Ana Paula Laborinho

Ana Paula Laborinho

A alegria de ensinar e aprender

Uma das consequências da pandemia prolongada no tempo, foi a maior atenção à saúde mental profundamente afetada, sobretudo no período dos confinamentos. Um estudo recente divulgado no portal do Serviço Nacional de Saúde (SNS) a partir de um questionário online dirigido a várias carreiras e categorias profissionais, entre maio e agosto de 2020, revela que mais de um quarto dos indivíduos da população adulta e cerca de metade dos profissionais de saúde reportaram sintomas compatíveis com depressão e ansiedade moderada a grave, bem como stress pós-traumático. Quase 34% manifestaram sofrimento psicológico, 27% ansiedade moderada ou grave e percentagens próximas para o stress pós-traumático, a depressão ou o burnout. Talvez o único benefício deste quadro negro é o reconhecimento da importância da saúde mental e, em consequência, maior visibilidade e aceitação das doenças mentais. Ainda hoje há uma reserva em relação às doenças mentais, começando no nível da depressão, como se revelasse uma espécie de falha, fragilidade, incapacidade que é preciso esconder, como se fosse uma mancha duradoura de que não é possível recuperar.

Ana Paula Laborinho

Um brilhozinho nos olhos

Nestes tempos sombrios que se sucedem - da pandemia à guerra e à crise económica -, a música tem ocupado um lugar de claridade que nos deixa "um brilhozinho nos olhos". Recordamos os concertos que chegaram por todas as vias durante a pandemia (desde os palcos virtuais às partilhas entre vizinhos nos mais inusitados lugares). Muitos de nós (e eu também) temos uma canção que nos chega em momentos de aflição ou desânimo, talvez outras para a alegria. Este verão assistimos às enchentes dos festivais de música pelo país inteiro, depois de dois anos de doloroso confinamento, em particular para os profissionais da música, que passaram por muitas dificuldades. O público de todas as idades sentia falta desse contacto que os meios virtuais não conseguem substituir. Ainda estamos recordados da emoção que rodeou a vinda a Portugal dos Coldplay, com os bilhetes quase esgotados em menos de um dia, quatro concertos em Coimbra que só acontecerão no próximo ano.

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Admirável mundo novo II

Sim, é verdade. Na minha anterior crónica, apropriei-me do famoso título de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, na versão em português, e divergi do significado sombrio da célebre distopia que tanto debate tem suscitado. Huxley descreve uma ditadura da ciência, em que as castas são definidas por intermédio da engenharia genética, a vida é concebida em laboratório e o ser humano é poupado à dor. Noventa anos depois da sua publicação, em 1932, muito deste universo negro projetado pelo autor aparece como profecia de tendências para a máquina substituir o humano. A história decorre em Londres no ano de 2540, mas não será necessário percorrer cinco séculos para retomar os debates éticos sobre a ciência e a tecnologia e, mais recentemente, a Inteligência Artificial (IA). A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) tem vindo a inscrever no seu mandato esta preocupação que se tornou mais intensa a partir de final do século XX.

Ana Paula Laborinho

Admirável mundo novo

Tem 40 anos o famoso filme de Spielberg, E.T. que conta a amizade entre Elliott, um rapazinho de 10 anos, e um extraterrestre de olhar ternurento e indicador luminoso que não conseguiu embarcar a tempo na nave dos seus companheiros em visita ao planeta Terra para recolher plantas numa floresta da Califórnia. Quem viu o filme não esquece aquele momento mágico em que o ET aponta com o seu dedo brilhante para o céu e diz a Elliott que quer voltar a casa: "ET go home".

Ana Paula Laborinho

Abril ainda

Comemorar o 25 de Abril foi muito especial este ano. Pela primeira vez, vivemos mais tempo em democracia do que em ditadura e, por isso, aumenta o número daqueles que já nasceram depois de 1974. Por isso se torna tão importante a memória, mesmo que reconstruída, como é o caso da magnífica exposição Proibido por inconveniente, a partir de materiais do arquivo Ephemera, esse extraordinário repositório da nossa história recente. A exposição, simbolicamente sediada nas antigas instalações do Diário de Notícias, mostra como a censura não se limitava a apagar ideias contrárias ao regime, (mesmo a pobreza era silenciada), mas era muito mais invasiva, estendendo-se aos costumes e até ao "mau uso da língua portuguesa".

