Adriano Moreira

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A liderança do populismo

O Irão, que foi posto em guarda pela ameaça de intervenção americana, paralisada a poucos minutos do início, mostrando uma surpreendente relação entre os efeitos previstos pelo estado-maior e o alarme tardio do seu comandante supremo, respondeu que não queria a guerra, mas que não a temia. O regime atual partiu da revolução de 1979 que, derrubando a monarquia, instaurou uma República dita para a "independência e liberdade", integradora das diversas correntes políticas orientadas para um projeto estratégico renovador.

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O nuclear

Os custos humanos e materiais da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) não tinham sido ignorados pelo ensino que levou à revolta generalizada da juventude americana quando, na década de 60 do século passado, os EUA se envolveram na guerra do Vietname. A lembrança das consequências do uso da arma atómica fez circular, por esse tempo, um episódio passado numa universidade da Califórnia em que a multidão que assistia a um curso do currículo nuclear acompanhou o orador no grito - "fora com a civilização ocidental".

Adriano Moreira

A ameaça ecológica

A preocupação dominante, mesmo não confessada, dos responsáveis que não esquecem o critério aristocrático que ainda inspirou a distinção concedida aos titulares do direito de veto no Conselho de Segurança tem sido a ameaça dos emergentes em relação à manutenção desse princípio. Os observadores tentam, sem concordância, conseguir um critério de identificação dos tais emergentes, onde não falta a inclusão da China, da União Indiana, até do Brasil, ou da África do Sul.

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A tendência eurocrática

No ano passado, e depois de no anterior se ter realizado na Academia das Ciências de Lisboa um simpósio, em conjunto com a Academia Portuguesa da História, tendo por tema a interrogação "O futuro da Europa passa também pelo Brasil?", o ilustre presidente honorário perpétuo da Academia de Letras de Brasília, professor José Carlos Gentili, publicou um livro com a síntese do tema do simpósio. Ali recorda a correspondência entre Thomas Jefferson e o abade Correia da Serra, que aquele considerou "o homem mais erudito que jamais conheci", sendo o abade um otimista sobre o futuro do Reino do Brasil, e Jefferson um visionário do futuro dos EUA, é porém no livro lembrado como tendo afirmado que "estava perfeitamente seguro de que os países da América Latina acabariam por repelir o jugo da Espanha e de Portugal, mas era decididamente cético quanto à sua capacidade de se autogovernarem".

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A crise e os populismos violentos

A complexidade, de racionalização extremamente difícil, a que a desordem do Brexit conduziu a questão de saber se a Europa acaba no canal, e se, na sequência do possível não acordo, o Reino Unido terá de enfrentar algumas consequências resultantes de não ser um Estado nacional, tudo se reflete na imprevisibilidade dos resultados das passadas eleições europeias, quer o Reino Unido participasse sem significado nelas quer estivesse já ausente.

