Bernardo Pires de Lima

Bernardo Pires de Lima

Até um dia, DN

Onze anos e mais de 1200 crónicas depois, escrevo hoje o meu último artigo no Diário de Notícias. Termino esta longa relação por iniciativa própria, com a consciência do quanto estou grato ao DN, às cinco direções que acreditaram no meu trabalho, aos jornalistas com quem aprendi e aos leitores que me foram acompanhando com inúmeras manifestações de crítica construtiva, mordaz ou dilacerante. É mesmo assim a vida de um escriba: dá o que tem, recebe o que merece. Guardo por isso, já com alguma nostalgia, emails, mensagens nas redes sociais, até cartas, de muita gente anónima para a qual, no fundo, procurei sempre escrever, simplificando o que parecia analiticamente complexo e complicando o que era aparentemente simples de analisar. Fi-lo sempre procurando melhorar o artigo anterior, a sua escrita, renovando ângulos, trazendo perspetivas menos trabalhadas no debate público, casando dinâmicas internacionais com o papel de Portugal no mundo. Acredito que o fiz sem qualquer tática, partindo para cada texto com mais dúvidas do que certezas, aprendendo com elas. Qualquer analista profissional sabe que sem uma inquietude permanente dificilmente lhe é despertada a adrenalina necessária para enfrentar o artigo seguinte.

Bernardo Pires de Lima

A bengala no Indo-Pacífico

Não é a cimeira ideal, mas não deixa de ter alcance no programa da presidência portuguesa. As relações entre a União Europeia e a Índia têm um mar de potencialidades por desbravar e sem diálogo político dificilmente avançarão. Elas são importantes, desde logo, por diversificarem os ângulos em curso na política internacional, profundamente marcados pela dinâmica sino-americana. A UE não tem qualquer interesse em ali ficar aprisionada e beneficia com o desenho de uma radial de diálogos estratégicos com os EUA, a União Africana, o Brasil e, no Indo-Pacífico em particular, com o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália e, claro está, a Índia. Não significa isto inviabilizar um roteiro minimamente construtivo com a China, mas afinar com outra coragem os seus termos: por um lado, invertendo os seus atuais desequilíbrios, que estão a beneficiar a passada chinesa; por outro, não fazendo do mesmo a única e maior aposta estratégica. A relação com Nova Deli é o passo natural nesses reequilíbrios.

Opinião

Globalização em trânsito

Vivemos na era dos ajustes acelerados. As nossas vidas transformaram-se mais em 10 anos do que nos 30 ou 40 anteriores, obrigando-nos a adaptações no consumo, socialização e mercado de trabalho. A pandemia tem sido um tremendo patamar disruptivo nesse caminho, mas a verdade é que muito já havia sido trilhado. Na política internacional estamos na mesma métrica. Regimes híbridos são hoje mais atrativos e convivem no sistema com autocracias e democracias. Estas placas tectónicas estão abertamente em tensão e a pertinência das suas políticas públicas, como superação de epicentros pandémicos, constituem um teste vital à valorização dessas tipologias de regime. Os processos de produção, compra, exportação e administração de vacinas não são, por isto, meros mecanismos sanitários, mas o espelho da confiança nas atuais cadeias industriais de bens essenciais, redes logísticas, cooperação interestadual, rapidez na chegada ao utente. Tudo isto já era válido para produtos alimentares, vestuário, aparelhos tecnológicos, e passou agora a ser evidente na saúde pública, passaporte para a progressiva normalidade socioeconómica.

Bernardo Pires de Lima

Coragem, Svetlana Tikhanovskaya

Não sei se vos tem acontecido o mesmo, mas tenho acompanhado a visita a Portugal de Svetlana Tikhanovskaya, líder da oposição bielorrussa, com uma tremenda admiração. O país vive um endurecimento pós-eleitoral que levou à cadeia mais de trinta mil pessoas, há centenas de presos políticos, tortura prisional, violação de direitos humanos, um aparelho de segurança interna implacável e que condiciona a luta pacífica dos milhares que marcham há meses nas ruas das principais cidades, sob nevões se for preciso.

Bernardo Pires de Lima

Minilateralismos certeiros

Talvez por ser um tema fundamental, passou ao lado da nossa imprensa. E é pena, porque o assunto interessa-lhe diretamente. Nos últimos dias, deram-se significativos avanços internacionais no cerco às grandes empresas tecnológicas, sobretudo no domínio fiscal, no qual operam continuamente à margem, numa zona de privilégios acumulados sem ponta de vergonha, privando os Estados e as sociedades onde deveriam ser tributadas de recursos financeiros e de um exercício de justiça fiscal indispensável à saúde do capitalismo e das democracias. Alguns desses Estados ajudam à festa como autênticos paraísos fiscais, deturpando dessa forma o equilíbrio indispensável em regiões económicas integradas com regras progressivamente uniformizadas.

Bernardo Pires de Lima

A insustentável impunidade dos facilitadores

Depois de quatro anos de incitação ao ódio, discurso inqualificável sobre adversários políticos, ataques diários à imprensa "inimiga do povo", marchas intimidatórias de milícias supremacistas a proliferarem pelos quatro cantos da América, e invasões armadas em Congressos estaduais, só se surpreende com o que aconteceu no Capitólio quem andou a brincar com o fogo, desvalorizando sistematicamente a palavra e a ação do presidente Trump.