Adolfo Mesquita Nunes

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Adolfo Mesquita Nunes

É tudo uma questão de tempo

Se há coisa que o progresso nos tem trazido é o encurtamento do tempo. As novas tecnologias permitem resolver problemas ou tarefas ou contratos num tempo veloz, inimaginável há umas décadas, assim como antecipam as nossas necessidades, criando outras, para de imediato as satisfazer com propriedade. Estamos a habituar-nos, a viciar-nos, na rapidez, na velocidade. Queremos chegar mais depressa, sem perder tempo. Talvez tenha sido sempre assim, com a diferença de que agora, com as novas possibilidades, é mesmo possível comprimir o tempo, fazer forward, saltar etapas, chegar mais depressa.

Adolfo Mesquita Nunes

Pelo sonho é que vamos?

Nos anos da troika, repetia-se muitas vezes, e ainda hoje se diz, que o governo de Passos e Portas, de que orgulhosamente fiz parte, retirou esperança às pessoas. Num tempo difícil, o discurso realista de Passos, dizia-se, era desesperançado, apostado, como se dali retirasse prazer, em repetir à exaustão as dificuldades que tínhamos pela frente. E a falta de esperança, também se foi dizendo, é uma antecâmara da descrença, do desespero, que atira as pessoas para as franjas onde medram o radicalismo e o populismo.

Adolfo Mesquita Nunes

Para vencer o lado de lá é preciso unir o lado de cá

Com a crise de 2008, apanhados na adesão à economia de mercado e à globalização, os socialistas viram-se numa crise de identidade pressionada pelo aparecimento de partidos defendendo ortodoxias e posições críticas do capitalismo. Surgiram, dentro desses partidos, duas tendências conflituantes. De um lado, os que consideram que os socialistas não podem perder o centro onde se ganham eleições, que ser de esquerda não é incompatível com a economia de mercado. Para estes, os partidos à direita são parceiros de um consenso europeu e atlântico que a esquerda radical vem negando. De outro, os que consideram que esse posicionamento é uma traição, que a única forma de construir uma alternativa é a polarização. Para estes, os partidos à direita são representantes de um capitalismo tão nocivo e destruidor que se sentem mais próximos da outrora distante esquerda radical.

Opinião

Para combater os populistas temos de banir a superioridade moral na política

A afirmação de um populista começa pela afirmação de uma superioridade moral, da sua condição de representante do povo contra as elites ou sistema. Mas esta superioridade não é apenas uma característica que populistas xenófobos, nacionalistas, homofóbicos, justicialistas, estalinistas ou anticapitalistas têm em comum, como se fosse uma consequência. Pelo contrário, o populismo é que é a consequência da moralização do debate político nas últimas décadas. Falo dos tempos em que uma privatização, uma redução do défice ou uma reforma da segurança social deixaram de valer pelos seus méritos para passar a desempenhar um papel instrumental numa narrativa em que se digladiam os bons e os maus. Falo dos tempos em que a austeridade foi tida como opção ideológica, propositada, maléfica, imposta por elites ou sistemas. Falo destes tempos em que, da direita à esquerda, a caminho da crise ou procurando sair dela, se voltou a ouvir falar do dinheiro fácil, soluções rápidas, simples, vagas, que só não são adotadas por maldade. Tudo isto andou a ser dito pelos partidos ditos do sistema, moderados. Falo dos tempos em que os partidos à esquerda equipararam as fronteiras do aceitável às fronteiras do seu próprio pensamento, e desataram a chamar extrema-direita a tudo o que lhes soasse divergente, como se todas as pessoas de bem tivessem a obrigação de concordar com eles. Não se trata só das questões fraturantes, como se as objeções às barrigas de aluguer fossem automaticamente gritos cavernosos de homofobia, mas também de questões políticas, como se defender um SNS combinando público e privado fosse para favorecer ricos ou como se reformas do arrendamento fossem para ajudar fundos imobiliários. Falo dos tempos em que os partidos à direita equipararam as fronteiras da economia de mercado às fronteiras do politicamente aceitável e desataram a chamar extrema-esquerda a tudo o que propusesse uma reforma da economia de mercado. Não se trata só das questões económicas, como se as objeções ao capitalismo tivessem de visar uma ordem altermundista, mas também de questões políticas, como se uma crítica à União Europeia, uma preocupação quanto à imigração, uma revolta contra o seu intervencionismo, fosse um ataque próprio de xenófobos ou comunistas.

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.

Adolfo Mesquita Nunes

O começo de um partido

O começo de um livro é precioso, escreveu Maria Gabriela Llansol, num livro que há muito escolhi guardar em mim. Comprei-o num dia inicial, que eu queria limpo como no "Recado" de Al Berto; em que me apetecia transformar esse início num objeto, como se fosse possível encapsular a expectativa em algo físico, apropriável. Tenho-o comigo desde então, porque me tem valido de muito, até de inspiração, até de discurso - que o citei num congresso do CDS há uns anos -, mas sobretudo de advertência, instrução.