Daniel Deusdado

Opinião

Barragens = aeroporto. É sempre tarde demais

A indignação é a espuma, eu queria sim o vale, o que existia há 15 anos, o que morreu e agora é uma herança tributária. O vale do Sabor era verde, o vale do Tua uma saudade viva à espera do regresso do comboio na mítica linha, e por aquele Douro reinava um mundo quase intocado, silencioso e maravilhoso, uma parte inalienável do meu país, os rios de fio fino, peixes, aves e pescadores, pontes antigas, árvores de microclima. E também a felicidade. A felicidade dos poucos turistas que contemplavam o que restava de um mundo onde a harmonia entre a geologia e a natureza se exprimiam com aquele poder magnético. A grandeza das gentes com os pés na terra, como se fosse sua.

Daniel Deusdado

Vacina: para salvarmos a economia, covid vai ter de acelerar ainda mais

Finalmente a vacina e um plano. A solução para os grupos de maior risco está a meia dúzia de meses de distância. Mas há a outra grande consequência: a pandemia económica. Ora, só conseguiremos lutar contra ela se fizermos regressar a vida a uma certa normalidade. Como fazê-lo sem contágios exponenciais? Sabemos que não vamos impedir significativamente a propagação da doença até, pelo menos, meados da Primavera. Seremos capazes de suportar milhares de casos diários como se de uma doença normal se tratasse?

Daniel Deusdado

Bin Laden destruiu as Torres, Trump a Estátua da Liberdade

A declaração de fraude (ou seja, derrota) que Trump fez ontem à noite a partir da Casa Branca, com o selo Presidencial na tribuna e na pele de Presidente, é um dos maiores atentados planetários feitos à democracia desde a Grécia antiga. Surge a partir do cargo mais importante do mundo, na sede da maior potência livre, difundida para o globo inteiro. Quando isto é possível nos Estados Unidos, é possível em qualquer país, em qualquer instituição, nas empresas ou na vida de todos os dias. É a mentira como método, com a agravante de atrair 70 milhões de americanos. E só não prevaleceu por uma unha negra. No discurso de ontem, Trump tentou criar a cortina de fumo para encobrir a palavra que ele tão bem conhece: "Fired" (despedido). Não que tenha tido um mau resultado - aliás, é tristemente surpreendente como conseguiu ir tão longe. Só que não aceita perder porque a democracia foi apenas um meio de chegar ao poder, não que lhe esteja no sangue. Tudo o que Donald tentou alinhar como argumentário de fraude, foi traído por duas evidências: o sentimento interior de derrota em cada palavra e, depois, a postura corporal (de desastre) com que abandonou a sala. A raiva esmagadora a corroer-lhe cada célula não tem apaziguamento possível - exceto por fúria e sangue a correr na rua para que devolvam o poder de "Comandante Supremo". Por isso mesmo recuperemos a história do seu amigo Roger Stone, o gangster preso por fraude e ligação aos russos na eleição de 2016 (e depois indultado por Trump). No notável documentário biográfico "Get me Roger Stone" (Netflix), o próprio explica como criou, a pedido dos republicanos, o tumulto que gerou a paragem da recontagem dos votos na Flórida por ordem do Supremo Tribunal - dando a vitória a George W. Bush por 539 votos. Já com Trump, Roger Stone assume subtilmente os méritos do "atentado" a Hillary Clinton dias antes das eleições de 2016 (o caso dos e-mails oficiais na sua conta pessoal) e de como a FBI foi iludido (e decisivo) para criar uma suspeita inapagável na candidata. Já nesta campanha, a tentativa de envolver o filho de Biden num esquema de corrupção na Ucrânia tem a marca do sinistro Stone, ainda que desta vez o caso não tenha tido o mesmo sucesso. A verdade é que Trump perdeu, mesmo que vá contestar a legitimidade da votação por correio. Barafustará como uma criança zangada e egocêntrica, mas alguém terá de pegar nele pelo colarinho e pô-lo fora. Esperemos que os juízes conservadores do Supremo não se tenham tornado instrumentos de fanatismo político e assegurem a Constituição e a História do país. Não nos limitemos, no entanto, à excrescência que Donald representa enquanto personagem. A descrença no sistema que ele protagoniza é um sentimento de milhões de pessoas por todo o mundo. A desigualdade é o maior problema das nossas sociedades, a par da questão climática. Que Trump seja escolhido por 70 milhões de pessoas para o resolver (e quase ganhe as eleições) é algo, no entanto, que obriga a pensar. O discurso de ódio de Trump, ontem, reflete a questão mais complexa: pode o populismo tomar o poder sem se tornar anti-democrático? Putin na Rússia, Modi na Índia, Erdogan na Turquia, Órban na Hungria, Duda na Polónia e Maduro na Venezuela, são a prova de que há sempre este perigo. Quem vota neles quer, a prazo, perder o direito/privilégio de manter a democracia a funcionar sem golpes baixos e imprensa livre. A vida é uma permanente surpresa, no entanto. Na madrugada de 3 para 4 de Novembro, a América parecia algo irrecuperável. Esta noite a esperança ressurge. Não que Biden seja extraordinário. Mas pelo menos é um homem decente. Podemos voltar a ter esperança que retome o Acordo de Paris, não insista numa maior militarização do mundo e faça uma luta coordenada contra a covid. Uma coisa é certa: mesmo que Biden falhe, mais vale uma América algo paralisada politicamente do que vê-la avançar furiosamente na direção errada, com um louco ao comando. Para já, a decência e dignidade venceu. Por pouca margem, mas venceu. Não é pouco nos tempos que correm.

Daniel Deusdado

Se não houver um plano, a covid não abranda e ficamos sem empregos

O Governo só tem uma hipótese de evitar a revolta generalizada: organização-planeamento-antecipação. Como fazê-lo num contexto de imprevisibilidade? Destruindo a falácia da "imprevisibilidade". É que nós não estamos a viver tempos absolutamente imprevisíveis, como a história das pandemias demonstram. É possível ler no passado os passos seguintes. Neste caso, para se fazer um calendário para o outono-inverno. Sem isso agravamos o colapso económico.

Daniel Deusdado

Covid e gripe: bons testes, hospitais preparados, mas o país não tem de parar

Lembram-se daquele período, por alturas de Maio, em que Portugal "falhou" porque a Áustria e a República Checa já estavam a sair da Covid-19? Pois, olhe-se para a implacável (e ridícula) lista dos países excluídos pelos ingleses e assinale-se a entrada da República Checa esta semana (a Áustria já lá está há algum tempo) e nós de fora. Conclusão: isto está sempre a mudar. Mas há algumas conclusões que atravessam já estes oito meses e uma delas é esta: a covid-19 exige todo o cuidado, mas não é a peste, o ébola ou a cólera. E por isso precisamos de ponderar muito melhor as decisões de "manada" onde o medo desencadeia muitas outras doenças e mortes não estimadas.