António Tadeia

Conversas de Bancada

A arte da desconfiança

Sérgio Conceição voltou a mostrar que está muito bem ligado à realidade quando, após a vitória do FC Porto no Estoril, a meio da semana, desvalorizou os cinco pontos que a sua equipa passou a ter de vantagem sobre os perseguidores e enalteceu a necessidade de desconfiar. Ganhar, no desporto de alta competição, passa sempre por desconfiar, por mais que os adeptos incondicionais olhem sempre para a desconfiança alheia como se de um ataque se tratasse e estejam prontos a soltar os cães a quem desconfia dos seus heróis. O treinador portista, que no decurso deste campeonato criou uma expressão exemplar, que é a "pressão boa", sempre foi desconfiado - às vezes até demais - e sabe, por isso, que mais do que desconfiar, é preciso fazê-lo na altura certa. Porque depois há alturas em que a confiança é fundamental.

Conversas de Bancada

As equipas B e o futebol português

Há uma contradição insanável na argumentação dos que querem reduzir o contingente de equipas B autorizadas a participar na II Liga do futebol nacional ou até, mais radical, acabar com elas. Claro que é sempre possível encontrar formas de melhorar o enquadramento competitivo de todo o edifício do futebol nacional, mas de uma coisa tenho a certeza: a inclusão das equipas B na II Liga foi a melhor medida tomada no futebol em Portugal nos últimos dez anos. Tirá-las de lá pode satisfazer clientelas, mas nunca melhorará as coisas.

Conversas de Bancada

Estes tempos de hoje são terríveis

Ontem de manhã, no carro, a caminho do mercado, ouvi parte da reposição de uma entrevista radiofónica [de Inês Meneses, na Radar] a Daniel Sampaio, em que o psiquiatra falava dos riscos de diabolização da internet na educação das crianças, da mesma forma como há uns anos se diabolizava a televisão. Não ouvi a entrevista até ao fim, mas como pai tenho opinião formada sobre o assunto. O que importa não é diabolizar, é ocupar. O que importa não é proibir, mas sim preencher. E o mais extraordinário é que isto é válido para a educação dos nossos filhos como é para as suspeitas de corrupção no futebol português: o que importa não é diabolizar o jogo online, não é proibi-lo ou limitá-lo à espécie de oligopólio que o explora, é compreendê-lo e regulá-lo de forma a que todos possam ganhar.

Conversas de Bancada

O momento decisivo do Benfica

Há meia dúzia de coisas acerca do momento do Benfica sobre as quais vale a pena refletir. Uma tem que ver com a forma como os benfiquistas que querem mudança reagem à situação atual, ao facto de a equipa de futebol estar já fora de todas as competições à exceção do campeonato. Outra diz respeito à avaliação dessa circunstância: isso é bom ou mau para a carreira do Benfica na Liga? Uma terceira prende-se, a nível estratégico, com os efeitos de um eventual mau ano naquilo que é e que pode vir a ser o clube nos tempos mais próximos. Outra ainda relaciona o clima geral do futebol nacional, dos e-mails ao Blitzkrieg comunicacional, com o afastamento do Benfica das várias competições.

Conversas de Bancada

Sérgio Conceição, o frio e cerebral

Que o FC Porto está a jogar um grande futebol, o melhor deste país por este outono, só os mal--intencionados ou aqueles com agendas próprias podem duvidar. Em contrapartida, se vai manter-se no topo até maio e ser campeão, como Sérgio Conceição voltou nesta semana a dizer que queria que acontecesse, só os estupidamente crentes podem desde já garantir. Porque à partida muita coisa pode acontecer: uma onda de lesões num plantel que é, de facto, mais curto em profundidade do que os dos rivais diretos, uma quebra de rendimento ou até um desequilíbrio numa estratégia de comunicação que vive no fio da navalha, como tem de ser sempre com o genuíno mas superemocional Sérgio Conceição e na realidade de guerrilha comunicacional em que vive o futebol português.

Conversas de Bancada

Por que é que Santos acha que podemos ganhar o Mundial

Tive a oportunidade de fazer, para o Bancada.pt, a primeira entrevista a Fernando Santos depois de Portugal ter conseguido a qualificação para o Mundial. E o selecionador que me apareceu à frente era um homem não apenas solto como incrivelmente confiante. É verdade que muito do que Santos disse pode ser entendido como parte de uma estratégia de comunicação, até para dentro do balneário, mas houve uma frase que me fez pensar: "Neste momento, ninguém quer defrontar Portugal", disse Fernando Santos. E há uma probabilidade elevada de andar muito próxima da realidade, porque, como também me disse o selecionador, "é muito difícil ganhar à seleção portuguesa".

Conversas de Bancada

A Taça de Portugal e o Mundial

Comentei ontem o Andorra-Portugal, para a RTP1, sentado num andaime colocado junto à linha lateral, ligeiramente acima do banco de Portugal. Não o escrevo para me queixar. Os jogadores portugueses jogaram num relvado sintético de primeira geração, que dificulta o jogo mais técnico a que estão habituados e pode ser mais propenso a lesões de impacto. E é assim que tem de ser, porque a alternativa era Andorra receber os adversários nesta fase de qualificação fora do país, num ambiente assético e normalizado, mas que não seria o deles. Essa opção era melhor para os interesses de Portugal, que nestas coisas da UEFA é um dos grandes, mas pior para o Mundial, que pode gabar-se precisamente de ser a forma de levar a todo o mundo a mensagem do futebol. Um pouco como a Taça de Portugal dentro das nossas fronteiras.

