congresso do PS

Opinião

Filhos de Kant, mas sobretudo de Hegel

Na passada semana, neste jornal, Augusto Santos Silva escreveu um artigo em que situava a esquerda democrática, família política a que pertence o PS, numa alegada "fratura crucial da modernidade". Nessa contenda, Kant seria o liberal, Hegel o totalitário, e Augusto Santos Silva não tem dúvidas de que lado está o PS - do lado de Kant, contra Hegel. Parece-me isto um erro. É verdade que é um erro muito comum, e é verdade que é um erro com pedigree, pois assenta (segundo me parece) na interpretação que vários autores liberais fazem da obra de Hegel. Mas é sobretudo um erro - um erro na interpretação de Hegel, mas também um erro político. Não há dúvida de que o PS deve repudiar o totalitarismo, mas a oposição liberalismo-totalitarismo é um quadro analítico que foi criado por adversários da sua família política e que pretende desqualificar toda a tradição filosófica emancipatória do século XIX, aquela tradição sem a qual a história da família política a que pertence o PS e o projeto emancipatório que a caracteriza se tornam ininteligíveis.

Opinião

Um congresso e uma não questão

Sabemos como é difícil a um partido no poder conseguir animar um congresso não eletivo. O problema agrava-se se, como é o caso, a economia e as finanças públicas não estiverem a dar más notícias e, sobretudo, quando há uns quantos escândalos que não podem ocupar demasiado palco - Sócrates, Pinho ou Pedro Siza Vieira. Como resolver o problema? Encontra-se uma causa fraturante? Estão quase esgotadas. Avança-se para um debate ideológico sobre o posicionamento do partido? Parece que o PS achou alguma piada a esta última solução.