A Alma Vagueante

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Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio

Quando me pedem um testemunho sintético do meu longo trato com Eugénio de Andrade, declaro invariavelmente, "Da minha parte foi sempre uma amizade grata e sincera, mas não incondicional." A súmula parece por vezes surpreender o interlocutor, porventura habituado a essas expressões mais calorosas, de fim de carta, nas quais o adjectivo "fraternal", ou a expressão "sem quebra", marcam presença. E explico então que semelhante reserva não contende com a firmeza, nem com a lealdade, do afecto, e muito menos com a estima literária que sempre dediquei ao poeta de As Mãos e os Frutos, e a quem me manteria tributário pela raríssima solidariedade com que me distinguiu.

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Namora ou O Encontro Adiado

As relações inter-geracionais na literatura, sobressaltadas pela alternância dos modelos, e pela fixação dos mesmos, diferem de outros diálogos etários pela presença de um factor específico. O registo da sucessão das propostas coincide com a própria actividade criativa, o que se denuncia pela expressão scripta manent, a atestar com clareza a recorrência das mudanças de paradigma. Todas as gerações se confrontam, e mutuamente se repudiam, e se não sobrar tempo para que disso reste vestígio, eis que ficará provada a fragilidade das novas opções.

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Lanhas, Pintor e Sábio

Arquitecto, pintor e etnólogo, e sobretudo visionário, Fernando Lanhas atravessaria a paisagem das artes portuguesas como um agente eficaz, mas que me deixava desconcertado. Nunca acertando na definitiva categoria que lhe convinha, olhá-lo-ia eu com uma simbiose de pasmo, estima e interdição, formulando de mim para mim esta pergunta, "Afinal quem é este homem?", declinação da seguinte dúvida, mais ampla, e a que se me tornava impossível responder, "Afinal o que é este homem?"

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O Natal Passado de David Mourão-Ferreira

Talvez o mais citado poema natalício do nosso século XX seja a Ladainha dos Póstumos Natais, de David Mourão-Ferreira, e nele se ilustram duas facetas notórias da personalidade do poeta. Nas suas linhas denuncia-se o gozo da intimidade doméstica, não raro erigida por David em chancela pessoal, e apesar do mundanismo de que se tornava fácil acusá-lo. Por outro lado deduz-se dos mesmos versos a magoada reflexão sobre a transitoriedade das coisas terrestres, tema em que exercitaram o seu engenho os imperadores Adriano e Marco Aurélio, familiares como Mourão-Ferreira da Bacia Mediterrânica, e como ele debruçados para a melancolia da existência, tocada pela exaltação da beleza, que tanto deve aos estóicos como aos epicuristas.

Literatura

Saramago

A notoriedade de José Saramago nas letras pátrias, e sobretudo nas europeias, dispensa-me do esforço de procurar a habitual perífrase, a servir de título a esta crónica, e capaz de tornar mais nítida, ou mais cativante, a personalidade--tema que desejo tratar aqui. "Saramago" sem mais, desligado da graça de baptismo, e de qualquer adereço que a acompanhe, bastará de facto para identificar quem com Fernando Pessoa representa a literatura portuguesa, e em termos idênticos àqueles em que Cristiano Ronaldo simboliza o futebol internacional. O ficcionista de Todos os Nomes foi de resto brindado por um apelido que regista tanto de bravio como de truculento, sublinhando dois dos traços mais genuínos do seu carácter.

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Um vulcão chamado Sena

O convívio com qualquer criador tece-se de sinuosos acasos, circunstância que por vezes ganha corpo, quando do diálogo imediato com a obra se transita ao contacto pessoal com quem a segrega. O nome de Jorge de Sena pontuar-me-ia as leituras da adolescência, não como do grande escritor que ele era, espraiado pela poesia, pelo teatro, pelo ensaio e pela novelística, mas quase exclusivamente como do tradutor, aliás de inexcedível qualidade, de muitos dos marcos supremos da literatura universal.