Adolfo Mesquita Nunes

Adolfo Mesquita Nunes

Como é que os vamos encontrar, se estiverem calados?

Não é fácil lidar com as declarações de André Ventura. Não se trata de falta de adjetivos para as descrever ou qualificar, nem sequer de ausência de repúdio ou desconforto ou descontentamento. Trata-se antes de algo mais complexo, de algo que convoca uma análise política, estratégica e maquiavélica, e que acaba por se resumir a esta questão: qual é a melhor forma de estas declarações, de estas posições, que considero inadmissíveis, serem trucidadas pela História, acabarem irrelevantes, inconsequentes?

Adolfo Mesquita Nunes

O mundo como ele é

Num estudo de opinião realizado em 2017 pela Ipsos e pela Fundação Gates, que entrevistou pessoas em 28 países, 52% das pessoas afirmaram que a proporção da população mundial que vive em extrema pobreza aumentou nos últimos 20 anos. Ou seja, a maioria pensa que a pobreza está a aumentar quando, de facto, está a suceder o oposto. E pior, estas pessoas identificam os últimos 20 anos, precisamente a vintena em que a pobreza mais e mais rapidamente desceu, como sendo anos de aumento de pobreza.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

Entre identidade e liberdade, escolho a liberdade

Pode a frase sobre o Chega ser lateral, um apontamento à margem, uma resposta a uma pergunta repetida mil vezes, que a frase é puxada para título. Não sei de onde vem essa ânsia dos media em fazer do tema um centro de gravidade - e logo a seguir aparece quem se sente vítima, como se o autor da frase dormisse e acordasse a pensar no assunto. Não aconteceu comigo, mas é o que vejo em entrevistas, nas perguntas insistentes para garantir que o assunto vem à baila. E se calha a pessoa, alerta, esquivar-se, logo o gesto tem leitura imediata, dando azo a nova indignação - o tal centro de gravidade.

Adolfo Mesquita Nunes

Mil e uma noites

A mera possibilidade de alguém se sentir ofendido por um discurso, um gesto, um argumento, e de, a partir desse sentimento, que é tão pessoal, lançar uma acusação ou campanha de desqualificação contra quem o proferiu ou ensaiou, constitui hoje um dos mais fortes limites e condicionantes do debate público. Não se trata de desconfiar de novas fronteiras para a linguagem, porque esse movimento sempre existiu e é indissociável da natureza humana. Nem se trata de ignorar o poder da palavra, a força que dela emana e que pode carregar ódio e amor que se transformam em gestos e lanças. E muito menos se trata de só ver a liberdade de expressão de quem primeiro opina, como se essa não valesse tanto quanto a liberdade de quem responde.

Adolfo Mesquita Nunes

Gregor Samsa

Quando, muito novo, li A Metamorfose, percebi que o meu mundo tinha mudado para sempre, como costuma suceder quando alguém nos morre. Foi uma perceção intuitiva, que só mais tarde encontrou palavra e gesto para se cristalizar, mas foi avassaladora, física. Pela primeira vez, depois de ter lido dezenas de livros que ia apanhando ou me iam recomendando, senti que um livro, um enredo, poderia não ser um objeto, um exterior que posso tocar ou afastar, sempre do ponto de vista de quem comenta, mas antes um desconcerto, um arrepio, que se apodera de nós, que não nos permite a confortável condição de observador.