Bonsai

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É a política, estúpido!

Luís Montenegro, Hugo Lopes Soares, Carlos Abreu Amorim, Miguel Santos, Amadeu Albergaria, Adão Silva, Luís Leite Ramos, Miguel Morgado, Berta Cabral, António Leitão Amaro, Sérgio Azevedo e Nuno Serra - são estes, em princípio, os nomes dos deputados que escreveram um texto de extrema violência, no domingo passado, a que chamaram de "resposta ao diretor de informação da TVI". Escrevo em princípio porque, apesar de se terem recusado a assumir nominalmente a carta dirigida ao DN, nem me passa pela cabeça que, pelo conteúdo e sobretudo pela forma, aquela prosa não seja subscrita por todos e cada um daqueles que compõem a direção do Grupo Parlamentar do PSD.

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Os formidáveis dias que terrivelmente vivemos...

É ténue a linha que separa a aventura do aventureirismo, os feitos extraordinários das ruturas históricas e tremendas, o salto do sobressalto, o princípio do fim, os fins dos meios, a construção da desconstrução. A velha metáfora do meio copo cheio ou da outra metade que já está vazia. O saudoso Ernâni Lopes definia os otimistas como pessimistas mal informados. É a linha vermelha que se inventou para separar o aceitável do intolerável, a mesma linha que é tantas vezes pisada por frágeis intransigentes. A minha idade é suficiente para ter vivido, já como jornalista, a queda do muro de Berlim, antes a revolução de veludo na Checoslováquia, depois a queda do Império soviético, o apocalipse anunciado das fronteiras de África, as mesmas fronteiras que afinal rebentaram na Velha Europa, a devastação da guerra nos Balcãs. E a Europa que se fez por impulso de Kohl e Mitterrand. Que se ergueu numa moeda, atraiu as novas democracias de Leste, que entretanto alargava e deslassava, que passou simultaneamente a atrair e expelir. A vertigem destes dias convoca-nos para estes tempos binários, de tudo ou nada, do vai ou racha, do toque a despertar ou do toque de finados. A Grã-Bretanha gritou contra a "Europa dos funcionários" e assustou espanhóis, que arrepiaram caminho e recentraram os votos num PP atolado em escândalos de corrupção e num PSOE que não merece sair da oposição. O Brexit afastou nuestros hermanos do experimentalismo. Oposição, corrupção, centrão - tudo é preferível à incerteza e a nova crise profunda na União. Fraco consolo, vitória do medo, desistência de um projeto - copo meio vazio. A Europa não tem solução. Reação, até britânicos receiam consequências, despertar coletivo - copo meio cheio. Oito anos de crise depois, o impulso de antes. Nem oito, nem oitenta. A Europa connosco, não estamos nós nesta Europa com eles. Reino Unido, Espanha unida, as cinco questões que um referendo radical e umas eleições defensivas nos deixam em aberto. 1. Vão nascer novos países? O rastilho do separatismo está aceso. A extraordinária primeira-ministra da Escócia deu o mote certo: nada contra o referendo dos britânicos, apenas querem permanecer na União Europeia. Morte certa: o Reino Unido vai encolher por ali, sem se saber o que acontecerá por lá, pelo Norte irlandês, que fica entre um país que continua a pertencer (a Irlanda propriamente dita) e outro que decidiu sair. A Catalunha, que já sufragou a independência contra a própria Constituição, sofre o primeiro embate do refluxo: a esquerda e a direita constitucionalista reforçam posições, Podemos e Comunistas ficam bloqueados, nacionalistas pouco mais que irrelevantes. Como o Syriza foi a vacina que acabou por fortalecer a austeridade na Europa, o Brexit pode ser o antídoto contra as independências. Dos outros, porque sobre as "suas" logo se verá. 2. Como fica o Reino Unido que sai? Dividido. Socialmente, este referendo revelou dois países. O Leave é o Reino Unido dos mais velhos, dos mais conservadores e dos menos letrados. Por idades: da população entre os 18 e 24 anos, 71% votou pela permanência; com mais de 65 anos, dois terços votaram "sair". Por níveis de escolaridade: com ensino superior, 68% queriam manter-se na EU; abaixo do secundário, 70% da população quis abandonar. Por partidos: 61% dos conservadores Leave; enquanto pouco mais de um terço dos trabalhistas votou Brexit. Londres queria ficar, o exit foi sobretudo rural. A elite política reconfigurada: primeiro-ministro sai pelo seu pé, líder trabalhista sairá ao empurrão. 3. Como reage a União? Firmeza não significa solidez. À manifestação da vontade democrática do povo britânico, reagiram os autocratas, burocratas e eurocratas com sinais de determinação: Go Home! E já. Aplauso de funcionários e jornalistas. Os mesmos que estão a tratar de congelar fundos estruturais a Espanha e Portugal. E os outros tais que irão voltar a noticiar o duplo critério, que absolveu a também incumpridora França. Os britânicos podem ir hoje ou daqui a dois anos embora, que de Bruxelas ninguém nota: a maioria porque está cega; a minoria que vê só olha para o défice. Mesmo quando se aponta a Lua, há quem continue a olhar só para o dedo. 4. Como reage a geringonça? O pedido de referendo do Bloco de Esquerda só não foi inopinado porque o PCP decidiu colocar as coisas como elas são. Pelo menos para os comunistas: quem nos lá meteu, agora que nos tira de lá. É coerente, se não houve referendos para a adesão (primeiro) e para as várias e sucessivas etapas de integração (Ato Único, Maastricht, Tratado de Lisboa), então que seja a mesma Assembleia da República a tomar a iniciativa no regressar pelo caminho contrário. O Bloco e o PCP conseguem ter menos afinidades programáticas com o Governo de Costa do que aquelas que Portas e Passos tinham pessoal e reciprocamente entre si. A verdade é que, no centro-direita, a coisa durou quatro anos e meio. Nesta geringonça de esquerda-esquerda, não há ódios cordiais, o que não é necessariamente melhor: há dois projetos de vida que são intrinsecamente incompatíveis. 5. Qual o maior choque de espanhóis e ingleses? Aqui ninguém queria sair da Europa: um-a-dois contra a Islândia, zero-a-dois na derrota para a Itália. Exit sem êxito. Não há referendo que repare isto. A Catalunha chora duas vezes, porque até Messi abandonou a sua seleção.

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Brexit: dez perguntas e uma questão desesperada

Os ingleses são chauvinistas. São snobes e nunca foram europeístas. Os ingleses são pragmáticos. Por isso estão na Europa, por conveniência, não por convicção. A quinta maior potência militar e económica do planeta não é mais arrogante do que a sexta nem mais suave do que a quarta. Mas, por serem uma ilha, apartam-se. Não nos detestam, simplesmente pedem que os deixem em paz. O referendo da próxima semana é crítico para o futuro do Reino Unido. Se o brexit triunfar, será mais um golpe à União Europeia. Que primeiro encolhe. E será posta à prova, para um dia não desaparecer.

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Pobres que somos

1. Não é a primeira vez que a ele recorro, mas o facto é que este diálogo entre Otelo Saraiva de Carvalho e Olof Palme não ficou completamente datado no ano em que supostamente aconteceu. "O que quer Portugal com esta Revolução?", perguntou o carismático líder da social-democracia europeia da década de 1970, entretanto assassinado, como se se sabe, a Otelo. Porque era enorme a curiosidade que estava instalada em toda a Europa sobre o curso do nosso país após o derrube da ditadura pelo golpe militar de 1974. Porque Otelo estava, por isso mesmo e a convite oficial, em visita à Suécia. Porque o capitão de Abril não tinha papas na língua, terá respondido qualquer coisa assim: "Queremos acabar com os ricos." Interessante, reagiu o então primeiro-ministro sueco, "nós andamos a tentar acabar com os pobres há 20 anos e não conseguimos".

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Banco bom, Panamau

1. Quando o BES colapsou ninguém teve a coragem de usar o adjetivo, a verdade é que o Novo Banco supostamente representava a parte boa da instituição à beira da insolvência. BES bom, mas não em resultados, já que os prejuízos acumulados em 2015 atingiram quase os mil milhões de euros, mais exatamente 981 milhões. Se isto está a acontecer ao banco bom, imaginem o outro, o tóxico, o irrecuperável, aquele que se manteve simplesmente BES e foi transformado num depósito de ativos podres, coisa sem salvação.