A um metro do chão

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Mário Nogueira a ministro

Mário Nogueira devia assumir de uma vez por todas a pasta da Educação e os primeiros-ministros deste país deviam ter a coragem de lhe abrir a porta da frente do ministério. Mário Nogueira já merece. Já merece entrar pela porta da frente do ministério em vez de continuar a atirar pedras às janelas, merece um gabinete em vez da rua, merece um assento no Conselho de Ministros em vez de ser o assunto desagradável do Conselho de Ministros. Se houvesse justiça e coerência neste mundo, Mário Nogueira já seria ministro. Temos um governo apoiado pelo PCP e Mário Nogueira continua na rua, não se faz. Deve ser quem melhor conhece a complexidade da carreira docente e esse conhecimento não é aproveitado. É que além de justa é necessária esta nomeação. É necessária para trazer paz ao setor, para trazer estabilidade às famílias e para acabar de uma vez por todas com as greves às avaliações, às aulas, aos exames, etc. Se Mário Nogueira fosse ministro haveria ordem. Ele certamente que responderia a todas as suas próprias reivindicações, cederia a todas as exigências, descongelaria, desbloquearia e catapultava a progressão das carreiras, os salários dos professores e tudo aquilo que tem motivado tantas lutas nas últimas décadas. Diminuiria a idade da reforma, reduziria os horários e o número de alunos por turma. Acabava-se de vez com este stress dos exames e das avaliações quer dos alunos quer dos professores. Não existiram professores fora dos quadros da função pública e os contratos de associação acabariam de uma vez por todas e não de forma sonsa. Os colégios também, claro. Mário Nogueira é a única pessoa com capacidade, competência, paciência e boa vontade para negociar com ele próprio. É o único que cederia a si próprio e que iria de encontro aos anseios dele mesmo. A escola seria assumidamente centralizada e não timidamente. As promessas que outros fazem, os programa que outros escrevem, Mário Nogueira cumpriria. De uma vez por todas o seu nome, as suas ideias, deixariam de ser utilizadas em vão, apenas para fazer para sustentar a geringonça. Mário Nogueira nunca deixaria o PCP a falar sozinho, nem o PCP precisaria da paralisação para se fazer ouvir: era só chamar. Não percebo como é ainda nenhum primeiro- -ministro se lembrou disto. Não é Mário Nogueira o rosto da Educação em Portugal? Então...

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Mimar e ser mimado

Quem é mimado sabe mimar, disse-me a Teresa educadora dos meus filhos. A frase não me sai da cabeça. Nunca dei assim tanta importância ao mimo, como se fosse condição para mimar ser mimado, mas pensando bem, ou apenas pensando sobre o assunto, é isso mesmo. É como quem ama: só sabe amar quem foi amado; ou dar: só sabe dar quem recebe. E por aí fora. Com o mimo é a mesma coisa. A minha mãe embrulhava-me na toalha quando me tirava do banho e apertava-me com força no abraço mais maravilhoso que alguma vez senti. Não sei que idade tinha, mas tinha idade para caber no colo da minha mãe como se tivesse nascido só para caber ali. Também tenho uma irmã que me fazia cócegas às escondidas da minha mãe quando eu estava na cama quase a dormir. Ela ia ao meu quarto só para me fazer rir. "Não excitem a criança que ela não dorme", mandava a minha mãe, e eu ficava com dores de barriga de tanto rir e não dormia. Os meus irmãos diziam que eu era a cola Bostick (lembram-se?) e a minha irmã era a cola UHU porque vivíamos agarradas à minha mãe, uma de cada lado e a minha mãe a fazer tricô. Tenho a sorte milionária de ter tido mimo em grande quantidade e qualidade apesar de ser uma de nove irmãos. Ainda hoje pergunto como é que perceberam que eu andava por ali, mas perceberam.

