Ana Rita Guerra

Carta de Los Angeles

O monstro precisa de amigos

Os letreiros começaram a surgir no ano passado. "Não fazemos bolos para casamentos gay", avisavam as vitrinas de pastelarias. Em dezembro, um jornalista perguntou à porta-voz Sarah Huckabee Sanders (na foto) se a Casa Branca apoiava este direito dos pasteleiros de recusarem serviço a clientes por não concordarem com o seu comportamento ou com o estilo de vida. Ela disse que sim, claro, porque é um exercício de liberdade religiosa. O Supremo norte-americano confirmou a validade desta posição quando, no início de junho, decidiu a favor de um pasteleiro do Colorado que foi processado por se recusar a fazer um bolo para um casal gay. "Estamos satisfeitos com a decisão do Supremo", afirmou então Sarah Huckabee Sanders.

Carta de Los Angeles

O dia em que os carros vão voar

A Interstate 105 que Los Angeles inaugurou em 1993 era uma maravilha da engenharia, uma autoestrada de dimensões dantescas construída para a modernidade. O fim de uma era, disse-se na altura, quando a grande metrópole do sul da Califórnia completou mais de 50 anos na vanguarda das ligações rodoviárias. Esta rede, com poucas ou nenhumas portagens, continua a ser fenomenal. Tem apenas um problema: o tráfico mais congestionado do mundo.

Carta de Los Angeles

Viagem até ao Sol

Durante quatro dias no verão de 1859, todos os sistemas telegráficos da Europa e Estados Unidos foram abaixo por causa de uma tempestade solar nunca antes vista. Seriam precisos mais 99 anos para que o astrofísico Eugene Parker fizesse uma descoberta fenomenal cujo caminho tinha sido preparado pelos antecessores: identificou como "vento solar" os grandes movimentos de partículas a partir da coroa do Sol responsáveis por interferências das comunicações, satélites, sistemas GPS e serviços elétricos. O vento solar transforma-se em tempestade geomagnética quando interage com o campo magnético da Terra, e foi isso que aconteceu nesse evento histórico há 160 anos. Então porque é que nunca fomos ao Sol tentar aprender mais sobre a estrela que tudo determina?

Carta de Los Angeles

O sol nasce sempre em Hollywood

Os dias que antecederam a grande noite dos Óscares foram chuvosos, cinzentos, atípicos para este Sul da Califórnia habituado a uma situação quase perene de luz solar. A grande passadeira vermelha desenrolada ao longo da Hollywood Boulevard teve de ser coberta para acautelar um potencial desabar de água, nada compatível com as farpelas de luxo usadas pelas estrelas. Mas o dia amanheceu soalheiro, qual intervenção cósmica para deixar a malta celebrar em paz esta indústria que a todos cansa e fascina.

Carta de Los Angeles

Um cemitério de boas ideias

A premissa era superinteressante e encaixava-se bem nesta nova era dourada da televisão, que abriu as portas a narrativas diversificadas e com pontos de vista de todas as cores. O canal Showtime, que trouxe até nós Shameless e Homeland, ia apostar numa série sobre um ambicioso comediante afro-americano a tentar partir pedra em Hollywood e atingir o estrelato no cinema. Só o título já dava para perceber que ia ser provocador: White Famous. O nível de fama em que um afro-americano é popular entre os espectadores brancos, como Denzel Washington ou Will Smith.

Opinião

Time's Up

O sentido de igualdade tem de vir de dentro de nós", gritou a atriz Scarlett Johansson no palco da Women"s March Los Angeles. Os gritos e palmas afogavam o seu discurso apaixonado sobre assédio sexual e o movimento #Me Too, enquanto os telemóveis se levantavam para filmar o momento. Estamos na capital do cinema, por isso o desfile de celebridades misturou-se com o dos políticos democratas e ativistas imigrantes e LGBT. Natalie Portman contou como começou a ser assediada aos 12 anos, quando fez o primeiro filme. Eva Longoria enquadrou a marcha num movimento que vai além de qualquer político, porque o que se pede é "uma mudança sistemática para as mulheres na América, por salários e representação iguais". Rachel Platten cantou a sua Fight Song, a música que Hillary Clinton escolhera para a campanha em que foi derrotada, e pôs toda a gente de punho no ar.

Cartas de Los Angeles

A sombra do outro presidente

Dois meses antes das eleições presidenciais, um rapaz chamado Alex escreveu uma carta a Barack Obama. "Caro senhor presidente, lembra-se do menino que foi salvo por uma ambulância na Síria? Será que pode ir buscá-lo e trazê-lo para nossa casa?" Alex, do alto dos seus 6 anos, queria cuidar do menino que foi fotografado coberto de sangue e poeira após um ataque do regime em Aleppo. Obama ficou tão tocado com a carta que leu alguns excertos nas Nações Unidas, e convidou a família do rapaz a visitar a Casa Branca.

