Bernardo Pires de Lima

Bernardo Pires de Lima

A hora da Europa

No passado mês de maio, chegou ao porto de Antuérpia o primeiro comboio direto de mercadorias vindo da China, mais precisamente do porto de Tangshan. Foram 16 dias de viagem, 11 mil quilómetros e 34 contentores de mercadorias para serem distribuídos pelos quatro cantos da Europa, um bom exemplo da melhoria operacional inscrita na Belt and Road Initiative e que tem no corredor eurasiático um dos braços de afirmação geopolítica da China moderna. Se lhe acrescentarmos a rota do Ártico e o corredor indo-africano ficamos com uma ideia da ambição de Pequim nas próximas décadas.

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Bernardo Pires de Lima

Bem-vindo a 2019

A campanha para as decisivas europeias de 2019 já começou e vários indicadores ilustram essa antecâmara. EUA, Turquia, França e Alemanha são alguns elementos definidores da política europeia nos próximos meses, mas não é só entre Estados que a dinâmica conflitual se está a jogar. Também ao nível partidário o momento é exigente e marcante. Afinal, também em política externa os partidos são preponderantes na saúde das democracias. Sobretudo quando muitas estão doentes.

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Bernardo Pires de Lima

O parente pobre

Foi pouco valorizado, mas não deixou de ser caricato assistir à cimeira dedicada aos Balcãs que teve lugar em Londres em meados de julho. De um lado, o anfitrião, o Reino Unido, em acelerado passo para uma saída caótica da União Europeia, ainda por cima com o ministro dos Negócios Estrangeiros demissionário na véspera. Do outro, um grupo de seis Estados em diferentes níveis de diálogo com Bruxelas para aderirem à UE. Não só foi caricato como mostrou a constrangedora situação em que mergulhou a política britânica, sem um pingo de autoridade geopolítica ou um rasgo de salvação estratégica. Mas não é de Londres que vos quero falar. É, isso sim, dos Balcãs, o parente pobre da Europa e a região mais importante ao sucesso do modelo de integração nas próximas duas décadas.

Bernardo Pires de Lima

A geopolítica do desporto

Parece que foi ontem, mas passaram dez anos. Recuemos até 2008, ano das grandes viragens estratégicas do pós-Guerra Fria. Nos EUA, a crise do subprime já tinha dado à costa, mas rapidamente evoluiu para a maior hecatombe financeira ocidental desde a grande depressão dos anos 1920. Ao mesmo tempo, a Rússia começou o verão a invadir a Geórgia, num assomo de testosterona imperial sobre o Cáucaso e um travão ao alargamento da NATO. Diga-se que resultou. E em Pequim começavam os Jogos Olímpicos apoteóticos para um regime que a partir daí se expressou ao mundo em termos muito mais ambiciosos e disruptivos. Não foi à toa: os megaeventos desportivos são cada vez mais um espelho geopolítico dos seus anfitriões. E um instrumento.

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Jogos sem fronteiras

Afinal havia outro

Se recuarmos ligeiramente no tempo ou aprofundarmos um pouco mais o que tem sido decidido na NATO, concluímos que há um desfasamento entre um roteiro de posições estratégicas e a pública clivagem crescente entre aliados europeus e canadianos, por um lado, e os EUA, do outro. Desde que a Rússia invadiu a Crimeia em 2014, os aliados europeus envolveram mais 30% das suas tropas em missões da NATO e, em conjunto, investiram mais 46 mil milhões de euros na Defesa.

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A cimeira da fezada

Tem sido penoso assistir ao menu de fezadas e estados de alma do presidente Trump durante e depois da cimeira de Singapura. Sobre os quatro pontos acordados entre as partes, que em boa verdade não passam de um alinhamento de vontades superficial, Trump já veio concluir que "resolveu o problema com a Coreia do Norte", o equivalente ao célebre "missão cumprida" com que George W. Bush celebrou a vitória no Iraque a 1 de maio de 2003. Sobre Kim Jong-un, personagem que de um momento para o outro passou a estar no restrito lote de "grandes líderes" como quem tem "uma grande química" - além de ter manifestado uma admiração perversa com a forma como "o seu [de Kim] povo o ouvia com atenção" e o desejo de que "o meu [de Trump] povo fizesse o mesmo" -, Trump tratou de colocar o líder norte-coreano no pedestal dos infalíveis: "confio nele, sim", "honestamente, penso que ele vai fazer estas coisas [o acordado], mas de qualquer maneira, pelo sim pelo não, "posso ter de vos dizer daqui a seis meses que estive errado", mas isso não será problema, porque, como se diz nestas coisas das armas nucleares e noutros assuntos semelhantes, como nos erros de arbitragem futebolística, "errar é humano".

Opinião

A estratégia. Qual estratégia?

No final de março, Donald Trump anunciou, muito ao seu estilo, que as poucas tropas americanas na Síria estavam de saída, agora que "o ISIS estava derrotado". Uma semana depois, o anúncio foi parar à gaveta depois do ataque em Douma com armas químicas, uma monstruosidade imediatamente assacada a Assad. Dois dias depois da tragédia, a Casa Branca voltou à agitação normal, com a entrada em cena de John Bolton, o novo conselheiro de segurança nacional, e as buscas do FBI ao escritório do advogado pessoal de Trump, Michael Dohen. Se o primeiro é conhecido pelo apoio destemperado à aventura no Iraque, e pelo voluntarismo agressivo no tratamento das grandes questões de segurança internacional, o segundo está sob suspeita de encobrimento de mais uma patifaria antiga de Trump. No entretanto, a Rússia vetou, sem surpresa, uma resolução sobre a Síria no Conselho de Segurança.

Jogos sem fronteiras

Os amigos de Orbán

Tem sido penoso e profundamente inquietante assistir ao chorrilho de solidariedades que a cúpula dirigente do Partido Popular Europeu tem manifestado junto de Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro e mais do que provável vencedor das legislativas de hoje. A Comissão Barroso já tinha sido branda o suficiente para envergonhar qualquer defensor do Estado de direito e da democracia liberal, mas o PPE passou de um silêncio ensurdecedor para uma sem vergonhice desbragada. Joseph Daul, o seu presidente, apoiou publicamente Orbán como "garante da estabilidade e prosperidade", fazendo tábua rasa da campanha feita pelo húngaro completamente centrada numa xenofobia sem pudor, antissemitismo e anti-imigração. Manfred Weber, o bávaro que lidera o grupo parlamentar em que estão PSD e CDS, é um fã confesso do senhor Orbán, a quem distribui apertos de mão espalhados nas redes sociais, embrulhados em frases cínicas de exacerbação identitária que fazem as delícias da extrema-direita húngara. Bem sei que há no PPE um crescente desconforto com o Fidesz, mas aparentemente, para os dois partidos portugueses, o assunto é irrelevante.