Alberto Gonçalves

Dias Contados

Os amigos do povo português

Zelosa, a AR aprovou não um, mas dois votos de pesar pela morte de Fidel Castro, dois votos mais do que o sujeito teve em 90 anos de vida. O voto do PCP (que louvou o "ideal e projeto de construção de uma sociedade justa e solidária" e o "amigo do povo português") contou com a aprovação de todos os deputados comunistas, BE incluído, a oposição do CDS e, com poucas excepções contrárias, a abstenção de PSD e PS. Quanto ao voto do PS (que refere o "intenso e apaixonado debate entre os que aderem e os que se opõem" ao "percurso ideológico e político" do falecido), foi aprovado pelo PS (menos Sérgio Sousa Pinto) e pelos partidos comunistas, com a oposição do CDS e, com poucas excepções contrárias, a abstenção do PSD.

Dias Contados

Se os portugueses votassem nos EUA

Acontece com frequência: durante almoçarada ou similar, um comensal até aí discreto toma conta da palavra para garantir ao mundo ou às duas mesas vizinhas que "os americanos são todos ignorantes". Ou "boçais". Ou "labregos". Ou alguma observação assim desagradável. O que os americanos não são é sofisticados. Ou sábios. Ou esclarecidos. Ou qualquer virtude reservada a indivíduos que, entre a sobremesa e o café, lançam generalizações com prodigiosa facilidade. Também é engraçado notar que as generalizações nunca envolvem canadianos ou búlgaros, e raramente versam líbios ou japoneses. Em 92% dos casos, o alvo das doutas sentenças são mesmo os americanos.

Dias Contados

Turismo nunca mais

Talvez por influência da Catalunha, e dos interessantes chalupas que mandam em Barcelona, anda por aí um debate acerca do excesso de turistas sobretudo em Lisboa, um pouco no Porto e não tarda em Salvaterra de Magos. Personalidades de relevo chamam a atenção para a calamidade, com um frenesim proporcional ao relevo que pretendem alcançar. Os media conferem à calamidade a devida histeria. Multidões de anónimos partilham em fóruns (ou fora, para os chatos) testemunhos do horror. Todos juntos procuram responder à decisiva questão: como conseguir menos turismo?

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O BE não pactua é com democracias

Por dever de ofício, inclinação natural ou gozo, os políticos sempre mentiram. A diferença é que antigamente a mentira implicava um esforço, alguma sofisticação, um esboço de enredo. No Portugal de hoje, atiram-se ao ar as mais descaradas e preguiçosas patranhas na esperança de que as pessoas as engulam. E o nível de exigência está tão baixo que a esperança é fundamentada e as pessoas engolem mesmo as patranhas.

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Verão Gelado

Um governo. Uma maioria. Um presidente. O primeiro, movido pelo oportunismo, pela intrujice e por incompetência, actua com gloriosa irresponsabilidade. A segunda, movida pela pressão das clientelas e pelo fanatismo ideológico, exige com urgência inéditos paradigmas de loucura. O terceiro, movido por um pavor clínico da rejeição, persegue transeuntes com comendas e faz figuras incompatíveis com o cargo. Mesmo à distância, não seria difícil adivinhar o futuro, a breve prazo, de um país assim. Para nossa desgraça, a distância é nula e o país é aquele em que vivemos: difícil é imaginar pior conjugação de circunstâncias. E o futuro, escusado lembrar, é negro como a noite. Trata-se de azar? Só em parte. Sobretudo trata-se de um crime, cujos autores sairão impunes e cujas vítimas serão inúmeras.

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Tratar o destino com os pés

Até agora, vi a maioria dos jogos da dita selecção nacional no campeonato em curso. Ao estilo (digamos) apresentado, os comentadores chamam "jogo de paciência". Se se referem à paciência necessária para o espectador aturar aquilo, acertam em cheio: o próprio Job tentaria cortar os pulsos após vinte ou trinta minutos de futebol tão lento e destrambelhado. Embora os jogadores me pareçam fracotes, e o "melhor do mundo" fora de forma, fica a impressão de que, entretida a reformular penteados ou a estreitar laços com a "diáspora", a equipa não treinou nada, excepto a estratégia para adormecer adversários ainda menos dotados (os quais são prévia e constantemente considerados prodigiosos de modo a alimentar o patriotismo). Não tem corrido mal: Portugal não perdeu um jogo. Acontece que também não ganhou nenhum, apenas seguindo em frente graças às sucessivas atenuantes nos regulamentos da bola, da "repescagem" aos "penáltis", passando pelo "prolongamento". É isto um drama? Nem por sombras. Como se diz no jargão, é futebol, e o futebol, apesar da histeria alusiva, é uma suprema irrelevância.

Dias Contados

Quarta-feira de cinzas

Manhã. Desde cedo - ou, para ser exacto, desde há semanas - que quase todos os canais televisivos estão sequestrados por analistas e repórteres desportivos. Os analistas arriscam teses alusivas à "basculação" e ao "4-4-2". Os repórteres exibem, aqui e em França, populares aos gritos. Pelas minhas contas, cerca de oitocentas mil pessoas já foram chamadas a prever quem vai ganhar logo e quem vai marcar os golos. Que eu visse, ninguém recusou responder.