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O tempo que não temos

Não há tempo. É a doença dos tempos modernos, a falta de tempo. Às vezes parece que não tenho tempo para dormir: vou só ali dormir como quem vai ao supermercado e já vem. É assim vezes de mais. E eu não gosto nada de ir dormir porque nunca quero ir-me embora do mundo. Uma parvoíce, eu sei. O meu avô dormia sempre depois do almoço: sentava-se na poltrona da sala e dormia 15 minutos e a minha avó ficava à espera para sair que ele acabasse de dormir e depois lá iam. Quinze minutos, no fundo, não é tempo nenhum. E ele precisava deles para enfrentar o resto do tempo que o dia ainda tinha. Naquela altura havia tempo. Mas não é falta de tempo aquilo que hoje temos, a doença dos tempos modernos é o desperdício de tempo: o nosso tempo gasta-se, perde-se, não rende. Nós tratamos o tempo como se ele fosse ilimitado, sem aproveitar cada minuto, deixamo-lo passar sem apanhar boleia. Um dos meus filhos quando chega do futebol vem ligado a uma corrente de adrenalina e não se cala. São 15 a 20 minutos a ouvi-lo. É sempre assim: interrompo uma das minhas séries que me dão a sensação de não estar a perder tempo e fico a ouvi-lo a contar histórias, a descrever estados de alma e a pensar alto sobre os projetos que tem como futuro presidente do Sporting. Vinte minutos é pouco tempo para tanta coisa que ganhamos os dois ali. Quando revejo o meu dia, aqueles minutos devem ser dos poucos que não perdi.

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Um medo bom

Lembro-me de ter medo do homem do saco. Ouvi a história do homem do saco e sempre que via um homem com um saco olhava para o tamanho do saco e calculava se era possível eu caber lá dentro. Tive sempre dúvidas e por isso abrandava o passo até o perder de vista. "Onde é que ele põe as coisas para me enfiar lá dentro?", era outra dúvida. Também tinha medo dos ladrões. Uma noite confessei à minha irmã e ela declarou triunfante: "Eu já não tenho esse medo. Agora tenho medo de que a casa arda." Cresci, queria ela dizer. E eu, desgraçada, somei ao meu medo de ladrões o de pânico de um fogo que me parecia muito mais plausível e real, enquanto a minha irmã dormia ferrada. Era cansativo dormir. Ficava a olhar para a porta e para a janela, que eram cada uma de cada lado, a ver se aparecia um ladrão ou o fogo. Tinha medo de tudo no escuro. Até do roupão que atrás da porta ganhava a silhueta de um monstro. E o Calvin tem razão: é doloroso para uma criança pôr os pés no chão com a quantidade de bichos e monstros que estão debaixo da cama. Não há coragem maior do que a de uma criança no escuro, caramba. De quando em vez queixava-me baixinho dos ladrões, mas relativizavam o meu medo sem nunca me convencerem. Era o mesmo com as saudades. Não foram os portugueses que inventaram as saudades, foram as crianças. As crianças deixam de comer com saudades, adoecem, envelhecem um bocadinho quando sentem o coração apertado e as lágrimas a atulharem-se na garganta. E a resposta é sempre a mesma e vazia: "Venho já." O meu irmão ficava horas à espera de que a minha mãe lhe fosse deixar a lancheira à escola e bastava ele se distrair que já lá estava a lancheira em cima da mesa e a minha mãe já não. O que ele detestava aquilo. Não era a escola, eram as saudades. O meu filho pede-me para eu ficar um bocadinho quando o vou deitar e eu não me lembro de nada disto. "A porta está aberta e eu estou já aqui." Também lhe digo para ele não ter medo, como quem diz não tenhas sede. Como se isto fosse coisa decente para dizer a alguém que acredita em monstros e que tudo é possível. Acreditar que tudo é possível é um abismo, lembro-me bem. Mas hoje penso nos pais. Hoje não são só os filhos que têm medo, são os pais pelos filhos. E os filhos, desgraçados, vivem rodeados de medos que não são seus. Tive sorte: em minha casa só eu é que tinha medo, mais a minha irmã que dormia profundamente. Afinal era um medo bom, o meu.

