Bernardo Pires de Lima

Bernardo Pires de Lima

E agora, senhora May?

Se a convocação do brexit já havia sido fruto de uma luta interna dentro do partido conservador, a consolidação de um acordo de saída mantém o drama ali centrado. Mais do que um problema de relacionamento presente e futuro com a UE, o que Theresa May na realidade continua a enfrentar é o espectro de uma crise política no governo britânico a qual, em último caso, pode ser constitucional. Não é o facto de se ter forjado uma solução para a fronteira irlandesa, na prática colocando a Irlanda do Norte num regime de exceção dentro do Reino Unido, que o brexit ficou formalmente decidido. Desde logo, porque não há unanimidade no cabinet. E mesmo que os ministros mais céticos saiam hoje de Downing Street com um sorriso nos lábios, tal não passará de um assomo de cinismo que não traz nenhuma coesão a um governo já por si profundamente desgastado.

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Bernardo Pires de Lima

Brexit, Irlanda e Portugal

Theresa May passou o teste e sobreviveu à convenção conservadora. Era esse o objetivo quando passou a atacar as posições da União Europeia nas últimas duas semanas, circunstancialmente elogiada por alguns (poucos) adversários, que alinharam nas críticas à "intransigência", "arrogância", "inflexibilidade" e "imperialismo" comunitário. Como em quase tudo neste caótico brexit, é no interior do partido conservador que tudo se joga: egos, ambições, traições, luta diária pelo poder e pela vaidade. O Reino Unido vem apenas depois disto. Mas a leitura ensimesmada à direita não pode desvalorizar o estado dos trabalhistas. Saídos da sua convenção anual, ficou mais uma vez evidente que o brexit continua sem merecer uma estratégia apurada, minimamente diferenciadora do governo e que faça do maior partido da oposição um garante de alternativas viáveis. Abraçar um segundo referendo nesta fase só mostra os parcos recursos políticos de Jeremy Corbyn. E é este o estado da política britânica numa fase absolutamente existencial para o país: sem qualidade, sem autoridade, sem rasgo, sem talento, sem um pingo de brilhantismo e inteligência. Para quem, como eu, cresceu a admirar tanto do que vinha da Velha Albion, é confrangedor assistir a tudo isto.

Bernardo Pires de Lima

Do lado certo da história

A pouco mais de um mês das decisivas eleições para o Congresso, Donald Trump dirigiu-se a uma sala cheia nas Nações Unidas. A mensagem foi recebida com um misto de incredulidade, brutalidade e alguns laivos de sintonia contida, a espelhar a heterogeneidade de regimes que gravitam naquele palco. Aos alinhados, Trump brindou com a "não sujeição à burocracia global". Aos mais sensíveis, com a mágica receita da soberania e das nações independentes para alcançar a liberdade. E aos incrédulos, com a recusa definitiva em participar na promoção da democracia, da globalização e em usar os instrumentos multilaterais na regulação dos dilemas comuns a todas os Estados. Se a mensagem tinha um conteúdo planetário, o seu destinatário era sobretudo interno: a base eleitoral que ainda não desmobilizou e que lhe pode dar a continuação do controlo das duas câmaras do Congresso. É para ela que Trump fala em permanência, é dela que emana a sua legitimidade e a sua força no competitivo sistema político americano.

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Bernardo Pires de Lima

Bem-vindo a 2019

A campanha para as decisivas europeias de 2019 já começou e vários indicadores ilustram essa antecâmara. EUA, Turquia, França e Alemanha são alguns elementos definidores da política europeia nos próximos meses, mas não é só entre Estados que a dinâmica conflitual se está a jogar. Também ao nível partidário o momento é exigente e marcante. Afinal, também em política externa os partidos são preponderantes na saúde das democracias. Sobretudo quando muitas estão doentes.

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Bernardo Pires de Lima

O parente pobre

Foi pouco valorizado, mas não deixou de ser caricato assistir à cimeira dedicada aos Balcãs que teve lugar em Londres em meados de julho. De um lado, o anfitrião, o Reino Unido, em acelerado passo para uma saída caótica da União Europeia, ainda por cima com o ministro dos Negócios Estrangeiros demissionário na véspera. Do outro, um grupo de seis Estados em diferentes níveis de diálogo com Bruxelas para aderirem à UE. Não só foi caricato como mostrou a constrangedora situação em que mergulhou a política britânica, sem um pingo de autoridade geopolítica ou um rasgo de salvação estratégica. Mas não é de Londres que vos quero falar. É, isso sim, dos Balcãs, o parente pobre da Europa e a região mais importante ao sucesso do modelo de integração nas próximas duas décadas.

Bernardo Pires de Lima

A geopolítica do desporto

Parece que foi ontem, mas passaram dez anos. Recuemos até 2008, ano das grandes viragens estratégicas do pós-Guerra Fria. Nos EUA, a crise do subprime já tinha dado à costa, mas rapidamente evoluiu para a maior hecatombe financeira ocidental desde a grande depressão dos anos 1920. Ao mesmo tempo, a Rússia começou o verão a invadir a Geórgia, num assomo de testosterona imperial sobre o Cáucaso e um travão ao alargamento da NATO. Diga-se que resultou. E em Pequim começavam os Jogos Olímpicos apoteóticos para um regime que a partir daí se expressou ao mundo em termos muito mais ambiciosos e disruptivos. Não foi à toa: os megaeventos desportivos são cada vez mais um espelho geopolítico dos seus anfitriões. E um instrumento.

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Jogos sem fronteiras

Afinal havia outro

Se recuarmos ligeiramente no tempo ou aprofundarmos um pouco mais o que tem sido decidido na NATO, concluímos que há um desfasamento entre um roteiro de posições estratégicas e a pública clivagem crescente entre aliados europeus e canadianos, por um lado, e os EUA, do outro. Desde que a Rússia invadiu a Crimeia em 2014, os aliados europeus envolveram mais 30% das suas tropas em missões da NATO e, em conjunto, investiram mais 46 mil milhões de euros na Defesa.

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A cimeira da fezada

Tem sido penoso assistir ao menu de fezadas e estados de alma do presidente Trump durante e depois da cimeira de Singapura. Sobre os quatro pontos acordados entre as partes, que em boa verdade não passam de um alinhamento de vontades superficial, Trump já veio concluir que "resolveu o problema com a Coreia do Norte", o equivalente ao célebre "missão cumprida" com que George W. Bush celebrou a vitória no Iraque a 1 de maio de 2003. Sobre Kim Jong-un, personagem que de um momento para o outro passou a estar no restrito lote de "grandes líderes" como quem tem "uma grande química" - além de ter manifestado uma admiração perversa com a forma como "o seu [de Kim] povo o ouvia com atenção" e o desejo de que "o meu [de Trump] povo fizesse o mesmo" -, Trump tratou de colocar o líder norte-coreano no pedestal dos infalíveis: "confio nele, sim", "honestamente, penso que ele vai fazer estas coisas [o acordado], mas de qualquer maneira, pelo sim pelo não, "posso ter de vos dizer daqui a seis meses que estive errado", mas isso não será problema, porque, como se diz nestas coisas das armas nucleares e noutros assuntos semelhantes, como nos erros de arbitragem futebolística, "errar é humano".