Adriano Moreira

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Os riscos globais

A agressão a que a humanidade está submetida, com esta situação amargurante da pandemia, implica talvez assumir a responsabilidade, somando avisos que tiveram uma evidência, fácil de compreender, que tornou perigosamente desafiantes os riscos avaliados, designadamente, desde 1989. O problema da igual dignidade dos povos sempre pareceu, na realidade internacional, mudar de designação a hierarquia das comunidades e o sentido plural que ganhara a expressão "protetorado", o principal deles afastando a ideia de relação entre um Estado e uma colónia, mas sendo antes um conceito de proteção do crescente desenvolvimento social, económico e político, que tornaria a independência possível.

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Os imprevistos cem anos

O famoso livro da talentosa, mas claramente jovem, Catherine Nixey com o título A Chegada das Trevas - Como os Cristãos Destruíram o Mundo Clássico é classificado pela Kirkus Reviews como "uma bela história que é sem dúvida controversa na sua visão de como as vítimas se tornaram vitimadoras e de como profissões de amor se voltaram para o terror". A situação em que se encontra o globo, na relação dos seres vivos com o brutal ataque do chamado covid-19, implica a necessidade evidente de conseguir agora encontrar o capítulo que falta ao referido estudo para identificar qual é o poder novo da destruição dramática em curso.

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O alarme das migrações

A política de acolhimento de migrantes, em busca de refúgio que os salve das contendas e misérias que lhes destruam o direito de terem futuro razoável, está a mudar a obrigação dos valores humanitários pelas exigências locais da segurança de interesses e também modos de vida que aos naturais parecem enfraquecidos. A União Europeia, que começou por recolher os que apareciam necessitados do acolhimento humanitário, encontra-se a enfrentar o conflito entre deveres humanitários e capacidades materiais, a ponto de a transformação do Mediterrâneo num cemitério acusado pela debilidade dos meios de transporte coletivo dos emigrantes, começa a ver o recurso à violência, não apenas de abandono de deveres assumidos, mas do uso de violências de autoridades de segurança.

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O conselho de segurança

A Segunda Guerra Mundial, cujo fim foi anunciado no dia 8 de maio de 1945, no jornal francês Le Combat, usando a expressão "esta imensa alegria coberta de lágrimas", tudo porque a imagem da guerra descrevia um balanço monstruoso para o qual a Europa recordava trinta milhões de mortos, a que faltava acrescentar os mal identificados mortos dos campos de concentração que tinham especialmente sido organizados para executar a existência global do povo judeu, uma ideologia racista que cobria todo o passado desse povo que perdera o território Estado que fora seu, mantendo a lembrança da destruição de Massada pelos romanos. Carecia somar o ativo e passivo do povo russo, a destruição de bairros inteiros de Londres, e ainda o desastre marítimo de navios, portos e vias navegáveis, um dos capítulos mais dramáticos que historiava as batalhas do Atlântico, que tinham sido uma das razões que determinaram a entrada dos EUA na guerra que finalmente limitaria as capacidades da Alemanha: triunfo marítimo, esmagamento com o bombardeamento aéreo, e finalmente o triunfante desembarque terrestre. Infelizmente a participação da Rússia não correspondia aos objetivos comuns dos restantes vencedores, e por isso vivemos dezenas de anos com duas meias Europas, duas meias Alemanhas, duas cidades de Berlim, até ao derrube do Muro. A necessidade de fortalecer a Meia Europa ocidental não impediu visões que orientavam a separação, e assim acontece com De Gaulle, que, empunhando a sua cruz de Lorena, não desejava que o Reino Unido, um dos libertadores da França invadida e ocupada, pertencesse à política de defesa. Só no dia 1 de janeiro de 1973 a Europa dos Seis se tornou a Europa dos Nove, com a entrada do Reino Unido, Dinamarca e Irlanda, pronta para mais futuras adesões. Um dos acontecimentos mais significativos da por vezes difícil presença do Reino Unido na União em crescimento verificou-se quando, em 3 de dezembro de 1979, a primeira-ministra Margaret Thatcher, analisando a situação financeira, tornou célebre a sua breve frase: "I want my money back." Brevemente, tendo hostilidade da evolução europeia, foi levada à demissão. Quando recentemente, no dia da saída dos deputados do Reino Unido do Parlamento Europeu, erguiam a sua bandeira no desfile, não garantiam que ela continuaria a representar a união dos territórios, designadamente os que tendem a manter-se no projeto europeu. Por seu lado, os EUA, que na Primeira e na Segunda Guerra Mundial mantiveram o interesse das vitórias mas não a veneração da aliança, mantêm uma memória que talvez influencie a política atual do seu governo. Em 1923, a chamada doutrina Monroe impedia a ingerência das antigas potências coloniais no território do continente americano, tendo o presidente Theodore Roosevelt declarado que os EUA assumiam a polícia desde o Rio Grande à Terra do Fogo. Nesta data, feliz com o Brexit do Reino Unido, o presidente absolvido pelo Senado ignora os deveres em que meditavam Correia da Serra e Jefferson, assume as intervenções inquietantes quanto à utopia da ONU, ou simplesmente às regras da diplomacia global, e encontra no princípio, sem definição prévia de conteúdo, America First, a verbalização das suas patrióticas emoções para competir designadamente com a Coreia do Norte, com o Irão, com o Iraque, para negociar com a China de Xi Jinping ou a Rússia de Putin, aceitando lonjuras do desastre de países como Cuba, México, Venezuela, alguma desatenção com o Canadá, com a França e até esquecimento de boa regra para com a monarquia inglesa, quando a visitou, com feliz espera pelo Brexit. Definitivamente, este conceito verbal da America First é difícil que não venha a produzir, como explicou John Micklethwait e Adrian Wooldridge, "a corrida global para reinventar o Estado", ou a imposição da novidade segura de Mark Mazower para "governar o mundo", ou, como tentou George Friedman, organizar programa para "Os próximos 100 anos". Por difícil que pareça, não é tranquilo ter um governante que considere um "triunfo" o facto de o Tribunal Penal Internacional publicar um acórdão assumindo que não investigará crimes contra a humanidade porque nenhum Estado coopera. Não é inquietante que o populismo seja a metodologia da eleição interna do dirigente da mais poderosa potência, mas seria útil procurar uma "governança" para o "globalismo". Não é aconselhável que um povo que organizou o território-sede da maior soberania do mundo esqueça a carta do chefe índio Seattle (1854), em que escreveu: "De uma coisa temos a certeza: a terra não pertence ao homem branco; o homem branco é que pertence à terra." Lembrando o excelente livro de Soromenho-Marques sobre A União Europeia, talvez fosse oportuno que o Conselho de Segurança assumisse avaliar o risco de a utopia da ONU ser uma doutrina abandonada.