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O calvário dos artistas

O meu filho mais novo tem desenhos pendurados por toda a casa, que prende com fita-cola aos quadros, e como é o mais novo ninguém se atreve a tirá-los. São obras de arte, os desenhos, diz ele. Dizem-me que até muito tarde todos os miúdos querem ser artistas: atores, pintores, cantores, qualquer coisa que remeta para as artes. E nós pais acreditamos. Até muito tarde acreditamos neles. O meu filho mais novo, se fosse o mais velho, já me tinha enganado e já o imaginava artista. Mas artista a sério. Daqueles que perseguem sonhos, que preferem a pobreza a abandonarem a sua arte. Porque nós, pais, somos uns românticos com a vida dos outros. Do mais velho disseram que ele tinha uma motricidade fina excecional. Nunca mais me esqueci, foi a primeira vez que ouvi falar em motricidade fina (ainda não sei qual é a grossa). Os desenhos que fazia eram com perspetiva e desenhava os joelhos da figura humana quando ainda era pequenino. Não sabia, mas as educadoras e depois as professoras diziam que tinha "capacidades excecionais". Tinha cabeça de artista também. Agarrava-se aos livros do Harry Potter, desenhava banda desenhada nas paredes do quarto, tinha talento para o teatro e não jogava à bola. Qualquer rapaz que não joga à bola vai para artista, diz o mito. Uma vez, na aula, foi apanhar o lápis que tinha caído para debaixo da mesa e ficou lá a brincar com o lápis, ao qual deu vida e fala. A meio ano de entrar para a faculdade está na dúvida entre Direito e Economia. Lembro-me que o primeiro embate que teve sobre as suas capacidades artísticas foi com a primeira professora de Educação Visual. Afinal, as notas não correspondiam ao que sempre lhe tinham dito. Afinal era trapalhão, pintava fora dos riscos, as retas eram tortas e borrava. Por isso gostava mais de lápis. Três, dois, três. Não saía destas notas. Nunca mais desenhou em casa e nunca mais ouvi falar da motricidade fina. Foi nessa altura que me disseram que os miúdos deixam de desenhar quando começam a ter aulas de Educação Visual. É quando avaliam se são certinhos e não artistas. O nome diz tudo: educação visual. É também nessa altura que comparam os seus desenhos com a realidade. Olham para o elefante e olham para o desenho que fizeram do elefante e ficam de rastos. Mas está lá tudo, dizemos. Mas não está o elefante, reparam eles. Este mais novo não me engana. Faz obras de arte, mas não me engana. Primeiro tem de atravessar o calvário da avaliação sobre a sua capacidade visual. Há algum artista de educação visual? É que ela já matou vários artistas cá em casa.

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O valor do respeitinho

O respeitinho não está na moda. Ter respeitinho aos pais, aos mais velhos, às instituições ou aos professores é coisa do tempo dos filmes mudos. O respeitinho é o respeito só porque sim: sem razão aparente levantamo-nos, deixamos passar primeiro, não interrompemos nem falamos por cima, não discutimos e obedecemos. Respeitinho é qualquer coisa que nos faz engolir em seco, provoca uma fúria interior quase incontrolável e que acaba com um singelo "sim, pai". Ou seja, é o único garante de uma ordem mínima na sociedade e nas famílias sem que o Estado tenha de intervir. Mas hoje respeitinho é quase maus--tratos, é restringir a liberdade das crianças, humilhar os jovens, vá. Um dos meus filhos disse a uma professora que "em minha casa educaram-me a dizer sempre aquilo que penso" e ele tem imensas opiniões sobre educação de adolescentes, disciplina, matemática, o mundo em geral. Obviamente que a coisa não correu bem. Ele acha uma injustiça não o ouvirem na exata medida em que ele ouve os outros, que a sua opinião não seja tão considerada quanto a dos pais e acredita que está em pé de igualdade com o Papa e com o Presidente da República. E responde. Responde sempre. E quando não responde encolhe os ombros e entorta a boca: "O que é isso, ser insolente?" Só quando o ameaçamos de morte é que ele baixa o queixo e rosna um "sim, mãe". No outro dia soube de uma mãe que bateu no filho e ele foi para a escola com uma marca na cara. A escola fez queixa à CPCJ e a criança está sinalizada. Pumba: um estalo e o processo. E uma pessoa fica parva. Tirando Nossa Senhora e a mãe do Ruca, que mãe já não se passou com os filhos? E porquê? Por causa do "o que é isso, ser insolente?" depois de hora e meia no trânsito e nove horas de trabalho. Há uma idade em que eles são maiores do que nós e acredito que todas as regras da educação foram pensadas em função desse dia. Ou seja, para que eles tenham respeitinho quando nós já tivermos força para impor respeito. Uma amiga minha mandou o filho de 15 anos e de um metro e setenta para o quarto de castigo e ele respondeu "não vou". E não foi. Lembro-me de a minha avó dizer a um dos irmãos para se baixar porque ela queria dar-lhe um tabefe (a minha avó dizia tabefe), já que ele não tinha idade para levar uma palmada no rabo. E o meu irmão, com respeitinho, baixou-se. Por isso é que a minha avó morreu em casa dela, rodeada de netos e filhos. Porque respeitinho e amor são as duas faces da mesma moeda.

