Adriano Moreira

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A ambiguidade da política

Além do sentido académico da palavra, designando o pensamento político, "teorias políticas", "filosofia política", "ciência política", tal sentido afasta-se do exercício dos que a praticam, tendo em vista o poder de governar. Dão-se exemplos como o de Lord Butler, que a definiu como "arte do possível", cinicamente como D'Israeli, que a definiu como a arte de governar os cidadãos desiludindo-os, ou, finalmente, e cobrindo intenções menos tranquilizantes, entendendo-a com Hitler, como a arte de mobilizar uma nação para defender a sua existência. Em todo o caso, o mais corrente, entre estadistas responsáveis, é entender a política como a arte de conciliar interesses opostos.

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Adriano Moreira

O pragmatismo internacional

As potências europeias, incluindo as que tiveram no seu domínio parte do império euromundista e a que as consequências da Guerra de 1939-1945 puseram um ponto final, todas adotaram, com variantes pequenas, a forma de governo democrático. E também, com uma neutralidade não discutida, os modelos do direito internacional e de diplomacia que tinham séculos de criação e aperfeiçoamento, infelizmente sem omitir formas seculares da prática maquiavélica, que mantém uma presença visível, a qual por vezes desperta a competência das discretas mas respeitadas jurisdições supranacionais. Todavia, a suposição de que o globalismo iria reger-se por essas tradições e práticas normativas, tornando a ilegalidade internacional excecional, não foi confirmada pelos factos, estes amparados frequentemente em governações que tinham por apoio a própria tradição cultural e política da sua área agora libertada da tutela colonial.

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A moderação

Este apelo à moderação não tem, aqui, relação com os excessos dos problemas de interesses que vão tornando cada dia mais complexa a prática diplomática dos povos que a praticam com relevância, experiência e valores seguros, mas sim à moderação exigível a todo e qualquer representante de uma soberania que suscite, com finalidades suas específicas, e objetivos sabidos e importantes, mas fazendo inevitavelmente parte dos então responsáveis pela circunstância mundial perigosa que vivemos.

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Adriano Moreira

A casa no alto da colina

Os profetas, se alguns existem, na nossa época escutam preferivelmente as vozes dos estadistas e não dos deuses. É sobretudo a questão das emigrações, que passaram a ser dominadas pelo medo nascido nas regiões de origem, com sacrifícios tremendos que incluem as perdas de vidas que acumulam de vítimas os caminhos das fugas, ameaçam eventualmente os lugares de procurado destino, e que logram ali ressuscitar e semear as sementes do medo que tomam sobretudo o nome e a tradição dos mitos raciais, contra os quais, entre mais instituições, a UNESCO defende o Património Imaterial da Humanidade, mas que agora crescem em intensidade, autonomizando o anti-islamismo. Estando a variável adjetivação dos mitos suficientemente divulgada, tem interesse avaliar as duas correntes que afetam o Ocidente como unidade, começando pela Europa. Quando do último Conselho Europeu, que terminou a reunião no dia 7 de julho, depois de uma longuíssima discussão reservada, a conclusão mais conhecida é a do embaraço, não só de como enfrentar o presente mas sobretudo como preparar o futuro, do turbilhão dos que chegam esperançados na regra de que "a terra é a casa comum dos homens", com o limite de fugirem da origem e não conseguirem que o esperado abrigo não ponha em conflito