Adolfo Mesquita Nunes

Adolfo Mesquita Nunes

Mil e uma noites

A mera possibilidade de alguém se sentir ofendido por um discurso, um gesto, um argumento, e de, a partir desse sentimento, que é tão pessoal, lançar uma acusação ou campanha de desqualificação contra quem o proferiu ou ensaiou, constitui hoje um dos mais fortes limites e condicionantes do debate público. Não se trata de desconfiar de novas fronteiras para a linguagem, porque esse movimento sempre existiu e é indissociável da natureza humana. Nem se trata de ignorar o poder da palavra, a força que dela emana e que pode carregar ódio e amor que se transformam em gestos e lanças. E muito menos se trata de só ver a liberdade de expressão de quem primeiro opina, como se essa não valesse tanto quanto a liberdade de quem responde.

Adolfo Mesquita Nunes

Gregor Samsa

Quando, muito novo, li A Metamorfose, percebi que o meu mundo tinha mudado para sempre, como costuma suceder quando alguém nos morre. Foi uma perceção intuitiva, que só mais tarde encontrou palavra e gesto para se cristalizar, mas foi avassaladora, física. Pela primeira vez, depois de ter lido dezenas de livros que ia apanhando ou me iam recomendando, senti que um livro, um enredo, poderia não ser um objeto, um exterior que posso tocar ou afastar, sempre do ponto de vista de quem comenta, mas antes um desconcerto, um arrepio, que se apodera de nós, que não nos permite a confortável condição de observador.