Uma maternidade com 83 anos que pede para renascer

A incerteza dos últimos anos impediu o investimento necessário para que possa ser, além de referência na gravidez de risco e em técnicas inovadoras, atrativa para partos normais. Visita a um projeto de excelência em plena encruzilhada: ficar e investir, ou aguentar até partir?

Paula Serafim é uma raridade aqui. Com 40 anos, teve Simão, que dorme no seu berço de acrílico, há dois dias, num parto sem complicações no final de uma gravidez sem problemas. Ao contrário da maioria das mulheres aqui seguidas, que correspondem a gravidezes de risco (60% estão nessa categoria), Paula escolheu a Maternidade Alfredo da Costa porque gostou da experiência há oito anos, quando teve aqui o primeiro filho. "Acho cinco estrelas, já da outra vez achei. Da senhora da limpeza à médica, é tudo perfeito." Diferenças não notou muitas entre as duas estadas. "Nas instalações não notei nada, mas acho que está tudo mais tranquilo. A nível da organização está diferente. Creio que limitaram o número de visitantes, que antes era maior, agora só deixam entrar duas pessoas por internada, e talvez também por haver menos partos haja menos confusão."

De facto, desde que em 2007 Paula teve a sua primeira experiência de MAC, o número de crianças desceu de 5744 para 3159 (total de 2015). E é certo que nas enfermarias das puérperas, 30 camas ao todo divididas em salas com sete ou oito, onde Paula está, não se ouve, apesar da quantidade de bebés, muito barulho. Mesmo se muitos dos partos correspondem a gémeos (um dos critérios de definição de gravidez de risco). É o caso de Benedita e Miriam, nascidas a 7 de março e a dormir encostadinhas, que a mãe, Lucélia, 34 anos, contempla como quem se rende a um milagre. "Primeiro pusemo-las separadas mas choravam um bocado, parece que gostam de dormir assim encaixadas uma na outra." Ri: "Já tenho um filho de 3 anos, agora passei a família numerosa."

Natural de Torres Vedras, Lucélia Rafael Ferreira foi encaminhada para seguimento na Maternidade Alfredo da Costa mal se percebeu que ia ter gémeos. "Gostei de ser seguida aqui porque sentimos segurança, por ser um hospital especializado nesta área. Deve ser dos poucos sítios onde há uma consulta especializada em gémeos."

Tendo feito o primeiro parto no privado, Lucélia compara: "Foi mais confortável, claro, tinha um quarto só para mim. Mas também isolamo-nos um pouco. Aqui temos a companhia, partilhamos experiências, e podemos tomar conta dos bebés umas das outras. Claro que há coisas desagradáveis: as instalações são antiquadas, tomamos banho em balneários, que são pequenos e implicam esperar por vez, e têm chuveiros com um degrau à entrada que custa muito quando se acabou de ter um bebé, seja por parto normal ou cesariana [caso de Lucélia, que já fizera uma cesariana na primeira gravidez]. E dorme-se pior, claro, porque quando um bebé chora começam todos a chorar." Outra contrariedade, aponta, é o facto de não haver condições para os pais ficarem o dia todo se quiserem. "Só podem entrar às 14.00 e têm de sair às 20.20, com uma interrupção das 19.30 às 20.00, que corresponde ao nosso jantar. Não os deixam cá estar enquanto jantamos." E, não tendo reclamações em relação ao atendimento, observa no entanto que "o pessoal parece assoberbado".

Fuga de médicos

Com uma área de referenciação que em teoria inclui a zona que vai de Sacavém à Baixa de Lisboa, a MAC, atualmente contando com 53 médicos especialistas mais 23 internos, recebe casos de todo o país, sobretudo do Sul e ilhas, mas também do Norte. Até porque em algumas áreas, como a da procriação medicamente assistida, na qual tem, de acordo com a subdiretora clínica, a obstetra Ana Campos, uma taxa de sucesso recorde "à volta dos 40%", oferece serviços únicos no país - caso da lavagem de esperma de homens seropositivos para o VIH e hepatite B e C, que lhes permite serem pais sem risco de infeção para as mulheres e para as crianças.

Com uma tradição de vanguardismo nas técnicas e na criação de consultas específicas que vão muito para além dos partos e das consultas de gravidez, a maternidade sofre, no entanto, admite o diretor do serviço de obstetrícia e ginecologia, Ricardo Mira, de "um mal que aflige todo o Serviço Nacional de Saúde": a fuga de especialistas para o privado, onde lhes oferecem salários muito mais elevados, que resulta num envelhecimento súbito dos quadros. "79,3% dos nossos médicos têm mais de 50 anos, e destes 31% estão acima dos 55. E entre 51 e 55 temos 28,3%.Entre os 40 e os 50 desapareceram quase todos. O grupo etário que assegura a continuidade não existe nos hospitais públicos. Assim vai ser, daqui a uns tempos, muito difícil manter a qualidade e a excelência."

Ainda assim, a lista de espera, assegura Mira, é quase zero: "Estamos com algumas dificuldades no serviço de patologia mamária, e apenas no follow up [consultas de seguimento]; nas primeiras consultas não há lista de espera."

