Uma "direta" que valeu um lugar na história

Uma brincadeira com amigos acabou com Carlos Braz a ser entrevistado e a cumprimentar o cardeal Cerejeira

Carlos Braz já perdeu a conta às vezes que teve de contar como é que conseguiu, ao volante de um Austin Seven (Morris Mini), ser o primeiro popular a atravessar a ponte sobre o Tejo, na tarde de dia 6 de agosto de 1966. "Sem dúvida já falei sobre isto mais de 100 vezes, mas para mim será sempre o recordar de um dia fantástico, em que fui o primeiro a passar a ponte Salazar! Valeu a pena e deixei o meu marco na história", diz ao DN.

Motorista de profissão numa empresa têxtil, atividade a que se dedicou "toda a vida", foi sem dúvida a pessoa certa para inaugurar o tabuleiro rodoviário da ponte: "Sempre gostei de conduzir e de conhecer sítios novos e costumes novos. Sempre fui aventureiro." Mas toda a experiência aconteceu "por mero acaso".

Na verdade, explica, só na véspera da inauguração decidiu arriscar fazer a travessia. "Estava de férias com a família em Lisboa. A minha cunhada tinha o restaurante Tuabar, na Rua do Arsenal. Quando estava com os meus amigos, na brincadeira, falámos em ir ver a inauguração, mal sabia que iríamos ser os primeiros. Nem fui muito cedo, mas fomos de direta para lá".

No dia seguinte, cerca de duas horas após a passagem das entidades oficiais, quando a ponte foi aberta ao público às 15.00, Carlos Braz estava no sítio certo para entrar na história. "Um Austin-Seven verde, com a matrícula DC-72-48, foi o primeiro automóvel a entrar no tabuleiro da ponte na sua saída de Lisboa para a Outra Banda",contou o DN na edição de sete de agosto. "Todos os automobilistas, desconhecendo a prioridade, tentaram a todo o custo, num atropelo de direitos que chegou a traduzir-se em barafunda, ultrapassar todos os veículos que circulassem à sua frente". Carlos Braz foi recebido com entusiasmo por jornalistas e populares. Até o cardeal Cerejeira fez questão de o cumprimentar. Mas já não voltou a Lisboa pela ponte, preferindo apanhar um ferry boat após um almoço de sardinhas com a família.

Do Austin Seven - que hoje seria seguramente um forte candidato a um lugar de destaque num museu de automóveis antigos -, já nada resta a não ser algumas fotografias tiradas na época, onde aparece a posar ao lado da filha. Confessa nem se lembrar de quando se desfez do carro. "Sempre troquei muito de carro, gostava de experimentar carros novos", explica. Mas ficaram as histórias, que continuará a contar a quem lhe pedir.

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