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O imprevisto à espera de uma oportunidade

Um ponto de partida para meditar sobre o inquérito aberto pelo Diário de Notícias, pode talvez ser o fim da Segunda Guerra Mundial. Olhando nessa data para as perdas humanas e destruições materiais sofridas pela URSS, pela China, pelo Japão, pela Europa e por numerosas colónias do império euromundista, o presidente Harry Truman, em 9 de agosto de 1945, fez esta proclamação: "Saímos desta guerra como a nação mais poderosa do mundo, talvez a mais poderosa de toda a história." Protegidos por dois oceanos, sofreram menos, e assumiram uma hegemonia global. Nos escassos dias, decorridos no mês de dezembro de 2019, a conferência da NATO em Londres, e a conferência do ambiente em Madrid suscitam a concentração mundial em relação a dois desafios dominantes: a utopia da ONU, da "Terra única", e da "Terra casa comum do género humano", está ameaçada pela desordem, não apenas militar, mas também ambiental, a ponto de exigir um esforço global, que mantenha a terra habitável. A política de "relação de forças", seguida pelos EUA, tem já sinais do fim da liderança americana (Bertrand Badie), do outono ocidental, e do apagamento da "luz do mundo" que a Europa já teve (Jacques Barzun). O facto que parece mais inquietante é que, embora tenha sido o objetivo essencial da utopia da ONU responder ao globalismo das interdependências sem fronteiras, nos domínios cobertos pelos avanços das ciências, das técnicas, das comunicações, os riscos crescentes da quebra da paz multiplicaram as formas e capacidade de agressão, desde o terrorismo às capacidades de precipitar uma cascata atómica, impondo a debilidade crescente da sonhada ordem, sem despontar uma viável governança mundial. A referida utopia da ONU invocou uma sabedoria que cresceu no sentido de pôr um ponto final no castigo infligido à ambição da Torre de Babel; mas o abuso da sonhada substituição das "crenças das Igrejas" pela "religião da ciência" (Renan, 1848) implicou que o globalismo sem governança implicasse uma "luta de relação de forças", em que se distinguem, contra o sonho de Harry Truman, e as suposições de Trump, o desafio da China, o desafio de Moscovo e o número de emergentes que não apreciam a história da ocidentalização do globo pela colonização. Parece haver acordo sobre o facto de os EUA, nas áreas da cultura, das ciências, das técnicas, cujas atividades apoiavam o que, no tempo de Obama, foi chamado o soft power, possuírem uma projeção global, e que é inegável o prestígio de Harvard, Stanford, MIT, Columbia, sempre no topo da classificação de Xangai, que a iniciativa económica e financeira inspiram o triunfo mundial das marcas das suas empresas, prestígio também apoiado em fundações, em que se distingue o modelo e ação da Rockefeller Foundation (1913), empenhadas em apoiar iniciativas educativas e culturais, a paz da utopia e o desenvolvimento sustentado que o papa Paulo VI chamou, na ONU, o novo nome da paz. Mas é no plano da falta de governança mundial, que deveria ser um desenvolvimento da utopia da ONU, que a competição entre os poderes que descuidam o passado trágico da história das guerras, mais guiadas pela Realpolitik do príncipe de Maquiavel do que pela "paz perpétua" do internacionalista Kant, que esperava, no objetivo dos políticos, adotar uma legalidade expressa num campo de normas universalmente respeitadas. Nesta fratura entre as utopias humanistas e a multiplicação de utilitarismos políticos expansionistas, a defesa sem desistência das primeiras tem de não esquecer que o futuro teima