Cronistas

Cronistas

As maiorias positivas

Numa entrevista recente, o jornalista mais importante da rádio espanhola, que se chama Carlos Herrera e oficia todas as manhãs na emissora COPE, perguntou a Pedro Sánchez, o secretário-geral do Partido Socialista e candidato a dirigir o meu país nas próximas eleições que se realizam a 20 de dezembro, se estaria disposto a ser presidente a qualquer preço. A qualquer preço quer dizer se, no caso de conseguir menos votos e deputados do que o partido conservador de Mariano Rajoy, trabalharia para uma maioria alternativa de esquerda para chegar ao Palácio da Moncloa. Ou seja, por uma "maioria negativa". Esta expressão, a da "maioria negativa", devemo-la ao responsável do Partido Socialista de Portugal, António Costa, que apesar de ter obtido um bom resultado ficou atrás dos conservadores e mostrou-se contrário, num primeiro momento, a chegar a acordo com o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda para desalojar a direita portuguesa do poder.

Opinião

Umas eleições cruciais

A agência de rating Moody"s baixou num escalão a classificação da dívida soberana de França devido à "continuada debilidade" das perspetivas de crescimento a médio prazo. A explicação que dá é eloquente: "A quota de mercado francesa está em queda quando comparada com os seus parceiros europeus... A França vai ter de enfrentar uma pressão muito maior por parte de outros Estados do que no passado, como consequência das reformas que estão a melhorar a competitividade em países como Espanha e Portugal. A França enfrenta desafios económicos como um alto índice de desemprego estrutural, margens de lucro empresarial relativamente diminutas e a perda da quota mundial nas exportações por causa da rigidez do seu mercado laboral e de produtos."

Opinião

A virtude de ganhar muito dinheiro

Há várias maneiras de detetar claramente se alguém que fala ou escreve pensa como um socialista, quer seja uma pessoa com formação intelectual quer seja alguém mais comum que demonstra, no entanto, ter o mesmo equilíbrio e moderação. Uma delas é quando diz que aceita o capitalismo como o melhor modo de vida possível, mas desde que seja um capitalismo responsável. Ouço coisas destas com frequência e, nestas férias, encontrei um amigo que as repetia sem cessar, como se tivesse algum peso na consciência. A ideia subjacente é a de que o capitalismo tem uma espécie de condição moral discutível, que se baseia na cobiça, como se o afã de ganhar dinheiro fosse um pecado. Mas não é verdade. O sistema de livre mercado é amoral. Na minha opinião, é o modelo de organização económica e social mais conforme com a natureza humana, cujo instinto de sobrevivência e de progresso é genuíno e é também o modelo mais eficiente do ponto de vista dos resultados que obtém em prol do bem comum. Não pode nem deve ser julgado do ponto de vista da ética. Acho eu. Misturar o coração com a vontade de comer, que é o que o socialismo tenta torpemente, é perigoso.

Opinião

Resta-nos sempre Smith

A 10 de outubro de 2014 comecei a partilhar convosco a minha vida, a convite do meu amigo André. O meu primeiro artigo no Diário de Notícias chamava-se "Em Busca de Adam Smith", o que me pareceu apropriado para alguém que, como eu, se diz um liberal em termos económicos, o que significa basicamente ser conservador nos costumes - alguém que reverencia a herança do passado que custou tanto a construir - e tem sempre como referência moral o velho escocês. O pai da economia clássica. Agora que vou uns dias de férias, volto a ele, já que ninguém foi tão eloquente a descrever aquilo que veio a denominar-se "a lei dos efeitos não intencionais". A ideia subjacente a esta lei ou a este princípio é a convicção de que a natureza humana é dominada por uma ordem espontânea. Uma sucessão imaterial de tarefas que não são - que não podem ser - precipitadas por uma pessoa ou entidade central mas que resultam sim de milhões de ações que operam sobre a base de estímulos e desincentivos que as mesmas relações sociais evidenciam.

