 46 anos, ficaram hospitalizados com ferimentos graves. Dois meses depois, em Ypres, na Bélgica, numa região que foi o palco de quatro ferozes batalhas durante a I Guerra Mundial, dois trabalhadores pereceram devido à explosão de uma munição de artilharia, adormecida no solo há quase cem anos. Só na região de Ypres, desde 1918 até hoje, já morreram cerca de 360 pessoas e 500 ficaram feridas em virtude dos milhões de explosivos largados nesse campo de batalha rural, milhares deles aguardando ainda o momento da sua detonação. É aquilo que os belgas designam como a "colheita de aço"... O manobrador de Euskirchen nasceu em 1963. Os pilotos ingleses que transportaram a fatídica mina que trazia o seu nome já devem ter falecido, Teriam idade para serem seus avós. Os operários belgas de Ypres foram mortos em março de 2014 por projéteis lançados por artilheiros nascidos nas últimas décadas do século XIX. Os astrónomos lidam facilmente com a conceção de que a sequência temporal passado-presente-futuro é uma ilusão psicológica útil. Trata-se, como escreveu Kant, de uma "intuição transcendental" de tempo que nos permite habitar a complexidade do mundo, sem endoidecermos com a saturação de informação que gira à nossa volta e dentro de nós. Mas quem confunda a perspetiva da nossa sensibilidade com o conhecimento e a explicação do mundo real está condenado ao erro e à superstição. Ainda hoje se "escutam" as ondas gravitacionais dos primeiros momentos da grande expansão cósmica universal do big-bang. A energia expansiva que fez nascer a matéria da nossa física, há muitos milhares de milhões de anos, continua a moldar a nossa misteriosa marcha no espaço-tempo. Do mesmo modo, a ambição de Guilherme II, a loucura de Hitler, a miopia dos vencedores na Versalhes de 1919, ou a cupidez de Wall Street, em 1929, continuam a vibrar no nosso presente, ao ponto de ainda matarem gente de carne e osso.

Adriano Moreira

A paz e a leviandade

As relações entre a Presidência dos EUA e as duas Coreias, infelizmente, não obstante a alta importância dos titulares do poder político envolvido, recordam inevitavelmente a observação que se atribui a Bismark de que uma pequena leviandade pode desencadear grandes catástrofes, designadamente de confronto militar entre as potências. Não são de omitir as mensagens de homens como o Abbé de Saint- Pierre (1713), ou a famosa meditação de Kant na sua famosa Paz Perpétua de 1795, para não confundir o objetivo que se propunham com a chamada "pax romana", ou "pax britânica", ou ainda "pax russa", porque estas se referem a realidades imperiais, e portanto se referem mais a uma forma de "ordem internacional" imposta do que a palavra paz exprime. Como nestas hierarquias é uma questão de interesses, em geral extrativos, que traduz o princípio da organização que a expressão deturpadamente exprime, a ideia de "coexistência pacífica" que foi usada no fim da Primeira Guerra Mundial para referir a desejada coexistência entre o então secularmente imposto regime russo e os Estados seus vizinhos, e de novo foi usada em várias outras circunstâncias, de regra não encontrou acatamento suficiente para evitar mais de um dos conflitos que foram acontecendo, incluindo a Segunda Guerra Mundial. Talvez hoje o significado mais genuíno que se lhe deve dar seja o de eliminar a violência, que não é necessariamente militar, porque há formas intermédias que por vezes induzem a evitar o pior. Esse parece o melhor e mais abrangente sentido para as iniciativas a favor da paz, como a que recentemente teve lugar na sala das sessões da Assembleia da República, levada a cabo pela Universal Peace Federation, tratando das "Perspetivas para a Paz Sustentável na Europa e no Mundo: a Responsabilidade dos Parlamentares". Também é o sentido profundo da Mensagem do Papa Francisco de 1 de Janeiro de 2017 no 50.º Dia Mundial da Paz, quando disse que "a violência não é o remédio para o nosso mundo dilacerado. Responder à violência com violência leva, na melhor das hipóteses, a migrações forçadas e a atrozes sofrimentos, porque grandes quantidades de recursos são destinados a fins militares e subtraídos às exigência do dia-a-dia das jovens famílias em dificuldades, dos idosos, dos doentes, da grande maioria dos habitantes da terra. No pior dos casos, pode levar à morte física e espiritual de muitos, senão mesmo de todos". A leviandade das palavras, em que o atual conflito se mostra orientado para ser o caminho habitual, também corre sem pensar na eventual violência que produzirá, porque há valores, ainda quando apenas nacionais, nem sequer ideológicos, que não se conservam sempre tranquilos. É um cuidado que a considerada patriótica inovação da America First não parece tomar em consideração. Tem de salientar-se que a inquietação pela paz não é apenas ocidental, mesmo nos sentidos mais rigorosos da violência militar, e, como exemplo, são de meditar comentários de Sua Santidade o Dalai Lama, que tive a honra de apresentar, faz anos, na Reitoria da Universidade de Lisboa, e que, depois dos largos anos sobre a violência que o expulsou do seu país que é o Tibete, declara não ter inimigos, e depois de chamar a atenção para a educação, respeito, tolerância, dedicação e não violência, que faltaram no ataque à sua comunidade, fez todavia esta advertência ao Presidente dos EUA: "O futuro da América depende da Europa e o futuro da Europa depende dos países asiáticos. A nossa realidade é que dependemos uns dos outros. Os Estados Unidos são uma nação de pessoas no mundo livre. Por essa razão, o presidente dos EUA deveria pensar mais nas questões a um nível mundial, os EUA continuam a ser muito poderosos... Com essa preponderância, os EUA deveriam colaborar mais estreitamente com a Europa." Não se trata de ocidentais, de atlânticos, de democratas, de cristãos, trata-se de "um apelo ao mundo", ao qual, dessa parte do mundo que foi largamente subordinada à ordem dos ocidentais, vem este apelo para "o Caminho da Paz em Tempos de Discórdia". Com esperança de ser entendido a tempo. A ONU é hoje desafiada pela expressão de algumas vozes que falam na necessidade de recriar uma "ONU da Paz", o que parece cada vez mais exigente de vozes concordantes no sentido de evitar mais um desastre mundial. A perigosa fragilidade demonstrada pela arena mundial a que conduziu o globalismo sem governança, tornou-se alarmante com o facto de o gesto de um só homem ter agravado o destino da cidade santa. O Conselho de Segurança não deu mostras de se sentir atingido.