Carta de Los Angeles

Os joelhos da discórdia

Pouco depois das dez da manhã, com um frio atípico a cumprimentar os domingueiros, já se ouvia o crepitar dos churrascos e as colunas dos carros a rasgarem o ar com música de festa. "Bilhete, por favor", pedia um dos seguranças do parque de estacionamento em frente ao Estádio NRG, casa da equipa de futebol americano profissional Houston Texans. "Que barulheira é esta no parque de estacionamento", perguntei, mirando as carrinhas de caixa aberta com o som a bombar, as mesas de piquenique a serem postas e as latas de cerveja a serem abertas. "Isto é tailgating", explicaram-me. Algumas horas antes do jogo, milhares de fãs transformam os parques de estacionamento à volta do estádio numa espécie de parque de campismo, onde há confraternização, partilha de petiscos, cadeiras de lona e até televisores para ver os outros jogos que entretanto vão sendo transmitidos. Mais perto da entrada do estádio há barracas de marcas que se associam à festa, põem música para os fãs dançarem e vendem merchandising. Nem no mais aguerrido Sporting-Benfica vi alguma coisa que se assemelhe a isto, e este foi um jogo entre duas equipas que estão na mó de baixo - os Texans tinham perdido os últimos dois jogos e os San Francisco 49ers contavam apenas duas vitórias em 13 partidas. O estádio que leva 70 mil pessoas estava a menos de metade e foi possível arranjar bilhetes para lugares com vista privilegiada por cerca de 200 euros (uma pechincha, segundo parece). Lá dentro, uma banda tocava músicas de Michael Jackson e os apoiantes dos Texans desafiavam os fãs dos 49ers. "Péssima sorte para a sua equipa hoje", lançou um homem já com alguma idade. "Igualmente, meu senhor", foi a resposta. "Não, eu disse primeiro!", retorquiu. E ambos sorriram. Que raio de simpatia é esta? Talvez a fraca posição das equipas não justifique animosidade. Talvez o facto de não serem rivais diretos explique a polidez das trocas de mimos. Talvez o facto de haver avisos por todo o lado de que não serão tolerados abusos de apoiantes das equipas rivais refreie os ânimos; ninguém quer ser expulso do estádio depois de pagar uma pequena fortuna para ver um jogo de quase quatro horas de duração.

Ana Rita Guerra

Justiça poética

Pensámos que gostarias de rever esta memória de há um ano, disse-me o Facebook, mostrando a capa do Libération que partilhei no rescaldo da eleição de Donald Trump, em 2016. Tem uma imagem obscura do então presidente eleito, com apenas duas palavras a branco: "American Psycho". O primeiro aniversário de uma das eleições presidenciais mais fraturantes da história dos Estados Unidos coincidiu com uma semana de eleições históricas, mas para o outro lado. Na Virgínia, o democrata Ralph S. Northam esmagou o candidato republicano Ed Gillespie na corrida ao cargo de governador, pela maior margem em várias décadas naquele estado. Em Nova Jérsia, os democratas arrancaram o estado das mãos dos republicanos ao darem a posição de governador a Philip D. Murphy. O democrata Bill de Blasio reconquistou o gabinete de mayor em Nova Iorque, apesar de a sua popularidade não andar nos píncaros. Estas conquistas galvanizaram a esquerda, sedenta por vitórias concretas na era da resistência a Trump. O Partido Democrata voltou a enviar e-mails como fazia antes da derrota de Hillary Clinton, pedindo apoio, donativos, voluntariado. As redes sociais encheram-se de celebrações à esquerda e escárnio à direita. A Fox News teve alguma dificuldade em aceitar os resultados, o que se refletiu na parca cobertura da noite eleitoral - o apresentador Sean Hannity falou disso num total de seis segundos.

Carta de Los Angeles

Insurreição feminina

Se nada for feito, a igualdade de género só acontecerá dentro de cem anos." A voz ecoou no microfone e deixou o auditório em silêncio. "Não sei quanto a vocês, mas eu sou capaz de já não estar cá." Seguiu-se uma explosão de gargalhadas e aplausos, entre o peso da tarefa dantesca que está pela frente e a vontade de arregaçar as mangas. Quem falava era Catherine Gray, a organizadora da conferência Live, Love, Thrive, em West Hollywood e presidente da 360 Karma, uma empresa que tem como missão dar poder às mulheres em Los Angeles.