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Criança muito pouco moderna

Na escola do meu filho mais novo há dezenas de galochas de vários tamanhos para as crianças calçarem quando chove e passarem o dia a saltar nas poças. Chafurdar mesmo. As crianças da escola do meu filho devem ser as únicas no país que ficam felizes quando chove, as poucas que sabem o irritante que é ter pingos a escorregarem pelas costas abaixo quando abanam o ramo de uma árvore. A minha chega a casa desmaiada de cansaço quase todos os dias. É um regalo. E o mais estranho é que ainda não ficou doente este ano, nem tosse, nem gripe. Pensei em perguntar à pediatra se não era melhor ver o que se passa, tanta falta de ranho pode não ser normal. São as poças, desconfio, tivessem todas as escolas poças chafurdáveis e as urgências estavam às moscas. E o cão? Lá na escola também há um cão que os acompanha nos passeios e que se rebola com eles no meio do chão. Não é um cão, é uma cadela: a Pinha do Pinhão - que é como se chama a escola. Ela lambe a cara da criança, a criança deita-se no chão com ela e puxa-lhe as orelhas, abre-lhe a boca e espreme-a. Ele gosta tanto da Pinha que quer ser cão quando crescer. Antes cão que coelho ou galinha, que também os há no Pinhão. Também alimento mal este meu filho. É o mais novo e o mais novo tem direito a gomas quando vamos ao supermercado, a bolo quando vamos ao café e a um sumo quando não quer uma coisa ou outra. Uma vergonha. Desconfio que a criança já enjoou o açúcar e às vezes pede um croquete ou um folhado de salsicha. Mas isso não lhe dou: bolos, porque as crianças comem bolos assim como as avós bebem chá. Ser conservadora tem as suas consequências: revarica-se com açúcar, não com fritos. Ele está magro. Quer dizer, não está gordo. Come sempre sopa, bebe água às refeições e está sempre a roubar fruta. Ninguém é perfeito. E as horas de sono? Não sei bem. Há noites em que me esqueço de o deitar: o sonso vai para um cantinho brincar em silêncio, a fazer de conta que não existe para não ir para a cama. Às vezes resulta e ele dorme menos do que devia, outras vezes não resulta e vai para a cama a espernear. A minha mãe também diz que ele devia fazer mais jogos didáticos para desenvolver competências e crescer, vá. Pois, concordo. Mas nem eu nem ele temos paciência para jogos didáticos ao fim de um dia de chuva onde se chafurdou na lama. E, mesmo sem lama ou chuva, o que nós gostamos mesmo de fazer ao fim do dia é deitarmo-nos no sofá a ver o Panda. (Experimentem). Uma criança fora do seu temo, este meu filho. Espero que o sal, o açúcar e a chuva assim o conservem.

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Deseducar adolescentes

Ninguém é competente para educar adolescentes. Ninguém. Qualquer mãe ou pai de adolescentes não sabe o que faz, como se faz e onde vai acabar a borrada que se faz. Um adolescente é o exame de Matemática dos pais. Está cheio de equações indecifráveis, de matéria que não se estudou e só consegue passar quem tem experiencia, quem praticou. O que exclui à partida a esmagadora maioria dos pais. Há uma coisa que os pais de adolescentes têm que mais pai nenhum tem na mesma medida: a culpa. Nós assumimos com rigor a culpa por o nosso adolescente ser inseguro, ríspido e estar em silêncio horas a fio. Que cada borbulha, cada fragilidade, cada falta de autoestima é resultado de anos e anos de incompetência nossa. Nós sabemos melhor do que ninguém que fazemos imensa borrada: que damos mimos a mais e a menos, importância a mais e a menos, berramos de mais e de menos, que mudamos de estratégia com a mesma frequência com que mudamos de canal, que os tratamos como adultos ou como crianças. Não sabemos até onde temos de tolerar a irreverência (o que é irreverência e má-criação), quais as horas a que os mandamos para a cama, quando é que eles podem andar na rua sozinhos, o que se passa no maldito telemóvel, quem são os amigos. Confiamos ou desconfiamos? Somos amigos ou assumimos a nossa posição hierárquica superior sem cedências? Fingimos que sabemos ou que não sabemos dos disparates que eles fazem e das mentiras que nos dizem? O que é que quer dizer "é próprio da idade"? Não sabemos. Um adolescente é um exame de Matemática de escolha múltipla.

