Adeus, futuro

Maria do Rosário Pedreira

A arte ou a vida

A curiosidade, normalmente tão subestimada, é um dos grandes motores do conhecimento; e a curiosidade em relação às vidas alheias - malvista no real - é quase sempre o que move os leitores de ficção. Sou, porém, de uma geração a quem os professores, influenciados ainda pelo formalismo russo, ensinaram que aquilo que interessava na literatura não era a história, mas a linguagem, sendo também aconselhável (imperioso até) prescindir da biografia do escritor no estudo de uma obra.

Maria do Rosário Pedreira

Não sabe/Não responde

Nas semanas que antecederam as eleições para o Parlamento Europeu, fosse nos jornais, fosse na rádio ou na televisão, não houve cronista, político ou comentador que não apelasse ao voto. Muitos fizeram-no até num tom pedagógico, referindo-se a um direito que custou muito a conquistar, tentando arrancar da mais profunda letargia milhares de jovens que, tendo atingido a idade de ir às urnas, não se identificam com os partidos existentes, mas também nada fazem pela criação de movimentos alternativos ou de protesto. As constantes chamadas de atenção não serviram, porém, de muito: se uma sondagem alertara para o facto de só 3% (!) dos jovens portugueses estarem certos de ir votar, os resultados vieram mostrar que esses números não andavam longe da verdade.

Maria do Rosário Pedreira

Chiu!

Lembro-me de estar na praia com um grupo de amigos - quando ainda não sabíamos o que era o ozono e ficávamos o dia inteiro a torrar ao sol - e de passarem por nós a mãe e a sobrinha de um deles, que pararam uns minutos a cumprimentar-nos. Enquanto ali estiveram, a miúda, que devia ter no máximo 6 anos, não conseguiu desviar os olhos de um dos rapazes; mas foi só quando a avó lhe voltou a pegar na mão para seguirem caminho que a ouvimos perguntar, num tom levemente chocado, porque estava aquele amigo do tio de bandelete...

Maria do Rosário Pedreira

Língua madrasta

À procura de umas fotografias antigas em casa da minha mãe, fui dar com um desses caderninhos de significados em que escrevíamos, do lado esquerdo, uma palavra que não conhecíamos e, do direito (depois de consultarmos o dicionário ou perguntarmos a um adulto), um sinónimo ou a respectiva definição. E, tendo em conta que na capa estava escrito "3.ª Classe" a tinta permanente, fiquei admirada com o número de palavras lá registadas que hoje seriam consideradas difíceis para uma catraia de 8 anos: animosidade, baeta, comezinho, ícone, ninharia... De facto, desde que as novas tecnologias ditaram uma mudança de paradigma - e sobretudo por falta de leitura, mas também pela informalidade que se imprimiu à comunicação -, os jovens usam um léxico extremamente reduzido e estão cada vez mais longe de dominar a língua materna.

Maria do Rosário Pedreira

Kundera e o pequeno ecrã

Em meados dos anos sessenta, quando o meu pai comprou o primeiro televisor lá para casa, a emissão começava ao fim da tarde e à meia-noite já se tinha cumprido; mas em poucos anos (sobretudo desde a criação de um segundo canal) a programação tornou-se extensa e variada e, apesar de vivermos em ditadura, sem nada de perigosamente anestesiante. Basta tomar um ano ao calhas (neste caso, 1973) para ver que, além das longas-metragens americanas, havia filmes europeus e séries para todos os gostos (Guerra e Paz, A Família Belamy, Columbo...); mas também noites de teatro e variedades; jazz e ópera; concursos e entrevistas; uns desenhos animados para mandar os miúdos para a cama à hora certa; e até (parece mentira) programas assinados por escritores como Vitorino Nemésio. Tudo isto (faltava dizer) conduzido por excelentes profissionais (Ups! Fui mesmo eu que elogiei a televisão do fascismo?)

Maria do Rosário Pedreira

Erros seus, má fortuna

Quando completei o ensino primário - tempo de ir em fila indiana para o refeitório e brincar ordeiramente no recreio (mas também de cópias, ditados e cantar a tabuada) -, os alunos não davam tantos erros de ortografia como agora; e, se algum tinha mais de três numa daquelas redacções escritas em papel almaço e ilustradas com lápis de cor, isso era sentido quase sempre como uma humilhação. De tal modo me incutiram desde cedo a importância de entregar um texto sem mácula que, quando o meu primeiro namorado me mandou de umas férias em Vidago um postal que dizia "Chegá-mos bem" e mais duas calinadas imperdoáveis, achei melhor rifá-lo - e, para que percebesse porquê, devolvi-lhe o postal para as termas com os erros sublinhados a vermelho.