1.º de Maio

Opinião

Sindicalismo para quem não trabalha

Revejo-me aqui, em absoluto, num artigo publicado no DN em julho de 2017 por Maria de Lurdes Rodrigues (socióloga, ex-ministra da Educação do PS, atual reitora do ISCTE): "O mundo não seria melhor sem sindicatos. Pelo contrário. O mundo será melhor, mais plural, mais justo e mais livre com sindicatos fortes e mais bem implantados na sociedade civil." Mas eis o problema: numa altura em que o emprego cresce deveria ser natural que os sindicatos também crescessem - e assim alargassem a sua influência. Mas, habituados a trabalhar exclusivamente para os seus sócios, os sindicatos deixaram genericamente (há sempre exceções, claro) de trabalhar para, por exemplo, os desempregados ou os precários. Se há coisa que explica o facto de, cada vez mais, as greves gerais só terem efeito em serviços do Estado (transportes, sobretudo) é o facto de os sindicatos mais fortes quase só representarem trabalhadores com vínculos sólidos (e é no Estado que esses trabalhadores estão, não no setor privado). O sindicalismo nacional representa acima de tudo quem, podendo ter problemas crescentes de perda de poder de compra, consegue apesar de tudo não ir parar ao desemprego porque tem um contrato para a vida. Os outros, os desempregados, que estão acima de tudo representados no setor privado, já intuíram há muito que os sindicatos não os representam. E quando voltam ao mercado de trabalho, claro, não querem ter nada a ver com sindicatos, porque não têm nada para lhes agradecer. Podia portanto o mundo sindical aproveitar o 1.º de Maio para ver como é que pode servir quem não é sindicalizado. Porque o mundo do trabalho não é só o mundo dos trabalhadores - é também o mundo dos que, querendo trabalhar, não o conseguem, ou só o conseguem em condições de miserável precariedade.

Um ponto é tudo

Sobre hoje e todos os dias

Há 44 anos, 1 de maio de 1974, hoje exatamente cumpridos, regressei a Portugal, entrando pela fronteira ferroviária de Vilar Formoso. Era um comboio de exilados políticos, ainda com dúvidas sobre o que realmente tinha acontecido. Dias antes, em Paris, já depois de se saber dos acontecimentos em Lisboa, tínhamos ocupado o consulado-geral português e exigido ao cônsul um bem que muitos de nós nunca tivera: passaporte. Comboio parado, dois homens fardados entraram na minha carruagem, ordenaram para não se sair dos lugares, contaram-nos e disseram para alguém recolher os documentos. Fui eu buscá-los, todos novinhos. Um amigo, professor em Vincennes e ex-padre, que fora para França legalmente, entregou-me o seu, sussurrando: "Está caducado." Escondi-o entre as dezenas de outros, brilhantes. Entreguei o pacote a um dos polícias. O olhar profissional caiu, logo, no passaporte escondido. Tirou-o do molhe, abriu-o e disse ao colega, baixo: "Está caducado." O colega pegou nele, foi às datas e voltou a pôr o passaporte no meio dos outros. Disse: "Mas não está muito caducado", e ambos passaram a outra carruagem. E eu soube nesse momento que tudo tinha, mesmo, mudado... Poucos anos antes, em 1972, durante a visita de Nixon à China, o chefe da diplomacia americana, Henry Kissinger, estudioso dos grandes acontecimentos mundiais, perguntou ao então primeiro-ministro chinês Chou En--Lai o que pensava da Revolução Francesa. Chou En-Lai respondeu: "Ainda é cedo para saber." Kissinger ficou encantado pela noção intemporal do milenar grande império chinês. Ainda cedo, algo acontecido dois séculos antes, em 1789!... Mais tarde, soube-se pelo tradutor que Chou En-Lai se referia ao então ainda recente Maio de 68, a revolução francesa que, agora, comemora o seu meio século. Em 1974, eu era um jovem empolgado e, num breve instante, com a frase de um polícia atemorizado, acertei na natureza de uma revolução. Em 1972, dois dos mais sábios políticos do século XX baralharam-se sobre um assunto que dominavam como ninguém... Juntando os dois episódios, concluo que estamos sempre tão próximos de não sabermos do que estamos a falar quando estamos a falar.