Crónica de Televisão

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Rogério Casanova

A conspiração contra o choque

"É o medo que preside a estas recordações, um medo constante", informa o narrador na primeira frase de A Conspiração contra a América. A declaração didáctica - que estabelece tema e tom de uma assentada - faz que o livro, em muitos aspectos o mais atípico na obra de Philip Roth, pareça alinhado com os restantes. Tal como muitos grandes romances poderiam teoricamente chamar-se "Grandes Esperanças" (de Dom Quixote a Guerra e Paz ao Grande Gabsty, é fazer as contas), também muitos dos livros de Roth, especialmente desde 1987, poderiam começar com a mesma confissão de medo.

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Crónica de Televisão

Os índices dos níveis da cadência da normalidade

À medida que o primeiro dia da crise energética se aproximava, várias dúvidas assaltavam o espírito de todos os portugueses. Os canais de notícias continuariam a ter meios para fazer directos em estações de serviço semidesertas? Os circuitos de distribuição de vox pop seriam afectados? A língua portuguesa resistiria ao ataque concertado de dezenas de repórteres exaustos - a misturar metáforas, mutilar lugares-comuns ou a começar cada frase com a palavra "efectivamente"?

Rogério Casanova

A máquina da verdade

Num manifesto de 1999 sobre o documentário cinematográfico, Werner Herzog acusou o cinema vérité de superficialidade e de lidar apenas com a "a verdade dos contabilistas". Após citar um "conhecido representante" da doutrina, que afirmou publicamente que "a verdade pode ser facilmente encontrada pegando numa câmara e sendo honesto", Herzog responde que esse género de realismo é redutor, pois "confunde os factos com a verdade", e defende uma abordagem imaginativa diferente, capaz de alcançar uma "verdade poética" mais profunda. Alguns parágrafos depois, acrescenta que "a Mãe Natureza não fala connosco, embora por vezes um glaciar possa peidar-se".