Afonso Camões

Afonso Camões

A pátria de chuteiras

Aos 25 minutos já perdíamos por 3-0. Alguns chorávamos, e já nesse tempo a culpa era do treinador - aquele momento virginal em que, como agora, vem ao de cima o Fernando Santos que há em nós. O meu primeiro foi também o de Portugal, seleção estreante naquele Mundial. Oito golos, um jogo para a eternidade. A malta do bairro trouxe banquinhos de casa e, no cruzamento de três ruas onde o dono da tasca tinha virado para fora o aparelho de tubos catódicos, juntou-se o arraial à volta da única televisão que havia na vizinhança. A preto e branco e um só canal.

Afonso Camões

Brasil com a risca ao meio

O Brasil acordou com risca ao meio no início de um tempo novo. Lula ganhou por uma unha, há uma nova esperança que amanhece, e o primeiro compromisso do antigo metalúrgico é resgatar mais de 30 milhões de brasileiros à pobreza extrema, dar-lhes teto e acabar com a fome num país desigual e fraturado que, paradoxalmente, é o maior produtor mundial de proteínas alimentares. A vitória de Lula é também o regresso do Brasil ao diálogo internacional, seja entre as maiores economias, ou com os seus vizinhos do Mercosul, mas também com os países de língua portuguesa, no âmbito da CPLP. O mundo já tinha saudades do Brasil e este promete estar de volta.

Afonso Camões

Mais olhos que barriga

Tempo quente pede roupa leve, e dizer que a indumentária não interessa é algo que só se pode permitir a quem nunca teve problemas para caber dentro dela. Encolhemos a barriga para a fotografia e diz-nos o médico que 10 quilos a menos haveriam de melhorar-nos o sono e a autoestima diante do espelho ou, por estes dias de estio, no olhar que nos devolvem aqueles que cruzamos no areal, em fato de banho. O médico terá toda a razão, afinal, também é pela boca que morre o peixe.

Afonso Camões

Estabilidade no patilhão

Homem da beira-mar, Luis Montenegro sabe certamente o que é navegar à bolina, essa técnica ancestral que os nossos marinheiros inventaram para velejar de contra-vento por zonas onde os ventos não são favoráveis. Pois bem, o novo líder do PSD vai ter tempo para a apurar, na oposição, depois de um congresso que o consagra diante de um partido aparentemente mais unido e esperançoso e, sobretudo, enfrentando um governo de maioria absoluta no Parlamento, com um horizonte de quatro anos.

Afonso Camões

Governar a incerteza

As crises do nosso tempo chovem no molhado: Mal refeitos da troika, caiu-nos em cima a pandemia; e enquanto sonhávamos com a bazuca, acordámos com uma guerra. A economia portuguesa enfrenta agora um novo desafio, com forte impacto nos próximos meses. O aumento dos preços da energia, combustíveis, matérias-primas, cereais e fertilizantes, como sequela da guerra na Ucrânia, ameaça reduzir o poder de compra das famílias e a competitividade de muitas empresas. O resultado não pode ser bom: a desaceleração do consumo e do investimento encolhem as expectativas de recuperação pós-pandemia e, por consequência, o crescimento e a criação de emprego.

Afonso Camões

A hipocrisia também mata

Chega a ser divertido o desfile de novos especialistas em guerra e geoestratégia, alguns deles exatamente os mesmos que ainda há dois meses destrocavam talento e desenvoltura nos temas da virologia, do combate à pandemia e até das eleições do Benfica. Tirando aqueles portugueses que ao longo dos anos temos enviado em missões militares, humanitárias ou mesmo jornalísticas para diferentes partes do mundo, sabemos pouco dos horrores da guerra. E as guerras, ainda que sejam defensivas e de apoio, parece que são caras.