convidados

Opinião

Racismo em 2017, um ano Negro?

Mais do que nunca antes no espaço público, pelas melhores e pelas piores razões, 2017 foi o ano em que mais se falou de racismo na sociedade portuguesa a partir da fala dos próprios sujeitos racializados. A violência policial sistemática contra negros e ciganos, a segregação habitacional que culmina nos despejos violentos sem alternativas e na precariedade das condições de habitabilidade, a exploração laboral que atinge mais violentamente as trabalhadoras dos serviços de limpeza, a exclusão da cidadania que mantém jovens que nasceram cá como estrangeiros no seu próprio país, a marginalização escolar que fustiga os jovens destas comunidades, fruto de um sistema educativo iniquo, uma lei de imigração que mantém na ilegalidade milhares de cidadãos presos nas malhas do poder discricionário do SEF e o ressurgimento despudorado de um discurso populista racista por parte de figuras políticas e culturais, acrescidos à ausência de participação política, são a face má desta história. Este debate teve como pano de fundo uma enorme discussão sobre a memoria do passado colonial e as suas consequências na vida dos negros e afrodescendescentes de hoje assim como na representação simbólica do imaginário nacional da questão racial.

Rui Pedro Tendinha

Tudo é marketing

Enquanto escrevo estas linhas está Sir Ridley Scott a dirigir Christopher Plummer em Todo o Dinheiro do Mundo, filme sobre o rapto de um dos netos do bilionário Jean Paul Getty. São as famosas cenas de substituição de Kevin Spacey, algo inédito em Hollywood num filme desta escala e com tão pouco tempo antes da estreia - a Sony já enviou um comunicado a reforçar que a estreia para 22 de dezembro se mantém e que há uma "aposta nos Óscares". O impensável está a acontecer: há um ator a ser apagado numa prática do mccarthismo ou do mais vil estalinismo. Só que não, tudo isto é a lei do mercado. É a Sony Pictures a tentar salvar um filme caro. Cedo se percebeu depois dos escândalos sexuais em torno de Spacey que Todo o Dinheiro do Mundo iria ser falado pelo facto de ter Spacey num papel sonante. Cedo se percebeu que Spacey iria matar o filme e, mesmo sem o seu nome no cartaz, haveria protestos contra o estúdio. O mais irónico é que antes disto tudo era a própria Sony que estava a apostar num forcing para Spacey ser nomeado para os prémios de melhor ator secundário. Agora, orgulhosamente, aposto que vai fazer o mesmo com o veterano Plummer que tem nove dias para ganhar um Óscar. E porque o marketing é que triunfa sempre no fim do dia, isto foi o melhor que poderia acontecer a Todo o Dinheiro do Mundo, a partir de agora um potencial sucesso de bilheteiras devido à curiosidade que conseguiu reunir. Não se duvide de que muitos vão pagar o bilhete para matarem o espanto de "como é que eles conseguiram apagar o Spacey?!" Vivemos dias muito tristes.

Guilherme D'Oliveira Martins

O tecido cultural da Europa

Quando falamos de património cultural, há a tentação de pensar que falamos de antigualhas, de coisas do passado, irremediavelmente perdidas num canto recôndito da nossa memória. Puro engano! Referimo-nos à memória viva, seja ela referida a monumentos, sítios, tradições, seja constituída por acervos de museus, bibliotecas e arquivos. Mas fundamentalmente tratamos de conhecimentos ou de expressões da criatividade humana... Ter memória é, assim, respeitarmo-nos. Cuidar do que recebemos é dar atenção, é não deixar ao abandono. Por isso, o património cultural que devemos proteger é sinal para que o que tem valor hoje e sempre não seja deixado ao desbarato. Como poderemos preservar o que é novo se não cuidarmos do que é de sempre?

Rui Nunes

PSD: mudar!

O PSD precisa de mudar. Mudar na estratégia, mudar na atitude. Um partido social-democrata deve afirmar a importância de conciliar o desenvolvimento económico com as políticas de bem-estar social. Deve orgulhar-se disso e promover todos os instrumentos possíveis para alcançar este equilíbrio. Ou seja, um partido social-democrata nem endeusa a iniciativa privada nem diaboliza o setor público. Antes, promove uma economia de mercado regulada e moderniza a administração pública com novas ferramentas de gestão. Mais, um partido social-democrata defende causas sociais como a igualdade de género, o envelhecimento ativo, o combate à violência doméstica, entre muitas outras áreas excluídas do léxico do PSD nos últimos anos. Pelo que a primeira iniciativa de um novo PSD é refundar-se na sua matriz social-democrata, captando os eleitores moderados que se situam ao centro do espectro político e que não se reveem em políticas de pendor neoliberal.