em aparecer antes de previsto. Nos EUA também, na sociedade civil, estão ativas as iniciativas defensoras sem desistência dos valores da "terra casa comum da humanidade", distinguindo-se hoje, com alegadas reservas, a chamada Open Society Foundation, devida a George Soros, em defesa da paz, da democracia, da circulação das elites, do funcionamento dos centros de investigação. Esta linha, com tradição centenária, manter-se-ia animadora se, sem reservas, viesse a ser revigorada, em benefício de deter o outono ocidental, de recuperar a solidariedade atlântica e desenvolver a capacidade de ajudar, com autenticidade, a organizar a governança do globalismo. Os projetos existem, mas o imprevisto está à espera de uma oportunidade. Os movimentos de protesto contra as práticas ofensivas do ambiente, que uma criança conseguiu dinamizar em nome do direito a um futuro, são legitimados pelas ameaças de que tomam experiência sofrida, mas reclamando a ação dos responsáveis que possuem o poder político, o domínio do saber, a capacidade e o dever de anunciar a batalha da recuperação. O tempo perdido em minimizar a importância do apelo que vem de uma infância amargurada pelas dúvidas sobre o legado que vão receber ajuda a que, em mais uma ocasião, talvez o futuro aconteça sem previsão.

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Um mundo de ruturas

O historiador Roger Crowley, que escreveu um livro brilhante e sério sobre o tema - How Portugal Seized the Indian Ocean and Forged the First Global Empire (2015), recentemente traduzido para português, depois de uma rigorosíssima investigação sobre o processo com que inscreveram o seu lugar na história mundial homens como o Infante D. Henrique, Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque, escreveu o seguinte: "... os portugueses iniciaram infindáveis interações mundiais, tanto benignas como malignas. Trouxeram armas de fogo para o Japão e astrolábios e feijão-verde para a China, escravos africanos para as Américas, chá para Inglaterra, pimenta para o Mundo Novo, seda chinesa e medicamentos indianos para todo o continente europeu e um elefante para o Papa. Pela primeira vez, os povos de lados opostos do planeta puderam ver-se, tornando-se alvo de descrições e espanto." Esta referência, repetida por vários analistas, não é ao globalismo de hoje que se refere, consequência da flexibilidade da semântica.

Adriano Moreira

O mundo pós-ocidental

Quando se pretende saber quem governa o mundo, verificamos que o poder real é frequentemente oculto, não coberto pela legalidade, sendo apenas um voto a ideia de que a ONU seria presidida por dois princípios não escritos, o "mundo único", isto é, sem guerras, e a "terra casa comum dos homens", isto é, governada e não esgotada no sentido de pôr em perigo a sobrevivência das espécies, incluindo a humana. Por isso não desaparece a questão multissecular de decidir se a autoridade do poder deve ser retida pelos humanos que ganharam a qualidade de cidadãos (democracia), ou se esta ainda é ameaçada pelos poderes, ou ocultos ou não legitimados.

Adriano Moreira

A paz insegura

Neste ano de 2019, o Brexit do Reino Unido parece ter sido o tema mais discutido na União Europeia antes, durante e depois das eleições para o Parlamento. O surpreendente processo, que obrigou a repensar nas consequências de afinal um Estado poder sair da União, foi também o primeiro grande estímulo para repensar a estrutura e o conceito estratégico, se algum, do Tratado de Lisboa, tendo sempre em primeiro plano os efeitos da crise económica e as consequentes políticas de austeridade.