Ana Paula Laborinho

Espanhol e Português: línguas de futuro

Tem hoje início, em Brasília, a 2.ª Conferência Internacional das Línguas Portuguesa e Espanhola (CILPE2022). A primeira CILPE teve lugar em Lisboa, nos finais de 2019, e foi um grande e inesperado sucesso pela capacidade que teve de colocar em diálogo duas línguas próximas que representam, em conjunto, 850 milhões de falantes em quatro continentes, dois idiomas com grande potencial de projeção internacional, mas que tradicionalmente estão de costas voltadas.

Ana Paula Laborinho

Juventude, um objetivo maior

Trabalhando numa organização internacional, recebi muitas reações de colegas e entidades aos resultados das eleições. Além da singularidade de um resultado que não era esperado e da convulsão do sistema partidário, o que mais impressionou nestes tempos de pandemia foi a participação eleitoral, baixando a abstenção, contrariando as conjeturas que apontavam em sinal contrário dado o elevado número de eleitores em condição de isolamento. Depois de diversos pareceres e julgamentos, a Procuradoria-Geral da República fez saber que ninguém poderia ser impedido de votar, ainda que respeitando as regras essenciais (o que, a bem dizer, é o respeito que devemos aos outros e a nós próprios). Mais uma vez nós, os portugueses, demos um exemplo de cidadania e sentido de dever, de forma serena e atenta.

Ana Paula Laborinho

Ciência e cidadania

Durante três dias, Lisboa acolheu o Congresso Ibero-americano de Indicadores de Ciência e Tecnologia, cuja rede celebrou 25 anos em 2020. Como destacou Maria de Lurdes Rodrigues, a Reitora do ISCTE-IUL, que recebeu o evento, esperou-se mais de um ano para conseguir um encontro presencial, mas só foi possível um modelo híbrido, apesar dos quase 800 participantes que acompanharam as sessões. Mas este Congresso, mesmo com um ano de atraso, não deixou de ser uma celebração, em que participaram alguns dos que intervieram na constituição desta rede, como Maria de Lurdes Rodrigues ou João Mata, mas também aqueles que há muitos anos para ela contribuem como Nuno Rodrigues, atual Diretor-geral das Estatísticas de Educação e Ciência. As estatísticas e os indicadores podem parecer ao cidadão comum, em que me incluo, um tema árido a que preferimos aceder em resultados finais, talvez sem nos termos interrogado como a sua formulação é determinante na escolha de políticas públicas. O Ministro Manuel Heitor, que desde início acompanhou a organização e a escolha dos temas, sublinhou a importância de refletir sobre as novas tendências de construção de indicadores (manter as metodologias tradicionais ou incorporar a tecnologia blockchain?) e, sobretudo, conseguir mais participação dos cidadãos na formulação das agendas científicas. A ciência e a tecnologia ao serviço das comunidades e das pessoas.

Ana Paula Laborinho

A Educação como construção de oportunidades

Decorre hoje a apresentação do número da Revista Ibero-americana de Educação (RIE) dedicado aos efeitos da pandemia na educação, mas centrado sobretudo nas transformações e nas oportunidades que se apresentam. Este número é coordenado pelo prestigiado Professor de Harvard, o venezuelano Fernando Reimers, diretor do Centro de Investigação sobre Educação Global daquela universidade, coordenador de vários estudos da OCDE e do Banco Mundial, e membro da Comissão para o Futuro da Educação da UNESCO.

Opinião

A palavra dos filósofos

O tempo que vivemos parece particularmente propenso à reflexão filosófica e, de facto, os mais proeminentes pensadores contemporâneos têm lançado ensaios em que a pandemia está presente. De Giorgio Agamben e Peter Sloterdijk, ambos chamando a atenção para a onda autoritária que se instalou com a pandemia, a Yuval Noah Harari que alerta para os perigos da monitorização biométrica que acatamos com normalidade, passando pelo comunista complexo (assim se define) Slavoj Žižek, que, no mais recente livro, A Pandemia que Abalou o Mundo (2020), anuncia a ruína do capitalismo, incluindo Daniel Innerarity, que publicou recentemente Pandemocracia. Una filosofía de la crisis del coronavírus, que escreveu na primavera de 2020. Nesta obra escrita num tempo que já parece longínquo, o filósofo basco que nos habituou às reflexões sobre o valor da política, não deixa de abordar o seu tema predileto, mas numa perspetiva dos valores e qualidades que são postos à prova perante as dificuldades que enfrentamos. Aliás, esse debate tem atravessado o espaço público a propósito da comunicação de crise, com fortes críticas às dificuldades que os decisores políticos, nacionais e internacionais, têm experimentado para transmitir informação e fixar prioridades sociais. Nem tudo se resume à volatilidade da situação que vivemos, mas a incerteza constante é de facto um enorme teste também ao modelo de comunicação política que se estabelece como assertivo e coerente.