Crónica de Televisão

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Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

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Rogério Casanova

Os Vivos Querem Dizer-nos Que Está Tudo Doido

Em 1657, mais de três décadas antes de as pessoas de Salem inaugurarem a sua historicamente célebre operação judicial, uma mulher de East Hampton, em Long Island, tornou-se uma das primeiras pessoas acusadas de bruxaria no Novo Mundo. O seu nome era Elizabeth Garlick. Além de se fazer acompanhar por um gato preto (o que nunca foi, nem é, boa ideia), era resmungona, carrancuda, e propensa a exclamar comentários cruéis e sarcásticos sobre os vizinhos. Eram tempos primitivos e a humanidade ainda não tinha desenvolvido todas as ferramentas conceptuais necessárias para lidar com este género de situações (a liberdade de expressão, o politicamente correcto, a indignação digital, o meme, o Twitter, etc.) portanto não admira que, assim que morreram os primeiros bebés ou nasceram os primeiros bezerros com defeito, a comunidade tenha optado pela acção mais razoável, levando a Sra. Garlick a julgamento. Mas, ao contrário das boas pessoas de Salem, os jurados de Long Island chegaram à conclusão de que não eram suficientemente competentes nas ciências demonológicas para avaliar o caso; e a Sra. Garlick foi ilibada por "falta de provas".

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Rogério Casanova

O Horizonte Internacional do Universo

A Grande Entrevista (RTP3) a Jerónimo de Sousa começou com uma equipa de reportagem a acompanhar o líder do PCP num "típico dia de trabalho": o líder do PCP a viajar de carro até à Soeiro Pereira Gomes, o líder do PCP a beber um café, o líder do PCP a cumprimentar alguns camaradas, o líder do PCP a olhar de soslaio a câmara com um sorriso nervoso enquanto um deles insulta Mário Centeno, etc. A minipeça terminou no gabinete de imprensa (onde o líder do PCP lê alguns artigos pré-seleccionados dos jornais diários), enquanto a narração nos informa com alguma mágoa que o gabinete pessoal de Jerónimo fica no andar de cima, mas que o pedido para o filmar foi negado pelo Partido. "O gabinete não tem, de facto, nada de especial", garante o líder do PCP. "Você ficaria profundamente desiludido se lá fosse... portanto... verificar... é um gabinete que dá para a função, mas não é nada de especial", reiterou. Mas o desgosto provocado pela recusa era audível, traduzido numa continuidade de mistérios: "... tal como os gabinetes de Álvaro Cunhal e Carlos Carvalhas, também nunca filmados...", revelou a narração, num tom de melindrada curiosidade. Tanto a curiosidade como a recusa contagiam o espectador, que começa a imaginar os segredos escondidos no mágico gabinete, locus de produção laboral, o único sítio onde o trabalhador político pode ser devidamente observado a fabricar política. Um mapa de Lisboa com pontos estratégicos assinalados a vermelho para a futura revolução? Dois tabuleiros repletos de papéis, com as etiquetas respectivas ("direitos adquiridos" e "direitos por adquirir")? Talvez por vingança, a entrevista propriamente dita concluiu com a seguinte pergunta: "Já tirou alguma selfie com o Presidente Marcelo?" A resposta, já agora, foi negativa, o que inclui automaticamente Jerónimo de Sousa numa minoria em vias de extinção.