Couve-de-Bruxelas

Henrique Burnay

Quase a mesma Europa

Quando Mário Soares quis ser presidente do Parlamento Europeu (PE), em 1999, podia ter sido. Bastava ter aceitado o Tratado de Tordesilhas existente à data entre os Populares Europeus e os Socialistas e ter esperado pela segunda metade do mandato do PE. Soares não quis, os Populares fizeram um acordo com os Liberais, com quem tinham votos suficientes para formar uma maioria, e dividiram o mandato de presidente do Parlamento entre Nicole Fontaine e Pat Cox. Se fosse agora, este exercício era impossível. Foi isto que mudou com as eleições europeias.

Henrique Burnay

Política a grande escala

Ao longo dos últimos cinco anos, a Comissão Europeia apresentou, ao Parlamento Europeu e ao Conselho, 551 propostas. Em média, mais de cem por ano, portanto. Daqui resultam duas coisas que podiam ser óbvias: que quando se diz que a legislação europeia representa uns 60% da legislação nacional é disto que estamos a falar; e que é impossível, nas vésperas das eleições europeias, discutir as próximas 551. Mas podemos conversar sobre as grandes prioridades, que é o que os eleitores conseguem mais facilmente perceber.

Henrique Burnay

Para que serve a Europa?

No século XXI, se a Europa não tiver política externa não existe. Não se trata de defender o fim das soberanias, dos interesses nacionais ou, menos ainda, de querer fazer de conta que não há interesses divergentes e mesmo conflituantes entre os Estados Membros. Trata-se, simplesmente, de reconhecer que o mundo está a reorganizar-se em grandes blocos com potências dominantes em cada um, mas que o confronto é mais económico do que militar. Os nossos aliados são os de sempre, mas os adversários são diferentes e as guerras também. A estratégia tem, por isso, de se adaptar.

Henrique Burnay

No país do "eu conheço"

A ninguém inteligente e/ou decente ocorreria perguntar a um advogado, antes de entrar para um julgamento, se "conhece" o juiz, querendo com isso perceber se são amigos, conhecidos, se almoçam ou jantam às vezes e se por essa via será possível que o juiz tenha uma disposição favorável ao interesse do cliente daquele advogado. Ou mesmo, por pura simpatia, decida em seu favor. Embora, obviamente, qualquer pessoa inteligente e/ou decente possa perfeitamente fazer a mesma pergunta se com isso quiser perceber se se consegue antecipar o que o juiz pode pensar ou para pensar a que argumentos pode ser sensível.

Henrique Burnay

Quem manda?

Uma das poucas coisas óbvias sobre o que o Presidente Macron prometeu ao povo para acalmar - sem grande sucesso - os gilets jaunes é que aquilo tem um custo que não é compatível com as regras orçamentais a que França está obrigada por força de fazer parte da União Europeia e, sobretudo, da zona Euro. Um problema parecido com o que Itália tinha. Só que Itália é uma economia irreformável em pré-colapso há vários anos, governada por populistas com vontade de esbanjar dinheiro para agradar ao povo.

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Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.