Catarina Carvalho

Catarina Carvalho

Pode a clubite tramar um hacker?

O hacker português é provavelmente uma história à portuguesa. Rapaz esperto, licenciado em História e especialista em informática, provavelmente coca-bichinhos, tudo indica, toupeira da internet, fã de futebol, terá descoberto que todos os estes interesses davam uma mistura explosiva, quando combinados. Pôs-se a investigar sites, e-mails de fundos de jogadores, de jogadores, de clubes de jogadores, de agentes de jogadores e de muitas entidades ligadas a esse estranho e grande mundo do futebol.

Catarina Carvalho

Podemos entrevistar quem quisermos?

Numa das suas edições de novembro do ano passado o programa da manhã do canal americano Fox, Fox & Friends (Fox e Amigos), teve como convidado um especialista em ambiente que disse, com ar sério, num cenário sério e azul, o seguinte: "Os combustíveis fósseis, de facto, melhoram o ambiente." E continuou por ali fora a negar o aquecimento global e com a concordância do apresentador do programa, Brian Kilmeade. A ida deste especialista ao programa da Fox era uma resposta a um tweet do democrata - e possível candidato - Bernie Sanders sobre os efeitos terríveis da mudança de clima. "Isto é tonto", contrapôs Morano. O apresentador concordou. Este é o ponto a que chegaram os programas da manhã nos Estados Unidos - imiscuíram-se na luta política, tomaram posição, e hoje são pró e contra Trump. Mas numa coisa o programa da manhã da Fox é igual aos programas da manhã no mundo inteiro: uma mescla perigosa entre jornalismo e entretenimento. Os que o apresentam não são jornalistas, mas parecem. As opiniões são dadas sem pejo, mas inspiram-se em factos e reportagens reais. As informações sobre o tempo que faz e as receitas de culinária são intercaladas por notícias sobre os "perigos da imigração". Donald Trump sabe bem do poder da televisão no seu duplo papel de fã e personagem. E, ao usá-la, não o fez através do jornalismo televisivo (que tem um ética profissional) - mas através destes programas de televisão que, além de lhe serem favoráveis, por não serem considerados informação eram permeáveis a entorses opinativas. Isso começou na campanha - com Trump a tuitar em direto sobre temas que o programa Fox & Friends acompanhava - e continuou presidência fora. A coisa é de tal forma gritante que o Fox & Friends é hoje um dos braços armados de Trump junto da classe média suburbana. Mas sendo estes programas que acabam por ser vistos por toda a gente, nem que seja na TV da cozinha, antes de ir trabalhar, percebe-se bem o poder que têm. Quem só reparou nisso agora, com o escândalo de Mário Machado ter ido ao programa da manhã de Manuel Luís Goucha, tem andado muito desatento. Pouco importa se é informação ou é entretenimento, ou aliás por causa disso mesmo, é provável que estes programas moldem mais mentalidades do que todos os telejornais juntos. É por isso que não vale muito a pena escudarmo-nos em questões menores, se aquilo é ou não é jornalismo e se o que aconteceu pode ser punido por leis e entidades reguladoras. Há muito que nos devíamos ter habituado a que quem recebe a informação recebe-a de igual forma - sobretudo por causa da homogeneização a que conduziram as redes sociais. Agora, se parece, é. Essa consciência seria suficiente para despertar a responsabilidade e a ética. Dos que fazem infoentretenimento, evidentemente: deviam saber que nada do que fazem é anódino, muito menos uma rubrica em que entrevistam um neonazi. Mas, por tabela, também dos que fazem jornalismo e tantas vezes o apresentam como entretenimento - em programas com estética de show e retórica popular. O problema dos programas de infoteinment, informação e entretenimento não é só deles. O jornalismo deixou, e para seu mal, de marcar essa diferença clara. As narrativas confundem-se, por vezes roçando a opinião, por vezes roçando a telenovela e o espetáculo. Este é, aliás, um bom momento para pesarmos no que andamos todos a fazer com o poder que temos, sobretudo quando esse poder é tão elástico e subjetivo como o de comunicar e transmitir mensagens e ideias.

Catarina Carvalho

Uma relação antiga sempre renovada

Ninguém visita a China e fica indiferente - o que acontece também, naturalmente, a quem o faz como jornalista. Há um sopro de novo mundo neste velhíssimo mundo, uma noção de que tudo é possível, com esforço e vontade. Não são só os arranha-céus de Xangai - é a força, a rapidez e a energia das ruas desconhecidas de cidades das províncias, por vezes megalópoles. É assim hoje, e tem sido assim já nas últimas décadas. Conheci-a no início deste século XXI, quando a Europa dava sinais de cansaço e estava em pré-crise. Nesses anos, visitei a faixa industrializada do sudeste chinês, sobretudo Zhejiang. Essa era a zona de onde nos chegavam os milhares de imigrantes chineses que abriam lojas e armazéns em Portugal - de Porto Alto a Vila do Conde.

Catarina Carvalho

Quanto vale uma vida em Borba

Quanto vale uma vida perdida numa estrada de Borba? Mesmo os não jornalistas conhecem aquela regra dos mortos por quilómetro, a que diz que um morto na cidade do leitor vale mais do que 2000 a muitos de distância. Mas, como em tudo no jornalismo e na vida, também nesta regra... depende. Acompanhámos com fervor a árdua retirada da gruta dos jovens tailandeses do outro lado do mundo, a 11 mil quilómetros de distância. E, nesta semana, percebemos que cinco mortes em Borba valem pouco - sobretudo para os que mais perto delas estavam.

Catarina Carvalho

O populismo na campanha Marques Vidal

Há uma esperança: não teve efeito na opinião pública a polémica da escolha do novo procurador-geral da República. É, pelo menos, isso que dizem os estudos de opinião - o número dos que achavam que Joana Marques Vidal devia continuar PGR permaneceu inalterável entre o início do ano e estas últimas semanas. Isto retirando o facto, já de si notável, de que haja sondagens sobre este assunto.

Catarina Carvalho

E se Trump diz alto o que muitos pensam calados?

O mundo é um lugar mais estranho, mais perigoso e mais complexo visto de um congresso de jornalistas em Austin, no Texas - onde estou por estes dias. Sobretudo na semana em que Bob Woodward editou o livro sobre a administração Trump, um relato da loucura que se vive na Casa Branca a que o autor chamou, sem pejo, Fear, Medo. E na ressaca da publicação pelo The New York Times do artigo anónimo de dentro da própria administração, em que o funcionário que o escreveu relatava um "estado de sítio".