o dever de humanidade e o receio da segurança. A imprevisibilidade de conseguir distinguir entre emigrantes e terroristas, com a eventualidade de as aflições dos primeiros virem a transformar-se em convicções dos segundos, ou logo nos descendentes, parece dominar a problemática da distribuição de acolhimento e de encargos entre os Estados membros europeus. Há um acordo de princípios importantes, mas é evidente que a efetivação da aplicação vai ter demoras. Mas tudo isto são desafios do presente, que vão sendo registados nas estatísticas, porque outras profecias moderadas, mas seguramente preocupantes, são as mais significativas. E não apenas, no que toca à hierarquia das potências, o facto de as potências emergentes pesarem crescentemente na ordem internacional, mas antes o fator demográfico avaliado em relação aos que se fixam. Embora a religião cristã esteja a evolucionar para minoria europeia, são os seus valores que conferem unidade europeísta aos povos que, embora estadualmente separados, tenderam, depois da guerra de 1939-1945, para uma unidade governativa, agora com a forma de União Europeia, alargada depois do fim do sovietismo. Mas isso não impediu que Koen Geens, ministro da Justiça belga, declarasse, logo em 2016, no Parlamento Europeu que os muçulmanos brevemente superariam em número os europeus, vindo o seu ministro da Justiça, Jam Jambou, a denunciar o receio de transformar o islão num inimigo, talvez pensando no facto de os terroristas terem adotado valores religiosos do Alcorão no seu conceito estratégico. De novo, neste aspeto, a perspetiva demográfica, política e cultural e a história religiosa parecem aconselhar a reler o passado. Não é a evolução da relação entre o crescimento económico com os emergentes que neste caso avulta, é a relação demográfica que tende para desequilibrar a composição das sociedades, sendo este um dos fatores, discretamente aflorado, que perturbam a unidade da decisão política e humanitária dos Estados da União. A par deste desafiante fator, que tem fortalecido os movimentos populistas, minonacionalistas, ou os trajetos de multiplicação e as crises dos apelidados movimentos altermundialistas, é também o outono ocidental que se enfraquece com as políticas, insuscetíveis de racionalização, dos EUA presididos por Trump. Talvez alegue as cogitações de George Freedman, quando, no seu livro sobre Os Próximos 100 Anos, vaticina que a próxima guerra será a Primeira Guerra Espacial, cujo "resultado será, inequivocamente, a afirmação da posição dos Estados Unidos, enquanto potência internacional, líder no mundo e na América do Norte, e centro de gravidade do mundo internacional". Tem este o cuidado de advertir que já não estará cá para ver, mas o espírito é o antigo de "A Casa no Alto da Colina". Todavia, a retirada da Comissão de Direitos Humanos da ONU, a ameaça com visão contabilística à NATO, a retirada do Acordo de Paris, a displicência com que tratou o Conselho Europeu, a intervenção intempestiva em Jerusalém sem lei nem responsabilidade assumida pelas consequências imediatas, a inovação da linguagem diplomática, tudo obriga a avaliar com cuidado o que se passa na circunstância europeia e atlântica, e talvez a considerar que o significado da gloriosa expressão "A Casa no Alto da Colina" tende para lembrar a defesa medieval confiada a um castelo no cimo da montanha. Não há motivos para censurar que um governo, de qualquer potência, cuide com devoção do interesse da comunidade que lhe entregou o poder, mas nada o pode dispensar de considerar o interesse comum, de que é parcela. E que na circunstância atual não é já apenas o do atlantismo, é o da "Terra casa comum dos homens", a exigir atenção à demografia.