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O dia em que fui importante

Já devia ter aprendido que não podemos deixar passar a oportunidade de dizer às pessoas de quem gostamos e que admiramos que as admiramos e que gostamos delas. Porque há um dia em que elas partem e nós ficamos sem saber se elas sabiam e sem oportunidade de confirmar. Pedro Rolo Duarte gostava de um blogue que fiz e citou-o no seu programa de rádio. Quando ouvi corei sozinha, envergonhada com o elogio e na esperança de que tivesse sido a única ouvinte. Quando temos o Pedro Rolo Duarte a dizer bem de nós ficamos sem saber onde pôr as mãos. Ainda tenho a voz dele gravada a dizer o meu nome. Depois, uns anos depois, quando estou quase a chegar à conclusão de que algures no tempo o desiludi com um dos inúmeros disparates que terei escrito ou pela minha falta de talento que finalmente terá descoberto, ele convidou-me para o seu programa na Antena 1, Hotel Babilónia. Eu, a ser entrevistada pelo Pedro Rolo Duarte para falar sobre filhos, os livros, o jornalismo, a minha aventura no Parlamento, sobre mim. É nestas alturas que percebemos que o mundo pode girar ao contrário. Mas não acusei o toque. Entrei no estúdio como se merecesse estar ali, como se tivesse de facto o talento que justificasse ser entrevistada por Pedro Rolo Duarte. Passei a entrevista a tentar surpreendê-lo, queria dizer qualquer coisa que o fizesse sorrir. Nada. Ele ria-se sempre, piscava o olho e eu não disse nada inteligente, claro. A meio da entrevista pensei: "No fim tenho de lhe dizer tudo o que penso dele e o quanto significa para mim estar aqui", para logo a seguir achar que dizer tudo isso seria foleiro e despropositado. Voltei à pose e não disse. No fim quem agradeceu foi ele e eu, pequenina, quase ridícula, só agradeci. Apenas isso. Não disse ao Pedro que o tinha acompanhado à distância desde a primeira vez que o li, que O Independente que lia quando andava no liceu era o dele, que também cresci na Praia Grande - e que adorei a crónica que ele escreveu sobre o seu filho que durante um verão foi ali salva-vidas -, que o admirava por tanta coisa mas principalmente pelo lado positivo e pela beleza que descortinava em tudo: por gostar tanto de dizer bem.

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Os dias negros do socialismo

A máquina começa as trabalhar aos safanões e à medida que se tapa a cabeça, destapam-se os pés. Sinal de que é hora da propaganda: rendimento de inserção, aumento de pensões, diminuição da carga fiscal. Na verdade não há meios, não há dinheiro, a máquina soluça, o serviços públicos falham, mas parar é morrer e o PS é perito em correr na direcção do abismo. É uma questão de adn, genética. É como os miúdos: juram que não comeram o chocolate mas não sabem explicar a boca toda suja. "Foi ele!" e apontam o dedo ao irmão mais novo que não sabe falar. Ao mesmo tempo, no PS, soltam-se as vozes mais ferozes e estridentes. Desta vez foi a Acção Socialista porque aos blogues anónimos passaram de moda. Atiram-se ao pescoço de quem os confronta, desmascara. Vale tudo menos baixar a cabeça. Até insultar o presidente. Mas nega, nega porque se te retratares ficas vulnerável; ataca sempre, porque só se defende quem está em desvantagem. Foi assim com Sócrates, é assim com Costa. Mas desta vez correu mal: Marcelo não é Cavaco e os jornalistas estão indignados com o número de mortos e a falta de humildade de um Governo incompetente: são factos. Nem o PS aguenta ter pela frente dois adversários desta envergadura. Tentaram, é certo que tentaram amedrontar Marcelo acusando-o de populista, de manipulador e teatral. Acharam que tinham uma saída por ali e depois era só cavalgar como sempre fizeram. Tinham a famosa narrativa e que com duas ou três rosnadelas o país esquecia o que aconteceu. Mas não, Marcelo não é Cavaco: não fica um mês para responder, não amua, não envia comunicados indecifráveis por meio de fontes também elas indecifráveis. Aquilo que o PS acha que sabe, já Marcelo se esqueceu; Marcelo sacode um ataque do governo com a mesma eficiência com que sacode pó do ombro do casaco. Tem o país, tem a comunicação social e neste caso tem toda a razão. PS diz que o PR foi populista e "ameaça a democracia" com tentação de presidencialismo que pode acabar em "ditadura". É este o elaborado raciocínio da Acção Socialista (leiam o artigo que vale a pena): acreditam que alguém se importa com o assunto da ministra ou com a tentação presidencialista de Marcelo. Ainda não perceberam que tirando Passos Coelho o resto dos portugueses aclamaria Marcelo como rei amanhã. E tudo isto ao som das escutas de Sócrates que em modo de tortura para o PS vão saindo devagarinho e difundidas pelas redes sociais competindo com os vídeos da Porta dos Fundos, como choques elétricos. Não estivéssemos a falar do PS e daria pena.

