Adolfo Mesquita Nunes

Adolfo Mesquita Nunes

Não, não fomos colocados em causa

Gosto sempre de perguntar como era a vida antes, antes de eu nascer, antes de nos sabermos todos. Fui sempre assim, acho, um deslumbrado com o passado quotidiano, a imaginar a vida comum nas cidades, nas terras, sobretudo na minha, com aquele frio todo no inverno, frio de neve e gelo, e depois aquele calor imenso, de pele melada. Não é raro ficar a olhar para uma ruína, um qualquer sinal de abandono, à espera de ouvir passos, sussurros, imaginando quem ali vivia, o que fazia, como se entretinha, de que fio e linhas eram feitos os seus dias.

Adolfo Mesquita Nunes

A liberdade de um deputado

Quando votei a favor da possibilidade de adoção por casais de pessoas do mesmo sexo, afastando-me do sentido de voto maioritário do meu partido, não invoquei o argumento da liberdade de consciência. Como expliquei numa declaração de voto, o voto não era desconforme com o programa eleitoral com que o partido se tinha apresentado, era coerente com as minhas posições de sempre, e seguia uma linha argumentativa compatível com o espaço político da direita. Por toda a Europa, deputados e partidos de direita votavam de forma semelhante.

Adolfo Mesquita Nunes

O ambiente e a busca por referências éticas

A preocupação da sociedade contemporânea com o ambiente, e a consequente adesão ao sem-número de causas que essa preocupação pode envolver - porque é um sem -número de desafios que a questão ambiental coloca -, é muito mais do que uma preocupação científica, técnica. Essa componente científica existe, como é evidente, mas está longe de explicar a crescente relevância do tema, sobretudo nas novas gerações. E é um enorme erro político, provavelmente dos maiores erros políticos do momento, não tentar perceber a origem desta adesão tão completa à causa ambiental - cada vez mais transversal, implicando alterações ao estilo de vida e ao nosso comportamento social - ou confundi-la com uma espécie de moda, algo a que não podemos politicamente ceder porque cedo passará.

Adolfo Mesquita Nunes

É o que dá prometer nacionalizar tudo o que mexe

A chegada de Jeremy Corbyn à liderança do Partido Trabalhista foi saudada como uma espécie de feliz regresso às origens, aos ideais fundacionais, à verdadeira esquerda. Tanto mais que essa vitória se fez contra as principais figuras do partido, enfrentando o chamado sistema, amparado num discurso profundamente desconfiado da economia de mercado e próximo de experiências socialistas ou comunistas. Nessa narrativa, que se popularizou, Blair representava o abastardamento desses ideais, uma espécie de esquerda vendida, incapaz de resistir aos vis interesses do capitalismo. Já Corbyn, claro, representava a esquerda autêntica, a preocupada com os mais vulneráveis, e por isso capaz de mobilizar toda aquela jovem militância que transvasava para o partido vinda das redes sociais. E à medida que Corbyn foi resistindo aos ataques do chamado baronato do partido, e não o levando ao colapso eleitoral que os barões afiançavam, a narrativa foi ganhando adeptos na opinião publicada e nas redes sociais politizadas, como que confirmando a ideia de que o centro moderado estava morto, enterrado, que o velho socialismo era o novo socialismo, o único capaz de mobilizar a juventude e as massas, o exemplo a seguir. Diga-se que esta ideia de moderação morta e enterrada não se quedou pelos trabalhistas ingleses nem sequer pela esquerda inglesa. Vários partidos socialistas europeus andam com entusiasmos ou ânimos semelhantes (França, Espanha e Portugal são exemplos), como à direita anda muita gente a defender o mesmo (Espanha e Portugal são exemplos também). Mas eis que o colapso eleitoral chegou, e com estrondo. Um resultado ainda pior do que o sofrido por Foot e Kninock, perdendo bastiões que eram seus há décadas. É o que dá defender nacionalizações de tudo e mais alguma coisa e propor um manifesto próprio da esquerda sul-americana. É o que dá confundir indignação com razão, radicalismo com determinação, emoção com inspiração, tudo embalado pelas redes sociais politizadas, dominadas por elites urbanas deslocadas das principais preocupações das pessoas. Mas se o centro não morreu, se a moderação está viva e de boa saúde, como explicar que Boris Johnson, tomado por cá como uma espécie de Trump, como uma direita pouco moderada, tenha tido uma vitória esmagadora? Convém ir além da forma e do estilo e conhecer não só o trajeto executivo de Boris na Câmara de Londres como também o seu manifesto para estas eleições. Conhecendo-o, vejo poucas razões para a direita que desdenha a moderação andar a celebrar esta vitória. Boris funda o seu manifesto numa adesão à economia de mercado e à democracia liberal pouco compatível com os críticos da globalização e da livre circulação, e exalta um cosmopolitismo e um liberalismo social que costumam arrepiar quem acha que isso é marxismo cultural.