Dentro do Género

João Taborda da Gama

Os fabulistas

O chefe Kiko inventou um concurso gastronómico da NASA que teria ganho, foi desmascarado e continuou a mentir. Não ter ganho um concurso que não existiu não faz dele um cozinheiro nem pior nem melhor do que já era. Desde logo era sobre a melhor comida para os astronautas comerem em Marte, e dificilmente o homem irá a Marte, pelo menos tão cedo. Aliás, a inventona é totalmente irrelevante e até bem consistente com a ideia que tenho do mundo da cozinha, alta ou média, onde a maioria dos prémios são falsos, as críticas parciais, as reportagens quase todas fruto de compadrios e simpatias.

João Taborda da Gama

A burocracia hipster da CP

A finitude do tempo e a infinitude dos temas fazem difícil a escolha do que ensinar aos filhos, do que lhes falar. A isto soma-se, quando é o caso, a pluralidade destes e, em qualquer caso, os programas escolares como sanguessugas do tempo e dos temas. A cultura digital ilustra bem isto com a meme "mitochondria is the powerhouse of the cell". Esta frase é usada para ilustrar a inutilidade prática da aprendizagem no sistema escolar e ressurge ciclicamente na internet - até quando continuaremos a dizer na internet, como se as coisas pudessem ressurgir noutro lado qualquer - por exemplo, na altura dos impostos?

João Taborda da Gama

Talvez nesse céu

Bárbara, com Robin pela mão, diz-lhe esperámos por ti. George, acabado de chegar num avião da Segunda Guerra, segura a outra mão de Robin, os três nas nuvens. É assim o cartoon do USA Today, de Marshall Ramsey, que assinala a chegada ao céu de George H. W. Bush, onde reencontra a sua mulher Bárbara e a filha Robin. Robin, a segunda filha do casal, o mais velho é George W., tinha quase 4 anos quando morreu, de leucemia. Já antes o jornal tinha assinalado com a mesma ideia a morte de Bárbara Bush, ela a chegar ao céu e a pequena Robin, com asas de anjo, a correr para ela.

João Taborda da Gama

Entre apps e plantas

A Web Summit acabou, mas volta, e volta por mais dez anos, e isto são excelentes notícias. E não é por Marcelo ter reanunciado outra vez a sua recandidatura nem pela coisa em si e pelo bem que faz à cidade e ao país. É mesmo porque assim temos mais dez anos para ouvir, durante uma semana em novembro, que é sempre um mês difícil porque é o mais normal de todos, o mês em que as pessoas já trabalham e esqueceram o verão e ainda não foram para o Natal, de termos ali logo no início o privilégio, o prazer, o deleite, de ouvirmos na rádio, televisão e jornais, no digital e no papel, as grandes pérolas de sabedoria daqueles que são contra a Web Summit. Pena que não os possamos ouvir em meses tristes e normais, como um março ou até um abril, mas não se pode ter tudo e agora temo-los mais dez anos, na primeira semana de novembro.

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Dentro do Género

Tudo isto é fardo

Na vila havia uma senhora. Quando era a hora chamava-se a senhora e ela vinha a casa do doente. As pessoas saíam, ficava apenas ela e o doente. Os gemidos paravam, o serviço estava feito. Era um capitão do Exército que não dormia nem morria. Contaram esta história à mesa, era eu pequeno, e nunca mais esqueci, como nunca se esquece uma história contada à mesa em que um capitão do Exército é morto por uma almofada segurada por uma velha. Uma história distante, de como se faziam as coisas, e foi assim que me lembro de ter sabido pela primeira vez que se matavam doentes para não sofrerem mais. Abafadeira, o nome da pessoa, da função.

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Saudades da porcaria

Sempre que uma coisa fica melhor dão-me as saudades de quando era uma porcaria. Não estou a falar de Alfama, nem da RTP, nem da dicção do meu mais novo. Estou a falar do Campo Grande. O Campo Grande era uma coisa tenebrosa, chegar de uma ponta à outra vivo e inteiro uma questão de sorte. E inteiro de vários pontos de vista, não só da garganta, mas também da inteireza moral, serpenteando entre tarados sexuais de um lado, e namorados experimentando o nunca escrito Kama Sutra do mobiliário urbano no outro, para chegar à natação.

Dentro do Género

Deslargar

Na minha rua havia um jogo chamado coca da barroca. Havia, havia, apesar de só haver três entradas no Google, duas delas muito antigas. A partir de quantas entradas no Google é que se presume que as coisas existiram mesmo? A coca da barroca começava como um normal jogo da apanhada, apanhada com coito, mas o coito aqui é para quem apanha. O coito eram normalmente os ferros. Os ferros eram uma estrutura de ferro para se brincar e subir. Um desgraçado ficava a apanhar, e quando apanhava o primeiro, os dois tinham de regressar para os ferros. Com a particularidade de poderem levar pancada de todos os outros até chegarem aos ferros. Depois ficavam os dois a apanhar, mas de mão dada. A regra da pancada valia quando apanhassem outro, mas também sempre que alguém da equipa que estava a apanhar desprendia as mãos, o que se torna mais comum à medida que a corrente aumenta.