Couve-de-Bruxelas

Henrique Burnay

Erdogan e Macron na batalha do Mediterrâneo

Recep Tayyip Erdoğan operou três enormes transformações na Turquia com impacto externo e todas elas pondo em causa os fatores de estabilidade regional. Abandonou a laicidade pública, para dar voz e poder aos islamitas e à ideia de que é um líder e um homem religioso, o que lhe dá valor na região; domesticou as Forças Armadas, que tinham por hábito ser quem domesticava os governos, para agora as ter como aliadas na sua política expansionista; e está disposto a levar ao limite a NATO que, na sua visão da região, já lhe serve de pouco.

Henrique Burnay

Saber o que queremos da Europa

Seja qual for o desenho final do plano de recuperação económica da União Europeia, que os líderes europeus acabem por acordar (em Julho ou mais adiante), há algumas coisas que já sabemos. Vai haver mais dinheiro, e mais regras, para acelerar o que tinha sido definido como prioritário: fazer da economia europeia a primeira a ser verde, e com isso liderar o que se acredita que possa ser a economia do futuro; acelerar a transição digital, para evitar que fiquemos para trás e que em quase todas as comparações as empresas europeias apareçam no fim da lista, a perder para o mercado americano ou chinês; e, finalmente, tentar recuperar alguma autonomia industrial, e consequentemente empregos, mesmo que com custos de produção mais altos.

Henrique Burnay

A partidarização europeia

Sylvie Goulard, a candidata francesa a comissária europeia, foi chumbada pelo Parlamento europeu porque tinha problemas éticos, porque Macron tem vários anticorpos em Bruxelas e porque Ursula von der Leyen, a candidata a presidente da Comissão, não quis defendê-la mais do que o necessário. Essa é parte da explicação. A restante é que esta foi uma decisão dos parlamentares populares e socialistas, apesar ou mesmo ao arrepio das lideranças nacionais. É uma transformação da política europeia em curso.

Henrique Burnay

O primeiro outono de Ursula

A escolha de Ursula von der Leyen foi suficientemente surpreendente para pouco mais se ter dito sobre a presidente designada da Comissão Europeia além do facto, evidente, de ser mulher, alemã, ex-ministra da defesa e democrata-cristã. O que pensava ou não sobre os temas, nos primeiros dias, ficou por descobrir, até porque havia coisas mais urgentes. Depois da escolha pelo Conselho, colocava-se a questão de saber se seria capaz de conquistar um número suficiente de votos liberais e socialistas no Parlamento Europeu, para ser aprovada. Conseguiu, tendo para isso feito uma quantidade de declarações políticas que andaram entre o anódino e o amor à agenda mais ambientalista. Falta agora o resto.

Henrique Burnay

À procura da Europa errada

Ainda que o filósofo pop Bernard-Henri Lévy (BHL) esteja para os franceses que agora vivem em Portugal como Amália estava para os nossos emigrantes em França, na segunda-feira passada os mil lugares da sala do Teatro Tivoli estavam, sobretudo, cheios de portugueses, a maioria satisfeitos. À saída, as pessoas cumprimentavam-se com a familiaridade e o entusiasmo dos militantes de um pequeno partido num comício de fim de campanha. Quem já passou por isso sabe como é: estávamos todos ali, conhecíamo-nos todos, e quase todos os que conhecíamos e se interessavam pelo assunto estavam lá. (O problema, claro, com frequência é esse.)