Adriano Moreira

Adriano Moreira

A espuma do tempo

Pelos motivos que citarei, voltei nesta data insegura, a recordar notas que elaborei num encontro de 2006, e repetir algumas, lembrado por Weber de que todo o saber será contestado. Isto porque parece que a capacidade de intervir com o discurso da cólera faz crescer o risco do desastre. Admitir que um discurso parlamentar possa ter como resposta desencadear movimentos de massas que desrespeitam templos, que apelam ao combate, que apoiam o recurso a violações sem fundamento em Livros Santos, tem que ver com a natureza internacional do Estado que os consente, ou que os apoia, ou que os inspira. Estamos então em face de um perigo que exige prudência, mas que não consente descaso. Exige que a teatrologia dos discursos não diminua a visibilidade dos desafios, tecendo um véu de ignorância sobre as exortações que de longe convidam a meditar sobre a decadência da Europa. É grave tomar os moinhos por gigantes; é pior tomar os gigantes por moinhos.

Adriano Moreira

A decisão americana

O passivo da decisão americana, decidindo retirar a intervenção militar no Afeganistão, desencadeou uma inesperada insegurança da articulação dos ocidentais, derivada das consequências impostas em relação aos interesses gerais. Tratando-se de uma considerada, num passado próximo, grande potência, parece hoje uma União dividida entre a liderança do recente vencido presidente, e a liderança do sucessor, que não viu a sua decisão respeitada pelos valores que assume, mas que as circunstâncias articularam com uma problemática inquietante para os aliados ocidentais, e para agravamento da situação mundial.

Adriano Moreira

Mandela

O que está a acontecer na África do Sul tem entre a violação de valores, que foram ensinados, como parte do património do Estado definido por Mandela, e terminou com a histórica crueldade do racismo, o regresso frequente de críticas de setores de grande importância internacional. Não será fácil para os que seguiram o sofrimento do povo, que ele partilhou em anos de perda da liberdade, e contacto possível com os factos da informação do país e do mundo, que lhe não eram consentidos, e que morreu, liberto e eleito presidente do Estado, convicto de ter conseguido que todos os naturais se considerassem cidadãos iguais. A causa próxima foi a prisão do ex-presidente Jacob Zuma, com o efeito que a imprensa descreveu com estas palavras: "Pudemos ver que o Estado, na maioria dos países, é uma concha vazia." A imprensa converge em afirmar que a vaga de pilhagens sofridas pela África do Sul, em meados de julho, fazem imaginar que o país está em anos sem retorno.

Adriano Moreira

O diálogo a cinco

O anúncio do fim da Guerra Mundial de 1939-1945, para o qual sempre recordo o inspirado anúncio de um jornal francês, com a afirmação de que se tratava de "um anúncio feliz cheio de lágrimas", sentimento que apoiou reconstruir o projeto mundial de uma paz global. Foram e continuam a ser necessárias as instituições que participam no esforço de realmente implantar, para todas as espécies humanas, a dignidade, o direito e a justiça. Numa data, a nossa, em que na própria União Europeia se discute se a Europa está a caminho de "refazer-se ou desfazer-se", encontrei lembrança na Universidade de Salamanca, na estrutura chamada Diálogo a Cinco, criada em 2013, e ali organizada na Faculdade de Direito da Complutense. A iniciativa defendeu que, mesmo nas ações regionais, devem intervir representantes de ministérios importantes (Negócios Estrangeiros, Justiça, Educação, Ministério da Cultura) com três líderes religiosos e quatro académicos. A universidade organizou a sua conferência internacional, seguindo o critério estabelecido, insistindo no tema dos direitos humanos, da liberdade religiosa e nas minorias.

Adriano Moreira

Entre a utopia e o desastre

São numerosos os exemplos de as guerras chegarem a uma paz cobertas por uma utopia de novo futuro, o que se verificou no fim de cada uma das Guerras Mundiais que feriram o mundialismo ocidental. Por vezes consentindo que o pessimismo lúcido afaste as esperanças das propostas. Quando da paz da guerra de 1914-1918, circulou o comentário atribuído a um general alemão segundo o qual o que se assinava era uma suspensão provisória dos combates. A paz da guerra mundial de 1939-1945 determinou uma esperança de futuro que possibilitou a criação da ONU, a confiança nas Declarações dos Direitos Humanos e o programa notável da UNESCO, embora a adesão ao anticolonialismo tenha frequentemente provocado combates militares que causaram custos humanos severos.

Adriano Moreira

Vésperas europeias

Quando, sobretudo depois de duas guerras mundiais, as meditações e propostas do futuro à antiga sede da "luz do mundo", ficaram algumas exortações que atraíram os espíritos dos inquietos sobreviventes dessas desastrosas guerras. Sendo uma das decisões mais exigentes o fim do colonialismo ocidental, uma das declarações mais imperativas de esperança foi a prece de Nelson Mandela, quando, ao receber o Prémio Nobel (10.12.1993), falou em nome dos "seres humanos incontáveis que tanto dentro como fora do nosso país [África do Sul] tiveram a nobreza de espírito de se atravessar no caminho da tirania e da injustiça sem ambicionarem qualquer proveito próprio".

