Um quiosque que é uma porta aberta para a saúde ou dois dedos de conversa

Plantado na esquina da Estrada da Luz e da Rua dos Soeiros, em Lisboa, o Quiosque da Saúde é uma primeira porta de acesso a cuidados primários de saúde. Mas acaba por ser mais do que isso. Há quem passe só para conversar

Conversa puxa conversa e a ideia de um quiosque assim foi nascendo: e se em vez de jornais e revistas, as pessoas passassem por ali para dois dedos de conversa e rastreios de saúde. Pintado de amarelo, letras a preto, a ideia ficou inscrita no quiosque à vista de quem passa na esquina da Estrada da Luz com a Rua dos Soeiros, em Lisboa - "e se a saúde fosse tão fácil como ir ao quiosque?". A pergunta feita em conversas soltas por membros da Associação Conversa Amiga (ACA), a partir da sua experiência no terreno, acabou traduzida em quiosques que hoje estão instalados em três freguesias de Lisboa: Alvalade, Alcântara e São Domingos de Benfica (e ainda em Pegões, Montijo).

O projeto quer-se transversal, nota ao DN Duarte Paiva, presidente da ACA e autor do "Quiosque da Saúde". "Não distingue classes, é um projeto para toda a comunidade, recebe qualquer pessoa", completa. O presidente da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, António Cardoso, sublinha ao DN também este aspeto, apesar de perceber que são os idosos quem mais acaba por ir ali. Afinal, trata-se da "terceira freguesia mais envelhecida" da cidade.

Joana Guerreiro, técnica de saúde e psicóloga, confirma com a sua experiência quotidiana de atender quem ali passa e se detém à conversa. "Vêm medir a tensão e ficam uma hora à conversa", diz. Há uma senhora de 100 anos que ali passa todos os dias em que está aberto o quiosque, duas vezes, primeiro para cumprimentar, depois para a conversa, conta Joana com um sorriso. Outra senhora vem ali acompanhada dos agentes da PSP que garantem o programa de polícia de proximidade. "Para conversar", diz Joana.

Estar à conversa é uma oportunidade também para educar para a saúde, um dos objetivos repetidos por Duarte Paiva. "Fazer um rastreio "Um dos fortes motivos para sair de casa é a saúde", explica o arquiteto (que fez uso da sua formação para a transformação do quiosque em posto de atendimento). "Esta é também uma forma de combater o isolamento e educar para a saúde", insiste Duarte. "Não é um centro de saúde, é apenas uma forma de facilitar o acesso. Se necessário as pessoas são reencaminhadas" para os serviços indicados. Afinal, o pequeno quiosque "pode ser uma porta para o Serviço Nacional de Saúde", seja com um telefonema ou uma carta para o centro de saúde, a Linha Saúde 24 ou serviços de urgência.

Há quem ali já tenha descoberto que tinha diabetes (até numa fase avançada) ou a tensão alta e não fizesse ideia. "Muitas vezes as pessoas desconheciam o que tinham", relata Joana. Nessas ocasiões, a técnica não se limita aos testes e aos rastreios e explica os cuidados a ter, conversa sobre hábitos alimentares, alerta para sintomas - educar para a saúde.

Por ali passam uma média de 10, 12 pessoas por dia, chegando às 180 por mês. Mas Joana diz que já teve um dia com 22 pessoas num quiosque que foi inaugurado há pouco mais de dois meses, a 16 de setembro.

À porta há um preçário, em que se pede um contributo para os diversos atos que ali se fazem. Mas o dinheiro não é problema, garante o presidente da ACA, revelando que "a média de donativos é de 70 cêntimos". Quase nada mesmo, o preço de uma bica.

Mede-se a tensão, o nível de glicemia e o colesterol, fazem-se tratamento de enfermagem ou testes à urina e de gravidez e também eletrocardiogramas.

Com esta porta aberta "não se chega a todas as pessoas", diz Duarte Paiva, que sonha em alargar a rede de quiosques a todas as freguesias da cidade. O presidente da junta, que diz não ter tido dúvidas em apoiar o projeto desde a primeira hora, quer também ele "dar continuidade" ao quiosque. "Veio facilitar a vida às pessoas" da freguesia, reconhece António Cardoso. Ali ao lado continua a vida da Estrada da Luz, cheia de pressa. No quiosque, não há pressa para dois dedos de conversa.

O DN está a publicar uma série de reportagens dedicadas à sua nova vizinhança, junto às Torres de Lisboa.

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