Crónica de Televisão

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Rogério Casanova

Branco no branco

As personagens fictícias vivem muitas vidas diferentes - e morrem muitas mortes diferentes. A última década e meia de televisão mostrou-nos quase todas as formas possíveis de escangalhar o corpo humano e cessar as funções vitais. Vimos pessoas despedaçadas por zombies e incineradas pelo bafo de dragões; crânios perfurados à garfada (Sons of Anarchy) ou rachados por uma moca de pregos (The Walking Dead); troncos cortados ao meio por serrote (American Horror Story) ou por elevador (Six Feet Under).

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Rogério Casanova

Os problemas de uma pessoa adorável

Pensem na pessoa mais adorável que conheçam. Agora multipliquem isso várias vezes. Nem assim vão chegar perto. Tony, o protagonista da nova minissérie de Ricky Gervais para a Netflix, After Life, é um tipo extremamente adorável. A frase anterior não é conclusão deste texto, mas matéria de facto: a doutrina operacional do universo fictício onde a série decorre, povoado quase exclusivamente por outras personagens - vivas, mortas, ou assim-assim - cuja função primária é lembrarem Tony de que ele é um tipo adorável, cuja adorabilidade não é comprometida por qualquer outra coisa que aconteça.

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Rogério Casanova

Sopa de Mel

Os programas de culinária fazem parte há tanto tempo da paisagem televisiva que é difícil recordar quão contra-intuitivo é o conceito. Enquanto a esmagadora maioria das actividades competitivas transmitidas no pequeno ecrã nos fornecem a possibilidade de avaliar os méritos dos participantes segundo os mesmos critérios que os juízes, e gritar no conforto do sofá que a voz "desafinou" ou que "não era penálti", os programas de culinária mostram-nos uma actividade avaliada pelos três sentidos que a televisão não alcança. Qual a reacção instintiva perante afirmações tão peremptórias como "a bolacha está dura", "o peixe tem pouco sal" ou "o caldo precisava de mais sabor"? A reacção instintiva é renunciar à reacção instintiva e adoptar a reacção educada: educada pela experiência prévia de ver televisão.

