1864

1864

"Não estou a fazer nada"

As oito letras da palavra "governar" correspondem, segundo o dicionário, a "exercer o governo de, administrar, gerir, dominar ou imperar", entre outras possibilidades. É verdade que estes significados não são desconhecidos da maioria dos portugueses, no entanto, as recentes eleições explicaram melhor que, ao verem surgir os resultados eleitorais, "exercer o governo" não era a primeira preocupação dos eleitores (e comentadores), preferindo antes conjugar os dois últimos significados: dominar ou imperar. Era só disso que se falava face aos números que o governo precisava para ser o dono do país durante quatro anos enquanto se faziam apostas sobre os partidos que teriam de se deixar "dominar" para que houvesse um futuro a quatro anos.

1864

Blasfemos, graças a deus

Os Monty Python entraram algures nos ecrãs da RTP, talvez ainda a preto e branco - falha-se-me a memória e o Dr. Google não ajuda -, com aquele pé a esmagar um homem num genérico que antecipava já o humor desconcertante de travo surrealista e maluco, verdadeiramente louco, que ainda hoje nos faz rir a bandeiras despregadas. Monty Python's Flying Circus está cheio de episódios desses, como a Inquisição Espanhola, Spam ou as Avozinhas do Inferno, entre dezenas e centenas de outros, que ocupariam páginas e páginas.

Opinião

Quando os autocarros da Carris eram verdes como a política

Olha-se para as paredes deste país e já não se observam murais políticos pintados a propósito das eleições legislativas. E, se noutros tempos até se achava que "sujar" as paredes era um problema, agora que quase ninguém os pinta há quem sinta saudades. Afinal, aquelas jornadas de pintura eram uma aventura para quem participava devido à complexidade de trabalho que envolviam e o resultado, mesmo que não se fosse militante dos partidos que se destacavam nessas artes, profuso em cores amarelas e vermelhas, distraíam os olhos. Até porque no início dessas pinturas pós-25 de Abril era um tempo em que os autocarros de Lisboa ainda eram de um verde escuro - como a política da época - e a cidade mais cinzenta do que branca e só havia um canal generalista e outro para intelectuais. Mesmo os debates não eram em doses maciças, nem se imaginava que um dia se iria falar da importância das redes sociais na manipulação dos indecisos. Estava-se num tempo em que os mais jovens não queriam votar num PAN da época, mesmo que houvesse alguns a fazê-lo no PSR ou na UDP, e eram arrebanhados pelos partidos do arco da governação em campanhas eleitorais de portugueses que sentiam necessidade de votar ao fim de tanto tempo sem o fazer. Para o eleitor mais distraído a atual campanha ainda mal começou e se não tiver cuidado até se esquece que é já no dia 6 que vai a votos. Tanto assim que a exceção ao tempo de antena de cores partidárias enfadonho passa principalmente pelo programa de Ricardo Araújo Pereira e as suas brincadeiras com os dirigentes políticos que lá vão do que pelas outras iniciativas públicas. O que dizer desta situação? Talvez que, como é a regra principal do humorismo, mais vale a pena fazer rir da realidade do que chorar. O pior é que cada vez mais dá vontade de chorar ao ver os programas do Ricardo, pois o modo como expõe este país - com a realidade - é tão deprimente que só quem está de mal com Portugal é que ainda se pode divertir.

Tiago Guilherme

Ser turista na tua cidade

Ter vários amigos do resto da Europa faz que muitos deles me contactem quando decidem visitar Lisboa. E, com prazer, disponibilizo-me para fazer de guia turístico na minha própria cidade. É sempre interessante observar Lisboa com os olhos de pessoas que nunca a conheceram, perceber a que pormenores dão atenção, quais as suas primeiras impressões, o que mais as surpreende - seja pela positiva seja pela negativa.