convidados

Da cultura ao desporto. Todos à volta de Manuel Sérgio

Entre hoje e amanhã, na Fundação Calouste Gulbenkian e na sala do Senado da Assembleia da República, terá lugar o Colóquio Internacional Professor Manuel Sérgio: Obra e Pensamento. Durante dois dias haverá uma justa homenagem do Estado português a esta figura e teremos oportunidade de ouvir um conjunto de personalidades ligadas ao desporto, à política e à cultura, desde Guilherme d"Oliveira Martins, Miguel Real, Eduardo Franco, Edite Estrela, Francisco Louça, João Paulo Rebelo, Tiago Rodrigues, Gustavo Pires, Vítor Serpa, Jorge Jesus, Rui Vitória, Luís Filipe Vieira, Pinto da Costa, e tantos outros. Entidades como o IPDJ, Câmara de Lisboa, SEJD, CLEPUL, PNED, clubes estarão à volta de Manuel Sérgio. É difícil encontrar alguém que consiga congregar à sua volta tantas personalidades de quadrantes e sensibilidades tão distintas. A razão é muito simples: Manuel Sérgio continua a marcar a cultura e o desporto português, bem como o desporto além-fronteiras. Manuel Sérgio é sem dúvida a pessoa viva que mais pensou e pensa o desporto, com mais de 50 livros publicados e uma escrita lúcida e justificada. Levou o pensamento ao desporto através da sua teoria da motricidade humana, colocando o atleta/homem no centro do pensamento desportivo, afirmando "não há chutos mas homens que chutam!". Fez como ninguém a ponte entre a cultura e o desporto, colocando este último no âmbito das ciências humanas e fazendo um corte epistemológico com o dualismo cartesiano. Inspirado por Edgar Morin, Merleau Ponty, Karl Popper, M. Foucault, influenciou a nossa nata de treinadores, como Mourinho, Peseiro, Rui Vitória, Jorge Jesus, Couceiro, discípulos de um pensamento e de uma ação com valores. Afinal, o caminho para transcendência não é mais do que a realização do homem todo em movimento intencional, aqui e agora, deixando o mundo um pouco melhor. Numa altura em que se fala tanto de arbitragens, violência e lances duvidosos, nada melhor do que voltarmos ao pensamento de Manuel Sérgio: só há desporto com valores! Ajudar a que o desporto cumpra esta missão será sem dúvida a nossa melhor homenagem a Manuel Sérgio.

convidados

A rejeição da democracia

A eleição de Donald Trump desencadeou uma verdadeira enxurrada de manifestações de surpresa, pesar, medo, o que se percebe porque ele é bombástico e imprevisível. Têm-se escrito milhares de linhas sobre o assunto e escutado milhares de opiniões. Surgiram previsões catastrofistas e iniciativas anti-Trump: cartas abertas a afirmar que o mundo o rejeita; petições para que resigne ao cargo; e, claro, agitação nas ruas. Nos últimos dias têm-se sucedido, em várias cidades dos Estados Unidos, manifestações alimentadas sobretudo por gente jovem que sai de casa e do campus universitário para se insurgir mais ou menos violentamente contra o que resultou das urnas eleitorais. Em Portland, por exemplo, a manifestação descambou em confrontos físicos, destruição de carros, montras partidas. A polícia considerou que estava perante um motim e agiu em conformidade. Acabo de ver na televisão uma jovem manifestante explicar, muito compenetrada, que estava ali a manifestar-se (violentamente) contra Trump, um tipo perigoso porque incita à... violência. Confusões e incoerências de gente que perde o norte e o nexo no calor da militância e da luta. Nada de novo nem de preocupante.

Alexandre Palma

Cohen teólogo

Leonard Cohen foi um grande teólogo deste tempo. Afirmá-lo não é a cedência fácil à comoção da sua partida. Reconhecê-lo é, antes, sublinhar um dos traços que fizeram dele, como bem anotava o seu epitáfio no Twitter, um "visionário" na música contemporânea. E não é um lapso que o considere precisamente teólogo. Porque a religiosidade da sua música vai muito para lá das referências bíblicas, espirituais e transconfessionais com que se tece a sua lírica. Porque o eco de Deus na sua obra afina-se com esse diálogo, mas nasce antes e vai mais longe. Nasce de uma inquietude perante a vida que não se sabe dizer sem Deus. E chega à hipótese de um divino ferido, amigo, portanto, do percurso acidentado de Cohen e também de todos os que têm de lutar para crer. Dir-se-ia que a gravidade do seu timbre foi feita para a gravidade do que ele canta. O casamento nele entre voz e palavra não poderia ter sido mais indissolúvel e fecundo.