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O esplendor do trivial

De que falamos quando nos referimos a Mário de Carvalho? Mesmo que cada um dos seus leitores ("bravos", escreve o autor) e cada uma das leitoras ("pacientes", avança) tenha pleno direito a uma caracterização autónoma, acabaremos todos por fazer escala em dois pontos fulcrais, apercebidos - e desenvolvidos em nome das experiências, as da vida e as da própria escrita - desde os já distantes, mas só no tempo, Contos da Sétima Esfera e Casos do Beco das Sardinheiras: por um lado, um minucioso observador da espécie, sempre capaz de aproximar o trivial do transcendente, de desenhar miradouros inesperados sobre o mais corriqueiro quotidiano; por outro lado, um aventureiro da palavra, fadado para subverter significados imediatos e para nos enriquecer o património vocabular, sem nunca por nunca se deixar resvalar para o academismo ou para uma qualquer voluntária armadilha que faça tropeçar quem lê.

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Sempre letras grandes

Se esta coisa de escrever sobre livros não obedecesse a algumas regras - ainda assim, menos do que as aplicadas noutras áreas -, pode o leitor ficar certo de que o espaço ocupado por esta crónica estaria hoje confinado a um rol contínuo de citações, pescadas à linha nestes trabalhos jornalísticos que Herberto Helder (1930-2015) publicou durante a sua passagem por Angola no Notícia - Semanário Ilustrado, nos anos já distantes de 1971 e 1972. Para quem lê aqui, seria só lucro e, seguramente, esse recurso assumiria o papel de uma via rápida para chegar a este livro memorável. Em sentido duplo, pelo menos: desde logo, porque é notável a forma empática, mas sem cedências "populistas", que o homem que conhecemos como poeta maior utiliza para chegar aos seus destinatários de primeira instância; depois, porque este jornalismo parece, todos os dias, afastar-se de nós mais um pouco, sujeito a códigos e interesses, a espartilhos e "normas de conduta" que só contribuem para eclipsar qualquer surpresa e quaisquer hipóteses de boa (e personalizada) escrita e de exposição de ideias fortes.

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Coisas da Vida

Por mais voltas que demos ao assunto, por mais "autonomia" e "independência" que lhes sejam outorgadas pelos autores, as personagens refletem (quase) sempre os traços da "paternidade" - ou "maternidade" - de quem as cria, permitindo-se depois viajar por mundos e situações e até ideias que, se calhar, quem lhes deu alma e voz não controla por inteiro. Há quem entenda a personagem como uma máscara, quem prefira encará-la como um prolongamento, quem arrisque a sentença de que se trata, até, de uma alternativa à segurança, nem sempre cómoda, do escritor. Mas chegam, de igual forma e felizmente, os momentos em que esses leitores do mundo, não como o conhecemos mas como o sonhamos, dispensam o intermédio das suas criaturas e vêm a terreno, olhos abertos e "peito feito", dar testemunho das respetivas observações e conjeturas. Trata-se, se utilizarmos uma contabilidade criativa, de um momento de "participação cívica" de quem, por usar a própria identidade, não fica dispensado de continuar a ter, sobre o tudo e sobre o nada, um olhar artístico, capaz de detetar a transcendência no que aos outros surge como uma banalidade.

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Livro de cheiros

Estranho mundo este, o das sensações que trazem atrás de si certezas absolutas. Com esta obra de Eka Kurniawan, escritor indonésio nascido no dia em que o seu país ganhou a certeza de que iria anexar o território de Timor-Leste por este ter declarado a independência, aconteceu--me o mesmo que sucede diante da luz de Lisboa, mais a de Paris e a do Rio de Janeiro. Cada uma delas é única, magnífica, memorizável para se tornar imediatamente reconhecível. Repete-se a mesma situação, mas apontando a outro sentido, com a música dos Smiths (verdadeiros cometas do universo pop) ou dos Rolling Stones (que vieram para ficar e, pelo andar da carruagem, acabarão a fazer transmissões de concertos a partir de um qualquer lar de idosos). E há ainda uma extensão para os filmes de Robert Altman ou para os livros do (agora famoso) Kazuo Ishiguro. Não há possibilidade aberta para a confusão ou para o erro - sabe-se imediatamente de onde vêm, cada uma ao seu jeito.

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A grande viagem dos livros

Mais uma vez, como quase sempre, os livros. Christine Féret-Fleury (n. 1961) interrompe quase uma década de silêncio literário para seguir os passos incertos e hesitantes, as transformações penosas mas irreversíveis de uma jovem mulher, Juliette, que se apresenta aos leitores como a protagonista de uma vida banal e cinzenta. Vive sozinha, não contabilizando já os desgostos de amor pelos homens que rapidamente se desinteressam dela e da companhia tímida que oferece; tem um emprego de tons cinzentos, que nem a motiva nem a impele a aperfeiçoar o papel em que uma colega parece especializar-se - o home staging, que consiste em mostrar de uma forma "encenada" uma casa aos putativos compradores, de tal forma que estes se deixem embalar pelo romantismo, pela patine, pelos pormenores realçados de um determinado apartamento, e não cheguem a reparar nos múltiplos defeitos que cabem lá dentro. Vive de rotinas, como as quatro torradas do pequeno-almoço, a refeição preparada de véspera para comer à secretária, a maçã e as bolachas de manteiga ao lanche, as tarefas domésticas concentradas no horário pós-laboral, a necessidade diária de matar uma ou duas aranhas que lhe aparecem pela canalização quando toma duche, a sessão de cinema infalível no serão de sexta-feira.

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Bate leve, fortemente

Sigamos o sentido inverso dos cânones, esclarecendo aquilo que este quarto romance do autor não é. Não é um policial, mas não dispensa os crimes, grandes e sangrentos ou pequenos e caseiros. Não é um thriller, mas inquieta-nos e empurra-nos para uma sofreguidão de leitura de um episódio para outro, todos eles curtos, uma-duas-três páginas (só por uma vez essa "regra de três" é ultrapassada). Não é uma história de amor ou desamor, mas deixa emergir o sexo, a sedução, o engate, o desgaste das relações, em doses nada avarentas. Não é uma tragédia, mas contempla - pelo menos, para não estragar a descoberta - um suicídio e várias situações próximas deste final voluntário. Não é uma obra sobre os costumes, mas convoca vícios e hábitos e rotinas para nos guiar pelos múltiplos momentos. Não é uma narrativa linear, antes um sobressalto constante, superiormente tecido por quem escreve para nos permitir ir unindo os pontos que ligam a gente que nos vai apresentando. Foi-me inevitável a recordação - à escala e à distância - de alguns dos melhores filmes de Robert Altman (citem-se O Jogador, Short Cuts - Os Americanos, Prêt-à-Porter e até Gosford Park), em que diferentes polos se vão cruzando num jogo de toca-e-foge tão lógico quanto alucinante.

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A surpresa dos comuns

Há entre os núcleos de leitores dos nossos dias uma série de perturbadoras tendências para o mergulho quantitativo - os que entendem só valer a pena abordar um livro se a respetiva lombada for possante, ampla, quase esmagadora. Como se a profundidade e o interesse fosse diretamente proporcional ao número de páginas ou de capítulos. E os que empurram a literatura para o domínio de uma qualquer fast food cultural: quanto mais curtos, melhor, para não esticarem "demasiado" a função de acompanhantes, para permitirem mais rapidamente o saltitar de um "sabor" para outro. Ensina-nos o tempo que nenhuma destas regras é incontestável ou, sequer, recomendável e que aquilo que nos fica de uma obra pouco tem que ver com o respetivo tamanho. Posto isto, fica claro que, ao referir neste livro de histórias uma dimensão "económica", de sistemática poupança, em certos momentos de uma evidente "avareza" da autora, a ideia fica adstrita ao resultado de quase todas as 19 narrativas que aqui encontramos, nunca à dimensão particular de cada uma ou do conjunto.

