Dentro do Género

João Taborda da Gama

Política dos transportes

Na semana passada, ao propor a descida do valor dos passes sociais em Lisboa e na Área Metropolitana de Lisboa, Fernando Medina fez política com letra grande. Política com letra grande é uma mistura de boa política pública e de boa política ideológico-partidária. E a reação negativa ao que disse é a prova disso mesmo. Caí no erro de elogiar a medida, comecei logo a apanhar, sobretudo dos meus correligionários, ouvi disparates, ouvi coisas com sentido, mas acima de tudo fiquei mesmo com a sensação de que um ou dois já teriam andado de transportes.

João Taborda da Gama

Temos tempo

Achamos que temos tempo mas tempo é a única coisa que não temos. E o tempo muda a relação que temos com o tempo. Começamos por não querer dormir, passamos a só querer dormir, e por fim a não conseguir dormir ou simplesmente a não dormir, antes de passarmos o resto do tempo a dormir, a dormir com os peixes. A última fase pode conjugar noites claras e tardes escuras, longas sestas de dia com um dormitar de noite. Disse-me um dia o meu barbeiro que os velhotes passam a noite acordados para não morrerem de noite, e se ele disse é porque é.

Dentro do Género

Ripa na cambalhota

O Mundial de futebol, e as vitórias que a seleção vai ter, a nossa barriguinha substituída pelos abdominais de Cristiano Ronaldo, não podem fazer esquecer o grande escândalo desportivo que vivemos. Não falo nem do lodo em que está o Sporting, com finalmente a justiça a ter juízo e a começar a pôr aquilo em ordem, nem da corrupção no Benfica, nem no Andebol leonino, nem a FIFA a fingir que está tudo bem, não. O grande escândalo da cambalhota.

Dentro do Género

Estado limite

Esqueci-me de dizer uma coisa e não gosto de me esquecer de dizer coisas, mesmo que já não venham a propósito. Vou dizer na mesma porque tem que ver com limites de intervenção do Estado, e é tema que muito me fascina. Era sobre a eutanásia, e o que me esqueci é isto: se viera a ser aprovada uma lei que permita a eutanásia, só o Serviço Nacional de Saúde deve poder praticá-la. Aliás, assim devia ser com a interrupção voluntária de gravidez. Se admitimos intervenções limite sobre a vida humana, e todos de ambos os lados da barricada admitem que estas são decisões complexas e limite, então aí apenas deve estar o Estado. A garantia de estar o Estado suplanta qualquer outro argumento, desde logo o do dinheiro dos meus impostos usados para isso, porque se há coisa para a qual serve o dinheiro dos nossos impostos é precisamente para executar as decisões-limite, garantir o cumprimento dos procedimentos definidos, e fazer que a comunidade reparta o custo moral da decisão difícil que decidiu tomar.

Dentro do Género

Pedalar para a frente

Na semana passada acabei por falar muito do Campo Grande mas nada do modo como lá cheguei, nem do homem mal encarado que alugava motas e bicicletas junto à Alameda da Universidade onde andava sempre muita chungaria a fazer cavalinhos para a frente e para trás. Queria ir de bicicleta, mas a Gira não chega aqui ao meu bairro e por isso tive de ir de mota. Lá fiz o download da aplicação da eCooltra e dirigi-me à mota mais perto de casa. Lá estava ela, única, à minha espera, algum espertalhão a pensar que ia pegar nela mais tarde mas eu já a tinha fisgado.

