Anselmo Crespo

Anselmo Crespo

Nigel Farage, André Ventura e os "homens reais"

Imagine uma fábrica de burocratas com uma linha de montagem que tem todas as peças necessárias. Pega-se no tronco, encaixam-se as pernas, depois os braços e, por fim, a cabeça. A cor do cabelo pode variar. Temos duas opções à escolha: moreno ou louro. Pente três a toda a volta, grande em cima, para dar aquele aspeto ondulado que está na moda. Temos gordinhos, mas o modelo com mais saída é o magro. Daqueles que correm todos os dias às seis da manhã, faça chuva ou faça sol, antes do banho e antes de vestirem o fato azul escuro. Ao final da tarde, vão todos beber um copo ao pub mais perto do trabalho, antes de irem para casa.

Opinião

Os que pagam mas não são donos disto tudo

"Quem paga o excedente orçamental são os contribuintes." A frase é de Mário Centeno, durante a apresentação do Orçamento do Estado para 2020. Num misto de enfado e indignação, o ministro das Finanças responde com a honestidade possível aos que o criticam por aplicar ao país uma das maiores cargas fiscais de sempre, enquanto deixa ao Estado uma almofada financeira de 0,2%. Quem se atreve a questionar tamanho feito se esta é a primeira vez, em democracia, que Portugal alcança um superavit? Quem são os ingratos que não valorizam e se sentem orgulhosos por partilharem a mesma nacionalidade do CR7 das Finanças?

Opinião

Regionalização: a nobre arte de empurrar os problemas com a barriga

É uma arte muito portuguesa. Demorou mais de 500 anos a desenvolver, mas - acho que é seguro dizer-se -, se não somos os melhores do mundo, devemos andar lá perto. Perante um problema muito concreto e definido, reconhecido por todos, amplamente estudado, discutido e analisado, nós optamos por... não o resolver. E cada um empurra como pode: quem tiver a barriga maior que faça uso dela; quem não tem, é soprar com toda a força que o problema é pesado e não é fácil empurrá-lo para longe. Não vá ele ter solução e termos de ser nós a aplicá-la.

Anselmo Crespo

Ao cuidado de quem elegeu André Ventura

Sim, eu sei que escrever sobre o Chega e o seu líder tem sempre o risco de lhe dar ainda mais protagonismo. Sim, eu sei que, neste momento, decorrem negociações para a formação de um novo governo e que o centro-direita atravessa uma crise sem precedentes. Sim, eu sei que, politicamente, o país tem problemas gravíssimos que mereciam ser denunciados nestas linhas de texto. Mas não posso - não consigo - deixar de alertar para os riscos que a nossa democracia enfrenta com a eleição de André Ventura para a Assembleia da República. E, ao contrário do que muitos pensam, não é ignorando e muito menos normalizando os "venturas" que se faz este combate.

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Opinião

Os aspirantes a populistas

O medo do populismo é tão grande que, hoje em dia, qualquer frase, ato ou omissão rapidamente são associados a este bicho-papão. E é, de facto, um bicho-papão, mas nem tudo ou todos aqueles a quem chamamos de populistas o são de facto. Pelo menos, na verdadeira aceção da palavra. Na semana em que celebramos 45 anos de democracia em Portugal, talvez seja importante separarmos o trigo do joio. E percebermos que há políticos com quem podemos concordar mais ou menos e outros que não passam de reles cópias dos principais populistas mundiais, que, num fenómeno de mimetismo - e de muito oportunismo -, procuram ocupar um espaço que acreditam estar vago entre o eleitorado português.