Adriano Moreira

O sentido das coisas

O apaziguamento da arena de conflitos em que perigosamente tem sido escrita a história das relações entre as potências no ano corrente implica uma difícil operação de entendimento entre os respetivos competidores. A questão é que a decisão da reunião das duas Coreias, e a pacificação entre a Coreia do Norte e os EUA, não pode deixar de exigir aos intervenientes o tema dos valores de referência que presidam aos encontros da decisão, porque a previsão, que cada um tem necessariamente de construir, será diferente no caso de a referência de valores comuns presidir a uma nova ordem procurada, ou se um efeito apenas de armistício, se conseguido, for orientado pela avaliação dos resultados contraditórios que cada um procura realizar no futuro.

Opinião

A arena global

Os anos 30 do século passado foram para a Europa um período de desastres, de tal modo que historiadores decidiram chamar-lhe "Europa em pedaços". A caracterização de cada um dos pedaços foi ideologicamente identificado pelo combate entre comunismo, fascismo, democracia, tudo conduzindo à tragédia da II Guerra Mundial. O método das fotografias como garantia de salvaguardar a memória, de novo posta em evidência pela chamada "fotografia viral" do Grupo dos 7, tem um significativo precedente na que perpetua o encontro de Chamberlain com Hitler em Godesberg no dia 24 de setembro de 1938 e, depois de muitas hesitações das potências que viriam a enfrentá-lo nessa guerra, de novo outra fotografia perpetua a reunião de Munique, que a partir de 1 de outubro permitiu a Hitler começar a ocupação dos Sudetas, e na qual figuram Hitler fardado, rodeado por Chamberlain, Daladier, Mussolini e Ciano, sendo Hitler o único com as mãos fechadas como que a guardar as vantagens obtidas, e os restantes de mãos abertas e vazias. Não obstante a fugaz e enganadora alegria das manifestações com que Chamberlain foi festejado pelos londrinos, não faltou imediatamente a intervenção parlamentar de Winston Churchill, nos Comans: "Não reprovo ao nosso povo leal e bravo... a expansão de alegria e de alívio perante o anúncio de que a dura prova (da guerra) lhe seria por enquanto poupada. Mas é preciso que saiba a verdade... que saiba que sofremos uma derrota sem ter feito a guerra, derrota cujas consequências irão durante muito tempo fazer-se sentir..." Numa entrevista de 19 de setembro, desesperado, Eden disse pensar que "não apenas os povos da Europa Oriental mas também Portugal cairiam inevitavelmente sob o domínio alemão". Os factos não podem evitar recordar-se este passado, designadamente lendo com vantagem o excelente e documentado livro do embaixador José Manuel Duarte de Jesus, sobre a Coreia do Norte (2018), e comparar o processo seguido por Trump com o passado dos anos 1930 europeus, a prudência da visita feita por Madeleine Albright a Pyongyang em outubro de 2000, o esforço coletivo para evitar a multiplicação de potências nucleares, o aviso de Kissinger para o perigo que atingiria vários países, até para a anarquização das alianças. Agora, depois de um debate verbal diplomaticamente inovador entre o presidente dos EUA e o "divinizado" líder da Coreia, que finalmente se encontraram em Singapura, o primeiro voltou a Washington esforçando-se por capitalizar apoio eleitoral, livre para separar mães e filhos de emigrantes e concedendo ao seu adversário a projeção universal de ter conseguido um encontro de iguais com o presidente mais poderoso da arena global em que o mundo se transformou. Tudo presidido pela ambição da America First. Não é de presumir, em vista de percursos conhecidos, que se encontre no Senado alguém com a dimensão de um Churchill que, com clareza de estadista, explique os riscos da realidade coberta pelas palavras. Em primeiro lugar, no que toca a Trump, a comprovada falta de respeito pelos acordos e tratados, que a ordem internacional não pode deixar tratar como papéis sem valor nem ético nem jurídico. A infundada atitude entre a indelicadeza e a desconsideração com que se permite tratar representantes de Estados seus aliados, como aconteceu na reunião do G7, chegando tarde, retirando-se cedo, escutando desinteressado os que advertiam para os efeitos da guerra comercial que lhe ocorreu iniciar, tudo de novo documentado por uma fotografia que a imprensa considerou viral; estadistas incómodos que não tiveram ocasião de lhe pedir explicações sobre a sua displicência contabilista em relação à NATO, nem acrescentar o negligente abandono da UNESCO, talvez por não estar informado sobre a importância do Património Imaterial da Humanidade; acrescendo o abandono do Acordo de Paris, quando mais de metade dos países da ONU não possuem capacidade para enfrentar os já violentos ataques da natureza em mudança; nem sobre a intervenção na situação de Jerusalém, onde o número de mortos já vai sublinhando o mérito da intervenção, ao que parece agora adiada por "motivos jurídicos". Pode ser que mantenha o mesmo método da própria inspiração, mas os que amam a América de Jefferson, de Lincoln, de Roosevelt e que não esquecem as campas da Normandia não podem deixar de sugerir que a política da Casa no Alto da Colina ganharia em ser precedida pela intervenção experiente, informada, apoiada em estudos sérios dos diplomatas, em que os responsáveis pela governação se informam antes de tomar decisões guiadas por inspiração solitária. Porque esta é responsável, entre mais causas, do acentuar do outono ocidental, em busca de uma "ONU da paz" que garanta o "nunca mais" que animou a sua fundação. E que ponha um ponto final na situação de arena global em que nos encontramos, dando conteúdo inviolável às notícias que envolvem a esperança e o futuro de vários povos e a confiança restaurada nos estadistas intervenientes.

