Adriano Moreira

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O desafio da circunstância

O processo da União Europeia, conseguido depois da última guerra mundial, diz respeito a uma parcela do globo, com nome cuja origem não corresponde a uma história demonstrada, e também o objetivo de organizar para ele um modelo jurídico das interdependências e unidade, tinha a origem mais determinante na cultura. Lembra sempre a expressão de Camões "Portugal, cabeça da Europa toda". As guerras interiores foram numerosas, pelo que outros povos mais vezes se reconhecem como ocidentais, e outros se dividem por identificadas parcelas: a diversidade dos americanos do Norte e do Sul, com raízes europeias visíveis, e europeus do Leste e do Ocidente, dos nórdicos e dos mediterrânicos, dos ingleses e dos continentais.

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Neutralidade colaborante

Não é de esperar uma avaliação complacente, em qualquer relação diplomática, da tolerância com que a lealdade tradicional das potências em causa esqueça a injusta violação de interesses, normalmente de mais fracos, sofridos para conseguir cooperação leal às urgências que finalmente serviram o interesse defendido pela cooperante. Existe uma situação destas nas relações de Portugal com os EUA, e atendendo à realidade da ética do atual presidente dos EUA e às relações entre os dois países, incluindo na cooperação e defesa, seria oportuno reavaliar.

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Os perigos do mar

Desde a origem da CPLP, pareceu a observadores deste acontecimento que a sua circunstância no futuro a criar realidade, além da participação no ensino, na investigação, nos valores da livre governança assumida, devesse ser incluída a ambição de uma frota de origem, no futuro seguramente longínquo, repartida mas articulada ao espírito e à capacidade da CPLP. É certo que o problema financeiro, no que respeita a tão específica interdependência, tem sempre de estar presente, especialmente quando já em 2013 se vaticinava, em avaliação, a ameaça de um Século sem Bússola, como já foi 2020.

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O outono da ordem global

O fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) criou a esperança de conseguir, com a criação da ONU e da UNESCO, apoiar a utopia que prometia uma ordem jurídica global e em paz. A relação entre o passado guardado pela história e a definição do esperado futuro implicou não esquecer os milhões de mortos nos combates e demais atrocidades presentes na experiência dos que assumiram reinventar a governança, destacando-se em resposta uma espécie de santos laicos, já na última idade, como foram Gandhi e Mandela, pilares da liberdade, e no Ocidente, no qual se professava o fim da supremacia colonial, também vendo assumir a governança por homens que, apesar da vida de longos anos, tinham a inspiração de que se ocupara Vieira, já passados séculos.

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Cartas morais

A brutalidade da pandemia que demonstra ser global, sem distinção de etnias, culturas ou crenças, suscitou a perda como que militar de vidas e o enfraquecimento da estrutura legal da ordem internacional. Todavia conseguindo as organizações científicas chegar à criação das vacinas essenciais para vencer a batalha que envolve todos os seres vivos, o facto, ainda com dificuldades, determinou a reanimação do tema que tornou eternas as Cartas Morais de Lúcio Aneu Sêneca, quando se ocupa das "Vantagens da Velhice" (Carta XIX) sobre a vida breve, com estas palavras dirigidas ao seu amigo Lucílio: "O que vivemos é um ponto, e ainda menos que um ponto, e ainda por cima, esta coisa tão pequena, para maior engano, a natureza a dividiu a fim de dar-lhe aparência de um prolongado espaço de tempo; de uma porção faz a infância, de outra a mocidade, de outra a adolescência, de outra uma certa descida da adolescência à velhice, e de outra à própria velhice."

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A barbárie

O avanço da inteligência artificial, que abrange a própria segurança e defesa, teve por isso um avanço exigido e modernizante, no domínio da proliferação dos armamentos autónomos, a exigir a tradicional resposta normativa que condiciona as tecnologias de natureza militar. A esperança de submeter a tecnologia a regras de imperativos éticos corresponde a procurar um futuro mais equilibrado do globalismo organizado, não garante facilmente a militarização geral ética dessa inteligência de resultados agravados pela falta de participada consciência, o que torna a competição dos emergentes mais gravosa e inquietante, salvo no caso de a investigação conseguir aliar o avanço dos imperativos éticos à exigência ética do uso dessas armas. O surpreendente é que neste ambiente, onde se procura pôr em vigor uma espécie de ética, não apenas a estrutura da ordem nacional e global seja violentamente abalada e destruída pela pandemia, mas também pela barbárie, não dos "robôs" libertos do prometido normativismo, mas de agentes humanos que não são modelos de combatentes, mas assassinos.

