Anselmo Borges

Anselmo Borges

Jesus e a Igreja. 1

1 Será preciso começar pela pergunta: Jesus fundou a Igreja, concretamente com a constituição com que hoje se apresenta? A resposta é inequívoca: "Não." De facto, por exemplo, na obra com o título em português A Igreja Católica ainda Tem Futuro? Em Defesa de Uma Nova Constituição para a Igreja Católica, na sequência de outras, o famoso exegeta Herbert Haag, da Universidade de Tubinga, com quem tive o privilégio de privar, renovou a tese segundo a qual é um dado seguro da nova investigação teológica e histórica que Jesus não fundou nem quis fundar uma Igreja (Jesus é o fundamento da Igreja, mas não o seu fundador, dizia o grande teólogo Karl Rahner) e, assim, muito menos pensou numa determinada constituição para ela. Também o Cardeal Walter Kasper, quando era professor da Universidade de Tubinga, perguntava nos exames aos estudantes se Jesus tinha fundado a Igreja, esperando uma resposta negativa.

Anselmo Borges

O Papa Francisco e o desporto. 3

Os jornalistas da Gazzeta dello Sport perguntaram-lhe se tinha pensado em escrever uma encíclica sobre o desporto. Francisco: "Explicitamente não, mas há muitos elementos dispersos nas minhas intervenções, sugerindo, por exemplo, como o desporto pode ajudar ou pelo menos dar um contributo para a globalização dos direitos. A cada quatro anos há os Jogos Olímpicos, que podem servir de farol para os navegantes: a pessoa no centro, a pessoa orientada para o seu desenvolvimento, a defesa da dignidade de todas as pessoas. Contribuir para a construção de um mundo melhor, sem guerras nem tensões, educando os jovens através do desporto praticado sem discriminações de nenhuma espécie, num espírito de amizade e de lealdade."

Anselmo Borges

A intuição cosmoteândrica: a religião do futuro

1. Foi há dez anos que Raimon Panikkar nos deixou, no dia 26 de Agosto de 2010, com 91 anos, em Tavertet, perto de Barcelona. Foi um dos espíritos mais clarividentes do século XX, com um pensamento original, que a presente situação pandémica e a urgência de um novo paradigma de desenvolvimento e uma nova política no contexto de uma terrível crise global, económica e social, que inclui a necessidade de um pacto ecológico para preservar a casa comum, tornam ainda mais actual. É por isso que não podia deixar de voltar a ele, "um mestre do nosso tempo".

Anselmo Borges

Conversa com Hans Küng (2)

Continuo a conversa com Hans Küng em 1979, incidindo sobre a esperança para lá da morte. Para si, Jesus Cristo é o determinante na vida e na morte, o Filho de Deus. Pergunto-lhe: é Deus que nos salva ou é Cristo? É o próprio Deus que nos salva através de Cristo. Não podemos de modo nenhum ver Cristo sem Deus. De contrário, não teria sentido para nós. Como também não podemos, enquanto cristãos, ver Deus sem Cristo. Caso contrário, Deus torna-se vago para nós.

Anselmo Borges

Bento XVI. Uma vida (3)

No dia 11 de Outubro de 1962, foi a inauguração solene do Concílio Vaticano II, o maior acontecimento em número de participantes na história da Igreja e de consequências mais significativas também - o general De Gaulle considerou-o o maior acontecimento do século XX. De 133 países seguiram para Roma 2540 padres conciliares; o seu número ascendia a 2908, mas muitos não puderam comparecer. Pela primeira vez, houve mulheres convidadas e também observadores protestantes e ortodoxos.

Anselmo Borges

Bento XVI. Uma vida (2)

