Catarina Pires

Catarina Pires

Niksen, nicles, népia ou a liberdade que há no vazio

Há dias li na Time um artigo sobre niksen, que, diz a revista norte-americana, é uma nova tendência holandesa que advoga que fazer nada faz bem ao corpo e à mente, diminui o stress e a ansiedade e reforça o sistema imunitário. Eh pá, a sério? Quem diria? A única novidade é ter virado "nova tendência", para mais holandesa, e ter ganho um nome que, como o hygge e o lykke dinamarquês, o lagom sueco ou o sisu finlandês, nos é estranho, vem do norte da Europa, dá pequenos livros bonitos e a receita para a felicidade: tempo, paz e sossego. Os nórdicos têm mau tempo (meteorológico), mas a organização social e laboral que alcançaram permite-lhes uma gestão mais humana e proveitosa do tempo (cronológico). A sul, onde o dolce far niente é aspiração antiga, o tempo (do dia e da vida) é quase todo dedicado ao trabalho. Queremos ter tempos vazios para fazer nada, nicles, népia, mas não há meio. Talvez depois dos 66 e é com sorte. Paul Lafargue, genro de Karl Marx, escreveu em 1880 O Direito à Preguiça, em que defendia que as máquinas e a evolução tecnológica resultantes da Revolução Industrial deveriam ser usadas para libertar o homem do trabalho embrutecedor. Nesse pequeno livro, em que glorifica o dolce far niente como tempo de elevação e evolução intelectual e deplora o tempo exagerado dedicado ao trabalho, apresenta como um dos argumentos para a sua tese a maior saúde física e mental e até beleza daqueles que pela sua condição social (nobreza e aristocracia) podiam dedicar-se à ociosidade. Precursor do niksen, já falava das vantagens para a saúde de não fazer nada. Olhamos para a inteligência artificial como uma ameaça aos postos de trabalho dos humanos, mas se quem manda quisesse (é claro que não quer) poderia apenas libertar-nos mais para fazermos nada. Ou fazermos o que quisermos com o tempo vazio.

avante!

Um dia na Festa: "Talvez o meu pai tenha razão e eu tenha ido bebé de colo"

Ontem, Jerónimo de Sousa declarou aberta a 42.ª edição da Festa do Avante!, depois de agradecer, como de costume, aos construtores da festa, camaradas e amigos, que, com o seu trabalho militante e voluntário, a ergueram, para desfrute de todos nós, os visitantes. "Mais ninguém te faz festas com esta", lê-se numa t-shirt à venda no stand do Porto. E é bem capaz de ser verdade.