Couve-de-Bruxelas

Henrique Burnay

O povo já não está unido

Em março, o medo do desconhecido, o reconhecimento da impossibilidade de se estar completamente preparado e a ignorância do impacto económico contribuíram para um clima de quase unanimidade. Com exceção da União Europeia, cuja utilidade foi posta em causa até à decisão de emitir dívida comum e gastar dinheiro (que ainda não começou a ser gasto), os governos tiveram o apoio dos cidadãos e a cumplicidade das oposições. Nestes novembro e dezembro, não será assim. Olhe-se para França, Itália, Espanha ou mesmo Portugal.

Couve de Bruxelas

Os Açores ou as Berlengas da Europa

Nos últimos anos, três factos externos alteraram o lugar de Portugal no mundo. A transição americana para o Pacífico retirou relevância estratégica à nossa posição geográfica entre os Estados Unidos da América e a Europa. A presidência de Trump azedou as relações entre os aliados da NATO, reforçando quem questiona, ou mesmo quem quer pôr em causa, a Aliança. E o Brexit deixou-nos isolados (na companhia dos irlandeses) na frente atlântica da Europa. Isto tudo sem que seja evidente que Portugal adaptou, consequentemente, a sua visão do mundo e dos seus interesses. Pelo contrário.

Henrique Burnay

Saber o que queremos da Europa

Seja qual for o desenho final do plano de recuperação económica da União Europeia, que os líderes europeus acabem por acordar (em Julho ou mais adiante), há algumas coisas que já sabemos. Vai haver mais dinheiro, e mais regras, para acelerar o que tinha sido definido como prioritário: fazer da economia europeia a primeira a ser verde, e com isso liderar o que se acredita que possa ser a economia do futuro; acelerar a transição digital, para evitar que fiquemos para trás e que em quase todas as comparações as empresas europeias apareçam no fim da lista, a perder para o mercado americano ou chinês; e, finalmente, tentar recuperar alguma autonomia industrial, e consequentemente empregos, mesmo que com custos de produção mais altos.

Opinião

Entre as saudades do passado e as utopias do futuro

Aproveitando a pandemia, o medo, o isolamento forçado, a paragem de muitas actividades, o trabalho a partir de casa, a crise económica e a injecção de dinheiros públicos na economia e na resposta social, há muita gente com vontade de mudar o mundo. O que não é necessariamente mau, porque o mundo vai mesmo mudar. O problema é quando querem impor a todos a sua visão do futuro, aproveitando o reforço do papel, mesmo que provisório, do Estado. O risco é o de sempre: ganha-se em suposta perfeição o que se perde em real liberdade e pluralidade.

Henrique Burnay

Vai haver mais Europa

Ainda nada está fechado, mas lendo o que os líderes europeus dizem, tudo indica que os eurobonds vão ser federais e o Plano Marshall vai ser um Plano Ursula, com dinheiro levantado pela Comissão Europeia (CE) junto dos mercados, garantido pelos Estados membros e gerido a partir de Bruxelas. A resposta europeia à crise económica prepara-se para ser federal: dívida mutualizada, é em Bruxelas; o que for despesa exclusivamente nacional, é às custas de cada um.

Henrique Burnay

O médio desoriente europeu

O problema internacional da Europa não é não ter um telefone (ou vários, em Bruxelas, como agora tem), é não ter força ou influência junto dos seus vizinhos. É por isso que o que se está a passar na Síria tem tudo que ver connosco, europeus, mas nós não temos quase nada que ver com o que seja o remédio. O nosso soft power é manifestamente soft, e não é garantido que seja power. E não há muita maneira de não ser assim. Não temos, e não é provável que queiramos ter, um exército; não temos uma política externa comum relevante, porque temos interesse internacionais divergentes; e há muito que não temos disponibilidade de morrer pela nossa segurança. O que se está a passar no médio Oriente, porém, pode inverter tudo isto.

Henrique Burnay

O primeiro outono de Ursula

A escolha de Ursula von der Leyen foi suficientemente surpreendente para pouco mais se ter dito sobre a presidente designada da Comissão Europeia além do facto, evidente, de ser mulher, alemã, ex-ministra da defesa e democrata-cristã. O que pensava ou não sobre os temas, nos primeiros dias, ficou por descobrir, até porque havia coisas mais urgentes. Depois da escolha pelo Conselho, colocava-se a questão de saber se seria capaz de conquistar um número suficiente de votos liberais e socialistas no Parlamento Europeu, para ser aprovada. Conseguiu, tendo para isso feito uma quantidade de declarações políticas que andaram entre o anódino e o amor à agenda mais ambientalista. Falta agora o resto.