Estudante de Teologia, J. Ratzinger destacou-se entre todos e viveu esses anos mergulhado na grande ebulição teológica que se seguiu à Guerra, preparando um novo futuro para a Igreja. A orientação era o diálogo entre a fé e a razão, a racionalidade e a beleza, o diálogo ecuménico, a "Teologia Nova"..., seguindo a verdade, porque "a renúncia à verdade não resolve nada, pelo contrário, leva à ditadura do arbitrário". Foi ordenado padre com o irmão a 29 de Junho de 1951. Tornou-se capelão, ouvindo confissões aos Sábados durante quatro horas e aos Domingos celebrando duas missas e duas ou três pregações. Doutorou-se em Julho de 1953 com uma dissertação sobre "Povo e Casa de Deus na Doutrina de Agostinho sobre a Igreja". Ficou uma palavra marcante de Santo Agostinho, ao definir a Igreja como "Povo de Deus espalhado pela Terra". Para poder realizar o seu sonho de fazer carreira como professor de Teologia, preparou uma tese de habilitação (Habilitationsschrift) sobre a revelação: Offenbarung und Heilsgeschichte nach der Lehre des heiligen Bonaventura (Revelação e história da salvação segundo a doutrina de São Boaventura). Os dois exemplares exigidos foram entregues na Faculdade de Teologia Católica da Universidade de Munique no Outono de 1955. Aí, começou um drama de abismo. Michael Schmaus comunicou de modo seco, "sem qualquer emoção", que tinha de rejeitar a tese. Foi tal o choque que da noite para o dia o cabelo de Ratzinger ficou grisalho. Teria de deixar a universidade e, pensando sobretudo nos pais, "seria uma catástrofe, se tivesse de deixá-los na valeta". Razões para a rejeição, por parte de Schmaus e outros professores: Ratzinger sabe "ligar fórmulas floridas, mas onde está o cerne da questão?", "evita definições precisas", é "demasiado emocional"; mais: foi considerado "quase perigoso", "um modernista", "progressista", acabando numa "compreensão subjectivista da revelação"... No meio da tempestade, o seu orientador de tese, Gottlieb Söhngen, conseguiu que o trabalho não fosse rejeitado, mas devolvido para melhoria. "Joseph, que quer Schmaus?", brincam os colegas, gozando. Resposta: "Ser importante." Naquelas semanas dramáticas, não se zangou com Deus, mas "pediu-lhe suplicantemente auxílio". E pôs-se ao trabalho, passando a tese de 700 para 180 páginas. No dia 21 de Fevereiro de 1957, depois do debate no Grande Auditório da Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, ouviu a palavra salvadora: "Aprovado." O que é facto é que tanto a sua dissertação de doutoramento sobre a Igreja "Povo de Deus" como a tese de habilitação sobre a revelação encontrarão forte eco nos documentos do Concílio Vaticano II. Entretanto, "era muito estimado entre os estudantes, como uma "voz da linha da frente", pois o que fazia era quase uma revelação". O Papa João XXIII foi eleito no ano seguinte, 28 de Outubro de 1958, e, em Janeiro de 1959, teve a ideia de convocar um concílio ecuménico, dando cumprimento a uma necessidade que já vinha do tempo de Pio XII. Desta vez, não era para condenar heresias, "não se tratava de resolver nenhum problema determinado", mas do todo. "O cristianismo, que tinha construído e formado o mundo ocidental, parecia perder cada vez mais a sua força formativa, parecia cansado", sublinhou Ratzinger. Ele tinha, portanto, de "erguer-se no Hoje, outra vez, para poder tornar-se de novo formativo para o Amanhã". Ratzinger ousa olhar para o futuro e torna-se, em pouco tempo, "um autêntico fã" de João XXIII: "ele fascinou-me desde o início, também por causa do seu modo não convencional, por ser tão directo, tão simples, tão humano". Entretanto, vai-se procedendo à formação das comissões preparatórias do Concílio. O cardeal J. Frings, de Colónia, era membro da comissão central. Ora, pasme-se, ele que se tinha comprometido com um discurso em Génova, foi ter com Ratzinger, já professor da Universidade de Bona: "Senhor professor, pode prepará-lo?" O discurso foi feito e publicado e, numa audiência, diz João XXIII a Frings, abraçando-o: "Eminência, tenho de agradecer-lhe. Li esta noite o seu discurso. Que feliz coincidência do pensamento! Disse tudo o que eu penso e queria dizer, mas que eu não saberia dizer." Frings: "Santo Padre, não fui eu que o fiz, mas um jovem professor." João XXIII: "A minha última encíclica também não fui eu que a escrevi, mas um perito." O biógrafo, Peter Seewald, confronta então o discurso de abertura do Concílio, a 11 de Outubro de 1962, de João XXIII, e o discurso de Frings, isto é, de Ratzinger, para mostrar as coincidências. No seu texto, Ratzinger apresenta as exigências do Concílio face às mudanças sociais do mundo, que vê marcado por três grandes movimentos: a globalização, a tecnicização e a crença na ciência. Uma das causas principais do ateísmo moderno está na "autodivinização da humanidade". Mas a ciência não pode dar resposta à "necessidade da luta ética", pois não toma a sério o homem enquanto ser moral, com liberdade e consciência. Missão do Concílio tem, portanto, de ser, em diálogo com a modernidade, formular a fé cristã como uma alternativa autêntica, vivível e digna de ser vivida. A Igreja como Povo de povos tem de ter em conta a pluralidade de formas da vida humana. Num mundo global, o catolicismo tem de ser verdadeiramente católico, plural, concretamente a liturgia "tem de ser tanto um espelho da unidade da Igreja como uma expressão adaptada das particularidades dos respectivos povos." (Continua) Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia