Daniel Deusdado

Daniel Deusdado

Os sem-dentes

A história conta-se rapidamente. Produzi durante algumas temporadas um programa chamado Liga dos Últimos. O objetivo era mostrar os domingos à tarde do Portugal profundo - que tanto pode ser no Alandroal como em Moscavide ou Ermesinde. Vidas onde a bola, o clube do bairro, o bolinho de bacalhau e a cerveja ocupam, de forma barata, o que sobra do tempo em que não se trabalha. Esta verdadeira aventura tinha começado pelo inolvidável campeonato de Amadores do Porto, na extinta NTV, e daí passou para os clubes em situação difícil no país todo. Uma forma de ver Portugal (e o futebol) de pernas para o ar.

Opinião

SARS-CoV-2 é o vencedor do Inglaterra-Itália

Pudesse o vírus escolher países para mais um superevento de contágio e talvez escolhesse estes dois, cuja história negra vem desde o início da pandemia. Itália exponenciou em fevereiro de 2020 o SARS-CoV-2 vindo da China, Inglaterra introduziu-lhe mais tarde a variante alfa. Hoje reúnem-se na final do Euro, propulsionando mais uma avalanche de casos nas próximas semanas, depois de milhares e milhares de mortes ficarem esquecidas como se tivessem sido há um século. Tudo patrocinado pela mais irresponsável das organizações europeias, a UEFA, cuja ganância na venda de bilhetes gerou uma imagem global de multidões sem máscara amontoadas nos estádios. Não há dúvida de que a pandemia e o confinamento tornaram altamente seletiva a nossa memória e anestesiaram a luta contra o descaramento.

Daniel Deusdado

Nós, os das bicicletas, somos Patrizia Paradiso

Um pequeno exemplo do dia a dia. Trabalho em Matosinhos-Sul e existe uma pequena ciclovia, já perto do mar, que atravessa uma rua (Brito Capelo) com duas faixas para automóveis, sentido único. Uso-a praticamente todos os dias e, naquele ponto, os carros têm de subir para um patamar ligeiramente superior da via - as duas faixas deixam de ser alcatrão para ser granito - para dar prioridade a peões e bicicletas. Há ainda uma placa a sinalizar isso mesmo. Quantas vezes estive a um passo de ser atropelado com a bicicleta? Muitas. E só não fui porque sei o país em que vivo: paro e atravesso apenas quando percebo que o veículo me vai deixar passar. É que, apesar de estarem a velocidade quase zero, alguns condutores aceleram instintivamente, irritados com a existência daquele obstáculo ao seu império de quatro rodas. E já me aconteceu de tudo: perante os meus protestos, param para insultar, e um condutor conseguiu mesmo atirar-me ao chão.

Opinião

Comer é cada vez mais um ato revolucionário

Talvez não imaginemos que 94% dos mamíferos do planeta são animais em produção para alimentação humana. Este abissal número, presente num estudo do Our World in Data, é apenas a ponta do icebergue de um facto que tentamos ignorar: a espécie humana está a devorar, a grande velocidade, os recursos planetários. A produção alimentar tem um peso enorme na forma como podemos atingir, ou não, as metas do Acordo de Paris. É sem dúvida bom reduzir mobilidade ou reciclar resíduos. Mas é pouquíssimo.

Daniel Deusdado

Se este texto for sobre a Europa, alguém lê?

A pergunta que me inquieta é esta: o mundo está numa corrida em pelo menos três sectores-chave - inteligência artificial, digitalização e biotecnologia. Em qual destes a União Europeia está à frente? Em nenhum. Não temos a Google nem a Apple, dependemos no 5G da tecnologia norte-americana ou chinesa, estamos atrás da China e dos norte-americanos em dados/chips e, como se tornou evidente, só conseguimos marcar algum ponto na corrida à vacina porque um turco, Ugur Sahin, casou com a filha de uns emigrantes turcos (a investigadora Ozlem Tureci) e ambos criaram na Alemanha a BioNtech (que se aliou a um gigante norte-americano, Pfizer).

Daniel Deusdado

Poluição dos navios, a 6.ª maior do mundo

Este poderia ter sido um título de primeira página do Expresso - ou pelo menos um destaque relevante - para mais um trabalho de grande alcance do jornalista Micael Pereira. Que o conjunto dos navios do mundo constituam o 6.º maior poluidor mundial, logo a seguir aos cinco maiores países (China, Estados Unidos, Índia, Rússia e Japão), é um dado muito relevante do trabalho do Consórcio Europeu de Investigação Colaborativa, financiado pelo Investigative Journalism for Europe e alguns media europeus. Além do texto na revista do Expresso, há um documentário que vale a pena ver.

Daniel Deusdado

Novo Banco: não, não, não... pagamos

É que não pagamos. E não, este não é um texto humorístico. Os "novos" "milhões" a meter de novo no Novo Banco não são pagos pelos contribuintes. "Não há dinheiro para os novos apoios sociais, mas há para o Novo Banco!!!" Só que há um problema: a realidade. Quem paga o Novo Banco são os bancos - os lucros do Millennium BCP, BPI, Santander e todos os outros, através do Fundo de Resolução. Ok, numa pequena parte a Caixa Geral de Depósitos (porque temos um banco público e perderemos alguns lucros da Caixa). Alguma vez isto será dito aos portugueses de forma séria?

Daniel Deusdado

Confinamento: bomba social sem meta à vista

1. O Presidente disse-nos que a vida se mantém congelada até ao fim de março... mas pode ser abril, ou mesmo até ao verão, não se excluindo que talvez só no outono isto alivie, porque muito depende da vacina, mas essencialmente de nós - dos casos. Mas quantos? Podem dizer-nos se estamos confortáveis com... três mil casos? Ou com apenas mil? E se forem cinco mil com alívio do SNS, por força da vacinação dos mais velhos, já podemos funcionar minimamente?