Cláudia Ninhos

Cláudia Ninhos

Aristides

Não podia eu fazer diferenças de nacionalidades, visto obedecer a razões de humanidade que não distinguem raças nem nacionalidade." Aristides de Sousa Mendes tinha 54 anos de idade quando escreveu estas palavras e uma já longa carreira como cônsul, durante a qual passou por diferentes continentes. Em 1938, quando foi nomeado para o Consulado de Bordéus, não podia imaginar que seria confrontado com o turbilhão de uma nova guerra mundial, apesar de o expansionismo nazi ser já imparável. A guerra deflagrou em setembro de 1939, depois da invasão da Polónia, mas foi na primavera de 1940, com a invasão da Europa Ocidental, que o conflito sofreu uma viragem decisiva. Fugindo à frente do exército alemão, milhares de pessoas tentavam desesperadamente deixar os países ocupados. Muitos eram judeus, vítimas de uma intensa perseguição racial. Pessoas de todas as nacionalidades fugiam de comboio, de carro, de bicicleta ou a pé. A saída abrupta do governo e das autoridades civis e militares francesas ajudou a gerar um clima de pânico coletivo. Não conseguimos imaginar o drama vivido por aquelas pessoas, mas o primeiro secretário da Legação de Portugal em França, José de Bívar Brandeiro, deixou-nos um testemunho pungente da "atmosfera de terror", com "três milhões de pessoas de Paris e dos arredores precipitaram-se nas estradas, arrastando tudo o que podiam levar e deixando abandonadas as suas casas e as suas terras". Era este o ambiente que se vivia em França quando Aristides de Sousa Mendes decidiu desobedecer às ordens do Estado Novo. Aliás, já o tinha feito esporadicamente desde que a Circular n.º 14 fora emitida, mas em junho foi ainda mais longe e decidiu conceder vistos a todos os que dele necessitassem. Fausto Navarro, cônsul de Espanha em Hendaia, escreveu na época que, naquela cidade, Aristides "dava os vistos sem nenhuma formalidade, umas vezes sem selo do consulado, outras redigidos em francês, muitos no seu próprio carro, fora da sua demarcação, na estação, na própria fronteira". As ordens contidas nas várias circulares que o Ministério dos Negócios Estrangeiros emitiu procuravam limitar a entrada de refugiados em Portugal, sobretudo àqueles considerados "indesejáveis", como os judeus, os russos ou os apátridas. Armando Lopo Simeão, que Lisboa enviou à fronteira franco-espanhola em junho para avaliar e reportar o que se passava, falava numa "massa ignóbil e em grande parte indesejável sob o ponto de vista social" e referiu-se ao gesto de Aristides como um "ato de loucura". O embaixador de Portugal em Madrid, Pedro Teotónio Pereira, que também se dirigiu à fronteira nessa altura, descreveu o cônsul como um "homem perturbado e fora do seu estado normal", que "havia perdido o uso da razão".