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O poder da palavra

Entre as incontáveis contribuições de Churchill para o registo e a compreensão da última guerra mundial encontra-se, baseada na sua própria incomparável experiência, a afirmação de que a palavra tinha sido, no destruidor combate e pela primeira vez, uma arma de guerra. Não é difícil encontrar abono para o julgamento feito pelo autor de algumas das mais decisivas intervenções, que levantaram a vontade e a confiança do seu povo em particular, e dos aliados em geral, no sentido de resistirem e vencerem o que chegou a parecer um golpe mortal nos ideais que a contenda conduziu a identificar como ocidentais, democráticos, humanistas, ameaçados por uma nova barbárie. De facto era mais uma vez, em primeiro lugar, um desastre da frequentemente desunida Europa, e desta vez com evidentes fraturas da sua circunstância, em relação aos povos, às culturas e aos regimes que a enfrentavam, e na qual crescia a agressão verbal, ideológica e militar contra o Ocidente que consideravam o seu maior agressor de todos os tempos. E, todavia, não apareceu qualquer corrente que pusesse em causa a existência de uma unidade chamada Europa, com uma história de guerras, partilhas e formas variadas de organização política. Na sua introdução à história da Europa, dirigida por Carpentier e Lebrun, começa por se dizer o seguinte, sem omitir depois a soma do historiável e das lendas: "Quanto à Europa, não parece que se saiba nem a origem do nome nem quem lho deu." Cinco séculos antes de Jesus Cristo, Heródoto confessa uma incerteza que durará no tempo, "não sabendo de onde vem a palavra, o que representou no espírito dos que a empregaram, nem os limites espaciais a que a aplicava... E todavia a Europa existe". O que se está a passar neste ano de 2018, e o que se teme que seja o futuro, continua a manter a palavra que a identifica, mas de novo a unidade pacífica interior mostra-se inquietante em busca de nova organização. Talvez valha a pena lembrar que a chamada Paz de 1945 teve duas cerimónias, uma a 8 de maio em Reims, a outra a 9 de maio em Berlim, o que pareceu depois como que um anúncio de que o divisionismo não perdia a presença tradicional. As palavras que consagraram a vocação do "nunca mais" nos textos fundadores das construções da União Europeia começam, depois do fim oficial da guerra fria, a ser substituídos pela multiplicação das propostas ou ambições do divisionismo dessa misteriosa unidade chamada Europa, que entretanto, em poucos anos, perdeu os impérios no Terceiro Mundo, sacrificou-se com o conflito entre a Europa democrática e a Europa soviética, viu a "circunstância" agravada pelo brexit do Reino Unido e pelo inquietante atlantismo dos atuais EUA, e assolada pela crise económica e financeira global. Por infelicidade que se vai alargando, não aparece nenhuma voz que, correspondendo ao conceito ardente de Churchill, agora tenha em vista a coexistência pacífica no globalismo em crise, e cada dia parece crescer a adoção de uma política de regresso ao passado cuja repetição a paz do fim da guerra de 1939-1945 quis evitar para sempre, tentativa cuja decisão contou com a participação e a memória de líderes americanos, os que na data ainda estavam vivos, e não esqueciam a memória dos mortos. De todos está viva e orientadora a memória de Roosevelt, a quem a debilidade física que o atingiu não quebrou a coragem e a inteligência com que desenhou a intervenção e o sacrifício do seu país em defesa dos valores que entendia servir. Não parece que sirva melhor esses valores, que os ocidentais largamente assumiram e a que finalmente procuraram dar vigência universal, o percurso inovador, mas frequentemente imprevisível em cada passo, que adote o conceito "America first", embora seja vago o sentido acessível dessa desejada primazia. O enfraquecimento do atlantismo, cimento do Ocidente outonal, que o brexit do Reino Unido acentuou, a "guerra comercial" entre Washington e os desconsiderados aliados do G7, a retirada do Acordo de Paris não obstante o ambiente ir confirmando excessivamente as previsões científicas, a saída do acordo nuclear iraniano, acrescendo a inovação da linguagem diplomática, na área em que a "cascata atómica" ameaça o planeta que a ONU considera "mundo único" e "casa comum dos homens" agora talvez visando inovadoras incertas novas alianças. Tudo valores que não se espera ver esquecidos, nas próximas reuniões, onde a palavra dos responsáveis, sem perder o ardor de Churchill, fosse uma arma de paz. A orientação inspiradora pela chamada de todas as potências, emergentes ou de antiga expressão, no sentido de reunificar os esforços das múltiplas organizações regionais, numa reformada "ONU da paz", seria a desejável continuação do "nunca mais" que inspirou os fundadores da ONU. A reunião entre o imprevisível presidente dos EUA com o seu desafiante líder da Coreia do Norte vai acabar com algum acordo que melhore a imagem do primeiro, mas com a tarefa difícil de ganhar a confiança da comunidade internacional na palavra dada.

Opinião

Crimes contra a humanidade

O reconhecimento de que a desordem internacional é uma inquietação fundada e exigente torna-se evidente quando, mesmo sem a pretensão de uma listagem completa, alinhamos os temas que os estudiosos, sobretudo os libertos de responsabilidades políticas, definem como exigindo reforma sem demora. Há um traço da união desses temas, que é o facto da multiplicação de exigências no campo da economia globalizada, por vezes dando a impressão de que a circunstância desafiante desse globalismo sofre apenas de frequentes graves desvios no que toca ao domínio das conceções económicas de intervenção na área, sendo por exemplo evidente que a semântica temática da própria ciência política está a evoluir no sentido de esquecer a que se tinha formado a partir pelo menos de Maquiavel, para aceitar que a perspetiva da economia nela se vá tornando dominante, quer na função da investigação científica, quer nas ideologias renovadas, quer em debates dos responsáveis pelo exer- cício do poder político.

Opinião

O Brasil e a Europa

O presidente de honra perpétuo da Academia de Letras de Brasília publicou no ano passado um livro intitulado "O Futuro da Europa Passa também pelo Brasil?", evidentemente inspirado por um conceito de Voltaire, com que inicia o texto, segundo o qual "devemos julgar um homem mais pelas perguntas que pelas respostas". A conjuntura que o Brasil enfrenta nesta data esperam os que o amam que tenha apenas abrandado, sem eliminar o ritmo do trajeto que teve origem na imaginação criadora de Kubitschek de Oliveira, e a definição de futuro falando na rota Brasil, Brasis, Brasília.