1864

1864

"Gripado"

Era o tempo dos liceus e dos contínuos - não havia cá escolas secundárias nem auxiliares educativos -, e o senhor Simão, a quem todos chamavam o Gripado, era figura central daquele nosso pequeno grande mundo, em que tudo assumia proporções imensas e definitivas. Mesmo tudo: as injustiças e a vontade de as mudar; as músicas rebeldes "que vinham de fora" e que o núcleo de rádio passava em afronta ao reitor, que se fazia de surdo para manter a autoridade; os panfletos clandestinos de impressão mal-amanhada que em gestos secretos, e crendo salvar o mundo, trocávamos febrilmente atrás do pavilhão, e as amizades intensas, os segredos, as gargalhadas e as lágrimas, os primeiros amores e os primeiros beijos. Um mundo inteiro a girar no nosso pequeno mundo, que para nós era único, e para sempre o seria.

João Céu e Silva

As epidemias preguiçosas da modernidade

Num país atrasado como era Portugal no tempo do anterior regime era normal que as novidades fossem um sinal da modernidade a que os portugueses não tinham acesso e, portanto, estivessem muito disponíveis para abraçar. Fazer bandas como as dos Beatles mesmo que os discos deles só chegassem meses depois, por exemplo. Após a Revolução de Abril, ao olharem para as fotografias dos revolucionários, todos os homens deixaram crescer os cabelos e as barbas desordenadamente como as de Che Guevara e Fidel, por exemplo. Quando chegaram os CD, 99% abandonarem o vinil em pouco tempo, depois o MP3 e os downloads, por exemplo...

1864

A importância da rolha de cortiça para o vinho

Só a cortiça consegue vedar uma garrafa de vinho evitando o derrame mas ao mesmo tempo permitindo trocas de ar com o exterior. É a um tempo paradoxal e único este comportamento, com a vantagem de acompanhar o tempo. O vinho e a rolha de cortiça são mesmo parceiros para a vida. Ensaio de Fernando Melo*. A busca do vedante perfeito tem forçado o mundo do vinho a um jogo de cintura grande, sem conseguir destronar a solução clássica da rolha de cortiça. Broqueada a partir de tiras cortadas do exotronco dos sobreiros quando chega o momento ideal para a [...]

Filipe Gil

Música como nos filmes

Tenho uma relação estranha com a música clássica. De tempos a tempos tenho urgência em ouvir. Seja a conduzir, a escrever ou a ler ou até mesmo nas raras vezes em que cozinho. Serve como uma espécie de "limpador" da música mais plástica que passamos o tempo o ouvir, quer na rádio ou nas listas que o algoritmo do Spotify nos impinge - como se fosse um amigo de longa data. Curiosamente, fui autodidata no que toca a colocar Mozart, Bach, e outros, nos meus ouvidos. Em pequeno, eram os Abba e músicas pop francesas que se ouvia com frequência no gira-discos lá de casa. Clássica nunca.

João Céu e Silva

Grande mesmo era Raul Cortez a fazer de Salieri

Protagonizar os grandes compositores no cinema é uma tarefa tão difícil como a de os próprios comporem grandes sinfonias, nada que tenha proibido vários cineastas de o tentarem. Talvez Mozart seja o mais fácil de replicar, usando os seus traços de genialidade desde criança como fez Milos Forman no premiadíssimo Amadeus. Após 13 nomeações, coisa não tão vulgar assim, levou oito Óscares para várias categorias, e deixou para sempre a imagem na mente dos espectadores do mundo (sur)real de Mozart, fixando a sua vida por várias gerações. No entanto, quando tento recordar o nome do ator que fazia de Mozart, nem uma vaga memória. Após uma busca descobre-se que foi Tom Hulce...

Opinião

Aquelas quatro notas

Pan pan pan paaam... Pan pan pan paam... Quatro notas límpidas - e todo um universo naquela ideia simples. Como uma pergunta lançada no ar, que se vai repetindo nos vários instrumentos de infinitas maneiras, aquele pan pan pan paam sucede-se numa escalada cada vez mais tensa, atravessa a orquestra, reinventa-se em timbres e alturas e, já à beira de não poder prosseguir, atinge um ponto de luz, e espraia-se no horizonte - para logo recomeçar. São talvez as mais famosas quatro notas do nosso imaginário musical, que as tornou suas de muitas maneiras: nas canções pop rock, no cinema, nos desenhos animados, no humor, e até na resistência à tirania. E se um cão chamado Beethoven nos faz sorrir, um cartoon nos arranca uma gargalhada e uma boa rockalhada à base das famosas quatro notas nos enche de pica (talvez não funcione para todos), a sua utilização na luta contra a guerra e a opressão não podia ser mais apropriada ao seu criador - Beethoven, claro.