Conversas de Bancada

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A arte da desconfiança

Sérgio Conceição voltou a mostrar que está muito bem ligado à realidade quando, após a vitória do FC Porto no Estoril, a meio da semana, desvalorizou os cinco pontos que a sua equipa passou a ter de vantagem sobre os perseguidores e enalteceu a necessidade de desconfiar. Ganhar, no desporto de alta competição, passa sempre por desconfiar, por mais que os adeptos incondicionais olhem sempre para a desconfiança alheia como se de um ataque se tratasse e estejam prontos a soltar os cães a quem desconfia dos seus heróis. O treinador portista, que no decurso deste campeonato criou uma expressão exemplar, que é a "pressão boa", sempre foi desconfiado - às vezes até demais - e sabe, por isso, que mais do que desconfiar, é preciso fazê-lo na altura certa. Porque depois há alturas em que a confiança é fundamental.

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As equipas B e o futebol português

Há uma contradição insanável na argumentação dos que querem reduzir o contingente de equipas B autorizadas a participar na II Liga do futebol nacional ou até, mais radical, acabar com elas. Claro que é sempre possível encontrar formas de melhorar o enquadramento competitivo de todo o edifício do futebol nacional, mas de uma coisa tenho a certeza: a inclusão das equipas B na II Liga foi a melhor medida tomada no futebol em Portugal nos últimos dez anos. Tirá-las de lá pode satisfazer clientelas, mas nunca melhorará as coisas.

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Para quem foi melhor o derby

Há toda uma desconstrução semântica a fazer na frase que Jorge Jesus mais vezes repetiu no final do dérbi de quarta-feira. "Não é preciso ir à China! Este resultado é pior para o Benfica do que para o Sporting." Rui Vitória, depois, foi mais prudente. Primeiro porque à exceção do monte de avançados que manda para dentro do campo sempre que o resultado não lhe agrada, é sempre mais prudente, sobretudo no discurso. Depois porque quis ali invocar as energias positivas provocadas pela conjugação da superioridade mostrada pela sua equipa em campo com o golo tardio de Jonas, que só lhe valeu um empate. É que, como bem se percebe pela reação unida do FC Porto ao episódio de Santa Maria da Feira, há sempre algo de bom a retirar do que não correu bem, seja um resultado como o empate da Luz, uma classificação como o terceiro lugar do Benfica ou apenas um aspeto isolado de um jogo, como a expulsão de Felipe e a revolta com Fábio Veríssimo.

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Estes tempos de hoje são terríveis

Ontem de manhã, no carro, a caminho do mercado, ouvi parte da reposição de uma entrevista radiofónica [de Inês Meneses, na Radar] a Daniel Sampaio, em que o psiquiatra falava dos riscos de diabolização da internet na educação das crianças, da mesma forma como há uns anos se diabolizava a televisão. Não ouvi a entrevista até ao fim, mas como pai tenho opinião formada sobre o assunto. O que importa não é diabolizar, é ocupar. O que importa não é proibir, mas sim preencher. E o mais extraordinário é que isto é válido para a educação dos nossos filhos como é para as suspeitas de corrupção no futebol português: o que importa não é diabolizar o jogo online, não é proibi-lo ou limitá-lo à espécie de oligopólio que o explora, é compreendê-lo e regulá-lo de forma a que todos possam ganhar.

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Agarrem-me ou eu desfaço-o!

Ouvem-se Sérgio Conceição e Rui Vitória no final do segundo clássico da época - segundo empate a zero, por sinal - e apetece fazer-lhes perguntas. E não é só no que a futebol diz respeito. O antagonismo começa no modo como ambos olham para o comportamento dos neutrais, sejam eles o árbitro - que no dizer dos treinadores conseguiu prejudicar gravemente as duas equipas - ou os jornalistas, que Sérgio Conceição afirma serem demasiado “simpáticos” para o Benfica e Rui Vitória acusa de lhe quererem “fechar a tampa do caixão”. O nível de agressividade (felizmente) não concretizada faz lembrar o tipo trôpego e pequenino que, face a um gigante musculado, pede aos amigos: “Agarrem-me, senão eu desfaço-o!” E o melhor é mesmo agarrarem-nos, ainda que neste momento nem árbitros nem jornalistas sejam gigantes musculados. Porque se ninguém os agarrar, se eles entram na dança também, alguém vai mesmo ser desfeito por algum energúmeno que se mostre mais eficaz do que aquele que entrou anteontem no relvado pelas costas do banco do Benfica.

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O Rio Ave como teste do algodão

Anda a metade do país futebolístico que gosta de falar de futebol - mesmo - entretida com a proposta de jogo do Rio Ave, mas tão ou mais interessante do que debater a filosofia da equipa de Miguel Cardoso é ver como os vilacondenses foram capazes de condicionar o jogo dos três candidatos ao título. Porque ao colocar a Benfica, FC Porto e Sporting problemas que eles raramente encontram na Liga, o Rio Ave pode funcionar como uma espécie de teste do algodão, que vem confirmar a força da candidatura da equipa de Sérgio Conceição, a única capaz de impedir o Rio Ave de jogar o seu futebol.

