Um quinto dos europeus cresceu com um alcoólico em casa

Organização europeia quer reduzir os efeitos nocivos do álcool. Maioria dos participantes apoiam medidas como o aumento de preços e redução dos pontos de venda

Um quinto dos europeus viveram durante a infância e adolescência com um consumidor excessivo de álcool e perto de metade dizem ter sido ser afetados negativamente por essa pessoa. Os dados fazem parte de um estudo europeu, apresentado em Lisboa numa conferência organizada pela Ação Comum Europeia para a Redução dos Efeitos Nocivos do Álcool (RARHA), que tem por objetivo criar linhas estratégicas para toda a Europa, como impor os 18 anos como idade mínima para venda e consumo de todas as bebidas alcoólicas, reduzir para níveis mais baixos o consumo recomendado e reforçar a informação sobre os efeitos negativos do álcool.

João Curto, presidente da Associação Portuguesa de Adictologia, explicou os efeitos nocivos que crescer com uma pessoa alcoólica pode ter numa criança ou adolescente. "Cria um sentimento de insegurança nas crianças e adolescentes, uma dose de medo em relação aos adultos. É junto deles que procuram sentimentos de segurança e acabam por não o conseguir. Recebem sentimentos de angustia, irritabilidade, de menor disponibilidade afetiva que levam a uma sensação de abandono e de violência psicológica. Pode comprometer o desenvolvimento afetivo da criança e torna-se um terreno muito frágil", referiu.

Um realidade que pode ser comprometedora no futuro, com a cópia de comportamentos que viram em casa. "Esta instabilidade pode levar para o polo da depressão, tristeza, mas também para a irritabilidade, a agressividade e revolta que o levam a consumir álcool", explicou o psiquiatra, referindo que além do peso dos fatores sociais e ambientais, há também os genéticos que aumentam a vulnerabilidade para o consumo de álcool.

Outros membros da família podem ter um papel importante para quebrar o ciclo, além de outras medidas. "A limitação da idade para venda ajuda bastante, mas é preciso assegurar a fiscalização. Também é importante a referenciação das famílias aos serviços de saúde para evitar danos maiores", frisou.

O estudo da RARHA - decorreu entre 2014 e 2016, e envolveu 32 parceiros associados e 29 parceiros colaboradores de toda a União Europeia, a que se juntaram a Noruega, Suíça e Islândia, entre os quais o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) -, refere ainda que mais de 20% dos homens e mais de 10% das mulheres dos países representados têm um consumo de risco, pelo menos uma vez por mês.

Que podem ser binge drinking (consumo de várias bebidas num curto espaço de tempo) ou várias situações de embriaguez. Falta de coordenação, fala arrastada, acidentes de viação, cirrose, exposição a comportamentos de risco como sexo desprotegido são alguns dos exemplos dos efeitos do consumo excessivo de álcool.

Manuel Cardoso, subdiretor do SICAD, adiantou que estes dados mostram que ainda há muito a fazer. Sobre Portugal referiu "que não nos destacamos de forma negativa" em relação aos restantes países que participaram no estudo. E lembra, citando dados nacionais já apresentados, que Portugal "tem uma percentagem de não consumidores muito elevada" ao mesmo tempo que "apresentamos valores altos de consumos diários".

Medidas para reduzir consumo

O estudo salienta também o facto de 40% a 50% dos participantes apoiarem medidas de controlo de álcool, como os preços altos, menos de pontos de venda, restrições de tempo e proibições de publicidade a bebidas alcoólicas.

Questionado sobre o efeito do aumento de preços, Manuel Cardoso explicou que há dados que indicam "uma subida de preço ligeira leva a uma redução significativa do consumo". O SICAD não fez nenhuma proposta ao governo. O responsável defende a existência "de uma política de preços que funcione em função da saúde" e que seja aplicada a todas as bebidas alcoólicas: "Se só afetasse algumas não seria justo, nem efetiva".

"O álcool continua a ser a terceira causa líder global de doença e morte prematura. Na UE [União Europeia], os custos diretos através de cuidados de saúde, crime, policiamento, acidentes e perdas de produtividade forameuro 155 mil milhões em 2010", alerta a RARHA.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG