Diário do Mundial

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México e os oitavos-de-final: uma história de amor

Após duas semanas de guerrilha subversiva, com uma sucessão de prognósticos incorrectos e estímulos involuntários ao crescimento económico (de Gibraltar), em que cada dia trouxe um gigante caído, uma expectativa destruída ou uma tradição reduzida a pó, é reconfortante assistir ao regresso da normalidade e poder voltar a escrever uma das frases que melhor define a história recente dos Campeonatos do Mundo: o México foi eliminado nos oitavos-de-final. A frase tem uma longa e comovente história. É transmitida de pais para filhos, como uma variante geracional da tocha olímpica.

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Opinião de Rogério Casanova: William Carvalho, social-democrata

De todos os prognósticos que podiam ter sido feitos sobre o Uruguai-Portugal, o mais ignóbil - o mais insultuoso - seria prever um "bom espectáculo". Não foram bons espectáculos que nos trouxeram aqui. O Uruguai chegou a este ponto - e refiro-me a um itinerário maior do que a soma dos jogos do seu grupo - não com espectáculos, mas adoptando uma abordagem fanática à pura competência. E Portugal dedicou (cada vez mais se suspeita que involuntariamente) grande parte dos últimos três anos a purgar quaisquer possibilidades adjectivais, reduzindo tanto os seus métodos como os seus triunfos a uma gigantesca tautologia: isto funciona através do seu funcionamento, ora atentem, por obséquio, nesta taça que aqui temos.

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Os Três Toques de Messi

No meu parágrafo preferido do melhor livro de sempre sobre desporto (A Sense of Where You Are), John McPhee descreve uma sessão de treino de Bill Bradley, futuro senador americano, mas na altura ainda um jovem prodígio da equipa de basquetebol da Universidade de Princeton. O recinto da Universidade fechara para obras, e a sessão realiza-se num liceu vizinho. Bradley começa o treino da maneira habitual: uma série de lançamentos em suspensão, a quatro metros do cesto. Nas seis primeiras tentativas, a bola bate na parte de trás do aro e não entra. Após uma pausa e um "ajustamento mental", converte os cinco lançamentos seguintes e desabafa com McPhee que o cesto parece uns três centímetros e meio mais baixo do que em Princeton. Depois do treino, McPhee pega num escadote e numa fita métrica e vai confirmar a suspeita: o cesto estava três centímetros abaixo da altura regulamentar.

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A amnésia de Modric

Não retirando qualquer mérito aos vários agentes e instituições desportivas responsáveis pelo espectáculo do Campeonato do Mundo (jogadores, treinadores, organização, adeptos, etc.) há um factor insuficientemente apreciado que muito tem contribuído para algumas das mais memoráveis erupções de qualidade dentro das quatro linhas. Refiro-me, como é óbvio, ao sentido de oportunidade dos aparelhos judiciais europeus.

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Uma Máquina Para Matar Purismos

Ao minuto 39 do Espanha-Irão, Sergio Ramos, descaído sobre a esquerda, variou de flanco para a direita do meio-campo ofensivo. A bola descreveu uma parábola perfeita e chegou a Carvajal, que almofadou um primeiro toque imaculado e a deixou nos pés de outro colega. Não foi um momento particularmente memorável; qualquer equipa tem dois ou três por jogo. A diferença é que a Espanha tem vinte ou trinta. Nenhuma outra selecção presente na Rússia faz um investimento estético tão exorbitante na acção mais simples. Qualquer triangulação no meio-campo se organiza espontaneamente numa sequência de Fibonacci. Cada atraso ao guarda-redes acrescenta um anexo ao Museu do Prado. Esta prodigalidade com a própria excelência não é, evidentemente, saudável. Como o hábito de vestir um roupão de três mil euros para ir fumar à marquise, trata-se de um distúrbio, e assim deve ser encarado.