Crítica DN

Cartaz

Um drama psicológico escrito com talento

A filiação de Rebecca Miller talvez ajude a explicar a sua dupla vocação artística (de escritora e realizadora): ela é filha do dramaturgo Arthur Miller (1915-2005) e da fotógrafa austríaca Inge Morath (1923-2002). Tal como em Velocidade Pessoal, Miller adapta aqui um romance seu para contar a história de Pippa Lee (Robin Wright Penn), uma mulher de 50 anos casada com um bem-sucedido editor que ronda os 80 (Alan Arkin). Admirada por todos, Pippa é uma mulher de expressão seráfica que, porém, está cansada de ser para os outros um enigma; ela quer ser compreendida. Para tal, conta-nos a história do seu passado problemático, ao mesmo tempo que redescobre o presente. Notável pelo calibre da escrita e coesão narrativa, As Vidas Privadas de Pippa Lee é também um filme de actores - Penn e Arkin são magníficos, assim como Zoe Kazan (neta de Elia Kazan). Um filme inteligente e sábio sobre a descoberta de si mesmo que porém nunca redunda num pobre exercício terapêutico. Com Keanu Reeves, Maria Bello, Julianne Moore, Monica Bellucci e Winona Ryder.

Cartaz

Revisitando a tradição britânica da aventura

Como revisitar a personagem mítica de Sherlock Holmes, visando em particular as novas gerações de espectadores? E como fazê-lo sem alienar as nuances dramáticas das histórias de Conan Doyle? Guy Ritchie propõe algumas respostas inesperadas, mas bem curiosas. O seu Holmes conserva os poderes mentais e dedutivos que distinguem a personagem original, mas apresenta uma insólita faceta de herói de acção, mais físico, por vezes quase burlesco. É um exercício de equilíbrio instável que resulta através de uma subtil (e muito digital) recriação da Londres do século XIX e também de um esmerado trabalho de actores. O notável Robert Downey Jr. (Holmes) parece ter, finalmente, a sua carreira relançada e Jude Law (Watson) é um primor de contenção e charme. Embora internacionalmente distribuído pelos americanos, o novo Sherlock Holmes representa, afinal, o reencontro com uma tradição de aventuras fortemente enraizada na história da produção britânica: estamos longe da excelência da época de Michael Powell, mas não será escandaloso evocar a sua inspiração.