Adriano Moreira

Centenário

Adriano Moreira - um século português na vertigem do mundo

Poucas personalidades têm a fortuna de projetar a sua idade biográfica na escala dos séculos, que é o tempo próprio apenas de povos e civilizações. Ainda menos são aquelas que pelo seu pensamento e intervenção na realidade se transformam numa fonte incontornável para o debate onde se consolida a memória comum e se forma a movente consciência coletiva. No caso português, essa personalidade parece-me coincidir com a figura complexa e multifacetada de Adriano Moreira, que hoje completa um século de existência.

Adriano Moreira

A semântica no discernimento político

A semântica, como acontece em todos os domínios da política, enriquece a perplexidade com que se debatem a análise e previsão sobre o futuro da União Europeia. No que respeita à previsão há que ter presente a dificuldade de surpreender o trajeto da ordem social espontânea, que torna incerta a pilotagem da ordem social conhecida, fazendo do modelo de steering um método exigente da existência de um conceito estratégico assumido a cargo de uma autoridade identificada. Por agora, uma linha que podemos chamar de constitucionalização da Europa oferece um desenho do conceito estratégico com o projeto chamado Tratado Constitucional da União Europeia, apresentado em 20 de junho de 2003, em Salónica, por Valery Giscard d"Estaing, aos Chefes de Estado e de Governo.

Adriano Moreira

Os riscos agravam-se

A geração que assumiu a responsabilidade de se manter viva na gestão da causa pública na década de 80, não teve já lembrança essencial possível daquilo que foi a batalha ideológica mundial na guerra de 1939-45, nem suficiente conhecimento do desastre humano em que a guerra se traduziu. Não é suficiente salvar pela memória escrita que morreram 60 milhões de pessoas. Que as cidades foram intencionalmente destruídas para quebrar as vontades nacionais, os poderes maiores da sociedade civil não puderam enfrentar os desafios provocadores. Também não foi notícia que chegue para separar a imaginação dos novos responsáveis, a convicção de que tinha ocorrido a última das guerras, que nunca mais um povo seria subjugado por outro, que o engrandecimento territorial pela força chegara ao fim, que o direito presidiria à relação entre as potências, que a esperança e a liberdade seriam iguais para as nações grandes e pequenas. Analisando, na dúvida que tal é o caso, o certo é que essa experiência está a despedir-se dos comandos, e tudo indica a possibilidade de, mais uma vez, retomar vigência a regra do saber comum, segundo a qual, a experiência dos outros não aproveita a ninguém.

Adriano Moreira

A nova guerra híbrida

Talvez deva aproximar-se a intervenção de Hitler, depois do incidente da prisão, com o que está a passar-se com a intervenção de Putin. Quando saiu da prisão, imediatamente Hitler procurou organizar o partido Nazi, inspirado pela valorização da força militar, com efeitos obviamente destruidores para a Europa. Depois de obter a liberdade dedicou-se claramente à organização do que chamaria o partido Nazi que, desde 1930, obteve excessivos votos, com representação parlamentar muito evidente a partir de 1932. De tal modo que, não faltando ao primeiro governo de Hitler limitações de participação, tal situação rapidamente se transformou no que muitos ainda consideravam uma minoria de força Nazi. Se bem recordo, houve um período de dois anos que lhe permitiram desenvolver o enfraquecimento da democracia, a concentração do poder nas suas mãos. Com o partido destinado a ser partido único, as conhecidas consequências foram os dos factos que se seguiram.

Adriano Moreira

A Ucrânia e a ética

Não há muito que se possa fazer contra isso, salvo aprender que não se esgotará facilmente a lista das razões que levam os donos do poder a transformar uma "geração em risco" do que pensam dever ser o futuro. Só que a crise atual deixa conhecer mal os reais detentores do poder, o que piora a circunstância em que vivemos. Todavia, no plano em que atua essa invenção que foi o Estado, tem de registar-se o crescente movimento de protestos da sociedade civil que passa por ser sua criadora, contra a criatura que se libertou e parece obedecer a leis próprias de subsistência e evolução. Mas aquilo que sobretudo avulta é o clamor pelo regresso ao perdido tipo de sociedades éticas, cuja matriz cultural profunda radica em valores superiores que as gerações reverenciam.

