António Barreto

Sem emenda

Dados e cidadãos

O debate público sobre a protecção de dados prossegue. Os mails cruzados a este propósito, diariamente, por pessoas e organizações, são às dezenas e às centenas. Todos tentam proteger-se ou adoptar os novos procedimentos legais. A pressão vinha de trás, a União Europeia ocupava-se do assunto há muito, mas as aldrabices do Facebook e as intrusões russas e americanas aceleraram tudo. Ficámos com receio legítimo dessas poderosas máquinas, das multinacionais maléficas e do capitalismo internacional. Assim como de todos os serviços de espionagem e similares, americanos, pois claro, ingleses, os mais inteligentes, israelitas, os mais eficientes, russos, os mais selvagens, chineses, os mais não se sabe bem o quê. Verdade é que a desconfiança aumenta. Com a ideia de que estamos a proteger os dados, corre-se o risco de passar ao lado do essencial. Na verdade, aquilo de que deveria tratar-se era de proteger os cidadãos. Evidentemente, uma coisa leva à outra e vice-versa. Mas é mais interessante colocar a tónica no cidadão. É por ele que se devem proteger os dados. Não o contrário.

Sem emenda

A prova de fogo

Os incêndios de floresta de 2017, dos piores da história de Portugal, dos mais mortais da Europa e do mundo no último século, deixaram feridas não cicatrizadas nas famílias, nas autarquias, nos campos e na natureza. Assim como na segurança colectiva e na confiança dos cidadãos. Agora, há relatórios de investigações, ao que parece competentes e independentes. O que, mesmo havendo polémica, como em tudo, já é um progresso. A conclusão essencial é devastadora: confirma-se, se é que era necessário, o falhanço dos sistemas de prevenção, de protecção e de socorro. Por outras palavras, a segurança foi muito deficiente. Mas aplaude-se o pagamento de indemnizações, o que, além de humano, é o reconhecimento de responsabilidades.

Sem emenda

Piedade e Misericórdia

Pelas más razões, duas das mais antigas instituições nacionais ocupam as páginas dos jornais e os noticiários de televisão: o Montepio Geral e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. O assunto resume-se em poucas palavras: o banco Montepio está em má situação financeira e a Santa Casa está tentada a investir nele, no que é encorajada pelo ministro da Segurança Social e pelo governo. A história é tão estranha e os riscos são tão grandes que vale a pena olhar um pouco devagar.

Sem emenda

Gente sem culpa

O Presidente da República tem uma maneira muito própria de intervir: exibe o seu optimismo, garante que o que deve ser feito está a ser feito e afirma que o governo está a tomar conta. Este comportamento tem vantagens e riscos. Os ganhos são evidentes e já tivemos várias experiências, a começar pelos incêndios e Tancos, por exemplo. O governo assobiava, mas perante a acção do Presidente teve de passar ao acto. Toda a gente ficou a ganhar. Mas os perigos são também evidentes. Com efeito, se vier a verificar-se que o governo não faz, o PR passa por mentiroso e fica na obrigação de tomar medidas excepcionais.

Opinião

O futuro do governo

Um governo mal engendrado foi-se organizando com o tempo. Em vez de se desgastar, o que é habitual, reforçou-se durante dois anos. A ponto de poder durar outros tantos. Mais do que isso é complicado. Quase impossível. Com efeito, a partir de 2018, inicia-se o processo de avaliação permanente: o que é mais vantajoso, manter ou romper? É a pergunta que se fazem, todos os dias, os socialistas, os comunistas e os bloquistas. No momento exacto em que um deles tiver a certeza de que manter o governo gera prejuízos eleitorais, será tomada a decisão de pôr termo a tão estranha forma de aliança política. Depois, segue-se a fase de concretização: é eleitoralmente mais interessante tomar a iniciativa de romper ou tudo arranjar para que seja "o outro" a fazê-lo? Este ano vai ser passado assim.

Sem emenda

Um Te Deum laico e republicano

Te Deum é a designação de um hino que faz parte da Liturgia das Horas da Igreja Católica. É a forma abreviada de Te Deum laudamus, Louvamos-te, ó Deus! O momento apropriado para cantar este hino é o final de Dezembro, quando os fiéis agradecem as benesses recebidas durante o ano decorrido. É também inspiração para músicos que cultivaram o género: Purcell, Charpentier, Mozart, Haydn, Bruckner e outros compuseram, com este título, obras-primas festejadas por crentes e não crentes.

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Os escravos em Portugal: um memorial

Excelente ideia a da construção de um memorial situado à beira-Tejo, entre a Ribeira das Naus e o Campo das Cebolas, locais onde, segundo consta, o tráfico de escravos tinha assento. Não se sabe se a proposta, feita por uma associação, será aprovada e concretizada. Nem qual será a sua forma ou configuração. Mas a ideia é boa. Sobretudo se for mais do que um memorial passivo e inerte. Se for um museu, um local de reflexão ou um centro de referência. Várias instituições desse género, nos Estados Unidos, em Inglaterra, na Holanda, em Angola e no Senegal, mostram como se pode fazer. Genocídios, holocaustos, massacres, autos-de-fé, deportações violentas, assassínios em massa, Goulag, campos de concentração e outras formas de exercício de poder e violência devem ser estudados. Para que não se esqueça. Espera-se, aliás, que esta iniciativa tenha melhor sorte do que um projecto de lei de criação de um museu dos Descobrimentos, a construir na Cordoaria, apresentado há mais de trinta anos e, infelizmente, nunca realizado.