Adriano Moreira

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O nuclear

Os custos humanos e materiais da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) não tinham sido ignorados pelo ensino que levou à revolta generalizada da juventude americana quando, na década de 60 do século passado, os EUA se envolveram na guerra do Vietname. A lembrança das consequências do uso da arma atómica fez circular, por esse tempo, um episódio passado numa universidade da Califórnia em que a multidão que assistia a um curso do currículo nuclear acompanhou o orador no grito - "fora com a civilização ocidental".

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O princípio da leviandade

Ao mesmo tempo que o secretário-geral da ONU, António Guterres, tenta mobilizar os Estados para o dever de enfrentarem o desafio do ambiente, na abertura da 74.ª Assembleia Geral da ONU, os governantes dos EUA e do Brasil, esquecidos do diálogo esperançoso que, por cartas, tiveram Jefferson e o Abade Correia da Serra, ignoram que, se o planeta pode ser destruído pela leviandade de qualquer suposta grande potência, não há um só Estado com a capacidade necessária para enfrentar os desafios do globalismo da nova circunstância sem governança.

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A Europa ambígua

A fundação da ONU foi essencialmente um projeto organizado por ocidentais, que não meditaram sobre a realidade multicultural do encontro dos povos libertados na Assembleia Geral, falando livremente, pela primeira vez na história política, sobre os valores e conceitos das suas visões da ordem mundial. Em 2010 tinha recolhido praticamente todos os Estados existentes, com a exceção do Vaticano, de Taiwan, que deixara de representar a China no Conselho de Segurança, do Kosovo e da sacrificada Autoridade Palestiniana.

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A nova governança mundial

O problema dos emergentes tem uma referência normativista inicial na definição da ordem do relacionamento e hierarquia das potências que um código jurídico define, incluindo a previsão da rota da evolução, mas esta desvia-se frequentemente do previsto. Este desvio semeou o panorama global de uma multiplicação de desafios que colocam em crise as previsões da ordem jurídica acordada no fim da Segunda Guerra Mundial. Esta ainda aceitava uma aristocratização das potências pela definição do grupo com direito de veto, mas para o resto do mundo prometia a igual dignidade.

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Quem desgoverna o mundo?

O globalismo mudou tão profundamente a ordem internacional, que a questão de saber quem governa o mundo, embora tendo enriquecido a semântica, não conseguiu uma resposta que, pelo menos, contribua para recuperar uma visão esclarecida dos conflitos entre os contestatários da mudança e os que aceitam a necessidade de identificar os titulares dos novos poderes, sobretudo dos protegidos pela invisibilidade. O influente Bertrand Badie, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po), advertiu que "frequentemente se esquece que a mundialização foi tão eficaz no suscitar mobilizações contestatárias como para apreciar articulações de poderes".

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Musicalidade religiosa

O notável secretário-geral da ONU, que foi Hammarskjöld, organizou ali uma sala de meditação para todas as religiões, talvez inspirado pela mensagem que confessou recolher no Day Concert de 1960, ao ouvir a Nona Sinfonia, a qual, diz, abre fazendo-nos entrar "num drama cheio de amargas e escuras ameaças", mas "no começo do último movimento ouvimos de novo os vários temas referidos, agora com uma frente na direção de uma síntese final". Tendo sido vítima de um atentado no antigo Congo Belga, não deixou previsão do facto que, violando o objetivo do "nunca mais" que orientava a busca de uma paz segura, implicou que valores religiosos voltassem a dinamizar confrontos armados de intensidade acrescida pelos progressos da técnica, destacando-se a violência eficaz dos supostos poderes fracos contra os poderes das poderosas soberanias, como aconteceu com as Torres Gémeas. Um dos mais lúcidos analistas da evolução do confronto entre o predomínio da ciência assumido no Ocidente e o recuo do domínio das religiões, com a sua promessa do caminho para o verdadeiro ser, para a verdadeira arte, para a verdadeira natureza, para o verdadeiro Deus, para a verdadeira felicidade, que poucos poderiam conciliar, sendo necessário para isso o que chamou "um salto para a fé", que supõe "musicalidade religiosa", uma análise brilhantemente exposta na introdução de Rafael Gomes Filipe à edição portuguesa da Sociologia das Religiões de Weber (2006), considerando termos de reconhecer que vivemos uma época tendencialmente alheada de Deus e desprovida de profetas, e que a noite assim surgida, de que Nietzsche falou, "tão cedo não se irá dissipar".