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A insegurança

Segundo notícias, são avaliados 50 milhões de seres humanos atingidos pela pandemia, e entre novas notícias, provavelmente a de que há 27 concelhos portugueses que têm mais de mil casos por cem mil habitantes. Estas, possivelmente não inteiramente identificadoras da dimensão da crise, agravaram-se quando a OMS divulgou que a Europa se transformou num novo epicentro do vírus, porque na vigorosa Alemanha, na Espanha, na Itália, e agora Portugal, o espaço Schengen sofre uma rude prova, a qual, segundo o Le Monde, poderá ser a recessão. Não é uma notícia que amenize a questão, a qual é mundial e não só europeia, que o teimoso Trump tenha há poucos dias declarado o estado de emergência, que lhe deve contribuição de teimosa conduta.

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As imigrações

A força da unidade europeia, além das questões científicas, culturais, e até religiosas, tem um princípio global que é o de que nenhum Estado membro tem capacidade para enfrentar isolado os desafios deste mundo sem bússola. Os conflitos, incluindo militares, foram historicamente numerosos, e o fim atual não está suficientemente longe para ter ganho o quadro histórico em que será apenas considerado sem ter já consequências em relações tensas e por isso perigosas. O infeliz Brexit é lembrança de que os princípios inspiradores da União podem ainda ser abandonados, mas também é possível que o Brexit obrigue o Reino Unido a reparar a de novo necessidade de garantir a sua unidade plural de Nações, e saber que definição trarão as próximas eleições para um estadista que é primeiro ministro que ganhou a questão entre Remainers e Brexistas simplesmente por ter sido escolhido pelos membros do seu partido.

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Os norte-americanos negros

Entre os numerosos problemas ameaçadores da vida habitual dos brancos que anunciaram a ocidentalização do globo, são frequentes as questões suscitadas pela assumida visão da história, que agora parece orientar intervenções de destruição de monumentos, talvez tendo como referência significativa atirar com a estátua de Colombo ao mar. Não é apenas naquela região que estão a verificar-se ações que parecem inspiradas pelo que se vai chamando populismo, uma expressão que deve investigações valiosas ao professor José Pinto, mas que não consegue abranger toda a ação do atual Governo dos EUA. O ganho da presidência de Trump, que nunca executara funções políticas, foi uma ação, facilmente considerada populista, mas, assumindo o poder, aquilo que aconteceu foi confirmar o dito de Canovan, que considerou o populismo uma sombra da democracia que pretende dominar. Neste período mais dominado pela destruidora covid-19, acontece que todo o processo parece mais utilizador do Estado espetáculo de Schwartzenberg. Uma das primeiras demonstrações está na questão do muro impeditivo das migrações, de custo financeiro transferido para sul.

