Ana Sousa Dias

Ana Sousa Dias

Um adolescente estranho, esse macaco nu

Desmond Morris é um grande viajante, capaz de pegar em três meses de vida e partir para uma volta ao mundo, e fazê-lo outra vez e outra vez. Quando está em Inglaterra, pinta no ateliê em casa, uma pala e uma lente presas na testa, figuras indiscutivelmente da onda surrealista. Ou investiga e escreve. Não para de escrever desde 1958, com um momento alto quando em 1967 publicou O Macaco Nu, traduzido para 23 línguas e com 20 milhões de cópias vendidas.

O fator humano

O Casal e O Outro Casal, os corpos em fusão

É como se fosse um espelho, mas a reproduzir imagens que são ao mesmo tempo diferentes e idênticas. No andar térreo está Le Couple, o casal Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva. No andar de cima está O Outro Casal, Helena Almeida e Artur Rosa. Os dois casais têm em comum a profunda ligação, uma coisa física e quase feroz, a tal ponto que não é possível desvendar onde está o corpo de cada um nas imagens.

Opinião

O escândalo por trás da porta branca da Academia Sueca

Em 1996, a artista Anna-Karin Bylund enviou uma carta ao administrador da Academia Sueca a denunciar Jean--Claude Arnault, acusando-o de assédio sexual. Se nessa altura Sture Allen não tivesse considerado que o conteúdo da carta não tinha qualquer importância, talvez o Prémio Nobel da Literatura de 2018 fosse atribuído e entregue em 2018, em vez de estar adiado para 2019.

O fator humano

Quem rouba um milhão é barão, lá diz o povo

Há uma certa brandura dos tribunais nos crimes contra pessoas, um indicador que deve merecer reflexão", disse a socióloga e investigadora Conceição Gomes ao DN a propósito da aplicação de pena suspensa a um professor que abusou repetidamente de uma criança de 10 anos, naquilo que foi descrito como "atos sexuais de relevo". Foi condenado a quatro anos e meio e ao pagamento de dez mil euros à vítima.

O fator humano

A barata, esse pequeno animal dotado de superpoderes

O genoma da barata ou, melhor dizendo, os genomas de duas das cinco mil espécies de baratas foram descodificados e o resultado não é brincadeira nenhuma. Estes insetos têm características que lhes permitem sobreviver nos habitats mais extremos e fazem-no há milhões de anos. Foram contemporâneos dos dinossauros, há provas disso, e ainda cá estão com uma saúde indestrutível. Arrisco mesmo dizer que, em pleno século XXI, se sentiriam confortáveis dentro de uma lata de inseticida, reproduzindo-se com o maior à-vontade.

O fator humano

O carpinteiro não perguntou: com fatura ou sem fatura?

Imaginar o fabuloso incensório da Catedral de Santiago de Compostela a encher o ar de marijuana foi um momento divertido, hão de concordar. A coisa durou umas horas, não o fumo mas o tempo de validação da notícia: fake news. No dia em que se discute em Portugal se deve ser legalizado o uso da erva para fins medicinais, até parecia uma história feita de propósito. Que um portuguesinho valente tivesse ido à imponente catedral de Santiago para fazer valer o seu ponto de vista era uma hipótese. Mas a história falava de dois acólitos galegos como autores do (não) feito, com uma noite passada na prisão.

O fator humano

Em que dedo anda o anel que me roubaram?

"Poderia até ser eu própria mas sem o dom da admiração quer dizer - alguém completamente diferente" Esta é a estrofe final de um poema de Wislawa Szymborska, num pequeno livrinho ("Instante", Relógio d"Água) acabado de publicar e que veio da livraria para a minha casa e desatei logo a ler. Desculpem, isto pode parecer uma coisa muito a armar a intelectual, mas não haveria escritora mais afastada dessa ideia de ah e tal uma coisa indecifrável. Ela escreve sobre as pequenas coisas e maravilha-me sempre, porque dentro da escrita dela descubro novas perguntas, dúvidas, admirações. E mesmo quando fala de Platão, no poema "Platão ou o porquê", faz dele uma pessoa com quem parece estar a conversar e ficavam ali os dois e eu quietinha a ouvi-los. Uma vez vi um documentário sobre ela na televisão e agora aparece-me na cabeça um parêntesis: (Há pessoas que veem documentários e depois escrevem sobre eles e mais valia ficarem a ruminar lá para elas, e acho que sabem do que estou a falar, mas se não sabem eu digo: José António Saraiva e a crónica sobre mudança de sexo. Uma pessoa fica com vergonha alheia. Fim de parêntesis e não se fala mais nisso, estamos à mesa). Mas eu não queria trazer aqui a pequenez de espírito, era mesmo sobre Wislawa e a poesia dela e recordar o documentário, ela a comprar souvenirs delirantes nos lugares por onde anda e sem saber bem em que gaveta estarão a medalha e o diploma do Nobel. Portanto, voltando ao livro que trouxe para casa e desatei a ler, proponho um poema chamado "Lista", uma coisa alusiva à época em que há quem faça listas de decisões. Eu não faço e da passagem do ano gosto é do fogo-de-artifício. A lista de Wislawa é outra coisa: "Preparei uma lista de perguntas / cujas respostas já não chegarei a saber /ou por ser demasiado cedo para elas / ou não conseguir entendê-las" E vai de questões como "Quando cessarão as guerras / e o que as substituirá" ou "No anelar de quem / andará o meu anel de estimação / furtado ou perdido." Acontece que por duas vezes me assaltaram casas onde vivi e roubaram-me anéis. E outras coisas. De estimação algumas delas. Durante uns tempos espreitei montras onde havia anéis para ver se os encontrava. Manobra inútil, evidentemente, e posso ir mais longe e confessar que ainda hoje o faço, embora não me recorde bem dos anéis que me desapareceram. A pergunta de Wislawa é muito mais intrigante e, lá está, poética. Em que dedo andará? E abre caminhos extraordinários à imaginação. Já a outra pergunta é diferente: quando cessarão as guerras e o que as substituirá. É esta segunda frase que faz a diferença. Quando cessarão as guerras é uma pergunta retórica, bem intencionada, paz e amor, etc. Mas ao querer saber o que as substituirá, aí está a pergunta sobre que mundo seria esse, que pessoas seriam essas, e se seriam pessoas, e por aí adiante. Ser jornalista é como ser uma criança ou uma Wislawa: é observar o mundo e fazer perguntas. Os porquês, por um lado, e as hipóteses alternativas (não, não é a verdade alternativa, isso é outra conversa e não é para aqui chamada). Eu tornei-me jornalista por acaso, nunca pensei quero ser jornalista quando for grande, isso estava fora de qualquer efabulação da minha infância. Mas sei que consegui incomodar pessoas cheias de certezas e preconceitos com as minhas perguntas e dúvidas, e então na adolescência nem vos digo mais, porque as perguntas e dúvidas iam dando lugar a certezas que felizmente fui deixando pelo caminho. No meio disto, se há coisa que me dê prazer é esse dom da admiração de que Wislawa fala, a capacidade de espanto e maravilhamento. Desse dom não prescindo, parada a olhar um céu estrelado, um quadro, um poema uma música, uma pedra como aquela coleção que herdei de um tio-avô, tão vasta que está agora numa escola onde as minhas filhas aprenderam e ainda cá tenho algumas dentro de uma caixa de sapatos. Não fiquei poeta, nem cientista nem professora, fiquei jornalista e gosto disso.