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O enigma da governança

Não apenas na União Europeia mas em todas as áreas políticas em que se divide o globalismo, o enigma da governança deixou de ser um desafio à capacidade de entender, bem ou mal, as configurações e as diferenças das propostas submetidas à votação democrática, mas passa a ser lidar com a surpresa do projeto que será organizado para conciliar as forças políticas, que se diferenciaram na competição, num programa acolhido pelas leis vigentes, mas que parece conciliável apenas, em primeiro lugar, pela soma dos lugares obtidos nos parlamentos, para repartir o poder. Como a abstenção nos atos eleitorais, como se verificou nas recentes eleições para o Parlamento da União Europeia, uma atitude a que Daniel Innerarity chama "tédio", a qual, acrescenta, não resulta da quebra de interesses pelo bem público, mas de se ter perdido a esperança de poder fazer alguma coisa com a política tradicional, é difícil que o programa conciliatório corresponda à inquietação do eleitorado, é provável que surpreenda a população que foi abstencionista. A imaginação criativa dos portugueses encontrou uma expressão menos desanimada do que "tédio", e está a obter com ela um triunfo semântico internacional, que foi a geringonça, a qual perde a respeitabilidade da palavra gestão, para ser entendida, pelos destinatários surpresos, como "coisa mal feita e que se escangalha facilmente". Na origem portuguesa, a aritmética, com respeito pelas regras constitucionais, deu-lhe um funcionamento mais duradoiro do que o batismo vaticinava. Mas abonou a convicção de que "os dicionários políticos envelheceram", porque as clássicas definições partidárias foram ultrapassadas pela realidade, e a história da União Europeia acaba de iniciar uma época exigente que já ameaça ter de recorrer ao método, para substituir a longa vigência das formações que foram substituídas por um pluralismo sem precedente. O expediente o que enfrenta é que a problemática global é inegavelmente nova, não se confunde com a passada necessidade de reconstituir uma vida aceitável dos sobreviventes à criminalidade e à violência militar da Segunda Guerra Mundial. A competência e a arte dos sábios governantes fundadores, unidos pela memória das guerras sofridas e convergentes nos valores em direção aos quais uniram vontades e resultados, conseguiram enfrentar as dificuldades da Guerra Fria: não deixaram herdeiros moldados por igual inspiração. Os resultados do globalismo não se limitaram ao quadro dos efeitos esperados pela ocidentalização que os responsáveis pelo início das descobertas e conquistas adotaram, antes os agravos que os ocidentais praticaram tendem a fazer esquecer os benefícios que implantaram, o tema dos emergentes desatualiza o critério ocidental de hierarquia aristocrática das potências, a deriva dos avanços científicos e técnicos incluiu fortalecer a capacidade de destruir a Terra pela violência dos combates armados, ou pela ambição não ponderada da exploração das reservas naturais que leva a juventude a exigir que os responsáveis repensem o ameaçado legado com que as crianças gritam que não querem ser ameaçadas. O enfraquecimento da autoridade dos órgãos de gestão mundial, como a ONU, acompanha a desconsideração pela justiça internacional recentemente demonstrada pelos EUA em relação ao Tribunal Penal Internacional. No que mais toca à União Europeia, a prova de que dela é afinal possível sair, com acordo ou sem ele, está a ser demonstrado pelo Brexit, cuja inqualificável desordem desacredita a arte de governar. Entretanto avulta a gravidade dos movimentos migratórios, a desigualdade do nível da vida dos humanos, que parece agravar-se, na palavra do Papa Francisco, por uma "economia que mata". Tudo indica que até o recurso à geringonça implica conseguir alguma compreensão da necessidade de enfrentar um enigma, para o qual não foi encontrada resposta aceitável, que é entender qual será finalmente o programa de governar a União que mudou e exige tal arranjo provisório, que não será nenhum dos submetidos ao voto. Mas sabendo já que - se talvez mais de metade dos países inscritos na ONU não têm sequer capacidade para enfrentar os desafios da natureza - também é difícil admitir que haja um só país da União com a capacidade de enfrentar sozinho os desafios do globalismo que define a nova circunstância global, ocidental e europeia. Os historiadores usam identificar e caracterizar as épocas por traços considerados fundamentais no processo histórico, e a Europa inspirou uma lista de títulos que impressionam pela evolução que traduzem. Mas a nossa época, que parece frequentemente de outono ocidental, o qual abrange os desastres das duas guerras mundiais, parece mais corresponder à imprevisibilidade, isto é, a de apenas saber que o imprevisto está à espera de uma oportunidade. Nunca foi talvez mais verdadeira a convicção de que a demorada e plural série de reuniões políticas sobre o futuro acaba quando o futuro já aconteceu enigmaticamente.

Adriano Moreira

Crise da justiça internacional

Ao longo da história ocidental, são várias as tentativas de organizar a circunstância em termos de que uma ordem juridicamente organizada e respeitada evite os conflitos armados. No século passado, com um espaço de vinte anos de acreditada prosperidade pelo menos entre os europeus, duas conflagrações mundiais, a de 1914-1918 e a de 1939-1945, terminaram respetivamente pela organização da Sociedade das Nações e da ONU, ambas submetidas a um paradigma que era o do "nunca mais" ao recurso às armas, sobretudo na última, tendo presente a temerosa capacidade de destruição demonstrada pela posse de armamento atómico.

Adriano Moreira

A crise política da União Europeia

A Guerra de 1914 surgiu numa data em que a Europa era considerada como a "Europa dominadora", e os povos europeus enfrentaram-se animados por um fervor patriótico que a informação orientava para uma intervenção de curto prazo. Quando o armistício foi assinado, em 11 de novembro de 1918, a guerra tinha provocado mais de dez milhões de mortos, um número pesado de mutilados e doentes, a destruição de meios de combate ruinosos em terra, mar e ar, avaliando-se as despesas militares em 961 mil milhões de francos-ouro, sendo impossível avaliar as destruições causadas nos territórios envolvidos.

Adriano Moreira

A desglobalização

Talvez possa adotar-se a intervenção do presidente Wilson, na paz da Guerra de 1914-1918, como a afirmação determinante no sentido de que o modelo Estado-Nação seria a referência da organização política ocidental, pondo assim fim aos impérios anteriores à guerra. Não era a realidade e a importância das nações que se descobria, bastando recordar a longa anterioridade da nação portuguesa nesse Ocidente, mas era nova a adoção imperativa do modelo que se impunha como alicerce da nova ordem sonhada.