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Tempo de perdas

A já longa duração desta guerra contra o destruidor covid-19 transforma esta época num tempo de perdas, isto é, de parcelas que crescem e desaparecem da vida que foi habitual. Entre todas, a mais humanamente cruel é a eliminação progressiva da sociabilidade. Não apenas na medida em que são os afetos a perderem a liberdade de existirem, mas também os que, mantendo a função, tendem para a submissão ao teletrabalho, que faz evoluir o sentido da empresa que cultiva a solidariedade dos interventores. Andrew Roberts, que escreveu a considerada melhor biografia de Churchill, recorda ali que George Bernard Shaw, no seu Revolucionist"s Handbook, escreveu que "o homem sensato adapta-se ao mundo; o insensato persiste em adaptar o mundo a si mesmo. Todo o progresso depende, pois, do homem insensato". Parece seguro que Churchill, ao celebrar os seus 80 anos no Westminster Hall, e lembrando que a sua nação se espalhara pelo mundo fazendo prova "do seu coração de leão", tivera a "sorte de ser chamado a soltar o rugido". No tempo desta guerra contra a vida, sendo inevitável a globalização da crise, a suficiente atenção à ecologia, à impedida vida social, corre sem que a intervenção de líderes como Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, ou do ministro alemão da Economia tenham evitado que, não obstante reconhecerem a necessidade de um "trabalho comum", este tenha sido bem definido, mantendo-se o lamento do prémio Nobel egípcio (2008) Mohamed el-Baradei ao dizer: "Não encontro suficiente liderança nem visão do mundo." É esta visão do mundo que parece ter realidades não coincidentes entre os que, sendo titulares do tradicional poder político, agregam, mas enfrentam o ataque atual e futuro da pandemia, aos programas políticos globalizados, e outros raros como que fogem da pandemia para salvaguardar o que os sustenta com o habitual Estado espetáculo. O presidente dos EUA conseguiu pregar contra a chamada confusão dos números de avaliações e a realidade das perdas humanas, e até, ao sul do continente, o presidente do Brasil chega a valorizar o seu inovador alto cargo gritando que não é coveiro. O Estado espetáculo parece ressuscitado, como que ignorando a responsabilidade, não assumindo o ataque da pandemia sem partilhas do globalismo, que neste caso dispensa a vigência do castigo divisor da Torre de Babel. Não é que a inovação da ciência e da tecnologia sejam dispensadas, com um normativismo sustentável, para salvaguardar e fazer até progredir o planeta, mas não parece indicado que a pandemia possa ser considerada sem prioridade, atitude contrária à que institutos, universidades e profissionais demonstram e executam, orientando programas que os governantes assumam procurando um novo direito internacional. É inquietante que alguma dessas instituições deixe de poder avaliar o rigor das notícias que afirmam que "Donald Trump está do bom lado da história", e que seja ouvida e registada uma voz, não identificada, segundo a qual "poderia surgir uma guerra civil se o senhor Trump não fosse eleito". Mas, entretanto, o mesmo presidente que assumiu o leme de reafirmar a grandeza dos EUA mostrou-se demorado e distante da compreensão do ataque brutal do coronavírus, de que culpou a China, com a qual assume um confronto Pequim-Washington, visto o exercício daquela no sentido de recuperar o mar que tinha abandonado quando o movimento da ocidentalização foi iniciado por Portugal. Os EUA enviaram dois porta-aviões para a região, mas, mostrando não temer o confronto, o evidente é que a China reforçou a sua marinha, notando-se que terá em uso 600 modelos de combate, enquanto o seu ministro dos Negócios Estrangeiros declarou, em 3 de julho, que a "instabilidade no mar da China do Sul era a atividade militar em grande escala de um certo país que não é da região e se encontra a milhares de quilómetros e mostra os seus músculos". Existem outros motivos, designadamente o que se passa com a política chinesa de acabar, em relação a Taiwan, com o método da específica legalidade, mas, como tem sido regra, a ponderada senhora Merkel é moderada nas relações com a China, parecendo admitir que a falta de prudência impedirá o diálogo que deve ser mantido "em todas as suas dimensões". A memória de Tianammen (1989) ajuda a esperar que a voz da ONU seja compreendida, e que é a salvaguarda da paz do Golfo, e da sobrevivência dos humanos, que está ameaçada, não impedindo o que o muçulmano Amin Maalouf chamou "o desajuste do mundo". São os vivos, sem distinção de etnias, religiões, culturas, que estão a ser postas globalmente em perigo. A Assembleia Geral da ONU assumiu em 1998, como lembra Hans Küng, "a firme determinação em facilitar e promover o diálogo entre culturas e declarou, contra todas as cassandras que profetizaram um choque de culturas, sendo 2001 o ano do diálogo de culturas", onde cabem as etnias, crenças, história e paz. Faz parte da esperança.

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Nossa Senhora das Perguntas

Num ano em que o mar é um espaço subitamente contestado, estando significativamente agravada a relação entre os EUA e a China, havendo uma declaração militar daquele Estado prevendo que dentro de 15 anos será a guerra que surgirá entre as duas potências, temos esperança de que o eleitorado americano faça alterar o panorama, conseguindo tornar a recuperar ponderação em quem governa, tendo presente que o desastre é global, se a batalha contra o ataque pelo covid-19 não for vencedora. Mas sendo evidente que o mar exibe uma mutação de ambições, e também de criminalidade inquietante, o interesse português é cuidar de conseguir ter à disposição decisores e meios de que possa dispor, sem esquecer a vontade marítima de sempre. Numa data em que o problema da relação europeia com as religiões desta vez tem como causa frequente a falta de recursos financeiros para manter os templos, uma situação, por exemplo, visível em França, acontece que entre nós se afirma um movimento no sentido de fortalecer o culto da Nossa Senhora da Nazaré, uma das mais antigas tradições marianas. Trata-se de a Nossa Senhora ter salvo o guerreiro D. Fuas Roupinho, no seu promontório da Nazaré, impedindo que o cavalo que montava se precipitasse no mar. A sua fé, a aparição de Nossa Senhora da Nazaré, e o milagre inspiram não esquecer o martírio que foi, numa data em que não era pacífico o trabalho ao longo da costa, tendo por causa os ataques frequentes, sendo basilar que não há futuro definível sem consciência do passado.