DN 155 anos

Crónica de Televisão

O museu dos enredos obsoletos

"O céu sobre o porto tinha a cor da televisão, sintonizada num canal fora do ar." Foi assim que William Gibson começou o seu primeiro romance, Neuromancer. Pode não ser presença consensual no cortejo das grandes "primeiras frases" - os "Chamem-me Ishmael", os "Todas as famílias felizes...", os "É uma verdade universalmente reconhecida...", etc. -, mas será pelo menos o começo mais reconhecível dentro do género a que chamamos ficção científica. Dependendo da idade de quem lê, será também a evocação nostálgica de uma relíquia cultural desaparecida - o ruído branco que se seguia à mira técnica após o fecho de emissão - ou então um profundo mistério para quem cresceu, primeiro, com as emissões contínuas e, mais tarde, com a programação ad hoc e multiplataforma em que hoje consiste o acto de "ver televisão". A ideia de um canal fora do ar mais facilmente conjura uma mensagem de erro no ecrã de um periférico ou o fundo negro resultante de um cabo desligado.

João Taborda da Gama

O museu das grandes novidades

A questão não é decidir entre o passado ou o futuro, ou o presente ou o futuro, mas quais dos futuros que estão aí a desenhar-se a cada segundo que passa. Futuros que estão a ser pensados em cabeças sozinhas, que pensam que só elas pensam aquilo, ou em cabeças que se decidiram juntar, em empresas, projetos. Ideias, casais, relações, portais, cabeças que já encontraram quem pense com elas. Não é como, é com, porque o como come o futuro, a homogeneidade esteriliza o campo do possível, o conforto do igual amarra as pernas que querem correr à frente do tempo.