Adriano Moreira

Conferência europeia

Foi anunciado oportunamente que haveria uma conferência sobre o futuro da Europa, talvez uma "nova esperança democrática", a realizar em 2021/2022, segundo anunciou e analisou o Rameses de 2021. Iniciou-se no Porto, com a intervenção, na Cimeira Social do Conselho Europeu, do presidente nosso primeiro-ministro. Os temas anunciados foram ligados ao de "governar com o povo", ser "um conselho e não uma refundação", imposta pela crise em que todos se encontram, causada pela covid-19.

Adriano Moreira

Repor o direito internacional

Para compreender a situação atual da ONU, cujas dificuldades no domínio do seu estatuto, principalmente cumprir a definição jurídica para a manutenção da paz, tudo indispensável para o desenvolvimento, parece de utilidade ter presente que se trata de um texto dos vencedores da guerra de 1939-1945, tal como aconteceu com o Estatuto da Sociedade das Nações, o equivalente da Guerra de 1914-1918, e também obra de vencedores, ou, para simplificar, de ocidentais e respetivas culturas. Uma novidade habitual, portanto, para o chamado "resto do mundo" plural de formas jurídicas impostas, quer tivessem a designação formal de colónia, que nos factos não ganhava superioridade suficiente para a liberdade política, quer recebendo a designação de protetorado, mandato, fideicomisso. A origem do texto não impediu que a resposta, aos colonizadores ocidentais, seria a de os considerar "os maiores agressores dos tempos modernos".

Adriano Moreira

A evolução da ONU

Depois da guerra de 1914-1918, a evolução da Sociedade das Nações, com um estatuto dissolvente dos impérios europeus, por intervenção dos EUA que não assinaram o estatuto, foi destinada ao total apagamento do projeto pela guerra mundial de 1939-1945. O estatuto da nova organização, a ONU, já não teve em vista a redefinição da estrutura das políticas europeias, antes alargou o projeto ao globo, com a decisão de terminar com o regime colonial. De novo a raiz da estrutura foi ocidental, com domínio decisivo das grandes potências vencedoras da guerra, mas com um princípio aristocratizante da hierarquia pela convenção do direito de veto no Conselho de Segurança, concedido às consideradas grandes potências (EUA, Inglaterra, França, Rússia, China), com o erro de anos a impor a presença de Taiwan, onde se refugiara o exército nacionalista vencido, o que desde logo fez correr a previsão de que, designadamente, os EUA teriam de enfrentar a China num futuro incerto, previsão que hoje está verificada, não apenas na área económica, mas na área de poder marítimo que despertou os desafios.

Adriano Moreira

O sermão

A viagem do Papa Francisco à "Terra de Abraão", rezando a Missa ao pequeno grupo de cristãos que sobrevivem à brutalidade do Daesh, não se limitou a mais uma vez surpreender o mundo com a visita que incluiu o agradecimento do Iraque, mas também gravar nas memórias do mundo em crise pela pandemia que não distingue nem etnias, nem culturas, nem poderes políticos, a sua não esquecível lembrança: "vós sois todos irmãos", como é o sentido do "Padre Nosso", isto é, Pai de "todos", e não apenas "Meu Pai".

Adriano Moreira

Antes e depois da pandemia

Depois de cada uma das Guerras Mundiais que atingiram a redefinição do globalismo ocidentalista, o futuro imprevisível orientou os estadistas que, tendo vencido o conflito, assumiram a reconstrução desse futuro: aconteceu que com a Sociedade das Nações, que se mostrou esgotada perante o desatendido brilhante discurso do Negus da Etiópia, a pedir a intervenção contra a Itália cujo fascismo ambicionava partilhar o colonialismo: depois da breve paz, a Segunda Guerra Mundial, que inspirou o novo acolhimento da pluralidade religiosa, étnica, cultural, e política, que esquecia o castigo da Torre de Babel, a organização do globo, com expressão na ONU e na UNESCO, não impediu que a própria Europa ficasse dividida, até à queda do Muro de Berlim que, aproximando as metades da Europa, não conseguiu que a geral cooperatividade impedisse que o pluralismo de grupos acompanhasse também nela as ambições dos emergentes, sempre com ameaças ou violações da paz, até que a pandemia atacou esse todo plural de uma ameaça que não distingue etnias, crenças, regimes ou ambições.

Adriano Moreira

Os perigos do mar

Desde a origem da CPLP, pareceu a observadores deste acontecimento que a sua circunstância no futuro a criar realidade, além da participação no ensino, na investigação, nos valores da livre governança assumida, devesse ser incluída a ambição de uma frota de origem, no futuro seguramente longínquo, repartida mas articulada ao espírito e à capacidade da CPLP. É certo que o problema financeiro, no que respeita a tão específica interdependência, tem sempre de estar presente, especialmente quando já em 2013 se vaticinava, em avaliação, a ameaça de um Século sem Bússola, como já foi 2020.