Couve-de-Bruxelas

Henrique Burnay

O antiamericanismo de Trump

Na semana passada a União Europeia fechou dois acordos comerciais com especial significado. Um, com o Mercosul, estava a ser negociado há vinte anos e permite uma enorme redução de taxas alfandegárias entre a Europa e os quatro países da América do Sul. O outro, com o Vietname, sendo menos impressionante, tem também importância e igual significado. Num tempo em que a América se caracteriza pelas guerras comerciais, a Europa define-se pelo comércio livre. Uma diferença que faz toda a diferença.

Henrique Burnay

Quase a mesma Europa

Quando Mário Soares quis ser presidente do Parlamento Europeu (PE), em 1999, podia ter sido. Bastava ter aceitado o Tratado de Tordesilhas existente à data entre os Populares Europeus e os Socialistas e ter esperado pela segunda metade do mandato do PE. Soares não quis, os Populares fizeram um acordo com os Liberais, com quem tinham votos suficientes para formar uma maioria, e dividiram o mandato de presidente do Parlamento entre Nicole Fontaine e Pat Cox. Se fosse agora, este exercício era impossível. Foi isto que mudou com as eleições europeias.

Henrique Burnay

Política a grande escala

Ao longo dos últimos cinco anos, a Comissão Europeia apresentou, ao Parlamento Europeu e ao Conselho, 551 propostas. Em média, mais de cem por ano, portanto. Daqui resultam duas coisas que podiam ser óbvias: que quando se diz que a legislação europeia representa uns 60% da legislação nacional é disto que estamos a falar; e que é impossível, nas vésperas das eleições europeias, discutir as próximas 551. Mas podemos conversar sobre as grandes prioridades, que é o que os eleitores conseguem mais facilmente perceber.

Henrique Burnay

O Brexit não é só como eles quiserem

Ao longo das últimas semanas, o Brexit tem ocupado os jornais e televisões com a intensidade, o drama e a paixão de um reality show. As perdas de voz de May, a hesitações de Corbyn, os trânsfugas, tudo é visto e comentado. Até as gravatas do Speaker of the House conhecemos (ainda não repetiu nenhuma). É a democracia, dizem-nos. Será. Mas como em todos os divórcios há (pelo menos) duas partes. E se é certo que não podemos, não queremos, nem temos interesse em pôr-lhes as malas à porta, também é verdade que não podem continuar a precisar de tempo para pensar todas semanas.

Henrique Burnay

No país do "eu conheço"

A ninguém inteligente e/ou decente ocorreria perguntar a um advogado, antes de entrar para um julgamento, se "conhece" o juiz, querendo com isso perceber se são amigos, conhecidos, se almoçam ou jantam às vezes e se por essa via será possível que o juiz tenha uma disposição favorável ao interesse do cliente daquele advogado. Ou mesmo, por pura simpatia, decida em seu favor. Embora, obviamente, qualquer pessoa inteligente e/ou decente possa perfeitamente fazer a mesma pergunta se com isso quiser perceber se se consegue antecipar o que o juiz pode pensar ou para pensar a que argumentos pode ser sensível.

Henrique Burnay

Poder fazer lóbi em Portugal

A tentativa de influenciar os decisores políticos é a coisa mais natural e democrática que há. Desde as eleições, quando escolhemos em quem votamos ou não, às manifestações e greves, passando por declarações públicas, artigos de opinião em jornais, manifestos, reuniões, abaixo-assinados e conversas com amigos que são, ou achamos que são, influentes, vale, legitimamente, tudo o que a Lei permita e seja eticamente aceitável. Cada um de nós, tem o mais que legítimo direito de tentar persuadir quem decide, do Presidente da República ao deputado mais anónimo, a fazê-lo como achamos melhor e como melhor convém aos nossos interesses. E quem decide, que o faça, depois de nos ouvir, em liberdade. O ponto de partida sobre a regulação da relação entre decisores políticos e representantes de interesses, em Portugal, devia ser este.

Henrique Burnay

Quem manda?

Uma das poucas coisas óbvias sobre o que o Presidente Macron prometeu ao povo para acalmar - sem grande sucesso - os gilets jaunes é que aquilo tem um custo que não é compatível com as regras orçamentais a que França está obrigada por força de fazer parte da União Europeia e, sobretudo, da zona Euro. Um problema parecido com o que Itália tinha. Só que Itália é uma economia irreformável em pré-colapso há vários anos, governada por populistas com vontade de esbanjar dinheiro para agradar ao povo.

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Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Henrique Burnay

Isabel Moreira ou Churchill

Numa das muitas histórias que lhe são atribuídas, sem serem necessariamente verdadeiras, em resposta a um jovem deputado que, apontando para a bancada dos Trabalhistas, perguntou se era ali que se sentavam os seus inimigos, Churchill teria dito que não: "Ali sentam-se os nossos adversários, os nossos inimigos sentam-se aqui (do mesmo lado)." Verdadeira ou não, a história tem uma piada e duas lições. Depois de ler o que publicou no Expresso na semana passada, é evidente que a deputada Isabel Moreira não se teria rido de uma, nem percebido as outras duas.

Henrique Burnay

A Europa, entre Putins e Tiagos

Enquanto em alguns países da Europa de Leste há milícias populares armadas que perseguem migrantes e refugiados junto à fronteira e pelas ruas de vilas e aldeias, pela Europa fora há gente como o Tiago Cardoso, entrevistado na edição de terça-feira passada do Expresso Diário, que se voluntaria para dar um mínimo de decência às condições em que esses migrantes e refugiados vivem quando chegam cá. Entre uns e outros há uma enorme diferença moral e uma preocupante coincidência: a ausência do Estado. A diferença tem difícil solução, a coincidência é o maior problema das eleições europeias e é um exagero que está a crescer.