Dentro do Género

João Taborda da Gama

Nunca é só isso

Estou meses sem ir a Coimbra e numa semana fui duas vezes a Coimbra. Até parece uma anedota que havia, muito ordinária, que acabava numa carruagem de comboio com um senhor a dizer vamos todos para Coimbra, vamos todos para Coimbra, mas também não me lembro bem e não é o melhor sítio para a contar mesmo que me lembrasse. Dizia que fui duas vezes a Coimbra numa semana, e das duas encontrei pessoas conhecidas de que não estava à espera, no comboio, no café, na rua. Duas coisas que acontecem cada vez menos, as pessoas contarem anedotas umas às outras, muito menos ordinárias, que não se pode, e encontrarem-se por acaso, que não acontece. E não se encontram por acaso, porque mais dificilmente se desencontram. Para encontrar é preciso desencontrar, e quando o contacto é constante, quando a aparência de acompanhamento da vida do outro rodeia tudo o que fazemos, é difícil sentir o desencontro.

João Taborda da Gama

Ora dá cá um

Depois do grande holocausto do beijinho, iniciado na década de oitenta pelo jet seis lisboeta, e depois copiado por todos aqueles que almejavam lá chegar, aterrando de copo na mão e pernas entrelaçadas nas páginas da Olá Semanário, quiçá numa festa em tafetá no T-Clube, ou bronzeados no Ancão, temos agora o professor poliamor do Prós e Contras a querer cortar no grande maná de beijinhos que é repenico entre avós e netos. Mas, antes dos netos, vamos aos betos, porque foram eles que começaram com isto tudo de acabar com o beijo.

João Taborda da Gama

Temos tempo

Achamos que temos tempo mas tempo é a única coisa que não temos. E o tempo muda a relação que temos com o tempo. Começamos por não querer dormir, passamos a só querer dormir, e por fim a não conseguir dormir ou simplesmente a não dormir, antes de passarmos o resto do tempo a dormir, a dormir com os peixes. A última fase pode conjugar noites claras e tardes escuras, longas sestas de dia com um dormitar de noite. Disse-me um dia o meu barbeiro que os velhotes passam a noite acordados para não morrerem de noite, e se ele disse é porque é.

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Ripa na cambalhota

O Mundial de futebol, e as vitórias que a seleção vai ter, a nossa barriguinha substituída pelos abdominais de Cristiano Ronaldo, não podem fazer esquecer o grande escândalo desportivo que vivemos. Não falo nem do lodo em que está o Sporting, com finalmente a justiça a ter juízo e a começar a pôr aquilo em ordem, nem da corrupção no Benfica, nem no Andebol leonino, nem a FIFA a fingir que está tudo bem, não. O grande escândalo da cambalhota.

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Estado limite

Esqueci-me de dizer uma coisa e não gosto de me esquecer de dizer coisas, mesmo que já não venham a propósito. Vou dizer na mesma porque tem que ver com limites de intervenção do Estado, e é tema que muito me fascina. Era sobre a eutanásia, e o que me esqueci é isto: se viera a ser aprovada uma lei que permita a eutanásia, só o Serviço Nacional de Saúde deve poder praticá-la. Aliás, assim devia ser com a interrupção voluntária de gravidez. Se admitimos intervenções limite sobre a vida humana, e todos de ambos os lados da barricada admitem que estas são decisões complexas e limite, então aí apenas deve estar o Estado. A garantia de estar o Estado suplanta qualquer outro argumento, desde logo o do dinheiro dos meus impostos usados para isso, porque se há coisa para a qual serve o dinheiro dos nossos impostos é precisamente para executar as decisões-limite, garantir o cumprimento dos procedimentos definidos, e fazer que a comunidade reparta o custo moral da decisão difícil que decidiu tomar.

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Pedalar para a frente

Na semana passada acabei por falar muito do Campo Grande mas nada do modo como lá cheguei, nem do homem mal encarado que alugava motas e bicicletas junto à Alameda da Universidade onde andava sempre muita chungaria a fazer cavalinhos para a frente e para trás. Queria ir de bicicleta, mas a Gira não chega aqui ao meu bairro e por isso tive de ir de mota. Lá fiz o download da aplicação da eCooltra e dirigi-me à mota mais perto de casa. Lá estava ela, única, à minha espera, algum espertalhão a pensar que ia pegar nela mais tarde mas eu já a tinha fisgado.

Dentro do Género

Deriva

Há uma ideia, uma realidade, que é ao mesmo tempo das melhores e piores coisas do mundo, que é a ideia de haver ruas de Lisboa onde nunca fui, nunca estive, que não conheço. É mau porque uma pessoa não conhecer a sua cidade, as cidades da sua cidade, é uma das formas mais cruéis de não se conhecer a si e aos outros, sobretudo aos outros que é onde o conhecimento tem de ser mais instigado e onde está a mais doce recompensa. Mas é também, e ao mesmo tempo (pode haver um também que não é ao mesmo tempo, ou um ao mesmo tempo que não é também?), uma das coisas melhores a de saber que a cidade não acaba, que há sempre mais uma rua, mais uma escada, que se se virar por ali em vez de por ali (as mãos apontam ora para a esquerda ora para a direita) é um sítio novo, e as vidas que lá vivem, um buraco no espaço e no tempo, um portal para esse lugar que é outro lugar. Essas ruas, cujo nome nunca ouvimos, existem mesmo? E as que ouvimos o nome mas nunca vimos? A Calçada dos Barbadinhos, antes de a ter subido era mais pequena, menos íngreme, mais feia. Tinha pombos e pombais como a vizinha encosta. "A cidade não pode ser confundida com as palavras que a descrevem, mas entre uma coisa e outra há uma ligação", numa tradução livre (a tradução nunca é livre, mas isso é outra coisa) de As Cidades Invisíveis, do Italo Calvino. Sim, se fosse da geografia era da psicogeografia, ou do movimento dérive.