Adeus, futuro

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Maria do Rosário Pedreira

Mascarada

Contaram-me que o poeta e jornalista Fernando Assis Pacheco e a sua família adoravam o Carnaval e - disfarçados com perucas, chapéus e roupas espalhafatosas ou trapalhonas - faziam verdadeiros "assaltos" a casa de amigos e conhecidos que, frequentemente, tardavam a perceber quem tinham à frente. E que uma vez, ficando a saber que em Mérida havia um Carnaval famoso, para lá rumaram com a mala cheia de trajes e adereços, andando mascarados pelas ruas da cidade.

Maria do Rosário Pedreira

Picasso e outros prodígios

Alguns estudos revelam que 98% das crianças têm um enorme potencial criativo que a escola se encarrega de adormecer. Mas há também quem defenda que só existe uma minoria de crianças especialmente dotadas - e, além do sempre citado Mozart, Picasso é frequentemente apontado como um menino-prodígio. As suas pinturas de infância deixam-nos, de facto, boquiabertos: com menos de 10 anos, o pequeno Pablo já dominava a técnica de pintar a óleo e conhecia em detalhe a anatomia humana, que plasmava nos seus trabalhos com incrível realismo, sendo igualmente capaz de representar objectos em movimento. Os especialistas dizem que a sua carreira terá começado por volta dos 13 anos, quando alcançou um grau de sofisticação que, para alguns estudantes de Belas-Artes, não passava de um sonho. Seria um génio? Tendo em conta a influência que viria a exercer nas artes plásticas em todo o mundo, é bem provável. Mas não foi um génio de geração espontânea: o pai era professor na Escola de Artes e Ofícios de Málaga e ensinou-lhe desde tenra idade todas as técnicas de desenho e pintura. Além disso, não lhe impôs absolutamente nenhum caminho, deixando-o criar na mais completa liberdade.

Maria do Rosário Pedreira

Uma banana para Cambridge

Num pertinente ensaio intitulado O Futuro da Ficção, que nos prepara para tempos bastante sensaborões na cena artística, António-Pedro Vasconcelos, recorrendo sempre a dados históricos, mostra como têm sido curtos os períodos de grande criatividade e como entre eles, às vezes por mais de século e meio, se prolongam modorras e vazios inventivos. Estou, assim, obviamente grata por ainda ter sido contemporânea de Borges, Beckett, Picasso, Cartier-Bresson, Escher, Visconti, Piazzolla ou Frank Lloyd Wright, criadores geniais nas respectivas áreas. Hoje, que toda a gente pode publicar um livro ou editar um álbum de música, que as câmaras dos telemóveis ajudam qualquer aselha a fazer uma fotografia decente, que os filmes, sobretudo os das grandes produtoras, são planos e previsíveis, não me faltariam razões para dizer que atravessamos um desses períodos de esvaziamento criativo que permitem a todos serem artistas. Mas é nas artes plásticas que o escândalo está decididamente instalado: enquanto numa feira de arte contemporânea uma banana presa à parede com fita-cola foi vendida por 120 mil dólares (bem, só a ideia, porque a banana acabou comida por um artista concorrente numa performance), um grupo de estudantes vegetarianos da Universidade de Cambridge exigiu que fosse retirado da parede do refeitório O Mercado das Aves, uma tela flamenga seiscentista, por causar repulsa a quem não come carne. Adeus, futuro.

