Daniel Deusdado

Daniel Deusdado

Ao juiz: 186 volumes BES explicados em 5 minutos

Era uma vez uma criança abandonada às portas da Misericórdia de Lisboa, corria o santo ano de 1850, de nome posto em batismo José Maria, acrescentado depois de "Espírito Santo" por alturas do Crisma. Muito pobre e lutador, montou bem cedo, pelos 20 anos, uma lojinha de câmbios e lotaria espanhola para as bandas da Calçada do Combro, reinava ainda D. Carlos I. Tão bem-sucedido foi que, ainda novo, ficou rico. E depois banqueiro, mudando-se então para a mais vetusta Rua Augusta, ali por volta da entrada do século XX.

Daniel Deusdado

Aeroporto, senha C-139

139. Era o número da vez para ser atendido na opção C - bagagens não-entregues, da Groundforce, Lisboa, quatro horas depois de aterrar. Ao lado das senhas e nos corredores, dezenas de pessoas acampadas no chão - não há onde sentar nas imediações do Lost and Found. O aeroporto vai acabar e já não vale a pena investir em cadeiras? Uma mulher chora. A sua vez não chega. Vai perder uma ligação, fala espanhol, inglês, vai e volta. Há também pais e filhos, gente desesperada. Há três pequenos First Café, com as mesmas coisas, para se sobreviver durante o sequestro - não se pode circular para as zonas de alimentação geral e sair não é opção. Uma banana custa 2,10 euros. Está caro ser saudável. E ficar sem malas.

Daniel Deusdado

Eucaliptos e Alcochete: insensatez por décadas

Recuemos a Valpaços, 1989. Uma população decidida: "Oliveiras sim, eucaliptos não". A maior propriedade da região, a Quinta do Ermeiro, passa para as mãos da Soporcel, que ali planta 200 hectares de eucaliptos. E a um domingo, 31 de Março, uma população rural enfrenta 200 GNR, muitos dos quais a cavalo, e avança para arrancar os "fósforos" (como lhe chamam), à mão, um a um. Esta história foi recontada em 2019 por Ricardo J. Rodrigues na revista deste jornal, a Notícias Magazine.

Opinião

Bombas de carbono: Putin e outros fósseis

A covid-19 ficará como uma cicatriz na história da Humanidade, mas um dos dias que marcará este século será 24 de Fevereiro de 2022. Num só golpe, Putin pulverizou as esperanças de se chegar à neutralidade carbónica em 2050 e com isso aumentou a velocidade vertiginosa com que o planeta se está a destruir. Porque agora a prioridade volta a ser o gás natural, o petróleo e o carvão. O nuclear surge de novo na lista dos grandes investimentos, privando as energias limpas de aceder a capital para novas tecnologias. Simultaneamente, as 12 maiores petrolíferas mundiais investem 100 milhões de dólares por dia para encontrar mais jazidas de gás e petróleo. E todos nós somos apenas chamados para pagar a conta - qualquer que ela seja.

Daniel Deusdado

Lisboa tem espaço para o dobro dos turistas?

O tempo urge. Aí vêm elas. As retroescavadoras do novo aeroporto. Esta semana o presidente da Câmara de Lisboa deu o mote: "Aeroporto já. Nós precisamos de um aeroporto. Se ele é num sítio ou noutro, isso deve ser uma decisão técnica", afirmou num almoço promovido pelo lobby Associação da Hotelaria de Portugal. Dói sobretudo pensar-se que Carlos Moedas foi comissário europeu da Ciência e para ele os "estudos técnicos" são um pré-requisito. O aeroporto é "já". O ambiente da cidade e da região, a avifauna e o estuário, o risco de subida do nível da água, ou o impacto brutal da criação de uma cidade aeroportuária, bom, são formalidades "técnicas". Tipo: despachem lá isso. É para andar. Já.

Daniel Deusdado

A revolta das mulheres continua sem dia marcado

É tão violento o recuo do Supremo Tribunal norte-americano nos direitos das mulheres face ao aborto quanto a inominável opressão afegã na obrigação de uso da burca pelas mulheres. Entretanto, as violações, frequentemente levadas a cabo pelas hordas de exércitos invasores ao longo da história, estacionam de novo à nossa frente. Estamos em 2022 e somos confrontados com a aparente novidade de a Rússia, enquanto país, ter um comportamento social dominante tão misógino que se torna num excremento civilizacional a flutuar no século XXI. A idade moderna vive a sua idade média.

