Dentro do Género

Aos 16

João Taborda da Gama

Aos 16

Rezam os Estatutos do Pessoas-Animais-Natureza, mais conhecido como PAN ou o partido dos animais, no artigo sétimo, dedicado às "Companheiras e Companheiros de Causas", que "todas e todos os cidadãos de nacionalidade portuguesa ou residentes em Portugal, de idade igual ou superior a 14 anos e menor que 18 anos, que pretendam colaborar com o PAN, podem solicitar o estatuto de companheira ou, nome bonito (adjetivo masculino, não confundir com o tunídeo, et pour cause), de Companheiros e Companheiras de Causas (CCC) - e calculo que nos comícios adaptem a toada da JS e digam é cê, é cê, é cê, é cê-cê-cê.

João Taborda da Gama

Filhos de algo

Esta não foi uma semana amiga da família, em especial das mulheres. Ouviram de tudo. Ou não ouviram, porque tinham os tímpanos rebentados pelos companheiros. Graças a Deus o juiz Neto de Moura preocupou-se e mandou tirar a pulseira eletrónica ao agressor, porque só quem nunca viu uma pulseira eletrónica é que acha que um murro nos tímpanos com pulseira eletrónica dói menos do que um murro nos tímpanos sem pulseira eletrónica. Talvez por essa razão no Brasil é tornozeleira eletrónica, que só com muitas artes de capoeira se consegue rebentar um tímpano com um tornozelo, ou então é preciso recuar a 2001 e ao pontapé do Marco à Sónia, no Big Brother, ou na casa do Big Brother. Se ficarem marcas, é pôr mais maquilhagem (não esquecer o workshop de maquilhagem organizado pela Associação Sindical dos Juízes Portugueses para assinalar o Dia da Mulher, já no dia 8 de março, true story).

João Taborda da Gama

A burocracia hipster da CP

A finitude do tempo e a infinitude dos temas fazem difícil a escolha do que ensinar aos filhos, do que lhes falar. A isto soma-se, quando é o caso, a pluralidade destes e, em qualquer caso, os programas escolares como sanguessugas do tempo e dos temas. A cultura digital ilustra bem isto com a meme "mitochondria is the powerhouse of the cell". Esta frase é usada para ilustrar a inutilidade prática da aprendizagem no sistema escolar e ressurge ciclicamente na internet - até quando continuaremos a dizer na internet, como se as coisas pudessem ressurgir noutro lado qualquer - por exemplo, na altura dos impostos?

João Taborda da Gama

Talvez nesse céu

Bárbara, com Robin pela mão, diz-lhe esperámos por ti. George, acabado de chegar num avião da Segunda Guerra, segura a outra mão de Robin, os três nas nuvens. É assim o cartoon do USA Today, de Marshall Ramsey, que assinala a chegada ao céu de George H. W. Bush, onde reencontra a sua mulher Bárbara e a filha Robin. Robin, a segunda filha do casal, o mais velho é George W., tinha quase 4 anos quando morreu, de leucemia. Já antes o jornal tinha assinalado com a mesma ideia a morte de Bárbara Bush, ela a chegar ao céu e a pequena Robin, com asas de anjo, a correr para ela.

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

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Estado limite

Esqueci-me de dizer uma coisa e não gosto de me esquecer de dizer coisas, mesmo que já não venham a propósito. Vou dizer na mesma porque tem que ver com limites de intervenção do Estado, e é tema que muito me fascina. Era sobre a eutanásia, e o que me esqueci é isto: se viera a ser aprovada uma lei que permita a eutanásia, só o Serviço Nacional de Saúde deve poder praticá-la. Aliás, assim devia ser com a interrupção voluntária de gravidez. Se admitimos intervenções limite sobre a vida humana, e todos de ambos os lados da barricada admitem que estas são decisões complexas e limite, então aí apenas deve estar o Estado. A garantia de estar o Estado suplanta qualquer outro argumento, desde logo o do dinheiro dos meus impostos usados para isso, porque se há coisa para a qual serve o dinheiro dos nossos impostos é precisamente para executar as decisões-limite, garantir o cumprimento dos procedimentos definidos, e fazer que a comunidade reparta o custo moral da decisão difícil que decidiu tomar.