Maria do Rosário Pedreira

Vergonha

Conta-se a história - provavelmente é apenas uma lenda, mas pouco importa - de um rapazinho que, estando a brincar no lugar onde o grande Miguel Ângelo tinha o seu estúdio, se deixou maravilhar pela visão de um enorme bloco de mármore a ser transportado por uma dezena de homens até aos domínios do artista; e que, vendo esses homens à beira de soçobrar, desafiou os amigos - todos jovens como ele - a irem ajudá-los, sabendo embora que a sua força era quase nenhuma. Contudo, tal foi a insistência que os companheiros concordaram em participar daquele empurrão colectivo, e a pedra pareceu então rolar sobre rodas até ao ateliê do mestre que, assistindo ao milagre, levou os garotos a conhecer as esculturas em que então trabalhava para decorar uma praça de Roma. Conta-se também que, passando por ali de novo umas quantas luas mais tarde, o mesmo rapaz terá decidido visitar o escultor, sendo surpreendido logo à entrada do estúdio por um magnífico cavalo branco escapando-se do bloco de mármore, de crina ao vento e patas da frente empinadas no ar. E, espantadíssimo, chamou por Miguel Ângelo para que ele lhe respondesse a uma pergunta admirável: "Ó mestre, mas como é que tu sabias que havia um cavalo dentro dessa pedra?"

Maria do Rosário Pedreira

Plastificados

Ainda antes da queda do Muro de Berlim, conheci um revisor que estudara em Moscovo com uma bolsa da União de Estudantes Comunistas. Confessou-me que deixara de praticar a doutrina logo no primeiro ano, mas nada dissera para poder terminar em paz a licenciatura; e que, quando vinha de férias a Portugal - atravessando a Europa de comboio porque então não havia voos low-cost -, o que mais o impressionava era a mudança radical de cores de uma Alemanha para a outra, como se viajasse da tristeza para a alegria.

Maria do Rosário Pedreira

Eternos meninos

Roubo a Julian Barnes uma frase notável d'O Papagaio de Flaubert: "Quando somos novos, pensamos que os velhos se queixam de os tempos já não serem o que eram porque isso lhes torna mais fácil não ter medo de morrer. Quando somos velhos, tornamo-nos impacientes com o modo como os jovens aplaudem o progresso mais insignificante mas não dão importância à barbárie do mundo. Não vou dizer que as coisas estão piores, o que digo é que, se estivessem, os jovens não dariam por isso. Os velhos tempos eram bons porque nós éramos jovens e ignorávamos quão ignorantes os jovens podem ser."

Maria do Rosário Pedreira

Contranatura

Tenho um amigo que é ateu a maior parte do tempo; mas, quando o espectáculo da natureza lhe tira o fôlego, pergunta-se se não existirá realmente uma sumidade capaz dessa magia sem truques, pois o homem, por mais coisas que tenha inventado, não conseguiu ainda mover a montanha, nem pendurar a Lua no céu, nem mandar chover sobre a terra e o fogo quando é preciso, nem produzir flocos de neve que não passem de farrapinhos de algodão. Pondo de lado a questão teológica, a natureza é, de facto, uma espécie de milagre e, como se isso não bastasse, ainda faz milagres que são tudo menos naturais.

Maria do Rosário Pedreira

A arte ou a vida

A curiosidade, normalmente tão subestimada, é um dos grandes motores do conhecimento; e a curiosidade em relação às vidas alheias - malvista no real - é quase sempre o que move os leitores de ficção. Sou, porém, de uma geração a quem os professores, influenciados ainda pelo formalismo russo, ensinaram que aquilo que interessava na literatura não era a história, mas a linguagem, sendo também aconselhável (imperioso até) prescindir da biografia do escritor no estudo de uma obra.

Maria do Rosário Pedreira

Roupa velha

Apesar de já terem passado décadas, quando olho para as fotografias tiradas nos Natais da minha infância, os vestidos ainda me picam. Com golas engomadas e laços na cintura, eram feitos de umas fazendas que, em contacto com a pele, pareciam lixa. E não havia remédio senão repetir aquela indumentária em todas as festas que aparecessem porque, nesse tempo, não se acumulava roupa além da estritamente necessária. No meu caso, umas saias e camisolas para o dia-a-dia; um casaco quente para o Inverno; um par de sapatos para bater e outro para ocasiões festivas (este último de verniz preto com presilha e botão ou então fivela à pajem, um horror); e, por fim, o tal vestidinho de cerimónia que se substituía quando deixava de servir ou mudava a estação.