Adriano Moreira

Fragas e congressos transmontanos

Quando recebi os dois livros que vou referir, um chamado Fragas, organizado pela Professora Maria da Assunção Enes Morais (Organizadora), e o notável chamado Congressos Transmontanos (1920-2020) que tenta reunir o tempo passado, do presente e do futuro, obra do Eng.º António Jorge Nunes, não pude deixar de recordar a minha pobre aldeia de Grijó do Vale Benfeito, de uma pobreza que aponta para a importância social, económica e nacional, que o autor, com a habitual modéstia, escreve "à minha família e aos cidadãos em geral, que me apoiaram e afundam a fraga no caminho do meu fazer".

Adriano Moreira

Nova ambição 

Depois do cataclismo interno que foi a guerra civil dos ocidentais de 1939-1945, com epicentro na Europa a lidar com os seus demónios interiores, a chamada guerra fria, que demorou o meio século que terminou em 1989, foi uma surpreendente vida habitual. Por meados do século XX tornou-se promissora, e ativamente cultivada, a nova prospetiva que determinou a criação de departamentos estaduais, algum rejuvenescimento dos programas académicos, e intervenção de conclusões entusiasmantes da investigação, como foram as dos sucessivos Relatórios do Clube de Roma. As referências normativas da Carta da ONU, das suas resoluções e propostas, com especial relevo para a Declaração Universal dos Direitos Humanos, lidavam mais com a espuma do tempo do que com a realidade, disciplinada esta pela Ordem dos Pactos Militares da NATO e de Varsóvia, mais conservadora do que o alegado conflito ideológico deixava supor.

Adriano Moreira

O legado das guerras

Comecei a escrever, e a juntar, estas notas de memórias desarticuladas no dia 1 de janeiro de 2013, quando os meios de comunicação, sobretudo aqueles que por tradição animavam os festejos da esperança em melhor ano, se mostraram incapazes de esconder a imagem do desânimo que invade os ocidentais, envolvidos por uma crise financeira, económica, e social, sem precedente próximo. Tinha havido o que foi chamado a europeização do globo, e estamos neste milénio a recordar as palavras de Disraeli, segundo o qual "não podemos enganar-nos, porque estudámos o passado e é bem conhecida a nossa capacidade de revelar o futuro quando este já ocorreu".

Adriano Moreira

A paz de 1945 e o risco atual

No fim da tremenda guerra de 1939-1945, a recordação da sua unidade, incluindo a expansão em regra colonial, poderia ter sido recordada a unidade com base na Carta de Capitulação da Alemanha, datada de 8 de maio de 1945. Escrevia-se ali, no primeiro parágrafo, o seguinte: "os signatários agindo em nome do Alto Comando Alemão, declaramos a capitulação pela presente, sem condições, para o Comando Supremo das forças expedicionárias aliadas, e, simultaneamente perante o Alto Comando Soviético, com todas as nossas Forças Armadas da terra, do mar, e do ar, que hoje estão sob o comando alemão". A forma parecia abrir a previsão mais do futuro pacifico, do que do atual presente, porque o dia da paz seria de facto de partida da política divisionária que viria a definir estes grupos, um de Europa ocidental, outro da Rússia Soviética, já na presente época parece severamente em preparação que se passe a combater militarmente. Isto que fora sempre evitado por instituições e acordos, em que se destacam a ONU e a Declaração de Direitos, cooperação e justiça.