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Por que é que Santos acha que podemos ganhar o Mundial

Tive a oportunidade de fazer, para o Bancada.pt, a primeira entrevista a Fernando Santos depois de Portugal ter conseguido a qualificação para o Mundial. E o selecionador que me apareceu à frente era um homem não apenas solto como incrivelmente confiante. É verdade que muito do que Santos disse pode ser entendido como parte de uma estratégia de comunicação, até para dentro do balneário, mas houve uma frase que me fez pensar: "Neste momento, ninguém quer defrontar Portugal", disse Fernando Santos. E há uma probabilidade elevada de andar muito próxima da realidade, porque, como também me disse o selecionador, "é muito difícil ganhar à seleção portuguesa".

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Basistas e demagogos em dois jogos

Feirense e Portimonense portaram-se muito bem nos jogos com Sporting e Benfica, a contar para a quinta jornada da Liga (escrevo ainda antes do FC Porto-Chaves) e essa circunstância foi e voltará a ser aproveitada para ridicularizar os que apontam o dedo à desigualdade na distribuição da receita para falar de perda de competitividade do futebol em Portugal. Na verdade, quem o faz está a ser tão ou mais demagogo do que foi Manuel Machado quando levantou a lebre, depois de ter visto o seu Moreirense ser atropelado pelo FC Porto. Porque aqui há dois planos de realidade: a distribuição da receita devia ser mais justa, mas dentro das injustiças há quem trabalhe melhor e quem trabalhe pior.

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Acerca do VAR e de outras coisas

Acabei a crónica do Sporting-Vitória de Setúbal, fiz o push para que aqueles que as subscrevem possam receber as notificações, a partilha nas páginas de Facebook e de Twitter, e dirigi-me à máquina de café em busca de alento para os dois textos que ainda tinha de escrever naquela noite. Quando voltei ao computador, dois minutos depois, deixei que o sentimento de culpa pelo abandono a que por vezes voto os meus seguidores tomasse conta de mim e, vendo que já tinha 14 comentários, fui ver o que diziam. Eram todos, repito, todos, sem exceção, acerca do mesmo assunto. "Então mas este [inserir aqui insulto à escolha] não escreve que não foi penálti?" Outros, mais elaborados mas muito mal informados, iam mais longe e, ignorando que em lances de pura subjetividade, como o que protagonizaram Nuno Pinto e Bas Dost, o VAR não pode intervir, perguntavam: "É para isto que serve o videoárbitro?"

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A paciência e os chineses

Tive há dias oportunidade de conversar longamente acerca da indústria do futebol com Pedro Proença, presidente da Liga Portugal - o resultado da conversa é uma entrevista publicada hoje em bancada.pt -, a propósito do início do campeonato, que esta tarde arranca com o Desp. Aves--Sporting. O momento é de preocupação global, face à louca escalada dos valores que o futebol continua a movimentar, e de que o caso-Neymar foi apenas o exemplo mais recente, tendo até levado a UEFA a uma ofensiva de relações públicas que chegou aos principais jornais desportivos europeus, mas o Pedro Proença que vi foi um homem estranhamente tranquilo e paciente, qualidades que podem facilmente ser confundíveis com desistência. Os dois anos que tem de experiência do lugar tê-lo-ão trazido até aqui, mas o que tem pela frente nos dois anos que lhe falta cumprir de mandato, até 2019, é tão difícil e exige tanto do patrão do futebol nacional que esta tentativa de mudar o sistema por dentro fica a parecer curta e corre risco de ser tão estéril como a luta de um Quixote contra os moinhos de vento.

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O que leva Santos da Rússia

A Taça das Confederações é um pouco aquilo que se quiser. Com as costas protegidas, Joachim Löw quis dar férias aos titulares e trazer uma segunda equipa. Escaldado pela crítica, que olha para ele como o primo feio de Sampaoli, Juan Antonio Pizzi quis ganhá-la e mete em cada jogo toda a combatividade do futebol sul-americano, ameaçando levar toda a gente aos limites da exaustão. Os dois vão jogar a final hoje. Antes, como se fossem um prato de amendoins torrados, aparecem portugueses e mexicanos, que ficaram ali um pouco a meio caminho. O que levam daqui? Um grupo "mais consolidado", como disse Fernando Santos? Sim. Mas o futebol é o momento e a partir de agosto há que desconstruí-lo de novo.

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Três meses definidores: o Benfica

O facto de ter conquistado os últimos quatro campeonatos nacionais e de ter terminado a época com uma dinâmica de vitória superior até à da época passada deixa, à partida, o Benfica na pole position para a Liga que aí vem. Como, apesar de práticas recentes poderem indiciá-lo, Luís Filipe Vieira já veio dizer que não tenciona mudar de treinador nem de paradigma, ao Benfica resta sobretudo não estragar o que tem feito até aqui, acertando o mais possível nas inevitáveis substituições de jogadores a que o mercado vai obrigá-lo. Mesmo que, como pode acontecer neste ano, se veja forçado a substituir muita gente num mesmo setor tão fundamental como é o defensivo.