1864

Filipe Gil

Música como nos filmes

Tenho uma relação estranha com a música clássica. De tempos a tempos tenho urgência em ouvir. Seja a conduzir, a escrever ou a ler ou até mesmo nas raras vezes em que cozinho. Serve como uma espécie de "limpador" da música mais plástica que passamos o tempo o ouvir, quer na rádio ou nas listas que o algoritmo do Spotify nos impinge - como se fosse um amigo de longa data. Curiosamente, fui autodidata no que toca a colocar Mozart, Bach, e outros, nos meus ouvidos. Em pequeno, eram os Abba e músicas pop francesas que se ouvia com frequência no gira-discos lá de casa. Clássica nunca.

João Céu e Silva

Grande mesmo era Raul Cortez a fazer de Salieri

Protagonizar os grandes compositores no cinema é uma tarefa tão difícil como a de os próprios comporem grandes sinfonias, nada que tenha proibido vários cineastas de o tentarem. Talvez Mozart seja o mais fácil de replicar, usando os seus traços de genialidade desde criança como fez Milos Forman no premiadíssimo Amadeus. Após 13 nomeações, coisa não tão vulgar assim, levou oito Óscares para várias categorias, e deixou para sempre a imagem na mente dos espectadores do mundo (sur)real de Mozart, fixando a sua vida por várias gerações. No entanto, quando tento recordar o nome do ator que fazia de Mozart, nem uma vaga memória. Após uma busca descobre-se que foi Tom Hulce...

Opinião

Aquelas quatro notas

Pan pan pan paaam... Pan pan pan paam... Quatro notas límpidas - e todo um universo naquela ideia simples. Como uma pergunta lançada no ar, que se vai repetindo nos vários instrumentos de infinitas maneiras, aquele pan pan pan paam sucede-se numa escalada cada vez mais tensa, atravessa a orquestra, reinventa-se em timbres e alturas e, já à beira de não poder prosseguir, atinge um ponto de luz, e espraia-se no horizonte - para logo recomeçar. São talvez as mais famosas quatro notas do nosso imaginário musical, que as tornou suas de muitas maneiras: nas canções pop rock, no cinema, nos desenhos animados, no humor, e até na resistência à tirania. E se um cão chamado Beethoven nos faz sorrir, um cartoon nos arranca uma gargalhada e uma boa rockalhada à base das famosas quatro notas nos enche de pica (talvez não funcione para todos), a sua utilização na luta contra a guerra e a opressão não podia ser mais apropriada ao seu criador - Beethoven, claro.

EUA

Quando a América primeiro acabou na Grande Depressão

Foi uma América acabada de sair da I Guerra Mundial a que entrou nos Loucos Anos 20. Década de aventura e extravagância, época de ouro do jazz e da rádio, nestes anos os EUA viram a economia disparar, com a produção de massa. Cresceu tanto que achou que se bastava a si própria. Numa década de presidentes republicanos, limitou a imigração e proibiu o álcool e o jogo. Em resposta, o crime organizado cresceu. E os anos 20 não chegariam ao fim sem a América viver a pior crise financeira de sempre.

Novo ano

Ana Rita, Vítor e Leonor. Histórias de quem vai mudar de vida

Na passagem de ano, Ana Rita Silva, Vítor Santiago e Leonor Sousa Dias tiveram desejos bem concretos além dos fundamentais "saúde", "paz" e "amor". Vítor, 58 anos, certamente pensou na reentrada na sociedade após sete anos desempregado como cuidador da mãe e da irmã. Leonor irá a todo o gás em direção à terceira carreira como treinadora mental. E Ana Rita prepara-se para o ritmo palpitante de uma nova vida na Suécia, com o marido. Texto de António Pedro Pereira A TERCEIRA VIDA DE LEONOR AGORA COMO TREINADORA Jurista, não. Professora, já não. Coaching? Porque não? Leonor, 50 anos, vai [...]

Memória

"O jogo era a alma dos cabarés de Lisboa"

Havia charleston e jazz e champanhe e cocaína, mas as mulheres eram pagas para lá estar e era no jogo que estava a alma do negócio dos cabarés lisboetas dos anos 1920. Até a ditadura militar lhes fechar as portas, a bem da nação e dos bons costumes. A historiadora Cecília Vaz conta como foi. Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Leonardo Negrão/Global Imagens O Le Chat Noir, em Paris, tido como o primeiro cabaré moderno, esteve em atividade na década de 1880. A Lisboa, os cabarés chegaram mais tarde, tiveram o seu auge nos anos 1920 e não [...]

Nuno Mota Gomes

Angelpe e Dmitri. Do Príncipe para Portugal em busca de um sonho

Nasceram numa ilha tropical quase perdida no Atlântico, onde o verde abunda, as praias têm palmeiras a rasgar a areia, a água é quente e come-se ao almoço o peixe que se pescou de manhã. Foi na ilha do Príncipe que conheci o Angelpe e o Dmitri, quando lá aterrei pela primeira vez para uma experiência de voluntariado com a associação Sonha, Faz e Acontece. Eles eram dois dos coordenadores locais que nos ajudaram a implementar atividades com foco na saúde e na educação: sabíamos que não iríamos mudar o mundo, mas íamos ajudar nem que fosse um bocadinho.

Opinião

Compras de Natal 

O bulício habitual já de si é pesado. Trânsito compacto logo cedo pela manhã, o para-arranca do escoar-se a cidade ao fim do dia, os comboios e o metro cheios de gente, os solavancos lentos dos autocarros - um movimento intenso, permanente, que atordoa. Mas à aproximação do Natal - e antes disso os saldos e as promoções, mais a Black Friday que se eterniza num fim de semana - parece que tudo ganha ainda mais velocidade, numa vertigem de compras que chega sem aviso e se instala, senhora dos nossos dias.