Dentro do Género

Deriva

Há uma ideia, uma realidade, que é ao mesmo tempo das melhores e piores coisas do mundo, que é a ideia de haver ruas de Lisboa onde nunca fui, nunca estive, que não conheço. É mau porque uma pessoa não conhecer a sua cidade, as cidades da sua cidade, é uma das formas mais cruéis de não se conhecer a si e aos outros, sobretudo aos outros que é onde o conhecimento tem de ser mais instigado e onde está a mais doce recompensa. Mas é também, e ao mesmo tempo (pode haver um também que não é ao mesmo tempo, ou um ao mesmo tempo que não é também?), uma das coisas melhores a de saber que a cidade não acaba, que há sempre mais uma rua, mais uma escada, que se se virar por ali em vez de por ali (as mãos apontam ora para a esquerda ora para a direita) é um sítio novo, e as vidas que lá vivem, um buraco no espaço e no tempo, um portal para esse lugar que é outro lugar. Essas ruas, cujo nome nunca ouvimos, existem mesmo? E as que ouvimos o nome mas nunca vimos? A Calçada dos Barbadinhos, antes de a ter subido era mais pequena, menos íngreme, mais feia. Tinha pombos e pombais como a vizinha encosta. "A cidade não pode ser confundida com as palavras que a descrevem, mas entre uma coisa e outra há uma ligação", numa tradução livre (a tradução nunca é livre, mas isso é outra coisa) de As Cidades Invisíveis, do Italo Calvino. Sim, se fosse da geografia era da psicogeografia, ou do movimento dérive.

Dentro do Género

A história do Alberto

Daqui por oito meses, no dia 6 de novembro, voltamos a falar. Nesse dia, vai ser eleito o Alberto para o Congresso dos EUA, pelo 27.º distrito eleitoral da Florida e vai fazer-se história. Claro que não conhece o Alberto, e também não se pode dizer que eu o conheça há muito tempo, 48, 50 e tal horas no máximo não é muito tempo, e nem é bem conhecer, é vasculhar a internet de cima a baixo para saber tudo sobre ele, como chegou onde chegou, de onde veio, para onde vai. Bom, para onde vai eu já disse, vai para Washington, para o Congresso. E isto é tão certo como dizer que o Diogo Piçarra ia desistir do festival logo quando se desconfiou do plágio.

Dentro do Género

Mal por bem

O The Post é o pior filme de Spielberg. Não os vi todos, nem me lembro de tudo de todos os que vi, mas espero bem que seja mesmo o pior, porque se não for vou ter de conversar comigo. Melhor e pior, tudo tão relativo. E os males que vêm por bem? O filme conta a história do The Washington Post e da sua decisão de publicar os Pentagon Papers depois de um procurador ter proibido o The New York Times de o fazer (mal acomparado, como se a TVI emitisse a Supernanny). O governo não queria que se soubesse o que pensava, e tinha escrito, sobre a Guerra do Vietname. Foi melhor saber-se, menos gente morreu, a guerra terminou. Achamos sempre que foi melhor, nunca se sabe o que as coisas teriam sido, o que teria sido a alternativa. É a única liberdade que temos, a de escolher caminhos, mas caminhos matam sempre os que não tomamos. A verdade da escolha é sempre absoluta, binária. O Papa fala disto numa comunicação, "A verdade vos tornará livres (Jo 8, 32). Fake News e jornalismo de paz", para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, em maio, a treze, saída agora a 24 de janeiro, dia em que se celebrava São Francisco de Sales. São Francisco de Sales numa das meditações propõe que nos imaginemos no leito da morte e olhemos para o que fizemos, o caminho que tomámos, as falhas e as virtudes, e como poderíamos ter feito diferente.

Dentro do Género

O espinhaço da democracia

A convite do grupo parlamentar vou falar sobre transparência nas jornadas parlamentares do Partido Socialista, em Coimbra, na terça-feira. Uma cidade bonita, um convite simpático e surpreendente, um tema difícil. Conheço o tema, já lá vou. Mas conheço relativamente mal Coimbra, sendo que relativamente mal é relativamente mau português mas é o que melhor descreve a coisa, e não vai ser desta vez que o conhecimento vai passar a relativamente bem. Chegar de noite, dormir pouco, falar cedo, sair a seguir de volta a Lisboa. E nem é comida feita, companhia desfeita, que nem vou com tempo de ir ao Zé Manel dos Ossos roer uns ossos, culpa minha que tento encaixar demais. Gosto muito de ossos, e de pessoas que gostam de ossos e da carne junto ao osso, e se pudesse escrevia era só sobre ossos, as maneiras de os fazer e de os comer, e os ossos que se veem aos olhos e os que se sentem ao toque.