Opinião

Os populismos não têm lugar na Europa

A realização de eleições gerais periódicas é um elemento necessário dos sistemas democráticos, mas de modo algum suficiente. Basta ver as maiorias esmagadoras que confirmam no poder os governos dos regimes autoritários como os do Médio Oriente ou da Rússia de Putin. Com os referendos acontece o mesmo. Desde Bonaparte, que o usou como meio de consolidação do seu poder pessoal para passar do Diretório ao Consulado e deste ao Império, o referendo tem sido, com demasiada frequência, o truque que permite revestir com a aura do apoio popular a decisão mais benéfica para o grupo que ostenta o poder a cada momento.

Opinião

Um Papa pessimista e injusto

Sempre considerei a fé como um motor de esperança e de alegria. Professei também uma grande admiração pelos papas João Paulo II e Bento XVI. Nenhum deles deixou de assinalar os grandes desafios que a humanidade enfrenta, mas ambos mostraram uma grande confiança no indivíduo e contemplavam o mundo com o otimismo próprio do crente. O primeiro combateu o comunismo pela destruição e morte que este tinha provocado onde foi adotado como modelo político. Bento seguiu a esteira do seu predecessor ao considerar tacitamente o capitalismo como o sistema mais capaz de produzir o bem-estar geral apesar das suas imperfeições. Em muito pouco tempo, o Papa Francisco impulsionou uma revolução na Igreja. A sua nova encíclica, "Laudatio si", a sua carta pastoral "Evangelii gaudium", assim como as suas frequentes intervenções nos foros públicos refletem um pessimismo ontológico perturbador. Segundo Francisco, o mundo está a desmoronar-se à nossa volta sem que façamos qualquer coisa para o evitar. Os pobres são cada vez mais pobres. As desigualdades são maiores do que nunca e os bens necessários para sustentar a vida humana são cada vez mais inacessíveis. Mas estas ideias, lançadas sem o acompanhamento de um único dado, como se fossem um dogma de fé, não resistem à mais pequena análise empírica e estão completamente erradas. Se já é duvidoso do ponto de vista científico que estejamos em presença de uma mudança climática originada pelo homem, e não por circunstâncias relacionadas com a natureza do planeta, é falso que o crescimento económico aumente a degradação do meio ambiente.

Opinião

A história como tragédia ou como farsa

O filósofo Karl Popper disse a certa altura que a democracia é o único modelo político que permite a substituição do poder estabelecido sem violência. Vale a pena destacar esta virtude que o torna moralmente superior a qualquer outro. Mas isso não quer dizer que a democracia, que se baseia na regra da maioria, dê sempre origem a decisões ótimas. Nós, em Espanha, suportámos durante oito anos o socialista Rodríguez Zapatero, que foi um dos dirigentes mais nefastos da história. Apesar de ter dividido socialmente o país com assuntos peregrinos como a ressurreição da guerra civil e outras questões polémicas como o aborto ou o casamento gay, conseguiu governar uma segunda legislatura ainda que as suas promessas de aumentar a despesa social ameaçassem gravemente rebentar o Estado pelas costuras e conduzissem o país ao pedido de resgate. Um belo dia, obrigado pela União Europeia e inclusive por Obama, apresentou-se perante o Parlamento para fazer tábua rasa de todas as suas estupidezes. Como já era tarde, não evitou que Espanha se precipitasse na maior recessão desde a crise do petróleo dos anos setenta. A democracia funcionou mas produziu uns resultados péssimos. Agora, as recentes eleições autárquicas e autonómicas no meu país outorgaram uma influência relevante à extrema-esquerda do Podemos, que não só vai governar as autarquias de Madrid e Barcelona como também vai ser decisiva para desalojar a direita do poder noutros feudos em aliança com o Partido Socialista. O objetivo final, realmente cómico, é dar lugar a governos de progresso. Como dizia Zapatero!

