Crónica de Televisão

Crónica de Televisão

Burr vs. Super-Hamilton

Burr (1973), o segundo na sequência de romances históricos que Gore Vidal escreveu sobre a república a que gostava de chamar os Estados Unidos da Amnésia, começa de uma maneira muito semelhante a Entrevista com o Vampiro. Um jovem amanuense prepara-se para entrevistar um venerável ancião, na tentativa de lhe arrancar a verdade sobre a sua biografia e, com sorte, conseguir um furo jornalístico (neste caso, sobre uma paternidade secreta). O ancião é Aaron Burr, então com 80 anos e, nas palavras de Vidal, "o esqueleto dentro de todos os armários" na História americana - onde foi também um "homem-quase". Nunca chegou a Presidente (foi apenas vice); não ajudou a redigir a Declaração de Independência nem a Constituição; não escreveu sequer um mísero Federalist Paper - embora tenha a morto a tiro alguém que o fez.

Rogério Casanova

Shirley

O mais recente acrescento à vexante categoria "filmes sobre escritores", Shirley (disponível para alugar na Amazon Prime) não perde muito tempo antes de abordar directamente o problema central da vexante categoria "filmes sobre escritores". Passam apenas vinte minutos até ouvirmos pela primeira vez o som inconfundível de uma máquina de escrever a ser martelada. Uma personagem aproxima-se com alguma hesitação e observa, a uma distância respeitosa, a escritora à sua secretária. A máquina é martelada mais um pouco. Uma página é lida e rasgada. Um suspiro é emitido. Um cigarro é incinerado. "Queres saber o que é que faz um escritor? Absolutamente nada."

Crónica de Televisão

O naufrágio de Saleiro

Quando descrevemos uma série de televisão como "má", o que queremos dizer é que se trata de uma série de televisão em que algumas coisas mal feitas acontecem. O número de coisas mal feitas pode ser maior ou menor, mas o veredicto é sempre probabilístico e não binário, e uma das consequências da histórica migração de recursos (criativos e económicos) para o sistema de produção televisiva nos últimos 15 anos é que esse intervalo probabilístico se tornou cada vez mais reduzido. A acumulação de talento técnico e de orçamentos milionários impede preventivamente o aparecimento de séries muito más - tal como dificulta (por motivos apenas aparentemente paradoxais) o aparecimento de séries muito boas; a adesão generalizada a uma fórmula de efeitos visuais e narrativos funciona como rede de segurança, mas também como telhado invisível.

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Rogério Casanova

Situações tremendas, pessoas fantásticas

Por ser um dos rituais mediáticos a que todos já assistimos mais vezes em ficções do que no mundo, há algo vagamente irreal na conferência de imprensa de emergência, um evento que é um curioso meio-termo entre a raridade e o lugar-comum. Líderes políticos e peritos técnicos aproximam-se do pódio com expressões solenes, bombardeados por flashes. Os líderes políticos fazem um diagnóstico sóbrio da crise, falam de "medidas", asseguram a eficiência presente e futura de vários processos em curso, adoptam uma retórica de confiança e estabilidade. Os peritos costumam vir de seguida, recitando números e acrónimos num tom mais prático. Um deles pode ser destacado para fazer pedagogia coloquial, e tem autorização tácita para recorrer a um vocabulário diferente, que não exclui a palavra "beijinhos". "Informar" é o principal propósito, mas "tranquilizar" é um forte e compreensível concorrente, e não é um exagero afirmar que ambas as intenções são muito mais fáceis de concretizar quando quem fala consegue pronunciar polissílabos, transmitir plausivelmente a ideia de que o seu significado não é um profundo mistério e convencer-nos de que faz parte do mesmo mundo que nós.

Rogério Casanova

God save TV

A terceira temporada da popularíssima série sobre a realeza britânica The Crown (disponível desde Novembro na Netflix) não comete o erro de experimentar truques novos e começa da maneira esperada - e tematicamente apropriada: devagarinho, respeitando o protocolo e com todo o aspecto de ter custado imenso dinheiro. Cabeças ornadas com tiaras, criados de libré, batalhões de conselheiros com ar atarefado, planos demorados de longos corredores, tapetes magníficos, tectos altíssimos de onde pendem duas toneladas de lustre e diálogos decorosamente estilizados, capazes de humedecer os olhos de João Carlos Espada a três mil quilómetros de distância ("Majestade", "Sua Excelência", "Madame", "Lord Cecil Feldspath-Badminton, ao seu dispor").

Crónica de Televisão

O museu dos enredos obsoletos

"O céu sobre o porto tinha a cor da televisão, sintonizada num canal fora do ar." Foi assim que William Gibson começou o seu primeiro romance, Neuromancer. Pode não ser presença consensual no cortejo das grandes "primeiras frases" - os "Chamem-me Ishmael", os "Todas as famílias felizes...", os "É uma verdade universalmente reconhecida...", etc. -, mas será pelo menos o começo mais reconhecível dentro do género a que chamamos ficção científica. Dependendo da idade de quem lê, será também a evocação nostálgica de uma relíquia cultural desaparecida - o ruído branco que se seguia à mira técnica após o fecho de emissão - ou então um profundo mistério para quem cresceu, primeiro, com as emissões contínuas e, mais tarde, com a programação ad hoc e multiplataforma em que hoje consiste o acto de "ver televisão". A ideia de um canal fora do ar mais facilmente conjura uma mensagem de erro no ecrã de um periférico ou o fundo negro resultante de um cabo desligado.

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Rogério Casanova

Arquitectura fundida

Uma consequência inevitável da longevidade enquanto figura pública é a promoção automática a um escalão superior de figura pública: caso se aguentem algumas décadas em funções, deixam de ser tratadas como as outras figuras públicas e passam a ser tratadas como encarnações seculares de sábios religiosos - aqueles que costumavam ficar quinze anos seguidos sentados em posição de lótus a alimentar-se exclusivamente de bambu antes de explicarem o mundo em parábolas. A figura pública pode não desejar essa promoção, e pode até nem detectar a sua chegada. Os sinais acumulam-se lentamente. De um momento para o outro, frases suas começam a ser citadas em memes inspiradores no Facebook; há presidentes a espetar-lhes condecorações no peito, recebe convites mensais para debates em que se tenciona "pensar o país". E um dia, subitamente, a figura pública dá por si sentada à frente de uma câmera de televisão, enquanto Fátima Campos Ferreira lhe pergunta coisas como "Considera-se uma pessoa de emoções?" ou "Acredita em Deus?".

Rogério Casanova

Joker. O maluco do riso

A desonesta informação oficial indica que o filme tem a duração de 122 minutos, mas a verdade é que Joker começou a 31 de Agosto e ainda não acabou. Uma das coisas que continua a fazer é manchetes, mesmo que muitas dessas manchetes se limitem a noticiar as manchetes que fez antes, ou a sugerir hipóteses especulativas para manchetes futuras. Poderá Joker revolucionar o filme de super-heróis? Poderá provocar massacres? Poderá bater recordes nos Óscares? Poderá curar a acne? É o que acontece aos fenómenos: cada recapitulação aumenta a densidade e reforça a sua condição de fenómeno, mesmo que nada seja acrescentado.