1864

Nuno Artur Silva

Última crónica antes das férias

Eis-nos por fim em AGOSTO. O mês da agenda em branco. O mês do luxo maior que é decidir não fazer nada, nem sequer decidir. Todos os anos chego a AGOSTO como a uma praia donde só regresso em setembro. O ócio de agosto tem sido sempre para mim o tempo mais produtivo do ano. Todos os planos adiados, todos os trabalhos desmobilizados por uma onda de preguiça, todas as decisões procrastinadas: é por não fazer nada em agosto que este é o mês mais fértil. "O ócio é o trabalho do poeta", dizia Sophia, em AGOSTO somos todos poetas em trabalho (no resto do ano seremos poetas em férias). Na sua crónica do fim de semana passado, no Expresso, José Tolentino Mendonça, aka arcebispo arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano, escrevia também sobre férias e lembrava um belo verso de Ruy Belo: "Somos crianças feitas para grandes férias."Orla Marítima é o título do poema, está lá AGOSTO inteiro e sobra muito, acaba com o verso "Sabemos agora em que medida merecemos a vida", superlativo absoluto sintético do poeta Ruy, belíssimo. São dele também dois versos dos mais tristes que conheço em língua portuguesa: "É triste no outono concluir/ que era o verão a única estação". Estes versos têm assombrado a minha vida e a cada novo verão me desafiam a celebrar deles o reverso. Não há dia mais feliz no ano do que o dia em que chegamos à casa de férias e abrimos as portas e as janelas, estendemos as toalhas, prendemos a cama de rede às árvores, tiramos dos armários os jarros para a água fresca e as fruteiras para todas as frutas da estação: os pêssegos, as ameixas, os alperces, os figos, as amoras... Tiramos da mochila os livros que hão de ser deixados a meio, sempre muito mais do que os que hei de ler a remoer "como é que nunca tinha lido isto?", por sua vez muito mais do que aqueles que acabo por reler todos anos, da preferida prateleira, nem que seja só uma página, já amarelecida, os imprescindíveis. Há um filme que gostamos de rever todos os anos, faz parte do ritual das férias, os miúdos já acedem com benevolência: As Férias do Sr. Hulot, de Jacques Tati. Coreografia amável das férias de uma burguesia emergente na França dos anos cinquenta, desarrumadas pelo adorável, distraído e desastrado senhor Hulot. Cronicamente o revemos, antecipando o riso nas cenas que já sabemos de cor como passagens de um evangelho tresmalhado a que sempre regressamos com alegria. As sessões de cinema nas tardes de calor são um hábito familiar. Depois do almoço, quando está demasiado calor para fazer o que quer que seja, até dormir a sesta, fecham-se as portadas, liga-se a ventoinha e é tempo de um grande clássico do cinema. Lawrence da Arábia, Rio Bravo, Vertigo... Uma delas foi inesquecível, ficou para a nossa história familiar. Foi no ano em que me casei, a família estava toda de férias, era 15 de agosto, feriado, fazia um calor insuportável e decidimos ver o tradicional filme. Eu estava entusiasmado porque tinha descoberto um épico de que nunca tinha ouvido falar, com excelentes atores: Malcom McDowell, Peter O´Toole, Helen Mirren... John Gielgud. Guião de Gore Vidal. O realizador não conhecia. O filme era Calígula, uma produção de 1979. Prometia. Sentámo-nos a ver. O filme começa com uma cena de sexo explícito. A que se segue outra e mais outra. A família manteve a compostura em silêncio, aguardando o desenlace. Não havia desenlace, não no sentido habitual. Aquilo continuava sem que a ação progredisse, no sentido em que a ação progride nos filmes de ação. Aquilo não era um desses filmes de ação. A minha mãe, habituada a ver muito cinema nos seus 80 anos de vida, rompeu o silêncio: "Isto não passa disto?" Eu ainda balbuciei: "É o Calígula, ele era... há o resto da história, isto deve ser só o princípio... É com o John Gielgud, o Sir..." Aquilo estava cada vez pior. Sir John Gielgud tinha acabado de cortar os pulsos ou, pelo menos, a sua personagem, Nerva. Nesse momento entra na sala a minha mulher dinamarquesa, recém-chegada à família, que acaba por fazer a pergunta: "Are you watching porn?" Era de facto a pergunta que todos tínhamos na cabeça. Respondi que era uma tradição familiar latina, no feriado de Assunção de Nossa Senhora, as famílias reunirem-se em casa depois da refeição principal e sentarem-se a ver um filme pornográfico. Passado o choque cultural, vi o filme depois, sozinho, em fastforward, já que eram quase três horas, para ver se melhorava. Não melhorava. O melhor de tudo é o making of que vem no DVD. Nele se percebe tudo. O produtor era o dono da revista Penthouse e o realizador, Tinto Brass, era um realizador de filmes porno. O Gore Vidal aparece a dar a caução cultural. Mas acabou por se incompatibilizar com o realizador. Posições irreconciliáveis. Precioso. Ao nível de Ed Wood e do Plano 9 do Espaço Sideral, mas noutro género. Nas férias de família, a partir desse dia, só clássicos. Dos que já vimos várias vezes. A indústria pornográfica continua próspera e alastrou hoje para fora do cinema. A realidade está cada vez mais obscena. Os novos imperadores do mundo protagonizam terríveis produções multimédia multirredes, nas quais somos involuntários e voluntários figurantes. Gostava de os esquecer por umas semanas em AGOSTO, mas não sei se será possível. Não podemos ignorar. Ouço o Chico Buarque a cantar Vai Passar, mas não sei desta vez como vai passar. Escrevemos posts em vez de postais. Logo vêm mijar no post os fanáticos, cada vez mais, a delimitar novo território ocupado. A coisa no Brasil está preta, meus caros amigos. Um pouco por todo o lado. Aqui na terra estão discutindo futebol. E golas. Bola e gola. Menos mal. Enquanto isso, a liberdade no mundo está dia a dia mais ameaçada. Bolsonaros bolçam barbaridades. O mundo está uma orgia de Calígulas. O John Gielgud bem pode cortar os pulsos outra vez. É aqui que eu acabo a crónica e vou. Boas férias para todos.