Couve-de-Bruxelas

Henrique Burnay

A falta que um McCain faz

Uma das imagens mais repetidas quando John McCain morreu foi aquela em que, num comício, uma apoiante sua diz que tem medo do candidato Obama porque ele é árabe e McCain abana a cabeça, tira-lhe o microfone da mão e afirma, perante uma plateia que queria ouvir tudo menos isso, que não, que Obama não é árabe, que é "um homem decente (...) de quem discordo em muitas coisas". Antes disso, a outro apoiante que tinha dito que tinha medo de um presidente Obama, o então candidato republicano já tinha explicado o mesmo. O momento é importante porque diz tanto de McCain como do que nos habituámos a aceitar em política. E das virtudes que fazem falta. Decência é uma delas, mas a coragem de fazer o que se deve e perder, se for preciso, também. Mas dando a cara.

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Boris perdeu, Juncker ganhou

Dois anos depois do referendo que decidiu o brexit, os britânicos já mudaram de primeiro-ministro, tiveram umas eleições quase inconclusivas, demitiram-se ministros e demoraram este tempo todo para escrever um documento de quase duzentas páginas sobre como é que querem que seja a saída e a vida com a União Europeia (UE) depois. Um documento cujas conclusões, note-se, precisam, finalmente, de ser discutidas com a Europa. E que fez Boris Johnson e David Davies caírem.

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Faltam políticos

Cavaco Silva pôde dizer a António Costa que a NATO, a Europa e o euro não podiam ser postos em causa pela geringonça porque, independentemente do que se pense da solução governativa e do então Presidente da República, podia invocar que nem a Aliança Atlântica nem a União Europeia tinham feito parte da discussão eleitoral em Portugal. E se o governo PS poderá ter sido de previsibilidade duvidosa mas constitucionalidade inquestionável, já essas ruturas seriam à revelia da posição maioritária em Portugal. Cavaco tinha a legitimidade política do seu lado. Tal como Sergio Mattarella, quando terá explicado a Luigi Di Maio, o líder do populista 5 Estrelas, que um ministro das Finanças antieuro não fazia parte do cardápio discutido até às eleições. Assim como em Espanha é legítimo considerar que um governo que apresente uma agenda semelhante será ilegítimo, independentemente da legitimidade constitucional. Porque nas várias últimas eleições nunca essas possibilidades foram admitidas.

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O dinheiro que devíamos discutir

Dia 7 de Junho vai finalmente saber-se qual é a proposta da Comissão Europeia para o programa que vai suceder ao Horizonte 2020 - o Horizonte Europa -, o programa europeu que financia investigação e inovação. Por Bruxelas e pelas capitais europeias circulam várias versões e para já sabem-se algumas coisas, a mais importante de todas que o orçamento (se aprovado) vai passar dos actuais 77 mil milhões para cerca de 97 mil milhões de Euros. Mas isso não é, mesmo nada, tudo.

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Para que serve a Europa?

Há dias, numa conferência em Bruxelas, um dos comissários europeus mais interessantes e com maior orçamento (detalhe não irrelevante nesta conversa) comentava que a comissária europeia mais reconhecida publicamente seria Margrethe Vestager, a dinamarquesa que dirige a pasta da Concorrência, na Comissão Europeia. A razão de ser, explicava este comissário rico em orçamento, é que a sua colega tem poder. Vestager já multou a Google, a Apple, o Facebook... you name it. Ao longo dos últimos anos, a comissária da Concorrência tem sido o rosto de uma espécie de política fiscal comum alternativa que impõe limites à competitividade fiscal agressiva de vários Estados membros, de que muitas grandes empresas beneficiaram, e obriga-as a pagar os impostos devidos. Isso tem tornado a comissária conhecida e, acreditam no Berlaymont (a sede da comissão), popular entre os europeus.

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Dez anos é muito pouco tempo

A reunião era sobre a importância, ou não, de preparar a empresa para a legislação que estava a ser discutida em Bruxelas. De um lado, os que achavam que não valia a pena pensar nisso. Os desafios imediatos eram mais que muitos, o país estava sob a gestão da troika, as regras que contavam eram essas e iam continuar a ser durante os próximos anos; do outro lado, argumentava-se que as coisas iam mudar, que a troika havia de se ir embora e as regras voltariam a ser as mesmas que se aplicassem a todos os outros Estados membros. E que, por isso, valia a pena discutir então o que ia ser lei daí a uns tempos. Estava-se num impasse, até que um dos diretores trovejou: "Olhe, senhor doutor, faz agora dez anos, estávamos há dez anos atrás."