Ana Sousa Dias

Ana Sousa Dias

Uma rotação e meia e lá vai o disco, Daisy

Esta manhã vou estar à frente da televisão às oito e meia, esperando Liliana, Daisy e Irina. Vou torcer para que passem à final do lançamento do disco dos Europeus de Atletismo. Liliana e Irina porque são portuguesas, corajosas, ótimas no que fazem. E Daisy porque quando foi agredida no bairro onde mora, perto de Turim, se aguentou firme apesar de ter ficado com a visão afetada.

O fator humano

As senhoras que me dão ordens no GPS conforme as línguas

Agora penso: a primeira coisa que devia ter feito antes de começar a escrever era telefonar à Maria Helena Mira Mateus. É uma enciclopédia em matéria de linguística, o grande tema da vida da professora que não se limitou a estudar o trabalho dos outros, mergulhou a fundo e veio à superfície com novas ideias e teorias. Em vez disso resolvi deixar a conversa com a Maria Helena para mais tarde e com mais tempo, agora que já saboreei o livro em que conta Uma Vida Cheia de Palavras.

O fator humano

Novas aventuras na crosta frágil desta bola recheada de fogo

É como se víssemos a cena em câmara lenta, mas é aquela a velocidade real da lava que saiu no domingo do vulcão Kilauea, no Havai. Um movimento lento e implacável. Falo de um vídeo filmado por um homem que tem como hobby andar pelo mundo a registar catástrofes naturais. Mostra uma onda incandescente e negra a avançar para um Ford Mustang e depois a engoli-lo, sem deixar de fora qualquer vestígio. Ao lado do carro está um inesperado R2-D2, o inseparável companheiro de C-3PO, aqueles robôs tão humanos que ganharam foro de personagens de Star Wars. A câmara mostra o desaparecimento do automóvel, afasta-se para mostrar o magma que se impõe ocupando a estrada e quando volta para trás o robô continua intacto, de frente para a morte. Talvez por pudor e respeito, mais provavelmente por desinteresse, o vídeo acaba ali, ainda com o R2-D2 de pé e impassível.

O fator humano

Quem rouba um milhão é barão, lá diz o povo

Há uma certa brandura dos tribunais nos crimes contra pessoas, um indicador que deve merecer reflexão", disse a socióloga e investigadora Conceição Gomes ao DN a propósito da aplicação de pena suspensa a um professor que abusou repetidamente de uma criança de 10 anos, naquilo que foi descrito como "atos sexuais de relevo". Foi condenado a quatro anos e meio e ao pagamento de dez mil euros à vítima.

O fator humano

Conversa em português num café de Budapeste

Estamos no Café Central em Budapeste e Monika Bense, 45 anos, vestido vermelho bem ajustado ao corpo, conversa connosco - o fotógrafo Adelino Meireles e eu - num português fluentíssimo, nascido no estudo nas universidades de Budapeste e do Porto mas sobretudo nas frequentes vindas a Portugal. De vez em quando menciona "a minha família portuguesa" e está a falar da família de Clara Riso, a diretora da Casa Fernando Pessoa que foi leitora de Português em Budapeste. Um caso, se bem percebi, de adoção recíproca.

O fator humano

Margarida, estou contigo. Deixem-me sair, vocês são estúpidas

O menino Nelito foi uma das criações geniais de Herman José. Um menino de bibe a destruir tudo à passagem, a fazer perguntas embaraçosas e a ser encantador. Aí estão três características das crianças. Destroem muita coisa à passagem, fazem perguntas embaraçosas e são encantadores. Fazem e são muitas outras coisas, todos os dias, a todas as horas, e o sossego muitas vezes só chega quando adormecem. Como anjos, não é?

O fator humano

O carpinteiro não perguntou: com fatura ou sem fatura?

Imaginar o fabuloso incensório da Catedral de Santiago de Compostela a encher o ar de marijuana foi um momento divertido, hão de concordar. A coisa durou umas horas, não o fumo mas o tempo de validação da notícia: fake news. No dia em que se discute em Portugal se deve ser legalizado o uso da erva para fins medicinais, até parecia uma história feita de propósito. Que um portuguesinho valente tivesse ido à imponente catedral de Santiago para fazer valer o seu ponto de vista era uma hipótese. Mas a história falava de dois acólitos galegos como autores do (não) feito, com uma noite passada na prisão.

O fator humano

As chuvas de estrelas não se deixam ver. O que é que isso interessa?

Nunca consegui ver uma chuva de estrelas. Cada vez que é anunciada uma, geralmente como a maior do ano, acontece sempre qualquer coisa que me impede de assistir a esse espetáculo que na minha cabeça é um fogo-de-artifício de dimensão astronómica. Umas vezes porque estou num lugar que não permite visibilidade, com luzes artificiais a ofuscar o céu, outras porque estou a dormir, outras ainda, como aconteceu nesta semana, porque as nuvens tapavam tudo. Não é que não tenha tentado noutras ocasiões. Passei duas ou três noites ao relento - tenho testemunhas - com cobertores e chás quentes. Lá vai uma, olha outra ali (daí a dez minutos) e ponto final, vou mas é dormir.

O fator humano

Paisagem verde e negra, oitenta anos e um casamento

Os primeiros sinais surgem ainda antes da estação de serviço de Aveiras. Fumo escuro ao longe, no dia a seguir a ter ouvido na rádio: "A Proteção Civil alerta para o risco de incêndios nos próximos dias, com tempo seco e temperaturas elevadas." Entrámos na segunda metade de novembro, o São Martinho já lá vai, e as previsões meteorológicas a teimar em mostrar pequenos sóis sorridentes, quase trocistas, como caras de palhaços pintados e assustadores. Nem uma nuvem. Só aquele fumo escuro ao longe, muito antes da serra dos Candeeiros, cada vez mais espalhado.

Opinião

Ida e volta a Timor com muitas histórias africanas

É um episódio histórico de que não tinha ouvido falar, ou antes, de que não me recordo de ter ouvido falar. Aparece agora contado por uma voz inesperada. Mariazinha, irmã de Zeca Afonso, passou parte da infância num campo de concentração japonês em Timor, durante a II Guerra Mundial. Para ela, é um período cheio de significados, embora tenha sido calado durante todos estes anos. Ali sofreu as maiores dificuldades, ali deixou de ser criança e aprendeu a resolver problemas que nem um adulto deveria ter de encarar. Ali fez um corte num pé que deixou uma cicatriz, e ali foi tratada com cuidado por um dos carcereiros, um médico japonês.