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À procura de um amigo

Quem acreditar em coincidências, ganha aqui direito a mais uma: a abordagem à estreia literária de Margarida Marinho acontece no momento em que o executivo britânico, conservador e chefiado por Theresa May, reconhece que o problema da solidão merece os cuidados de uma pasta governamental. À primeira vista, pode emergir a ideia de uma ligação forçada: que proximidade e relação haverá entre uma medida aparentemente dirigida aos idosos, aos que chegaram a um ponto da vida em que se sentem empurrados para o isolamento e para a ausência de afetos, e um livro inscrito no segmento do "romance jovem"? A resposta esclarecedora é do mais simples - a solidão pode ser mais visível quando cerca um escalão etário mais avançado, mas não se lhe dirige exclusivamente. O fundamento expresso do novo departamento do governo britânico abrange o flagelo da solidão em todas as idades, nomeadamente no que diz respeito aos mais novos.

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Suspense familiar

Quando descobri Samanta Schweblin, posta em destaque numa livraria da Corunha com o seu segundo livro (e segundo de contos), Pájaros en la Boca, devo confessar que a primeira atração nasceu de uma cinta que estrategicamente envolvia o pequeno volume. Dizia só isto: "Como numa película de David Lynch ou num pesadelo de Kafka." Para quem goste de desafiar os clássicos e se sinta confortável na aventura de cruzar as artes, o chamariz tornava-se irresistível; e, ao contrário do que infelizmente acontece tantas vezes, o desfecho revelou-se à altura dessa provocadora síntese. À época, Schweblin surgia como uma das mais sonoras vozes da literatura argentina, sempre capaz de nos agitar e seduzir, quase na mesma medida. Cada um dos seus contos sugeria ou, mais do que isso, desenhava uma curta-metragem capaz de conciliar uma sensação amarga de aflição e uma atração magnética impossível de combater. Cada uma das suas histórias envolvia uma dupla dimensão - entre o banal e o transcendente, entre o quotidiano e o inexplicável.

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Ele, ela e o sentido de humor

Se pudéssemos tomar estes Diários como fonte histórica, ficaríamos a saber que foi Eva quem, de forma acidental, descobriu o fogo, que se interessou por ele apenas porque era belo, antes de ganhar consciência da respetiva utilidade na vida de todos os dias, todos os longos dias no Paraíso, gastos por ela em experiências e no glorioso ato de dar nome a tudo o que via e testava. Adão, esse não mostrou qualquer emoção diante das chamas e do fumo, diante do calor que o fogo proporcionava. Também ganharíamos consciência de que a primeira função útil do fogo foi proporcionar a Eva o prazer de comer maçãs assadas e de que a criatura escolhida como primeiro animal de estimação foi o brontossauro. Mas, porventura, mais importante e significativo do que isso, teríamos de reconhecer uma enorme desvantagem do masculino face ao feminino, muito mais apaixonado, muito mais curioso, muito mais lúcido do que a "contrapartida".

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Jogo de máscaras

Continua a mostrar-se um terreno especialmente fértil para a literatura, o das obsessões. Nesta história que Adolfo Bioy Casares fez publicar em 1954, tudo roda - mesmo quando a vida parece progredir ou, pelo menos, continuar - em torno dos acontecimentos de uma noite do Carnaval portenho de 1927, varridos da memória de Emilio Gauna, o involuntário herói da narrativa, por culpa dos excessos alcoólicos desse serão de máscaras, mulheres, bebidas e boémia, favorecido por um palpite afortunado nas corridas de cavalos, que leva o homem a querer custear e partilhar com os amigos todos os excessos que lhes saiam ao caminho. Desde essa ocasião em diante, pela incapacidade de reconstituir aquilo que vivera, com diferentes incidentes e com a presença marcante de uma mulher misteriosa e mascarada que teima em reencontrar, Gauna empreende uma cruzada teimosa, quase doentia, que lhe permita lembrar-se do que realmente aconteceu.

