Anselmo Crespo

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Anselmo Crespo

Um problema político chamado Joana Marques Vidal

António Costa vai ser sempre preso por ter cão e por não ter. Se quiser substituir Joana Marques Vidal à frente da Procuradoria-Geral da República, será acusado de uma espécie de vendetta. É a leitura mais óbvia, depois de todos os processos que, nos últimos seis anos, envolveram as mais altas figuras do país, incluindo um ex-primeiro-ministro socialista, e mexeram com o statu quo de um Portugal que nunca imaginou que, um dia, tanta coisa seria colocada em causa.

Anselmo Crespo

Tancos e os soldadinhos de papel

No dia em que tive de ir à inspeção (o serviço militar ainda era obrigatório), passei a viagem toda até ao quartel da Calçada da Ajuda a pensar numa boa desculpa para não ter de "fazer a tropa". Eu e mais umas centenas jovens, que foram prevenidos com atestados médicos de todo o tipo: doenças de pele que já não tinham, problemas cardíacos que nunca lhes apareceram, desvios na coluna daqueles que dificilmente se comprovam sem um batalhão de exames... qualquer papel assinado por um médico era válido para fugir ao serviço militar obrigatório.

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Anselmo Crespo

O estado da nação ou a nação dos vários estados?

Nesta semana o Parlamento fará - como todos os anos - um balanço do Estado da Nação. E não é muito difícil de antecipar o debate, sobretudo quando estamos a um ano de eleições. O governo e o PS tenderão a olhar para o copo meio cheio. A oposição para o copo meio vazio. O Bloco de Esquerda e o PCP ficarão no limbo habitual: o que esta governação tem de bom é mérito deles. O que tem de mau é culpa do PS e, claro, da herança do PSD e do CDS. Não esperemos, por isso, grandes novidades.

Opinião

O julgamento político

1- Quase quatro anos depois, o PS decidiu finalmente ler a sentença política a José Sócrates - ainda dizem que é a justiça que é lenta. A investigação e o julgamento foi-se fazendo ao longo de todo este tempo, com advogados de defesa - os indefetíveis de Sócrates - e de acusação - os que, como Ana Gomes, nunca paparam grupos - a esgrimirem argumentos que ninguém levava a sério porque já ninguém consegue confiar no discernimento dos partidos políticos.

Opinião

Como se corrompe uma democracia?

Se um jovem de 20 anos conseguiu interpretar o discurso do Presidente da República no 25 de Abril, a mim bastou-me uma jovem de 29, nas mesmas cerimónias, para reganhar alguma esperança em relação ao futuro da política. Margarida Balseiro Lopes não fez apenas um bom discurso (até porque houve outros igualmente bons), tocou nos pontos nevrálgicos do regime, naquilo que tem de bom, de insuficiente e de mau. Fez mais: apontou para o elefante que está no meio da sala - a corrupção.

Opinião

Até ao fim do mundo

O som da água a cair do chuveiro mistura-se com o da rádio, numa estranha sinfonia que não me deixa perceber se ainda estou a dormir ou se já estou preparado para mais um dia de notícias. Estranho o jingle dos "sinais", que já me tinha desabituado de ouvir àquela hora, mas fico à escuta, sem perceber se entrou por engano ou se vou voltar a ser surpreendido pelo Fernando. Sempre o Fernando. Não há que enganar: a voz tem a melodia de sempre, as palavras escritas continuam a sair-lhe ditas como se fossem um improviso permanente, sílaba a sílaba, com a cadência certa de quem fala comigo ao ouvido e mexe com sentimentos que eu nem sabia que tinha. Morreu um dos nossos. E o Fernando não iria deixar passar esse sinal em claro.