O liberal

Teremos sempre Londres

Neste domingo vai haver eleições municipais e autonómicas em Espanha e as sondagens anunciam uma quase catástrofe para o Partido Popular de Rajoy. Perderá muitos dos feudos nos quais governa e deverá fazer pactos com partidos diferentes para conservar o poder, caso contrário a esquerda arrebatá-lo-á simplesmente. Segundo as sondagens, este é apenas o prelúdio do que acontecerá nas eleições gerais do final do ano mas, quem sabe!, os institutos de pesquisa da opinião pública falham cada vez com mais frequência e não vale a pena estragar-vos o fim de semana com notícias tristes. Pelo contrário, hoje escrevo-vos de muito bom humor porque o passado dia 7 de maio foi um grande dia para o mundo liberal e a maré de satisfação continua ainda alta. A vitória esmagadora de Cameron no Reino Unido demonstra que ainda restam nações sensatas no mundo. As carpideiras socialistas tinham dedicado os dias anteriores a especular sobre as razões pelas quais a votação daria lugar a um Parlamento fragmentado e um governo instável, tal como previam, equivocadamente, as sondagens. E deram asas à sua imaginação: a desigualdade tinha alcançado níveis alarmantes; o fosso social tinha aumentado; Cameron era o político posh de Eton e de Oxford que tinha governado para as elites; o crescimento só tinha beneficiado uma pequena parte da sociedade enquanto o resto empobrecia, a precariedade laboral tinha passado a ser estrutural... etc. A conclusão é que os conservadores tinham transformado o Reino Unido num país desagradável e onde não se podia viver. Mas a realidade foi cruel com estes histéricos. A desigualdade ou não existe ou não importa. Os britânicos resolveram apoiar todas aquelas ideias pelas quais luto a partir desta tribuna: um país com uns impostos razoáveis, uma despesa pública controlada, um défice e uma dívida toleráveis, umas leis que fomentem a concorrência e um Estado de bem-estar racional, direcionado apenas para assistir aqueles que por incapacidade ou má sorte não conseguem valer-se a eles próprios.

Opinião

Porque não são iguais Sócrates e Rato

Tal como aconteceu em Portugal com a detenção e a prisão do ex-primeiro-ministro José Sócrates, Espanha está em polvorosa devido à detenção - por umas horas - e às acusações devastadoras de fraude e corrupção que pesam sobre o antigo vice--primeiro-ministro do governo de Aznar, Rodrigo Rato. Rato foi um dos principais concretizadores do milagre económico espanhol, que aconteceu entre 1996 e 2004. Como desde 1982 até 1996 o meu país foi governado pelos socialistas, tinha-se instalado em Espanha uma espécie de resignação, no sentido em que a maioria, eu incluído, pensava que não havia outra política possível apesar de os resultados serem inquietantes: uns défices externo e público colossais, um nível de desemprego impressionante e uma inflação incontrolada. O triunfo da direita foi um completo abanão, uma lufada de ar fresco. Aznar tinha umas ideias muito claras: que não convém gastar mais do que se recebe, que se deve baixar os impostos para permitir às pessoas desfrutarem mais do fruto do seu trabalho e exercerem o seu poder de escolha, que o Estado deve abandonar as empresas públicas que gere ruinosamente para as vender aos cidadãos impulsionando o capitalismo popular e que há que fomentar ao máximo a concorrência e a igualdade de oportunidades.

Opinião

Thatcher continua viva e de saúde

Há uns dias almocei com Tania Sánchez, que é uma política fora do comum. Para quem não a conhece, posso dizer que é a ex-namorada de Pablo Iglesias, o líder do Podemos, o partido radical e antissistema que segundo as sondagens terá um grande resultado nas próximas eleições em Espanha. Tania Sánchez acaba de abandonar a Esquerda Unida, o partido mais ou menos comunista em que militava, porque este lhe parece convencional e pouco inovador. Também deixou o namorado, mas isso creio que por razões táticas, para não perturbar a sua carreira no Podemos com questões de alcova. O interessante a respeito de Tania e de Pablo é que o propósito de ambos é superar a dialética esquerda/direita. Têm a ambição de construir uma formação transversal, capaz de caçar votos em qualquer coutada. Quando perguntei a Tania como se supera tal contradição, apresentou-me o exemplo de Margaret Thatcher. Disse-me: "Thatcher foi capaz de furar a identidade de classe no voto." Foi uma reflexão inesperada, vindo de uma leninista, mas deixou-me perplexo porque está totalmente certa.