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Valores e vontades

Direitos ao "cenário": "O professor David Dagan (...) disse a Hania que tencionava opor-se ao pedido de Yotam por três razões. A primeira, pelo princípio de que todos os rapazes e raparigas têm de trabalhar no kibutz pelo menos durante três anos após o serviço militar, e só depois podem pensar em ensino superior. De outro modo não ficaria aqui ninguém para mungir as vacas. A segunda, porque as prendas oferecidas por parentes ricos atingem profundamente o princípio da justiça; a terceira, porque é desejável que os jovens que vão estudar aprendam algo de útil para a nossa sociedade e para o kibutz. E para que precisamos nós de engenharia mecânica? Temos dois mecânicos que se ocupam da garagem e não há qualquer necessidade de lhes juntar um professor diplomado. Foi em vão que Hania procurou moderá-lo com argumentos sobre o direito natural dos jovens à realização pessoal. David Dagan riu e disse: "Realização pessoal, reação pessoal, tudo isso são passatempos, não argumentos. Dá-me por favor um instante para clarificar as ideias: ou damos todo por igual e sem exceção um dia de trabalho de oito horas seis dias por semana ou não haverá kibutz de todo"."

João Gobern

A perspectiva da distância

Pode soar a paradoxo a ideia de um escritor precisar de recorrer à caricatura para que as suas personagens se aproximem mais da verosimilhança. Contas feitas, são múltiplos os exemplos que desmentem este juízo prévio - e o livro de Maria João Lehning (o terceiro, após um interregno de 14 anos) vem precisamente colocar--se entre aqueles que desconsideram, e bem, esta aparente contradição. Sabemos das inúmeras ocasiões em que, por motivos múltiplos, dificilmente enumeráveis aqui, a realidade e a ficção ganham territórios comuns, parecem fundir-se sem carimbos nem rótulos, às ordens do superior interesse e da eficácia de uma narrativa. A autora sabe, por experiência própria, que o terreno da emigração portuguesa, tantas vezes obrigada a viver a meio caminho entre as raízes e o dia-a-dia, separados por língua, hábitos, ideias e feitios, é de uma extrema abundância como viveiro de situações carregadas de humor. Por isso mesmo, não faltam a esta história uma clássica porteira, uns quantos biscateiros, uma série de distintos e episódicos regressos à casa mãe (ou seja, a Portugal). De uma base de escrita leve, não leviana e felizmente distante da literatura light, Maria João Lehning traça um retrato contagiante de uma vivência que, na maioria dos casos, desconhecemos, tal é a tendência dominante para olharmos de forma numérica e massificada aqueles que daqui partiram em busca de oportunidades e desafios que por cá lhes foram negados até a ponto de porem em causa a respetiva sobrevivência. Com uma vantagem: não nos ficamos pelo "boneco" mais tradicional, o dos que ocupam as gavetas mais baixas da pirâmide social nos países de destino. Pelo contrário, damos de caras com dois primos, Sãozinha (que perde o "til" a partir do momento em que se fixa em Paris) e Emílio, filhos da alta burguesia de Cascais, que optam por abandonar Portugal para poderem deixar para trás sufocos e espartilhos próprios de uma condição que é feroz a ditar códigos de comportamento e que seleciona as relações em função de nomes de família e volumes de conta bancária. Nesse aspeto, a distância abre novas perspetivas a quem não tem de prestar contas todos os dias. Talvez por isso, esses dois primos convivam com porteiras e tarefeiros de uma forma que seria impossível, caso tivessem permanecido em lusas terras. Claro que tudo isto serve de pano de fundo aos percursos sentimentais de Sãozinha, previamente munida de dois casamentos infelizes e asfixiantes, e de Emílio, que se mostra desgastado pela mudança de companhias. Mas se há casos em que a "paisagem" se sobrepõe ao primeiro plano, este é um dos melhores, com um prédio parisiense em que se juntam um russo, uma japonesa, um árabe pintor, um trio de músicos cabo-verdianos, uma família francesa chefiada por um banqueiro e que engloba crianças "impossíveis de aturar" e uma delegação lusa, rica em acontecimentos e celebrações. No fundo, um prédio que vale por um mundo, tanto mais que as barreiras da língua são derrubadas pela supremacia da boa vontade e, no limite, de uma variante muito especial do espírito solidário. Nada é tratado com um olhar académico ou normativo; ao invés, é da simplicidade dos episódios que a escritora retira a sedução maior daquilo que nos quer dizer e que, de resto, evita cuidadosamente qualquer tentativa de chegar à "mensagem". Não precisa dela para nos levar a respirar outros ares com caras com que, se calhar, nos cruzamos todos os dias. E depois é sempre uma viagem a Paris - mais barata, mas não menos compensadora.