Crónica de Televisão

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Rogério Casanova

God save TV

A terceira temporada da popularíssima série sobre a realeza britânica The Crown (disponível desde Novembro na Netflix) não comete o erro de experimentar truques novos e começa da maneira esperada - e tematicamente apropriada: devagarinho, respeitando o protocolo e com todo o aspecto de ter custado imenso dinheiro. Cabeças ornadas com tiaras, criados de libré, batalhões de conselheiros com ar atarefado, planos demorados de longos corredores, tapetes magníficos, tectos altíssimos de onde pendem duas toneladas de lustre e diálogos decorosamente estilizados, capazes de humedecer os olhos de João Carlos Espada a três mil quilómetros de distância ("Majestade", "Sua Excelência", "Madame", "Lord Cecil Feldspath-Badminton, ao seu dispor").

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Rogério Casanova

Cabeças voadoras

Já que perguntam: vários folclores locais do Sudeste Asiático incluem uma figura mitológica que é uma espécie de mistura entre bruxa, vampira e monstro, associada à magia negra e ao canibalismo. Segundo a valiosíssima Encyclopedia of Giants and Humanoids in Myth and Legend, de Theresa Bane, a criatura, conhecida como leák na Indonésia ou penanggalan na Malásia, pode assumir muitas formas - tigre, árvore, motocicleta, rato gigante, pássaro do tamanho de um cavalo -, mas a mais comum é a de uma cabeça separada do corpo, arrastando as tripas na sua esteira, voando pelo ar à procura de presas para se alimentar e rejuvenescer: crianças, adultos vulneráveis, mulheres em trabalho de parto. O sincretismo acidental entre velhos panteísmos, culto dos antepassados e resquícios de religião colonial costuma produzir os melhores folclores (passa-se o mesmo no Haiti). A figura da leák, num processo análogo ao que costuma coordenar os filmes de terror, combina sentimentalismo e pavor, convertendo a ideia de que os vivos precisam dos mortos na ideia de que os mortos precisam dos vivos.

Rogério Casanova

Guerras do chichi e do cocó

A nova telenovela da SIC, Terra Brava, foi melancolicamente promovida pela estação como um regresso aos "cenários rurais", e ninguém se pode queixar de publicidade enganosa. As telenovelas em cenários rurais são diferentes das telenovelas em cenários urbanos, não apenas nos títulos (chamam-se sempre coisas como Terra Brava ou Roseira Brava, em vez de coisas como Boca de Paixão, ou Olhos de Amor, ou Coração no Peito), mas também nos planos de corte: em vez de imagens aéreas das Avenidas Novas ou da Ponte 25 de Abril, temos imagens aéreas de cavalos a galopar na planície alentejana.

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Rogério Casanova

Esplendores e misérias da enfermagem

Nazaré, a telenovela da SIC que se estreou há duas semanas, começou com um incêndio. Virgílio Castelo, o taciturno dono de uma empresa, está atado a um poste enquanto o seu irmão, o taciturno pretendente a ser dono da empresa, despeja baldes de gasolina à sua volta. "Qual é a tua ideia? Tu... tu vais matar-me?" A resposta é afirmativa e o incidente marca várias personagens, muitas das quais ainda tentam lidar com o rescaldo. Uma delas, Gonçalo, sobreviveu à calamidade, mas o trauma condenou-o a sofrer ataques de pânico sempre que uma chama (literal ou metafórica) deflagra nas suas imediações. Felizmente faz parte de uma novela e quase ninguém fuma, mas isso não significa que o seu dia-a-dia esteja livre de perigos. Um dia, ao chegar a casa, encontra o filho na cozinha a incinerar leite-creme com um maçarico culinário, o que leva Gonçalo, naturalmente, a agredi-lo. "Queres queimar a casa inteira e matar-nos a todos?", reclama.

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Rogério Casanova

O cão que mordeu o mundo

Não chega sequer a ser um segredo mal guardado que, numa democracia funcional, muitas das interacções públicas entre líderes políticos e a imprensa têm uma forte componente de encenação teatral. Esta descoberta (ainda com uma capacidade para proporcionar um choque efémero na adolescência) acaba sempre por se tornar reconfortante: o reconforto de saber que existe um guião, de saber que esse guião é conhecido por ambas as partes, de saber que existe um investimento consensual em respeitar alguns formalismos e de saber que há coisas piores do que repetição e previsibilidade. Portanto, as câmaras rolam e os microfones são erguidos, e um enxame de jornalistas grita perguntas como "o que é que acha?", ou "quer comentar?", ou "qual é a sua posição?", e um líder político imaculadamente penteado diz algumas coisas em resposta. Nem sempre há uma relação directa entre as respostas e as perguntas. Por vezes, o político diz as coisas que quer dizer (mesmo que seja apenas para não dizer outras); e, por vezes, o político diz coisas que não queria dizer, e essas coisas constituem uma gafe, e escrevem-se notícias com a palavra "gafe", mas depois tudo volta ao normal, ou então não volta, e o político que disse coisas é substituído por outro político, que vem dizer outras coisas, ou as mesmas coisas de outra maneira.

Rogério Casanova

A máquina da verdade

Num manifesto de 1999 sobre o documentário cinematográfico, Werner Herzog acusou o cinema vérité de superficialidade e de lidar apenas com a "a verdade dos contabilistas". Após citar um "conhecido representante" da doutrina, que afirmou publicamente que "a verdade pode ser facilmente encontrada pegando numa câmara e sendo honesto", Herzog responde que esse género de realismo é redutor, pois "confunde os factos com a verdade", e defende uma abordagem imaginativa diferente, capaz de alcançar uma "verdade poética" mais profunda. Alguns parágrafos depois, acrescenta que "a Mãe Natureza não fala connosco, embora por vezes um glaciar possa peidar-se".

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Rogério Casanova

Cara de poker, corpo de dealer

Embora alternadamente descrita como "minicrise", "pseudocrise" e "crise de fim-de-semana", a crise política aconteceu e esse é facto mais saliente sobre a mesma: ter acontecido. Caso a crise política não tivesse acontecido, seria derrotado o propósito central da crise política, que é a produção de comentário político sobre a crise política. Tudo isto pode parecer absurdamente circular se pensarmos no assunto mais de cinco segundos, portanto o melhor é pensarmos no assunto menos de cinco segundos (proponho uma reflexão não superior a 4,6 segundos) e partirmos de imediato para um resumo dos acontecimentos, sintetizado a partir dos comentários políticos televisivos feitos ao longo da semana.