Adolfo Mesquita Nunes

Adolfo Mesquita Nunes

Livres e iguais

Fugi sempre das generalizações, talvez porque nunca me tenha sentido protegido por nenhuma. Convoco a ideia de proteção porque há nas generalizações, no seu sentido gregário, um pressentimento de ataque, como se a integração em algo maior, numa multidão, nos salvasse. Houve tempos em que procurei essas multidões, camuflando-me até ficar invisível. Mas foi um esforço inglório, porque convivem em mim, e na minha vida, tantas intuições contraditórias, tantos pressentimentos conflituantes, que nunca encontrei conforto em nenhuma generalização: havia sempre algo a mais, ou a menos, nessas multidões, e a minha presença foi sempre intermitente, como quem alterna uma corrida com passo lento, como quem não se aclimata em mudança de estação, ora puxando o lençol para cima ora afastando-o com vigor sem adormecer.

Adolfo Mesquita Nunes

A averiguação da pureza ideológica da direita

O surgimento do Bloco de Esquerda marcou a superação do infantil estado da extrema-esquerda, então em permanente estado de sítio, em campeonato de pureza ideológica, à procura do mais extremo dos extremos. Mas não há país que se ganhe assim, em permanente conflito, num desfile ideológico que acaba no "poucos, mas bons", no aparente conforto de quem não cede um milímetro. E a reunião de esquerdas antes inimigas permitiu um projeto que compete no espaço político, que o influencia e condiciona. Não faço ideia se isso se ficou a dever à constatação de que os campeonatos de pureza ideológica acabam em estilhaços inúteis, mas sei que a estratégia provou e que só por devaneio a esquerda reunida no Bloco voltará aos divertidos anos 1980.

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Adolfo Mesquita Nunes

Quando não podemos usar o argumento das trincheiras

A discussão pública das questões fraturantes (uso a expressão por comodidade; noutra oportunidade explicarei porque me parece equívoca) tende não só a ser apresentada como uma questão de progresso, como se de um lado estivesse o futuro e do outro o passado, mas também como uma questão de civilização, de ética, como se de um lado estivesse a razão e do outro a degenerescência, de tal forma que elas são analisadas quase em pacote, como se fosse inevitável ser a favor ou contra todas de uma vez. Nesse sentido, na discussão pública, elas aparecem como questões de fácil tomada de posição, por mais complexo que seja o assunto: em questões éticas, civilizacionais, quem pode ter dúvidas? Os termos dessa discussão vão ao ponto de se fazer juízos de valor sobre quem está do outro lado, ou sobre as pessoas com quem nos damos: como pode alguém dar-se com pessoas que não defendem aquilo, ou que estão contra isto? Isto vale para os dois lados e eu sou testemunha delas em várias ocasiões.