Voluntariado supera entidades públicas no apoio

Tal como aconteceu depois dos incêndios de Pedrógão Grande, também em Vieira de Leiria é o voluntariado que vai à frente no apoio no terreno a quem precisa

Vera Braga estava em Pedrógão Grande no dia 15 de outubro. Ela e parte do grupo de voluntários que "lidera" e se juntou em junho, depois do incêndio no interior do país, terminavam de montar uma cozinha a uma família que vira parte da habitação destruída, quando da terra natal lhe chegaram más notícias: o Pinhal de Leiria estava a arder, o fogo andava próximo das casas em Vieira de Leiria. Meteu-se no carro enquanto vivia, por dentro, o drama que imagina terem sentido as famílias que acabaram por morrer na estrada 236, a fugir do fogo.

Natural de Vieira, Vera Braga foi nisso que pensou enquanto transportava os pais e os sobrinhos para a Base Aérea de Monte Real, colocando-os a salvo no pior dia do ano, em matéria de incêndios. Quatro meses antes, jantava com uns amigos em casa, naquele sábado, 17 de junho, quando perceberam todos a dimensão da tragédia que se anunciava. Mal o dia nascia e já se organizava um dos maiores grupos de voluntariado do país, cujo único contacto público é um grupo no facebook.

"Somos entre 70 e 90 pessoas, de todo o país, temos gente de todas as profissões, e isso tem permitido prestarmos o mais diverso tipo de apoio", contou esta semana ao DN. Há psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, médicos de clínica geral, motoristas, operários fabris, enfim, "todas as profissões". É este o grupo responsável pela ideia lançada na rede de "adotar uma aldeia", e que tem gerido o apoio que entretanto começou a chegar a quem perdeu bens e casas no litoral do distrito de Leiria.

"Atualmente estamos a ajudar 34 famílias, todas as semanas, com um cabaz de alimentos", prossegue Vera, ela que todos os dias atravessa o Pinhal do Rei para ir trabalhar, no caminho entre Vieira de Leiria e Marinha Grande. A experiência acumulada depois de Pedrógão Grande permitiu-lhe (a ela e ao grupo) agilizar respostas muito rapidamente.

O grupo instalou-se num armazém, em Vieira, onde a solidariedade fez chegar roupa, comida, produtos de higiene e limpeza, um pouco de tudo. Vera garante que tanto a Câmara da Marinha Grande como os Bombeiros Voluntários têm sido um bom suporte para o grupo. De tal forma que foi com apoio da autarquia que o grupo se mudou entretanto para novo armazém, uma vez que outro acabou por ser arrendado, ao fim de anos desocupado.

Petição com 6000 assinaturas

A mesma sorte parece não ter a comissão popular que se constituiu nos dias seguintes ao incêndio que consumiu 84% (9 dos 11 hectares) do Pinhal de Leiria, e que demorou um mês até ser "reconhecida" pela Câmara da Marinha. O grupo de cidadãos intitula-se O Pinhal É Nosso e lançou uma petição que pretende fazer chegar à Assembleia da República um conjunto de reivindicações.

Até ao fim de novembro o documento já tinha sido subscrito por "mais de seis mil pessoas", disse ao DN Maria Loureiro, membro da comissão popular. Na prática, o grupo quer que "todo o valor obtido com as vendas da madeira ardida do Pinhal do Rei (e mesmo que tais vendas resultem de adjudicações anteriores aos incêndios) seja, de imediato, alocado exclusivamente para fins de reparação, apoio aos lesados e recuperação do Pinhal de Leiria".

A petição sublinha que "a futura gestão pública do nosso Pinhal deve integrar, com efeitos imediatos, a articulação do ICNF com as entidades relevantes do território envolvido" e exige que sejam tomadas medidas concretas direcionadas ao Pinhal do Rei, onde se inclui "o reforço generalizado de meios humanos, quer na limpeza das matas, quer na vigilân-cia e prevenção de situações de emergência; o reforço generalizado de infraestruturas de apoio - veículos, equipamentos de comunicação, postos de vigilância operacionais, contribuindo para o efeito a recuperação das casas da guarda florestal, conhecidas como "Casas da Mata".

Isso mesmo foi transmitido ao secretário de estado das Florestas e Desenvolvimento Rural, há 15 dias, numa reunião de trabalho na Câmara da Marinha Grande. "Nesse dia ele deu instruções para que os técnicos do ICNF e da autarquia trabalhassem connosco, com os nossos técnicos, mas até agora nada", afirmou ao DN Maria Loureiro.

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