Adriano Moreira

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O Brasil e a Europa

Há anos, escrevi no Diário de Notícias um artigo que intitulei "O Brasil e a Europa", de que o ilustre José Carlos Gentili se ocupara nas academias de História e das Ciências de Lisboa, publicando depois um livro intitulado O Futuro da Europa Passa também pelo Brasil? Presidente de honra perpétuo da Academia de Letras de Brasília, o seu interesse pelo tema de que se ocupou em 2017 deve atualmente exigir uma atenção indispensável aos que se ocupam da situação atual, não apenas no próprio Atlântico, mas na conjuntura da América Latina - América de Jefferson. Lembra que este amigo do padre Correia da Serra "temia" que o seu futuro (da América Latina) fosse constituído de uma sucessão de despotismos militares, durante longo tempo. Para eles, a América Latina não tinha a tradição anglo-saxónica de liberdades, nem mesmo a concorrência de denominações religiosas que impediram o estabelecimento por parte do Estado de alguma Igreja, e que portanto trabalhou em prol da liberdade religiosa e, consequentemente, em nome da democracia. Infelizmente, o nosso tempo confirmou a opinião de Jefferson, e a anarquia que ali se verificou confirma que estava certo na opinião, sendo hoje plural a convicção da ingovernabilidade injusta das populações submetidas a poderes que não seguem a justiça natural.

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O exercício internacional do racismo

A independência dos EUA foi decisão de homens que, como diria claramente Thomas Jefferson, assumam o direito à revolta sem assumirem serem eles próprios a longa mão europeia lançada sobre os vencidos, e extintos, aborígenes. De facto, a limpeza do território foi um exercício da diferença de raças, depois assente na importação de negros escravos, cujo estatuto mudaria pela guerra entre norte e sul, sublinhado pelo assassínio do vencedor Lincoln. Referindo-se por então à Europa na terceira pessoa, era como que pressionado pelo separatismo o Ocidente, até que as duas guerras mundiais exigiram as alianças. Daqui em diante, até ao anticolonialismo do século XX, o modelo colonial foi intitulado por Rudyard Kipling como sendo o "fardo do homem branco".

Adriano Moreira

Nossa Senhora das Perguntas

Num ano em que o mar é um espaço subitamente contestado, estando significativamente agravada a relação entre os EUA e a China, havendo uma declaração militar daquele Estado prevendo que dentro de 15 anos será a guerra que surgirá entre as duas potências, temos esperança de que o eleitorado americano faça alterar o panorama, conseguindo tornar a recuperar ponderação em quem governa, tendo presente que o desastre é global, se a batalha contra o ataque pelo covid-19 não for vencedora. Mas sendo evidente que o mar exibe uma mutação de ambições, e também de criminalidade inquietante, o interesse português é cuidar de conseguir ter à disposição decisores e meios de que possa dispor, sem esquecer a vontade marítima de sempre. Numa data em que o problema da relação europeia com as religiões desta vez tem como causa frequente a falta de recursos financeiros para manter os templos, uma situação, por exemplo, visível em França, acontece que entre nós se afirma um movimento no sentido de fortalecer o culto da Nossa Senhora da Nazaré, uma das mais antigas tradições marianas. Trata-se de a Nossa Senhora ter salvo o guerreiro D. Fuas Roupinho, no seu promontório da Nazaré, impedindo que o cavalo que montava se precipitasse no mar. A sua fé, a aparição de Nossa Senhora da Nazaré, e o milagre inspiram não esquecer o martírio que foi, numa data em que não era pacífico o trabalho ao longo da costa, tendo por causa os ataques frequentes, sendo basilar que não há futuro definível sem consciência do passado.

Adriano Moreira

O passado cultural

Depois de a peste negra (1347-1352), vinda de países do Oriente, se ter propagado pela Europa, sem que a opinião dos povos conseguisse concluir se estava a ser castigado por "influências astrais ou resultado das nossas iniquidades" (Boccace, 1348), este continente que foi chamado "pequeno, aberto, bem situado", não obstante as divergências, por vezes armadas, internas, ultrapassou essas dificuldades e assumiu a ocidentalização do globo com a aventura das grandes descobertas iniciadas pelo talento do príncipe Henrique, o Navegador, que viveu entre 1394-1460.

Adriano Moreira

Conselho de Segurança

Quer na guerra de 1914-1918, quer na de 1939-1945, os EUA vieram lutar e morrer pela Europa e não por um Estado determinado. Por seu lado, os soviéticos tinham vindo combater os agressores considerados capitalistas e não os nacionais de um país enumerado: a referência da identificação do tremendo conflito era o nazismo alemão. Os Estados Unidos tiveram vários presidentes com lugar ganho pela sua formação nacional, e pela concretização do seu conceito estratégico nacional de conteúdo variável, o que implicou reformular a Europa que perderia ser a do colonialismo, tinham sucessivamente definido, na sua doutrina nacional, a ilegalidade de que qualquer Estado europeu pretenderia regressar a qualquer das suas colónias do continente americano, o que não impediu que a unidade ocidental e atlântica tivesse expressão, que a juventude americana viesse a enfrentar e sofrer o conflito gravíssimo da última grande guerra e que americanos, ilustres pela capacidade de estadistas, tenham ganho o direito à memória grata dos europeus que habitaram em liberdade a vencedora Meia-Europa democrática, e também igual dignidade teve a intervenção do histórico discurso de Churchill sobre a denúncia da ameaçadora divisão da Europa e o projeto da URSS.

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A crise do multilateralismo

O fim da guerra de 1939-1945 teve, entre os seus objetivos de uma ordem mundial, de agir de modo a conseguir que os princípios dos legados maquiavélico e humanista pudessem ficar subordinados a uma coerência respeitadora da paz. Parecia evidente, pela experiência dos passados conflitos, sobretudo militares, que se tratava mais de utopia do que de viabilidade da total nova ordem mundial pacífica. Designadamente, no ano da celebração do cinquentenário da ONU, Michael Berenbaum publicou o seu livro intitulado The World Must Know - The History of the Holocaust as Told in the United States Holocaust Memorial de 1944, concluindo que os aliados, desde junho de 1944, tinham meios de bombardear o campo à sua vontade, e Elie Wíesel sustenta que "simplesmente salvar os judeus não era uma prioridade nem para os ocidentais nem para os soviéticos, quando acompanhou o livro de David Weyman intitulado The Abandonment of the Jews.

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Sem experiência

Foi o príncipe Otto von Bismarck (1815-98), estadista e chanceler alemão, quem enfrentou problemáticas várias, incluindo as relações com Roma, a cultura, a saúde, a realpolitik e o Estado social, apoiadas pelo livro do arcebispo William Temple (1881-1944). Era guiado pela prudência, procurando escrupulosamente avaliar a realidade e por isso deixando um aviso no sentido de que uma leviandade pode conduzir a um inesperado desastre: foi o assassínio, em Sarajevo, na Bósnia, em 24 de junho de 1914, do arquiduque François-Ferdinand, herdeiro do imperador Francisco José.