Couve-de-Bruxelas

Henrique Burnay

Na Guiné, à espera de um dia

Estávamos a meio de 2000, o pior da guerra civil tinha acontecido há um ano, agora havia paz e esperança. "O chefe dos enfermeiros do hospital do Quebo (no sudeste da Guiné Bissau), um homem magro de gestos demorados, atravessa lentamente o corredor e abre a porta de um cubículo estreito e escuro. "Isto é a farmácia. Agora não temos remédios mas, quando tivermos, é aqui que hão-de ficar"", escrevi então, na revista Grande Reportagem. Entretanto houve golpes de estado, chefes militares e políticos mortos brutalmente e várias revoltas.

Henrique Burnay

O médio desoriente europeu

O problema internacional da Europa não é não ter um telefone (ou vários, em Bruxelas, como agora tem), é não ter força ou influência junto dos seus vizinhos. É por isso que o que se está a passar na Síria tem tudo que ver connosco, europeus, mas nós não temos quase nada que ver com o que seja o remédio. O nosso soft power é manifestamente soft, e não é garantido que seja power. E não há muita maneira de não ser assim. Não temos, e não é provável que queiramos ter, um exército; não temos uma política externa comum relevante, porque temos interesse internacionais divergentes; e há muito que não temos disponibilidade de morrer pela nossa segurança. O que se está a passar no médio Oriente, porém, pode inverter tudo isto.

Henrique Burnay

O primeiro outono de Ursula

A escolha de Ursula von der Leyen foi suficientemente surpreendente para pouco mais se ter dito sobre a presidente designada da Comissão Europeia além do facto, evidente, de ser mulher, alemã, ex-ministra da defesa e democrata-cristã. O que pensava ou não sobre os temas, nos primeiros dias, ficou por descobrir, até porque havia coisas mais urgentes. Depois da escolha pelo Conselho, colocava-se a questão de saber se seria capaz de conquistar um número suficiente de votos liberais e socialistas no Parlamento Europeu, para ser aprovada. Conseguiu, tendo para isso feito uma quantidade de declarações políticas que andaram entre o anódino e o amor à agenda mais ambientalista. Falta agora o resto.

Henrique Burnay

O antiamericanismo de Trump

Na semana passada a União Europeia fechou dois acordos comerciais com especial significado. Um, com o Mercosul, estava a ser negociado há vinte anos e permite uma enorme redução de taxas alfandegárias entre a Europa e os quatro países da América do Sul. O outro, com o Vietname, sendo menos impressionante, tem também importância e igual significado. Num tempo em que a América se caracteriza pelas guerras comerciais, a Europa define-se pelo comércio livre. Uma diferença que faz toda a diferença.

Henrique Burnay

À procura da Europa errada

Ainda que o filósofo pop Bernard-Henri Lévy (BHL) esteja para os franceses que agora vivem em Portugal como Amália estava para os nossos emigrantes em França, na segunda-feira passada os mil lugares da sala do Teatro Tivoli estavam, sobretudo, cheios de portugueses, a maioria satisfeitos. À saída, as pessoas cumprimentavam-se com a familiaridade e o entusiasmo dos militantes de um pequeno partido num comício de fim de campanha. Quem já passou por isso sabe como é: estávamos todos ali, conhecíamo-nos todos, e quase todos os que conhecíamos e se interessavam pelo assunto estavam lá. (O problema, claro, com frequência é esse.)

Henrique Burnay

Política a grande escala

Ao longo dos últimos cinco anos, a Comissão Europeia apresentou, ao Parlamento Europeu e ao Conselho, 551 propostas. Em média, mais de cem por ano, portanto. Daqui resultam duas coisas que podiam ser óbvias: que quando se diz que a legislação europeia representa uns 60% da legislação nacional é disto que estamos a falar; e que é impossível, nas vésperas das eleições europeias, discutir as próximas 551. Mas podemos conversar sobre as grandes prioridades, que é o que os eleitores conseguem mais facilmente perceber.

Henrique Burnay

O Brexit não é só como eles quiserem

Ao longo das últimas semanas, o Brexit tem ocupado os jornais e televisões com a intensidade, o drama e a paixão de um reality show. As perdas de voz de May, a hesitações de Corbyn, os trânsfugas, tudo é visto e comentado. Até as gravatas do Speaker of the House conhecemos (ainda não repetiu nenhuma). É a democracia, dizem-nos. Será. Mas como em todos os divórcios há (pelo menos) duas partes. E se é certo que não podemos, não queremos, nem temos interesse em pôr-lhes as malas à porta, também é verdade que não podem continuar a precisar de tempo para pensar todas semanas.

Henrique Burnay

A cooperação internacional é uma competição

No tempo em que havia guerra fria e duas potências, o resto do mundo ou estava de um lado, ou estava do outro. Ou dizia que não era alinhado, o que normalmente queria dizer que dependia. Em contrapartida, "os nossos" de cada lado recebiam dinheiro, protecção e a garantia de que os seus governos raramente seriam molestados. As excepções, e eram excepções, aconteciam quando o que estava em causa era demasiado escandaloso, quando as opiniões públicas (ocidentais, obviamente) se mobilizavam, quando os movimentos internos pró-democracia, direitos humanos ou liberdade (tradicionalmente pró-ocidentais) eram esmagados. Isto significava - e é este o ponto - que até ao fim da guerra fria a ajuda ao desenvolvimento (depois passou a chamar-se cooperação) era um misto de obrigação moral, interesse próprio (promover economias desenvolvidas, capitalistas e liberais que, por definição, eram novos mercados e tendiam a aproximar-se do Ocidente) e prémio de lealdade.

Henrique Burnay

Poder fazer lóbi em Portugal

A tentativa de influenciar os decisores políticos é a coisa mais natural e democrática que há. Desde as eleições, quando escolhemos em quem votamos ou não, às manifestações e greves, passando por declarações públicas, artigos de opinião em jornais, manifestos, reuniões, abaixo-assinados e conversas com amigos que são, ou achamos que são, influentes, vale, legitimamente, tudo o que a Lei permita e seja eticamente aceitável. Cada um de nós, tem o mais que legítimo direito de tentar persuadir quem decide, do Presidente da República ao deputado mais anónimo, a fazê-lo como achamos melhor e como melhor convém aos nossos interesses. E quem decide, que o faça, depois de nos ouvir, em liberdade. O ponto de partida sobre a regulação da relação entre decisores políticos e representantes de interesses, em Portugal, devia ser este.

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Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.