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Rogério Casanova

Crise de Calendário

A meio do terceiro episódio de Boneca Russa (Netflix), Nadia, a protagonista, ausenta-se da sua festa de aniversário, explicando que tem um assunto importante a resolver. "Acho que um gajo que me cortou o cabelo ontem é capaz de ter morrido amanhã, e não sei como funcionam as mortes de amanhã quando voltar a ser ontem." É um dos prazeres secundários das histórias sobre viagens no tempo: a possibilidade de ouvir estes actos de semanticídio, em que os tempos verbais de frases inocentes são esfrangalhados pela cronologia.Boneca Russa pertence a uma subcategoria específica do género, a anomalia temporal em circuito fechado. Embora com dúzias de precedentes nos primórdios da ficção científica, o modelo canónico foi estabelecido em 1973, num conto do Richard Lupoff chamado 12:01 PM, em que um executivo de Nova Iorque é condenado a reviver eternamente a mesma hora de almoço, e popularizado pelo filme Groundhog Day, em que a escala é ampliada para um dia inteiro. A fórmula tem elasticidade suficiente para gerar tensos thrillers em que se procura salvar o mundo (como em Edge of Tomorrow) mas também comédias românticas, em que os objectivos mais modestos são criar momentos perfeitos através de retroengenharia, e levar alguém para a cama ou para o altar. (O protagonista também costuma ser um homem e não será acidental que uma das perguntas feitas por Nadia no primeiro episódio seja "as mulheres também têm crises de meia-idade?"). A fantasia de repetir o passado na posse da informação privilegiada adquirida no presente deve remontar às cavernas e às primeiras insónias (sendo a insónia o estado optimizado para a recapitulação e edição de erros cometidos), e, como qualquer fantasia, esconde impulsos algo embaraçosos: a ideia de nunca cometer erros, e de poder saber tudo sem ter de aprender nada é uma fantasia bastante de omnisciência - e todas as fantasias de omnisciência são simultaneamente sobre poder e sobre preguiça. Talvez por reconhecer este lamentável estado de coisas, a ficção moderna instrumentalizou a fórmula para elaborar estes curiosos purgatórios com curva de aprendizagem - a versão ética de um circuito de manutenção: o protagonista tem de aprender, de melhorar, de "crescer" enquanto pessoa, e assim passar o teste moral que lhe permita voltar ao calendário regular.Boneca Russa não se desvia de todos os elementos associados à fórmula nem, num sentido mais lato, das expectativas associadas ao complexo industrial televisivo. Tal como Maniac (outra série recente da Netflix com a qual tem vários pontos de contacto, mas enormes diferenças de qualidade na execução), exibe a mesma devoção às narrativas terapêuticas e a mesma relutância em deixar qualquer subtexto congestionado ou mal esclarecido. A escritora Marilynne Robinson, no ensaio "Hearing Silence", chama a este tipo de histórias o "pequeno mito mesquinho do nosso tempo" e define-as mais ou menos assim: na nossa infância sofremos um qualquer dano ou ferida psíquica; todos os infortúnios posteriores estruturam o seu significado como consequência desse incidente; a nossa tarefa de vida consiste agora em descobrir e baptizar o mal que sofremos. É uma mitologia que determina a peculiar propensão americana para administrar a tristeza de formas elaboradamente sistematizadas, e também a tendência de muita ficção contemporânea (televisiva e literária) para transformar a patologia num gesto narrativo e cada história numa espécie de policial psiquiátrico, em que o objectivo é identificar o culpado: o trauma fundador que causou os problemas todos. Há muita investigação especulativa em Boneca Russa, muita escavação de passados recalcados, e muito "crescimento pessoal", mas é tudo feito de forma um pouco esquemática e pouco insistente, e os maiores triunfos são muito mais tradicionais: pequenas infusões de originalidade à margem das suas intenções mais solenes. Onde outras séries sentem um pavor tão grande de empregar estereótipos que acabam por reduzir as suas personagens a um somatório de excentricidades, Boneca Russa consegue ancorar as idiossincrasias pessoais de uma forma que as tornaria interessantes mesmo emancipadas da premissa da história. Uma das chaves será a quase invisível comédia de costumes que decorre à ilharga do enredo principal, e que se alimenta de um contexto social e cultural específico e da sua respectiva ecologia: a cena "boémia" (neste caso a nova-iorquina, mas cujas propriedades são mais ou menos universais), registando-a com generosidade emocional, mas sem ceder às tentações da nostalgia, e às suas perversões, lugares-comuns e becos sem saída. A outra é a fabulosa interpretação de Natasha Lyonne, no papel de Nadia. Uma presença magnética, truculenta, sardónica e irrequieta, sempre a coçar a cabeça, ou a acender um cigarro, ou a cambalear tão inclinada para a frente que os ombros chegam ao destino meio segundo antes do resto - e com uma voz que parece um inventário palpável de maços de tabaco. Cada tique é instantaneamente plausível como hábito, e demonstra ser possível compatibilizar o timing cómico perfeito com uma fidelidade mínima às convenções do naturalismo. É uma originalidade que convence não através do esforço, mas da confiança, e que lhe permite executar com sucesso as duas funções que a série lhe impõe: aprender como funcionam as memórias de ontem quando voltar a ser amanhã, e deixar boas memórias a quem a viu pelo caminho.

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Rogério Casanova

A acção de prevenção rodoviária mais fotografada da Europa

Seja por uma qualquer regra audiovisual esotérica, seja pela tendência da memória para a síntese artificial, parece que a televisão só tem espaço para um mágico famoso de cada vez. Os espectadores formados nos anos 1980 lembram-se de David Copperfield, cuja especialidade era a macro-ilusão extravagante: mostrar uma coisa muito grande (um elefante, um avião a jacto, a Estátua da Liberdade) e depois mostrar o espaço vazio previamente ocupado pela coisa muito grande, entretanto desaparecida.

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Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.