anthony bourdain

Opinião

O homem que mais invejávamos desistiu

Os melhores escritores de viagens que garantem ser um livro a maior das viagens dizem-no ao mesmo tempo que fazem a mala para partir de novo. Viajar tanto também cansa, mas vicia até às repetições incessantes do partir. Como Ricardo Santos conta, em recente entrevista à revista The New Yorker, Anthony Bourdain também se confessava cansado de quilómetros. E, no entanto, logo o encontrámos passeando-se, como fazia agora, por uma das mais belas regiões de França, o Alto Reno, na terra de vinho alsaciano que viagens centenárias trouxeram das cepas do Tokay húngaro, instalado em hotel de Kaysersberg, localidade que ainda no ano passado os franceses elegeram a sua aldeia preferida... Foi aí que Bourdain se suicidou. Fez a mala para o mais longínquo dos lugares, o que deixou os seus amigos desolados e os seus admiradores perplexos. Na citada entrevista à The New Yorker, ele dissera: "Faço aquilo que me apetece." Na semana de 2017 correspondendo à que hoje me leem, a sua célebre reportagem - misto de culinária e passear pelo mundo, feita por epicurista, contador nato e homem culto - Viagem Desconhecida, transmitida pela CNN, andou por Omã; a seguinte foi na caribenha Trinidad; e, depois, Porto... Um ano depois, esta semana, a transmitir no domingo, será sobre Berlim, depois, Nova Orleães... Tanto andar significava 200 dias por ano fora de casa, rodeado de amigos só conhecidos dias antes... Para cada um de nós era o sonho de vida: conhecer mundo e gentes, e sem o constrangimento de passar por turista. Meses antes de acabar o seu mandato, Barack Obama foi em viagem de reconciliação ao Vietname. O cozinheiro trota-mundos levou-o a um restaurante de rua de Hanói. Ontem, Obama reconheceu a experiência que vivera: "Bourdain ensinou-nos a ser menos medrosos com o desconhecido."

Fernando Melo

Bourdain, inquieto por vocação

Anthony Bourdain, norte-americano de Nova Iorque, foi o autor do livro Cozinha Confidencial, após ter sido empresário e chef de casa icónicas como Les Halles, chamando a atenção para o que se passa realmente no mundo da hotelaria e restauração. Informalidade económica, droga, imigração ilegal e crime, ele próprio protagonizou uma carreira repleta de experiências que nem a imaginação mais fértil é capaz de conceber. Encontrou uma vocação tardia enquanto divulgador pelo mundo fora do que em cada lugar lhe pareceu diferente e digno de registo, angariando uma audiência global que nunca mais parou de o seguir e ouvir. Fez dois programas sobre nós, um no Porto outro em Lisboa, que mesmo não reunindo consensos, vale a pena ver e guardar. Percebe-se em ambos a preocupação de se encontrar e aprender com os cozinheiros como ele, na fronteira do conhecimento e na linha mais criativa.