1864

Miguel Marujo

Peregrinação interior

Deixem-me blasfemar: Johann Sebastian Bach é tido como o compositor de todos os tempos. Mas quando ouço Prélude de la Partita pour Violin nº 3 precedido de Pepa Nzac Gnon Ma vacilo. Estou a meter no mesmo saco Bach e um tema tradicional gabonês, interpretado por Elugu Ayong?! Sim, estou. Na música, descobrimos, desarmados, que Bach desenha uma melodia que se entrelaça na perfeição com os sons da selva africana, vozes, percussões, violoncelo, música, beleza e a dança do povo fang, do norte do Gabão, derrotando discursos das falsas superioridades civilizacionais. (Ouçam então Lambarena - Bach to Africa.)

Opinião

A magia da arrumação é mais fácil na TV

A organização de caridade australiana Lifeline anunciou nesta semana que cerca de metade das suas lojas (há mais de quarenta centros) não estão a aceitar doações, visto estarem no máximo da sua capacidade. Nos EUA, os estabelecimentos de artigos em segunda mão também relatam um aumento das ofertas. A culpa não será do espírito natalício, mas de uma japonesa que entrou a 1 de janeiro nos lares de todo o mundo que têm Netflix. Há anos que Marie Kondo ensina os seguidores do seu método (conhecido como KonMari) a organizar a casa e a dar valor aos itens que os fazem felizes - ou, como ela diz, spark joy. E a deitar fora (ou doar) todos os outros: depois de um arigato para agradecer por tudo o que fizeram por nós.

Opinião

O foguetão que levantou do Cais Sodré

Na madrugada de terça para quarta-feira, à porta do Roterdão Club, um rapaz argentino gastou todos os dados do telemóvel para mostrar à namorada um vídeo no YouTube. Era a noite de aniversário de David Bowie e a discoteca lisboeta celebrou a efeméride. Passou, aliás, toda a semana em comemorações. Hoje, sábado, é a última noite de festa - há um concerto dos Starmen, banda de tributo ao Camaleão. O argentino queria mostrar à sua miúda o vídeo que Chris Hadfield gravou na Estação Espacial Internacional. O astronauta canadiano cantou o tema Space Oddity com gravidade zero e com isso confirmou uma certeza: Bowie não era só deste mundo. Agora, na rua cor-de-rosa, um par latino-americano embarcava no mesmo foguetão que o cantor tinha lançado para a galáxia cinquenta anos antes. No telemóvel, a contagem decrescente - lá vai um foguetão a caminho de Marte.