Adolfo Mesquita Nunes

Adolfo Mesquita Nunes

É o que dá prometer nacionalizar tudo o que mexe

A chegada de Jeremy Corbyn à liderança do Partido Trabalhista foi saudada como uma espécie de feliz regresso às origens, aos ideais fundacionais, à verdadeira esquerda. Tanto mais que essa vitória se fez contra as principais figuras do partido, enfrentando o chamado sistema, amparado num discurso profundamente desconfiado da economia de mercado e próximo de experiências socialistas ou comunistas. Nessa narrativa, que se popularizou, Blair representava o abastardamento desses ideais, uma espécie de esquerda vendida, incapaz de resistir aos vis interesses do capitalismo. Já Corbyn, claro, representava a esquerda autêntica, a preocupada com os mais vulneráveis, e por isso capaz de mobilizar toda aquela jovem militância que transvasava para o partido vinda das redes sociais. E à medida que Corbyn foi resistindo aos ataques do chamado baronato do partido, e não o levando ao colapso eleitoral que os barões afiançavam, a narrativa foi ganhando adeptos na opinião publicada e nas redes sociais politizadas, como que confirmando a ideia de que o centro moderado estava morto, enterrado, que o velho socialismo era o novo socialismo, o único capaz de mobilizar a juventude e as massas, o exemplo a seguir. Diga-se que esta ideia de moderação morta e enterrada não se quedou pelos trabalhistas ingleses nem sequer pela esquerda inglesa. Vários partidos socialistas europeus andam com entusiasmos ou ânimos semelhantes (França, Espanha e Portugal são exemplos), como à direita anda muita gente a defender o mesmo (Espanha e Portugal são exemplos também). Mas eis que o colapso eleitoral chegou, e com estrondo. Um resultado ainda pior do que o sofrido por Foot e Kninock, perdendo bastiões que eram seus há décadas. É o que dá defender nacionalizações de tudo e mais alguma coisa e propor um manifesto próprio da esquerda sul-americana. É o que dá confundir indignação com razão, radicalismo com determinação, emoção com inspiração, tudo embalado pelas redes sociais politizadas, dominadas por elites urbanas deslocadas das principais preocupações das pessoas. Mas se o centro não morreu, se a moderação está viva e de boa saúde, como explicar que Boris Johnson, tomado por cá como uma espécie de Trump, como uma direita pouco moderada, tenha tido uma vitória esmagadora? Convém ir além da forma e do estilo e conhecer não só o trajeto executivo de Boris na Câmara de Londres como também o seu manifesto para estas eleições. Conhecendo-o, vejo poucas razões para a direita que desdenha a moderação andar a celebrar esta vitória. Boris funda o seu manifesto numa adesão à economia de mercado e à democracia liberal pouco compatível com os críticos da globalização e da livre circulação, e exalta um cosmopolitismo e um liberalismo social que costumam arrepiar quem acha que isso é marxismo cultural.

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Adolfo Mesquita Nunes

Entre identidade e liberdade, escolho a liberdade

Pode a frase sobre o Chega ser lateral, um apontamento à margem, uma resposta a uma pergunta repetida mil vezes, que a frase é puxada para título. Não sei de onde vem essa ânsia dos media em fazer do tema um centro de gravidade - e logo a seguir aparece quem se sente vítima, como se o autor da frase dormisse e acordasse a pensar no assunto. Não aconteceu comigo, mas é o que vejo em entrevistas, nas perguntas insistentes para garantir que o assunto vem à baila. E se calha a pessoa, alerta, esquivar-se, logo o gesto tem leitura imediata, dando azo a nova indignação - o tal centro de gravidade.

Adolfo Mesquita Nunes

Mil e uma noites

A mera possibilidade de alguém se sentir ofendido por um discurso, um gesto, um argumento, e de, a partir desse sentimento, que é tão pessoal, lançar uma acusação ou campanha de desqualificação contra quem o proferiu ou ensaiou, constitui hoje um dos mais fortes limites e condicionantes do debate público. Não se trata de desconfiar de novas fronteiras para a linguagem, porque esse movimento sempre existiu e é indissociável da natureza humana. Nem se trata de ignorar o poder da palavra, a força que dela emana e que pode carregar ódio e amor que se transformam em gestos e lanças. E muito menos se trata de só ver a liberdade de expressão de quem primeiro opina, como se essa não valesse tanto quanto a liberdade de quem responde.

Adolfo Mesquita Nunes

Gregor Samsa

Quando, muito novo, li A Metamorfose, percebi que o meu mundo tinha mudado para sempre, como costuma suceder quando alguém nos morre. Foi uma perceção intuitiva, que só mais tarde encontrou palavra e gesto para se cristalizar, mas foi avassaladora, física. Pela primeira vez, depois de ter lido dezenas de livros que ia apanhando ou me iam recomendando, senti que um livro, um enredo, poderia não ser um objeto, um exterior que posso tocar ou afastar, sempre do ponto de vista de quem comenta, mas antes um desconcerto, um arrepio, que se apodera de nós, que não nos permite a confortável condição de observador.