Daniel Deusdado

A vitória de Le Pen é a vitória de Putin

O Brexit parece ter acontecido há séculos. Retrospetivamente é o maior sucesso no combate que Putin lançou contra a União Europeia, através da guerra de desinformação, e que culminou na estrondosa saída do Reino Unido de uma organização vital para a paz económica. Não que os ingleses não sejam suficientemente snobs para se pensarem no centro do mundo, herdeiros de um império que já não existe. Mas é exatamente por esta mesma ideia de grandeza irresponsável, num mundo altamente interconectado, que a França está sempre no fio desta navalha: qual o momento em que abandona a Europa?

Daniel Deusdado

Putin só nos temerá se mostrarmos coragem

Depois de tanto estudo sobre a II Guerra Mundial, acabamos estacionados no mesmo pântano. Os ataques nazis eram de tal modo horrendos que as notícias não podiam ser lidas sem o desconto de "propaganda". Quase um século depois, os órgãos de informação que constituem o pilar da sociedade global democrática - New York Times, The Guardian, CNN, BBC, Sky News, France24, Deutsche Welle e muitos outros órgãos ocidentais - passaram agora a ser "parciais" aos olhos do génio intelectual dos desalinhados. A questão é importante, porque instalar a dúvida gratuita na opinião pública é o primeiro passo para abandonar o combate cívico à guerra e a compreensão dos sacrifícios que ela vai trazer para todos.

Opinião

A Ucrânia é Auschwitz da nossa geração

O medo é uma ficção. Um "bluff". Putin sabe que os direitos humanos estão no coração de cada pessoa de bem deste planeta, por mais que tenhamos aprendido a ignorar os migrantes afogados, os povos em fuga de guerras, ou pura e simplesmente os envenenados do Kremlin. Mas há limites: ver morrer em direto os ucranianos, hora a hora, na sua própria terra, invadida sem qualquer legitimidade, é um novo teste de indiferença que finalmente não vamos conseguir passar.

Daniel Deusdado

Dívida, social, ambiente: o PS abdica de qual?

Em 2026 António Costa deixará o cargo e um legado político: o Portugal pós-troika foi dele e as decisões vão ficar por décadas, tal como o Cavaquismo (1986-1995) impôs um modelo de desenvolvimento incontornável. Desde 2015 que o primeiro-ministro conseguiu ir gerindo os temas críticos do nosso tempo - contas, questões sociais e alterações climáticas - com a aprovação da maioria dos portugueses. Mas os eleitores querem, como é normal, a quadratura do círculo, ou seja, tudo. Ora, pode o PS continuar a ser tudo para todos num contexto económico mais adverso?

Daniel Deusdado

Democracia energética: quase lá – ou não

Nenhum fator coloca Portugal internacionalmente em tão grande desvantagem como o custo da energia. Não temos petróleo nem gás, exportamos essencialmente por terra, temos poucas cidades densas (o que gera muito uso de carros e baixo uso de transportes públicos), má construção das casas e pouco dinheiro para aquecê-las. Na base deste aperto energético estão custos fixos elevadíssimos em múltiplas centrais elétricas cujo objetivo é o de garantir que não há falhas de abastecimento. Só que descobrimos, por via das operações do Ministério Público em curso, que estes custos foram alegadamente definidos num cenário de corrupção soez com impacto em todos os portugueses, todos os dias, e contra o qual quase nada se pode fazer.

Opinião

As eleições são entre Rio e Pedro Nuno Santos

Caso prático: Jerónimo de Sousa disse esta semana, com a candura habitual, que o PCP esteve sempre disponível para evitar o chumbo do orçamento. A sua flexibilidade era tal que aceitava um aumento do salário mínimo apenas para 800 euros, em vez de 850. Foi o inflexível António Costa que não aceitou. Recorde-se que o valor era de 665 euros até anteontem e o Governo propunha (e concretizou) um aumento para 705 euros acrescido de um plano de aumentos sucessivos até 750 euros. Questão: não tendo António Costa maioria absoluta, o que lhe exigirá Jerónimo de Sousa para aprovar um novo orçamento? Volta atrás depois de ter feito cair um Governo?