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Tudo isto é fardo

Na vila havia uma senhora. Quando era a hora chamava-se a senhora e ela vinha a casa do doente. As pessoas saíam, ficava apenas ela e o doente. Os gemidos paravam, o serviço estava feito. Era um capitão do Exército que não dormia nem morria. Contaram esta história à mesa, era eu pequeno, e nunca mais esqueci, como nunca se esquece uma história contada à mesa em que um capitão do Exército é morto por uma almofada segurada por uma velha. Uma história distante, de como se faziam as coisas, e foi assim que me lembro de ter sabido pela primeira vez que se matavam doentes para não sofrerem mais. Abafadeira, o nome da pessoa, da função.

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Saudades da porcaria

Sempre que uma coisa fica melhor dão-me as saudades de quando era uma porcaria. Não estou a falar de Alfama, nem da RTP, nem da dicção do meu mais novo. Estou a falar do Campo Grande. O Campo Grande era uma coisa tenebrosa, chegar de uma ponta à outra vivo e inteiro uma questão de sorte. E inteiro de vários pontos de vista, não só da garganta, mas também da inteireza moral, serpenteando entre tarados sexuais de um lado, e namorados experimentando o nunca escrito Kama Sutra do mobiliário urbano no outro, para chegar à natação.

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Deriva

Há uma ideia, uma realidade, que é ao mesmo tempo das melhores e piores coisas do mundo, que é a ideia de haver ruas de Lisboa onde nunca fui, nunca estive, que não conheço. É mau porque uma pessoa não conhecer a sua cidade, as cidades da sua cidade, é uma das formas mais cruéis de não se conhecer a si e aos outros, sobretudo aos outros que é onde o conhecimento tem de ser mais instigado e onde está a mais doce recompensa. Mas é também, e ao mesmo tempo (pode haver um também que não é ao mesmo tempo, ou um ao mesmo tempo que não é também?), uma das coisas melhores a de saber que a cidade não acaba, que há sempre mais uma rua, mais uma escada, que se se virar por ali em vez de por ali (as mãos apontam ora para a esquerda ora para a direita) é um sítio novo, e as vidas que lá vivem, um buraco no espaço e no tempo, um portal para esse lugar que é outro lugar. Essas ruas, cujo nome nunca ouvimos, existem mesmo? E as que ouvimos o nome mas nunca vimos? A Calçada dos Barbadinhos, antes de a ter subido era mais pequena, menos íngreme, mais feia. Tinha pombos e pombais como a vizinha encosta. "A cidade não pode ser confundida com as palavras que a descrevem, mas entre uma coisa e outra há uma ligação", numa tradução livre (a tradução nunca é livre, mas isso é outra coisa) de As Cidades Invisíveis, do Italo Calvino. Sim, se fosse da geografia era da psicogeografia, ou do movimento dérive.

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Tempos modernos

Há a velha história de saber se o machado que eu dou ao meu filho é o machado que era do meu avô, depois de o meu pai lhe ter mudado a lâmina e eu o cabo. No fundo é saber quando uma coisa passa a ser outra coisa. Refleti muito brevemente sobre isto nesta semana num pequeno-almoço-debate organizado pela Zeev (empresa da mobilidade elétrica) sobre os problemas jurídicos da transformação de carros com motores de combustão em carros elétricos. A questão da transformação automóvel levanta um importante conjunto de problemas jurídicos e operacionais (que transformações admitir, quem as pode fazer, quem deve responsabilizar-se pela segurança da transformação, quem certifica e homologa) - tantos anos a estudar para acabares no Direito do Tuning, ouço a voz dos mestres. A possibilidade de tirar um motor a gasolina de um carro e de lá instalar um motor elétrico, tendência que começa a surgir com a expansão da mobilidade elétrica, leva-nos de volta aos problemas das conversões GPL, as leis que tardaram, mas pior do que isso a falta de certificação de técnicos instaladores que tudo bloqueou. Para as coisas correrem melhor desta vez é preciso antecipar o fenómeno, resolver as pontas abertas nas leis (um carro que passa a ter um motor elétrico deve ser tratado como elétrico, desde logo no plano fiscal), o green tuning nunca será um desporto de massas, mas terá a sua expressão na economia circular, aproveitando com motores novos sucatas velhas.