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As vidas que estão em causa

As coisas passam-se da seguinte forma: acordam às seis da manhã, dão um jeito ao quarto, arranjam-se, preparam o pequeno-almoço, os almoços e lanches do dia para a família, descongelam parte do jantar - a outra parte faz-se ao fim do dia - e vão acordar as crianças. Devagarinho porque é muito cedo, o Sol ainda não nasceu. Fazer as mochilas, lavar os dentes, birras, recados e correria até à paragem do autocarro porque já é tarde. À escola chegam cedo, às vezes cedo demais, e na maior parte do ano está frio e é noite a esta hora do dia. Mas adiante, porque parar é morrer e há um comboio e um autocarro para apanhar até ao trabalho. Cinco minutos são a base do castelo de cartas. Pondera-se o metro, mas é confuso, cheio, demorado, e como não chove, sobe-se a alameda. Depois trabalha-se. Rápido porque há mais que fazer. No fim do dia, caminho inverso: autocarro, comboio. Recolher crianças e estar atrasado - a palavra mais portuguesa depois do fado, claro. Ainda falta passar no supermercado e comprar o resto que é preciso para o jantar, o raio do detergente que falta há três dias, pão, leite e fraldas - mais não, que para casa é a subir. E rápido porque já se está atrasado para chegar à escola, à ama ou ao ATL. Tivesse o dia mais horas. Mas não tem e é preciso arrumar a casa. A manhã foi a correr e as crianças têm trabalhos, deve haver recados dos professores, há sempre. Sobe-se para casa, onde espera a roupa para estender, a cozinha desde manhã, jantar para fazer, banhos, trabalhos, birras e mimos. No caminho passou-se no café, é verdade: estavam as amigas, atrasadas também, mas deu para descontrair e beber a bica. No fim, quando já doem os pés, os desgraçados que levam com tudo em cima, o dia dá tréguas. E ninguém se queixa. Dá a bola, dá a novela, embrulham-se as crianças ao colo, bebe-se uma cervejinha, se está bom tempo vai-se ao café. E compensa. Todas as pequenas coisas compensam, vá-se lá saber porquê.

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Brincar ao BE e ao PAN

Todos os portugueses deviam ter a experiência radical de pelo menos uma vez na vida serem do PAN ou do BE. Mas serem mesmo a sério: participar nos trabalhos, nas reuniões, nos debates, escreverem doutrina, vá. Deviam mesmo ser comercializados nos hipermercados pacotes com este tipo de experiências da mesma forma que se vendem saltos de paraquedas, fins de semana na natureza, rastejar nas grutas, etc. Participar nas reuniões ou assembleias destes partidos deve ser das experiências mais divertidas, emocionantes e alucinantes que existem. Imaginem a reunião de trabalho do BE em que se decidiu propor que os jovens com 16 anos que queiram mudar de sexo possam processar os pais caso estes não autorizem. Imaginem a paródia que deve ter sido. "Eh pá, o que é que o pessoal vai inventar hoje para animar esta parvónia? Já lá vão umas semanas que não abanamos a agenda, chateamos os betos e os beatos ou entalamos o Costa." Imaginem as ideias que devem ter brotado daquelas cabecinhas perante este desafio. O delírio. Desconfio que nessa semana só foi apresentada esta proposta porque todas as outras só podiam ser anunciadas aos portugueses em conferência de imprensa com bolinha vermelha, em canais fechados e depois das onze da noite. E depois o rescaldo: ver um país inteiro a levar as ideias a sério, ouvir debates sobre o assunto, comentários escritos e ditos por analistas. De rebolar a rir.