Crónica de Televisão

Rogério Casanova

Dêem-nos alguma coisa para problematizar

"Bernardo Silva e Gonçalo Guedes", começou o narrador da peça do telejornal, no seu percurso inexorável para a conclusão da frase, "desenharam no relvado... um novo Dia de Portugal". Impulsionados pela conquista da véspera, que adicionou mais um troféu ao nosso palmarés patriótico, Portugal e a RTP chegaram ao 10 de Junho com disposições opostas, mas complementares: o país com imensa vontade de significar, e a estação pública com imensa vontade de interpretar o significado.

Rogério Casanova

A verdade na zona de exclusão

Há um momento em Vida e Destino, a obra-prima do escritor soviético Vassili Grossman, em que o leitor percebe que o protagonista Viktor Strum não é o "herói" do romance, mas apenas mais uma das suas vítimas. Um físico nuclear talentoso e inteligente, Strum vê o valor objectivo do seu trabalho oscilar ao sabor de caprichos ideológicos, e as suas pesquisas sobre mecânica quântica são publicamente vilipendiadas por não serem "reconciliáveis" com a doutrina do materialismo dialéctico.

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Rogério Casanova

Branco no branco

As personagens fictícias vivem muitas vidas diferentes - e morrem muitas mortes diferentes. A última década e meia de televisão mostrou-nos quase todas as formas possíveis de escangalhar o corpo humano e cessar as funções vitais. Vimos pessoas despedaçadas por zombies e incineradas pelo bafo de dragões; crânios perfurados à garfada (Sons of Anarchy) ou rachados por uma moca de pregos (The Walking Dead); troncos cortados ao meio por serrote (American Horror Story) ou por elevador (Six Feet Under).

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Rogério Casanova

A Grã-Bretanha emite um ruído

Foi há precisamente meio século, em 1959, que a mãe de todos os palavrões, "fuck", foi pela primeira vez dita em voz alta na BBC. Um anónimo funcionário municipal de Belfast, com a tarefa de pintar os gradeamentos de segurança à beira do rio Lagan, foi entrevistado em directo num programa da tarde. O entrevistador quis saber se o trabalho era aborrecido, ao que ele respondeu compreensivelmente que sim, "of course it"s fucking boring".

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Rogério Casanova

O muro, o espelho, e um mundo sem presunto

No princípio da década de 90, quando a queda de uma parede na Alemanha lançou o mote para passar certificados de óbito a toda e qualquer abstracção, era comum encontrar nas páginas culturais artigos preocupados com o futuro das histórias de espionagem: o que aconteceria, perguntavam estas fukuyamices menores, aos enredos clássicos sobre agentes soviéticos, passaportes forjados, toupeiras, traições e postos de vigia em Berlim, agora que a Guerra Fria terminara? O The New York Times chegou ao ponto de falar com John le Carré, perguntando-lhe essencialmente o que é que tencionava fazer à sua vida. Le Carré foi-se safando, e a história de espionagem também, com um catálogo novo de brinquedos - multinacionais corruptas, traficantes de armas, terroristas islâmicos -, mas já na altura era óbvio que a história de espionagem especificamente ancorada na Guerra Fria também trataria de sobreviver ao fim da Guerra Fria. Não só porque a mitologia que estabelecera era demasiado apelativa, mas porque o intervalo temporal que permite a qualquer fenómeno ser reciclado pela nostalgia é cada vez mais curto.

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Rogério Casanova

Ballard nas Bahamas

O metabolismo próprio das redes sociais costuma ser demasiado acelerado para formar memórias rigorosas e duradouras, mas de vez em quando surge um evento capaz de fixar indelevelmente uma data. Tal como se lembram dos dias gloriosos do "covfefe" de Trump ou daquele controverso vestido de cor indeterminada, um número significativo de utilizadores do Twitter recorda o que estava a fazer na madrugada de 28 de Abril de 2017: a acompanhar em directo uma sumptuosa calamidade tropical chamada Fyre Festival.

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Rogério Casanova

Compreender a realidade às dez da manhã

Vamos falar... da vida... Há um pequeno pormenor: eu vou entrar... na sua vida..." Acompanhada por orquestra, aplausos, lágrimas, e com cada utilização da palavra "vida" sequestrada num fulgor de reticências, Cristina Ferreira regressou aos horários matinais, agora na SIC. "Acima de tudo, a vida... é isto mesmo... umas vezes estamos a rir... outras estamos a chorar..." O novo programa da Cristina chama-se simplesmente O Programa da Cristina, confirmando assim a sua ascensão definitiva ao panteão das figuras públicas conhecidas pelo nome próprio - como Oprah, Amália ou Liedson. A missão a que se propõe? "O que eu quero... é que perceba mesmo... a realidade." São óptimas notícias: perceber a realidade é uma empreitada difícil na melhor das alturas, e às dez da manhã toda a ajuda é pouca.