Adriano Moreira

O arcebispo Tutu

Morreu em 26 de dezembro de 2021, com 90 anos de idade, o autor responsável da intervenção do movimento de Mandela, o arcebispo Desmond Tutu, secretário-geral do Conselho das Igrejas da África do Sul e um dos mais importantes doutrinadores, no século em que viveu, que a sociedade da África do Sul tivesse direitos iguais para todas as etnias; foi a famosa doutrina do antiapartheid, e o fim da deportação, uma pena que atingia os negros. O mundo reconheceu-lhe o talento e o valor concedendo-lhe os famosos títulos, incluindo o Nobel da Paz, e reconhecimentos universitários. Parece indiscutível que viveu e acabou a vida feliz pelas intervenções, justas e apoiadas em fé religiosa, sobre a dignidade. Talvez as etnias mantenham reuniões da "política de perdão". Vi que presidiu uma grande assembleia, e hoje será lembrado: um gigante membro da polícia, repondo e compreendendo todas as brutalidades com que atingira, em meses distantes, um nativo. Este na esperança, ganha pela idade, recebendo na primeira fila de ouvintes o som das palavras, cego, com uma bengala e apoio familiar. Depois da confusão policial, a interpretação dada da situação definida por Desmond Tutu, este perguntou ao nativo debilitado se, tendo o culpado pedido desculpa e perdão, o que decidiu. O nativo, com uma voz custosa mas por todos ouvida - perdoou. Tão extraordinário que era ignorar a crença que o ilustre bispo Desmond Tutu queria para o seu Estado, e para as etnias sem distinção, quer da sua fé quer da Carta da ONU. A comissão célebre que presidiu chamou-se Comissão de Reconciliação e Verdade, e resolveu adotar pela paz e reconciliação mundial. É fundamental ter sempre na lembrança a amizade e a solidariedade, como foi amigo, partidário e companheiro de Mandela. Este era, talvez, um crente insistindo em negar a santidade, mas talvez o seu amigo bispo não ignorasse esse conceito e comportamento. Mas se havia alguma diferença era verbal, na crença de valores, não de comportamentos. Recordo do rigor que Mandela, no seu último livro, em que nos lega a meditação a que se dedicou no longo encarceramento que impedia que lhe atribuíssem santidade, e recordava que "um santo é um crente que luta até ao fim". Aplicando o conceito ao sonho, anunciou o direito à inclusão posta em dúvida. O que reforça um conceito para o futuro que agora começa, ausência que no planeta seria um perigo, se não houvesse herança fortalecida em vida de ambos é que seria criticável. Está assim o percurso da luta até ao consenso universal, é ainda possível recordar sempre o que recomenda o Dalai Lama: que sigam o Papa. Trata-se de um facto que, sendo diferente nas reformulações verbais, é uma a Declaração de Direitos Humanos, e que com definição da UNESCO, muitas vezes esquecida, é universal quanto ao passado e futuro.

Adriano Moreira

Voz de Portugal no mundo

Este excelente tema implica assumir a responsabilidade de ter alguma imagem do globo em mudança com que vamos encontrar-nos. Previamente necessito de tornar evidente que assumo que o mundo da minha geração, a despedir-se, teve a disciplina prevista e organizada pela Paz de 1939-945 atraída para o "pântano", abandonou a confiança no Tribunal Penal Internacional porque, com alegria para o ex-presidente dos EUA, nenhum Estado colaborou, a aristocratização da ONU com o direito de vetar às cinco potências feriu a dimensão da igualdade de culturas, crenças, políticas e finalmente o globo está vitima de várias competitividades, nas quais se destaca a China, tudo ignorado por linhas públicas que o maior combate, a defender pelas Forças Armadas é o da epidemia que ataca todos os seres vivos.

Adriano Moreira

O poder e a confiança

É sempre problemática a atribuição de "poder" porque em cada caso se trata sempre de identificar o objetivo em vista, quer para criar quer para recuperar. Por outro lado, exige sempre avaliar a natureza do poder em causa, o que tem que ver com o limite, ser próprio ou delegado, conferido sem vigência ou limite. É evidente que os especialistas multiplicam a linguagem, porque as teorias políticas o provocam, porque se pode tratar de poder político, mas exigir construir o económico, pode ser individual com a variante dos titulares convidados de governação.