Blade Runner

No fio da navalha

António Araújo

No fio da navalha

O vírus chegou pouco antes de 2020. Só os jovens o combateram, levando auxílio e mantimentos aos médicos que trabalhavam dia e noite em condições desumanas, arriscadíssimas. Ameaçados pelas autoridades, de um lado, e pelos movimentos anticientíficos, do outro, os clínicos faziam o que podiam para salvar vidas em desespero. O excesso de população fizera o mundo mergulhar no caos e, com apoio nas redes de computadores e em sofisticadas tecnologias de vigilância, crescera brutalmente a ameaça do totalitarismo. À espreita, a eugenia: o governo só garantia tratamento a quem aceitasse ser esterilizado, pois entendia que os que estivessem infectados e doentes não eram aptos a ter filhos. Escasseavam os remédios e os equipamentos, mas os médicos organizaram-se num sistema paralelo, quase clandestino, que, bem ou mal, ia funcionando como podia.

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Lembrar, esquecer, inventar: que sabemos da memória?

De cada vez que nos lembramos de algo alteramos essa memória, diz um ramo da investigação recente; outro afiança que memórias, pelo menos as olfativas, podem passar de pais para filhos. Mergulho na complexidade de um mecanismo que nos permite recordar -- e esquecer - e que conforma e certifica a nossa identidade individual, mas também a da espécie: sem memória, que seria da consciência do eu?