Conversas de Bancada

Os reforços de Jesus e a estrutura do Benfica

A ver o Rio Ave de Miguel Cardoso jogar e somar a terceira vitória seguida, que lhe garantiu desde sexta-feira o lugar entre os líderes da Liga, não pude deixar de lembrar-me daquilo que disse Jorge Jesus antes de rumar a Guimarães. Porque se há coisa que Jesus faz bem é enaltecer os méritos a quem os merece: sejam os próprios, quando as coisas correm bem às suas equipas, como acabou por ser o caso do Sporting no Minho, sejam os alheios, quando as suas equipas ficam um pouco aquém, como sucedeu na receção ao Steaua. E, ainda que muitos tenham preferido ver ali alguma dose de desresponsabilização própria quando Jesus comparou as "oito semanas" que este Sporting tem de trabalho com os "oito anos" que um dos rivais já leva, não estava a ser rigoroso, mas no conceito geral tinha razão: a continuidade dá frutos. Pô-la em prática é que é complicado.

Conversas de Bancada

O simulacro e o futebol a sério

Há vários tipos de adeptos de futebol. Isto é: há vários tipos de consumidores para o produto que hoje sai da indústria do futebol e que engloba tudo, desde a bilheteira às assinaturas de canais especializados com passagem pela compra de informação relacionada com o fenómeno futebolístico. Nenhuns valem mais do que os outros. Todos contam. Mas alguns não têm como satisfazer a sua curiosidade.Há os adeptos do pitoresco, aqueles que adoram ver os vídeos do Augusto Inácio a zurzir no presidente do Zamalek, os mesmos que ainda choram a rir só de se lembrarem do Toni a falar do Essan ou do Vítor Pereira a vociferar "I speak the truth" perante uma atónita plateia de jornalistas sauditas. Para estes grandes consumidores de golaços e falhanços ridículos no YouTube, o momento alto do futebol nacional nos últimos anos terá sido a conferência de imprensa em que Paulo Futre deu um novo significado à palavra "sócio", que até já fazia parte do léxico da modalidade, ainda que com outro alcance.

Conversas de Bancada

As leis e a necessidade de regulação do futebol

Qual é o ponto em comum entre o caso Mbappé, o caso Neymar e o caso Villar? É simples: é o dinheiro. É a tendência que o futebol está a revelar para cavar cada vez mais o fosso entre muito ricos e a classe média - já para não falar nos muito pobres -, o que nem é coisa do futebol, é coisa da sociedade em geral. O que o futebol tem, mas não tem aproveitado, são os meios de regulação que travariam este processo de aglutinação de tudo por tão poucos. Talvez nem tenha de o fazer. Talvez eu esteja a agarrar-me a um passado em que havia mais do que dez clubes que interessavam no panorama internacional. Talvez o fundamental seja que a justiça funcione e ponha de parte quem pisa o risco da legalidade instituída. Mas não creio.

António Tadeia

E se no fim a Alemanha...

Portugal vai entrar hoje naquela que se diz poderá vir a ser a última Taça das Confederações da história do futebol num papel a que nunca se habituou e com o qual, diga-se, nunca se deu bem também: o de favorito. Olha--se para as principais publicações europeias, sejam elas de que país forem, e todas carregam a equipa nacional de favoritismo. Para dizer a verdade, não estou assim tão convencido. E não é por Portugal estar mal, que não está. Está até melhor do que há um ano. Nem sequer por esta ser uma competição maldita, cujo vencedor costuma dar-se mal no Mundial a seguir. É só porque todas estas análises se fundam na premissa de que esta jovem Alemanha que Joachim Löw trouxe até à Rússia não tem capacidade para competir ao mais alto nível, mas se há coisas que estes alemães têm a mais do que os outros são energia, ritmo e intensidade. E isso costuma ser decisivo em finais de época.

Conversas de Bancada

Três meses definidores: o Sporting

Há um ano, se me perguntassem, diria que, em função da dinâmica de vitória que apresentava, o Sporting era o principal favorito a ganhar a Liga que se seguia. E, no entanto, as coisas mudaram tanto que os leões não passaram do terceiro lugar. Nesta altura, tudo indica que o Benfica vai sair à frente dos rivais para o campeonato de 2017-18. Falta perceber o que vai mudar daqui até lá, seja em termos de mercado (entradas e saídas de jogadores), da força dos treinadores dentro do contexto do clube ou de variáveis internas de balneário. Há um ano, a gestão de todos estes fatores contribuiu para que o Sporting caísse a pique em termos de produção. Caberá agora ao Benfica gerir os três meses até ao início do campeonato de forma a evitar os erros cometidos pelos outros. Começo hoje a antevisão desses três meses que vão definir aquilo que vai ser a nova época precisamente pelo Sporting, onde a atualidade é mais efervescente.

Conversas de Bancada

Benfica campeão explicado pelos números

Boa parte das razões para justificar o Benfica campeão está nos números, porque eles nos dão o retrato fiel do que as equipas rendem em campo. Basta olhar para eles para perceber que Benfica e FC Porto são quem melhor compatibilizou defesa e ataque nesta Liga e que o título dos encarnados se explica pela vantagem que obtiveram nos dois parâmetros. Até o falhanço do Sporting tem aqui acolhimento: a equipa leonina foi absolutamente bipolar no que a essa compatibilidade diz respeito, sendo a mais bem trabalhada no ataque mas defendendo ao nível das que por esta altura lutam para evitar a descida de divisão.