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Opinião

Uma Primavera Africana

Na investigação levada a cabo pelo professor Adelino Torres, da qual publicou as conclusões no livro Vozes do Sul, com elas anunciava o desenvolvimento de um pensamento africano que procurava responder aos novos tempos, depois do desmoronar dos impérios coloniais ocidentais. Trata-se daquilo que o historiador Amzat Boukari-Yabara chama agora "a sombra de uma Primavera Africana" (2019), salientando a preocupação com o tema da "soberania africana: atacando a hegemonia ocidental, retomado o discurso de uma África tradicional ou desocidentalizada, os apelos populistas denunciam as políticas imperialistas que, em nome de um pretendido universalismo, acabam por dividir pela força em vez de reunir pelo diálogo".

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O mundo demótico

Partindo da chamada "quarta revolução" ou "revolução social", iniciada temporalmente pela instalação do sovietismo na Rússia (1917-1918), a palavra "democracia" teve um alargamento de significado, porque designando na sua autenticidade original, o governo por todo o povo, multiplicou as formas de "governo representativo", mas também foi violentada para adjetivar variedades totalitárias, ou, mais moderadamente, chamadas de "autoridade". Inquieto com o facto de a variação semântica ser acompanhada pela decadência do Ocidente, que avaliou de 1500 até à atualidade (2000), Jacques Barzun decidiu usar uma nova expressão: "Para alcançar uma maior clareza de pensamento quanto ao etos desse período em declínio utilizaremos o termo demótico, que significa povo." Uma designação que se afirmou quando se deu ao trabalho de inventariar as propostas usadas para caracterizações da "nossa época" e que inclui, entre mais, as seguintes: época de incertezas, época da ciência, época de massacres, época do globalismo, época de ditaduras, época de derrotas, época de ira, época de expectativas absurdas. Retendo a expressão "época de globalismo", aquela em que vivemos e em que o outono ocidental se agrava, com analistas a simplificar o batismo da circunstância concluindo que há guerra em toda a parte, alargando por exigência da realidade o conceito de guerra, conclui que o mundo demótico foi limitado de facto pela evolução do que hoje mais agride as sociedades civis, que é o terrorismo. Na investigação que ficamos a dever ao professor Christopher Andrew (D. Quixote, 2018), ocupando-se de O Mundo Secreto e particularmente da época que chama "idade de ouro do assassinato", desde o "levantamento" irlandês contra a soberania inglesa na Irlanda até à guerra de 1914 (anarquistas, revolucionários e Mão Negra), conclui que foram mortos cerca de 150 pessoas e menos de 500 sofreram ferimentos; a especificidade é que o número refere-se principalmente a chefes de Estado e de governo: Alexandre II da Rússia (1881), Isabel da Áustria (1898), Humberto I de Itália (1900), D. Carlos de Portugal e o seu herdeiro (1908), Jorge I da Grécia (1913), o presidente Carnot da França (1894), o presidente William McKinley dos EUA (1901), o primeiro-ministro Cánovas del Castillo de Espanha (1897) e Piotr Stolypin da Rússia (1911).

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29 de Março?

À medida que se aproxima o dia 29 de março de 2019, data a partir da qual o Reino Unido deixará talvez de fazer parte da União Europeia, é natural que não deixem de recordar-se as reticências de De Gaulle quanto à relação da Inglaterra com a Europa do seu tempo, não obstante o que a França lhe devia para a libertação da invasão nazi. Passadas estas dezenas de anos, o teor das negociações sobre o Brexit tormentoso parecem merecer como referência o momento em que Margaret Thatcher, que tinha aparentemente como prioritária a manutenção da supremacia anglo-saxónica, notificou a União de que a Inglaterra "wanted her money back", e agora o seu parceiro da querida supremacia anglo-saxónica, o presidente Trump, exige que a segurança ocidental contribua com mais recursos para a defesa e segurança que a NATO tem a seu cargo. O traço relevante das difíceis negociações, mostra um Parlamento inglês que, sem o assumir, parece embaraçado com a ordem de saída que o plebiscito mal lembrado decidiu, mas sem definir as consequências sobre as relações globais futuras, sendo as económicas a exceção que mais ocupa as diligências tornadas públicas.

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O princípio do Estado-nação

Na história europeia e ocidental o princípio do Estado-nação apenas recebeu cobertura jurídica, esta mais moderadora do que imperativa, quando, na paz da Guerra de 1914-1918, o presidente Wilson fez adotar esse princípio nos textos dos estatutos da Sociedade das Nações, a que finalmente os EUA não aderiram. Desapareceram os impérios que existiam antes da Guerra de 1914-1918, que eram o alemão, o austro-húngaro, o russo, o turco, e aumentou o número de Estados na Europa. Mas, mais uma vez na história, o simples problema das fronteiras geográficas fez que persistisse o sério problema das minorias, que tem secular presença no processo que Acton, no século XIX, analisou, e que se resume na conclusão de que a regra é ser o Estado que forma a nação e não a nação que forma o Estado. Não se trata de diminuir a importância do modelo, trata-se sim de reconhecer que o tempo tem dimensão diferente para cada caso, porque para cada um é eventualmente diferente a circunstância.