Adeus, futuro

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Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Maria do Rosário Pedreira

Ocidentalmente

Chocou a família ao declarar que não faria a primeira comunhão, saiu de casa aos 13 anos para ir estudar na cidade grande, alterou o nome para poder usar a bengala com as iniciais do pai, polemizou com Getúlio Vargas, esteve preso, a Igreja acusou-o de ser comunista e teve um cortejo de dez mil pessoas no seu funeral. Este "revolucionário" chamava-se Monteiro Lobato (1882-1948) e é conhecido como o autor de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, mas escreveu muitos outros livros, foi traduzido em todo o mundo e integra o cânone da literatura brasileira.

Maria do Rosário Pedreira

Eternos meninos

Roubo a Julian Barnes uma frase notável d'O Papagaio de Flaubert: "Quando somos novos, pensamos que os velhos se queixam de os tempos já não serem o que eram porque isso lhes torna mais fácil não ter medo de morrer. Quando somos velhos, tornamo-nos impacientes com o modo como os jovens aplaudem o progresso mais insignificante mas não dão importância à barbárie do mundo. Não vou dizer que as coisas estão piores, o que digo é que, se estivessem, os jovens não dariam por isso. Os velhos tempos eram bons porque nós éramos jovens e ignorávamos quão ignorantes os jovens podem ser."

Maria do Rosário Pedreira

Os sapatos de Deus

Regra geral, ouço o noticiário da rádio porque me cansei de telejornais demasiado longos e cheios de falsas notícias, bem como dos erros de ortografia nos rodapés. Em minha casa, o televisor não tem, aliás, grande serventia, pois liga-se quase só para o futebol - e não é que eu aprecie muito, mas pelo menos o ruído de fundo não me incomoda enquanto leio. Além disso, quando vivemos com alguém, se não queremos que a relação estiole, temos de ceder em alguma coisa - e esta, confesso, é uma cedência que não me custa nada fazer ao Manel que, enquanto dura o desafio, dá pontapés no ar cheio de nervoso miudinho e enche o cinzeiro de beatas.

Maria do Rosário Pedreira

Velharias

Pertenço a uma família em que as mulheres têm tendência para a longevidade. A minha bisavó paterna - que, de resto, nunca dizia a idade - morreu com uns simpáticos 92 anos; e, quando o médico, horas antes do seu último suspiro, tentou a sorte perguntando-lhe pela milionésima vez quantos anos tinha, ela limitou-se a responder baixinho: "Vinte e cinco." E talvez na sua cabeça os tivesse: segundo a minha mãe, quando iam à Baixa e lhe dava o braço para atravessarem a rua, ela sacudia-o imediatamente, comentando: "Credo, menina! O moço e o cego, não." Já a minha avó - que cheirava ao pó-de-arroz da Madame Campos e trazia sempre entalado na manga um lenço de assoar -, alimentada a chá, canja e peixe cozido, com banho de imersão diário e sem noção do que era a ecologia, viveu até aos 94 anos. Nascida em finais do século XIX, teve o seu primeiro bilhete de identidade já depois do 25 de Abril; e, quiçá honrando a memória da mãe, jurava que lhe tinham acrescentado indevidamente dois anos aos que já tinha, mas que não sabia como reclamar. Sendo mãe do meu pai, foi curiosamente com a nora e os netos que decidiu ficar a viver quando o filho lhe anunciou que iria divorciar-se. Essa nora - a minha adorada mãe - não foge à regra e completou recentemente 95 anos. Tendo começado a fumar aos 15, resolveu deixar aos 85 (para quê, meu Deus?) e, antes de sofrer de degenerescência macular, lia o jornal de ponta a ponta, incluindo a necrologia, e pedia-nos livros emprestados todas as semanas; mas, se lhe levávamos um desses romances mais leves, telefonava, zangada, ao fim de dez páginas, a dizer que já passara a fase da literatura juvenil...

Maria do Rosário Pedreira

Na montra

O meu otorrino disse-me que tenho ouvidos de surfista e perguntou-me se praticava (ou tinha praticado) a modalidade; embora lhe tenha respondido que não, calculo que a maneira de ser dos meus ouvidos se deva à circunstância de eu ter passado muitas férias com a cabeça debaixo de água (no mar ou na piscina) e de ter dado incontáveis mergulhos de pranchas. Lá em casa até se contava que, tinha eu 7 ou 8 anos, assustei a sério a mãe de uma amiga (que resolvera celebrar os anos na piscina do demolido Hotel Estoril-Sol) ao subir tranquilamente à prancha dos dez metros (que era a mais alta) e chamar toda a gente lá de cima apenas um segundo antes de saltar. A senhora ficou sem pinga de sangue, antevendo uma tragédia mais do que certa e perguntando-se como daria a triste notícia à minha família. E eu lembro-me de que a altura da prancha, para alguém que media apenas 1,20 m, impunha efectivamente respeito, mas pensar em descer dezenas de degraus, ainda por cima molhados, era bastante mais assustador.

Maria do Rosário Pedreira

A arte ou a vida

A curiosidade, normalmente tão subestimada, é um dos grandes motores do conhecimento; e a curiosidade em relação às vidas alheias - malvista no real - é quase sempre o que move os leitores de ficção. Sou, porém, de uma geração a quem os professores, influenciados ainda pelo formalismo russo, ensinaram que aquilo que interessava na literatura não era a história, mas a linguagem, sendo também aconselhável (imperioso até) prescindir da biografia do escritor no estudo de uma obra.

Maria do Rosário Pedreira

Roupa velha

Apesar de já terem passado décadas, quando olho para as fotografias tiradas nos Natais da minha infância, os vestidos ainda me picam. Com golas engomadas e laços na cintura, eram feitos de umas fazendas que, em contacto com a pele, pareciam lixa. E não havia remédio senão repetir aquela indumentária em todas as festas que aparecessem porque, nesse tempo, não se acumulava roupa além da estritamente necessária. No meu caso, umas saias e camisolas para o dia-a-dia; um casaco quente para o Inverno; um par de sapatos para bater e outro para ocasiões festivas (este último de verniz preto com presilha e botão ou então fivela à pajem, um horror); e, por fim, o tal vestidinho de cerimónia que se substituía quando deixava de servir ou mudava a estação.

Maria do Rosário Pedreira

Chiu!

Lembro-me de estar na praia com um grupo de amigos - quando ainda não sabíamos o que era o ozono e ficávamos o dia inteiro a torrar ao sol - e de passarem por nós a mãe e a sobrinha de um deles, que pararam uns minutos a cumprimentar-nos. Enquanto ali estiveram, a miúda, que devia ter no máximo 6 anos, não conseguiu desviar os olhos de um dos rapazes; mas foi só quando a avó lhe voltou a pegar na mão para seguirem caminho que a ouvimos perguntar, num tom levemente chocado, porque estava aquele amigo do tio de bandelete...

Maria do Rosário Pedreira

De joelhos

Apesar de os meus pais não se terem casado pela Igreja (fizeram-no às escondidas e, nessa época, nenhum padre daria o amém a semelhante ousadia), acabei por ter uma educação religiosa. Não só a minha avó, que vivia connosco, era uma católica fervorosa (e ai de quem piasse quando o frei Hermano da Câmara aparecia na televisão), como então era hábito as crianças serem baptizadas e fazerem a Primeira Comunhão aos 6 ou 7 anos. Mas antes disso já eu tinha ido às cavalitas de alguém a uma procissão da Nossa Senhora do Rosário, em que a minha irmã fez rir toda a gente ao cantar, muito compenetrada, "Minha gulosa Rainha do Céu".