Couve-de-Bruxelas

Henrique Burnay

Saber o que queremos da Europa

Seja qual for o desenho final do plano de recuperação económica da União Europeia, que os líderes europeus acabem por acordar (em Julho ou mais adiante), há algumas coisas que já sabemos. Vai haver mais dinheiro, e mais regras, para acelerar o que tinha sido definido como prioritário: fazer da economia europeia a primeira a ser verde, e com isso liderar o que se acredita que possa ser a economia do futuro; acelerar a transição digital, para evitar que fiquemos para trás e que em quase todas as comparações as empresas europeias apareçam no fim da lista, a perder para o mercado americano ou chinês; e, finalmente, tentar recuperar alguma autonomia industrial, e consequentemente empregos, mesmo que com custos de produção mais altos.

Henrique Burnay

Ler a China

A Alemanha já fez saber que uma das prioridades da sua presidência rotativa da União Europeia, que acontece no segundo semestre do ano que vem, exactamente antes da portuguesa, é organizar uma cimeira com a China em que estejam sentados à volta da mesa, do lado europeu, não apenas as insituições europeias mas também cada um dos 27 (ou 28, nunca se sabe) Estados Membros. Esta originalidade - incluir todos e cada um dos países da UE - tem um significado externo e interno. O que Berlim quer é mostrar, aos chineses mas sobretudo aos restantes europeus, que o quadro das relações com a China se define a nível europeu e, é esse o ponto, compromete todos. O bilateralismo é só às vezes e só para alguns. Desta vez, querem os grandes Estados Membros (França pensa a mesma coisa), não é para ninguém.

Henrique Burnay

Quase a mesma Europa

Quando Mário Soares quis ser presidente do Parlamento Europeu (PE), em 1999, podia ter sido. Bastava ter aceitado o Tratado de Tordesilhas existente à data entre os Populares Europeus e os Socialistas e ter esperado pela segunda metade do mandato do PE. Soares não quis, os Populares fizeram um acordo com os Liberais, com quem tinham votos suficientes para formar uma maioria, e dividiram o mandato de presidente do Parlamento entre Nicole Fontaine e Pat Cox. Se fosse agora, este exercício era impossível. Foi isto que mudou com as eleições europeias.

Henrique Burnay

Para que serve a Europa?

No século XXI, se a Europa não tiver política externa não existe. Não se trata de defender o fim das soberanias, dos interesses nacionais ou, menos ainda, de querer fazer de conta que não há interesses divergentes e mesmo conflituantes entre os Estados Membros. Trata-se, simplesmente, de reconhecer que o mundo está a reorganizar-se em grandes blocos com potências dominantes em cada um, mas que o confronto é mais económico do que militar. Os nossos aliados são os de sempre, mas os adversários são diferentes e as guerras também. A estratégia tem, por isso, de se adaptar.

Henrique Burnay

No país do "eu conheço"

A ninguém inteligente e/ou decente ocorreria perguntar a um advogado, antes de entrar para um julgamento, se "conhece" o juiz, querendo com isso perceber se são amigos, conhecidos, se almoçam ou jantam às vezes e se por essa via será possível que o juiz tenha uma disposição favorável ao interesse do cliente daquele advogado. Ou mesmo, por pura simpatia, decida em seu favor. Embora, obviamente, qualquer pessoa inteligente e/ou decente possa perfeitamente fazer a mesma pergunta se com isso quiser perceber se se consegue antecipar o que o juiz pode pensar ou para pensar a que argumentos pode ser sensível.

Henrique Burnay

O multilateralismo é realista

A seguir ao fim da guerra fria, e perante evidência de que havia uma única potência sobrante e capaz de intervir, direta ou indiretamente, em qualquer parte do mundo, generalizou-se a ideia de que em vez da ordem mundial dos vencedores haveria de haver uma ordem mundial plural, multipolar, capaz de incluir todos em vez de ser dirigida apenas por alguns. E esse mundo, dizia-se, por ser mais plural e cooperante, havia de ser melhor, mais justo. Como o tempo tem provado, o multilateralismo é apenas uma maneira de gerir as relações internacionais. Pode ser mais plural, não é necessariamente melhor nos resultados. E é bom que se tenha presente esta diferença, não tanto para recusar a ordem mundial que temo, mas para não esperar dela o que não é suposto.