Opinião

Há que pedir perdão por ganhar dinheiro?

As crises podem ser uma boa oportunidade para começar de novo, para tratar de mudar o modelo social e económico que conduz irremediavelmente ao declínio. Quando Margaret Thatcher ganhou pela primeira vez as eleições, em 1979, o Reino Unido atravessava um descontentamento gigantesco. O país estava devastado pelas greves. A economia à beira do colapso. Ela propôs-se a dar-lhe uma volta de 180 graus, desregulando o setor financeiro, privatizando as empresas públicas, baixando os impostos e cortando no poder dos sindicatos. Mas Thatcher nunca viu a sua passagem pela política como a de um canalizador que arranja a canalização de um país. Tinha a visão grandiosa que caracteriza um líder. O seu objetivo era transformar o país na sociedade aberta de que falava Popper: acabar com a intromissão do Estado, devolver o poder aos indivíduos através da propriedade privada, incentivar o amor ao risco e restabelecer os níveis de liberdade individual e de responsabilidade pessoal arrebatados pela corrente coletivista que tinha vindo a contaminar o Reino Unido desde há uma década.

Opinião

Reencontrando Pessoa

Dizia Camões que não há alegria maior que a de encontrar um amigo em terra estranha. Eu tenho alguns em Portugal. Esta semana voltei a Lisboa. Há sete anos que não pisava a cidade que faz parte indelével da minha vida. Quando a Recoletos, a empresa espanhola na qual trabalhava na época, comprou o Diário Económico, encarregou-me de tentar converter um jornal financeiro de esquerda no que deve ser um meio de comunicação com senso comum. Ou seja, liberal. Um jornal que apostasse no mercado, na imprensa livre, no indivíduo e que promovesse a responsabilidade pessoal no destino da própria vida. Tentei-o com determinação, mas receio que a minha marca tenho sido efémera. Tal como Espanha, Portugal é um país de esquerda. E a maioria dos seus jornais também. Apesar de acreditar que está empiricamente demonstrado que de cada vez que os socialistas governam os pobres sofrem e o nível geral de vida retrocede, a esquerda apetrechou-se de uma argumentação convincente e eficaz, segundo a qual a culpa dos fracassos e da adversidade é sempre alheia, produto de circunstâncias acontecidas difíceis de controlar.

O liberal

Angela Merkel: nem demasiado austera nem reformista

A esquerda radical que começou a governar na Grécia e a que aspira, espero que em vão, a fazê-lo em Espanha através do Podemos construiu uma imagem venenosa da chanceler alemã, Angela Merkel. Mas trata-se de uma imagem completamente distorcida. De acordo com a sua tese, estamos em presença da campeã da austeridade, perante a qual não querem voltar a baixar a cabeça. A minha opinião é de que terão de continuar a fazê-lo, porque ninguém como a Grécia, que necessita de 14 mil milhões de euros nos próximos meses para continuar a pagar aos seus funcionários e pensionistas, e que não os vai obter no mercado, pode adotar durante muito tempo o ar arrogante com que Tsipras e Varoufakis se passeiam pela Europa. É verdade que Merkel aspira a receber todo o dinheiro que os bancos alemães emprestaram à Grécia até à data - que ultrapassa os cem mil milhões -, e que apenas está disposta a melhorar as condições de pagamento dessa dívida se a Grécia em troca fizer, como antes fizeram a Irlanda, Portugal e a Espanha, as reformas estruturais que tanto êxito estão a ter em todos estes países. Mas estabelecidas estas premissas, a questão que vale a pena discutir é se Merkel é realmente uma política austera e se se comporta como tal no seu país. E a resposta é não.