Catarina Carvalho

Catarina Carvalho

E o vírus chegou e disse: vão para casa pensar na vida!

A mão na mão. A mão mais jovem a apertar a mão engelhada. Do início ao final dos dedos, do início ao final dos dedos, outra vez, numa massagem a imitar a respiração, como um prender à vida. A mulher deitada, quase desacordada na cama do hospital de Huesca. Olhos encovados. Mas a mulher de pé tem um sorriso que se vê por detrás da máscara. Está junto da mãe, Encarnação - como se houvesse nome melhor para alguém que, aos 101 anos, resistiu ao covid-19. A filha, contente, junto da sua velha resistente e curada, nas imagens da televisão espanhola.

Catarina Carvalho

Silêncio, medo e... os trabalhos de casa

Estamos a viver uma situação excecional, também para professores e escolas. Talvez por isso, demonstrando alguma desconexão com a realidade, muitos professores - não todos, claro, nem da mesma forma -, mal viram os alunos em casa, desataram a pedir trabalhos, fichas, a marcar conferências. Como uma estranha prova de vida, ou de trabalho. Como se a vida corresse normalmente, só que em casa - e não estivéssemos na maior crise de sempre.

Catarina Carvalho

Os partidos estão partidos para sempre?

O PSD dilacerado por uma luta interna que as últimas eleições não sanaram - havemos de ter notícia disto em breve, é garantido. O CDS a ver atingir a liderança uma fação que em nada se reconhece na anterior, e em que a anterior nada se reconhece. O Livre a retirar a confiança política à sua única deputada - porque ela foi independente e não respeitou as indicações do partido. A Iniciativa Liberal a trocar de liderança depois de um resultado diferente do que ela indicava, nas eleições.

Catarina Carvalho

Clima: mais um governo para pôr a cabeça na areia

Poderá o mundo comportar Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Erdogan na Turquia e Boris no Reino Unido? Sendo esta a semana do facto consumado do Brexit e coincidindo com a conferência do clima da ONU, vale a pena perguntarmos isto mesmo. E nem só por razões socioideológicas e políticas. Ou sobretudo não por estas razões. Por razões simples de simples sobrevivência do nosso planeta a que chamamos Terra - porque é isso que é fundamentalmente: a nossa terra. Todos estes líderes são mais ou menos populistas, todos basearam as suas campanhas e posteriores eleições numa visão do mundo completamente conservadora - e, até, retrógrada - do ponto de vista ambiental. E embora isso seja facilmente explicável pelas razões que os levaram à popularidade, é uma das facetas mais perigosas da sua chegada ao poder. Vem tudo no mesmo sentido: a proteção de quem se sente frágil, num mundo irreconhecível, em acelerada e complexa mudança, tempos de um paradigma digital que liberta tarefas braçais, em que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, em que os jovens podem saber mais do que os mais velhos... e em que nem na meteorologia podemos confiar.

Catarina Carvalho

Um dia de silêncio para falar de campanha

Hoje é um dia de inferno para os meios de comunicação social. Ninguém pode falar da coisa mais importante sobre a qual tem de se falar - e isso é o contrassenso do jornalismo. É como o elefante no meio da sala. Hoje é dia de reflexão para as eleições de amanhã. Ora, as eleições de amanhã são o assunto a tratar, hoje. Mas não. Não se pode apelar ao voto, fazer campanha é punido com multas, e isso inclui qualquer artigo ou peça jornalística que se considere enquadrar nessa categoria pelas autoridades competentes, seja a Entidade Reguladora para a Comunicação Social ou a Comissão Nacional de Eleições. Há países onde acontece o mesmo - Itália, Espanha, França -, há países onde a campanha vai até à boca das urnas, como nos Estados Unidos. E as opiniões dividem-se sobre a utilidade e as consequências de ambos os modelos.

Catarina Carvalho

A rentrée mais aborrecida de sempre?

Como uma peça de teatro onde cada um sabe bem o seu papel, corre sem sobressaltos esta rentrée política que é a antecâmara de uma campanha eleitoral. Sem sobressaltos no sentido do que se esperava - que já é um tanto ou quanto inusitado. O que se passa é que o partido do governo não demonstra nenhum desgaste - e tem conseguido, sem oposição, traçar o caminho e, até, condicionar a narrativa. Fala, não falando - ou talvez seja ao contrário, não falando, fala - em maioria. Desguarnecido à direita, ataca a esquerda, os seus ex-companheiros e agora último obstáculo a essa maioria.

Catarina Carvalho

Uma crónica bairrista na Costa da Caparica

É certo que o verão tem estado fresco... Confesso que parece estranho começar uma crónica num jornal sério assim, para os cânones do jornalismo cá do burgo, mas talvez seja esse um dos problemas do jornalismo cá do burgo, o de viver numa bolha, longe do que interessa de facto, e sem falar para pessoas comuns - e aí estão os números dos artigos mais lidos online para o confirmar.