Couve-de-Bruxelas

Henrique Burnay

O Brexit não é só como eles quiserem

Ao longo das últimas semanas, o Brexit tem ocupado os jornais e televisões com a intensidade, o drama e a paixão de um reality show. As perdas de voz de May, a hesitações de Corbyn, os trânsfugas, tudo é visto e comentado. Até as gravatas do Speaker of the House conhecemos (ainda não repetiu nenhuma). É a democracia, dizem-nos. Será. Mas como em todos os divórcios há (pelo menos) duas partes. E se é certo que não podemos, não queremos, nem temos interesse em pôr-lhes as malas à porta, também é verdade que não podem continuar a precisar de tempo para pensar todas semanas.

Henrique Burnay

A cooperação internacional é uma competição

No tempo em que havia guerra fria e duas potências, o resto do mundo ou estava de um lado, ou estava do outro. Ou dizia que não era alinhado, o que normalmente queria dizer que dependia. Em contrapartida, "os nossos" de cada lado recebiam dinheiro, protecção e a garantia de que os seus governos raramente seriam molestados. As excepções, e eram excepções, aconteciam quando o que estava em causa era demasiado escandaloso, quando as opiniões públicas (ocidentais, obviamente) se mobilizavam, quando os movimentos internos pró-democracia, direitos humanos ou liberdade (tradicionalmente pró-ocidentais) eram esmagados. Isto significava - e é este o ponto - que até ao fim da guerra fria a ajuda ao desenvolvimento (depois passou a chamar-se cooperação) era um misto de obrigação moral, interesse próprio (promover economias desenvolvidas, capitalistas e liberais que, por definição, eram novos mercados e tendiam a aproximar-se do Ocidente) e prémio de lealdade.

Henrique Burnay

Poder fazer lóbi em Portugal

A tentativa de influenciar os decisores políticos é a coisa mais natural e democrática que há. Desde as eleições, quando escolhemos em quem votamos ou não, às manifestações e greves, passando por declarações públicas, artigos de opinião em jornais, manifestos, reuniões, abaixo-assinados e conversas com amigos que são, ou achamos que são, influentes, vale, legitimamente, tudo o que a Lei permita e seja eticamente aceitável. Cada um de nós, tem o mais que legítimo direito de tentar persuadir quem decide, do Presidente da República ao deputado mais anónimo, a fazê-lo como achamos melhor e como melhor convém aos nossos interesses. E quem decide, que o faça, depois de nos ouvir, em liberdade. O ponto de partida sobre a regulação da relação entre decisores políticos e representantes de interesses, em Portugal, devia ser este.

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Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Henrique Burnay

Isabel Moreira ou Churchill

Numa das muitas histórias que lhe são atribuídas, sem serem necessariamente verdadeiras, em resposta a um jovem deputado que, apontando para a bancada dos Trabalhistas, perguntou se era ali que se sentavam os seus inimigos, Churchill teria dito que não: "Ali sentam-se os nossos adversários, os nossos inimigos sentam-se aqui (do mesmo lado)." Verdadeira ou não, a história tem uma piada e duas lições. Depois de ler o que publicou no Expresso na semana passada, é evidente que a deputada Isabel Moreira não se teria rido de uma, nem percebido as outras duas.

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Henrique Burnay

A falta que um McCain faz

Uma das imagens mais repetidas quando John McCain morreu foi aquela em que, num comício, uma apoiante sua diz que tem medo do candidato Obama porque ele é árabe e McCain abana a cabeça, tira-lhe o microfone da mão e afirma, perante uma plateia que queria ouvir tudo menos isso, que não, que Obama não é árabe, que é "um homem decente (...) de quem discordo em muitas coisas". Antes disso, a outro apoiante que tinha dito que tinha medo de um presidente Obama, o então candidato republicano já tinha explicado o mesmo. O momento é importante porque diz tanto de McCain como do que nos habituámos a aceitar em política. E das virtudes que fazem falta. Decência é uma delas, mas a coragem de fazer o que se deve e perder, se for preciso, também. Mas dando a cara.