Com esperança de que as afirmações da tutela (ver texto ao lado) e o pedido da direção do Centro Hospitalar de Lisboa Central em que a Maternidade Alfredo da Costa se insere desde 2012 - e que inclui o Hospital de São José, o D. Estefânia, o de Santa Marta, o dos Capuchos e o Curry Cabral - para apresentação de um plano de melhoria e desenvolvimento venham a ter consequências práticas, Ana Campos e Ricardo Mira falam do sonho da MAC de criar o primeiro centro de cirurgia fetal do país. "Fomos pioneiros na realização de uma técnica de tratamento a laser dos gémeos monoamnióticos. Temos aqui um colega que está a treinar-se nessa área e já fez cirurgias, a maioria no Reino Unido, sob a orientação do especialista do Kings College, onde ele estudou, mas algumas cá, com um equipamento que está no Hospital das Forças Armadas e não estava a ser usado. Deixaram-nos utilizá-lo umas quantas vezes."

A ideia, adianta Mira, seria alugar o dito equipamento, partilhá-lo, ou mesmo comprá-lo, de modo a que fosse possível tratar no país os casos que neste momento são enviados para o estrangeiro, "com altíssimos custos", o que equipararia a MAC aos melhores centros internacionais. Outras ideias passam pelo muito necessário "rejuvenescimento da ala que alberga a medicina materno-fetal e o puerpério, ou pós--parto, que é o principal motivo pelo qual a maternidade existe". Indo ao encontro das observações de Lucélia, Ricardo Mira reconhece que as condições atuais não propiciam o conforto e apresentam mesmo alguns riscos: "Não há condições para a entrada dos carros de reanimação, por exemplo."

Ana Campos suspira. "Estamos a tornar-nos uma unidade com uma superdiferenciação, com uma acelerada redução da normalidade a que não será alheia a logística da hotelaria. Não podemos ter só doentes de alto risco, precisamos de aumentar a utilização nuns 20%, mas não o podemos fazer sem termos instalações que nos permitam competir com o conforto das unidades privadas."

Desmedicalizar o parto

As últimas obras de vulto, levadas a cabo em 2005, incluíram as urgências, o ambulatório, a unidade de cuidados intensivos neonatal e a procriação medicamente assistida (PMA). Incluíram também a zona dos partos, no rés-do-chão, onde pontifica a obstetra Clara Soares, que, há 33 anos na Maternidade Alfredo da Costa, teve aqui a filha numa noite em que trabalhou até ao parto. "Fiz cá o internato da especialidade em 1982 e fiquei", diz, numa voz calma, baixa, que parece adequada a baixar tensões e aplacar aflições. Confessa que na altura em que se falava do fecho recebeu convites mas não abandonou o barco. "Não acreditei que fosse possível isto acabar." Instaladas no piso de baixo da MAC, as 11 salas de trabalho de parto, de tamanho razoável - até 2005 havia aquilo a que se dava o nome de boxes, pequenas divisões que faziam as mulheres sentirem-se numa espécie de linha de montagem -, estão quase todas vazias à uma da tarde. Só há uma parturiente, em casal, numa delas, e nem um ai. Clara Soares sorri: "Com a epidural deixaram de se ouvir gritos." Numa secretária central, no corredor entre as salas de portas de vidro fumado, um ecrã permite seguir o ritmo das contrações e o batimento cardíaco dos bebés. Tecnologia de ponta mas, adverte a obstetra, também a noção de que o parto deve ser o menos medicalizado possível. Há até a vontade de comprar um banco de partos, que permite às mulheres terem os filhos numa posição sentada, em que controlam a força que fazem - e que vai ao encontro das formas "naturais" de dar à luz. "Tentamos que andem em vez de estarem deitadas, porque facilita a descida do bebé, que vão fazer duche quente para aliviar as dores das contrações, que os pais as massagem, que usem bolas de Pilates... E encorajamo-las a fazer um plano de parto, por escrito, para sabermos como querem que decorra."

Empoderar as mulheres no momento do parto, fazer-lhes sentir que são elas que controlam, de acordo com as correntes mais modernas da obstetrícia - e com noções básicas de direitos humanos. Intenções e práticas, frisa, que o facto de a maioria das grávidas corresponderem a "situações complexas" acabam por ser menos comuns do que desejaria. "Uma grávida em trabalho de parto com múltiplas patologias exige muito mais. Mas queremos que se sintam menos no hospital, mais à vontade." E de facto há um ambiente distendido, de tranquilidade, confortável, assinalável em detalhes nada irrelevantes como a existência de luzes baixas, alternativas às lâmpadas fluorescentes de teto, embora, entrando nas salas, se observe que por exemplo as cadeiras para o acompanhante são tudo menos acolhedoras (só numa se vê uma poltrona). É uma das falhas, reconhece a médica. "Já assinalámos a necessidade de ter poltronas em todas."

Sozinha numa das salas de parto, apesar de não ter ainda, em princípio, chegado o momento, Tânia Pires, 29 anos, não reparou na falta de poltronas. Com 26 semanas, foi para o hospital da sua área, Amadora-Sintra, com uma hemorragia. Considera ter sido muito mal atendida, de tal modo que a sua médica, à segunda vez que deu entrada naquela unidade de saúde e a mandaram para casa, a direcionou para a Maternidade Alfredo da Costa. "Aqui não tem nada que ver", comenta Tânia. "São seres humanos. Estou a ser bem tratada, a ser seguida, sinto-me calma. Disseram que ia cá ficar até estar tudo bem."

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