Um "oásis de bondade" até em meios de "faz-de-conta"

Paquete de Oliveira morreu ontem aos 79 anos. Fez muitos trajetos diferenciados, da Igreja ao jornalismo, passando pela sociologia

É uma qualidade esquecida ou menorizada nos tempos que correm, mas Vicente Jorge Silva não a ignora na hora do "adeus" ao amigo de longa data: a bondade. "Uma bondade estrutural", como explica o fundador e ex-diretor do Público e que fez de José Manuel Paquete de Oliveira uma figura ímpar nos meios por onde se moveu - e foram tantos.

"A nossa relação era exemplar do ponto de vista da força que pode ter a amizade. Mantivemos isso até ao fim", conta Vicente Jorge Silva ao DN, confessando-se ainda consternado pela notícia da morte do provedor do leitor (desde 2013) do periódico que liderou - e que com ele partilha o local de nascimento, a Madeira.

"Percebemos a importância da bondade quando somos confrontados com um mundo em que a maldade impera", explica, fazendo que as suas palavras pareçam decalcadas das de Felisbela Lopes. Conhecedora dos meandros da academia, a docente e investigadora da Universidade do Minho não hesita em reconhecer o "coração grande" do sociólogo que se aventurou com sucesso pelo estudo da comunicação e que foi seu arguente nas provas de aptidão pedagógica e capacidade científica e ainda no doutoramento.

"Ele ouvia e interessava-se por aquilo que dizíamos. Mesmo os investigadores juniores. Sempre olhei para ele como "o" professor e o Paquete de Oliveira olhava para mim como a colega", diz, mergulhada em alguma nostalgia, adensando depois a tese: "Encontrar o Paquete de Oliveira era uma espécie de oásis num ambiente que é muitas vezes de faz-de-conta."

A generosidade, que se lhe pode reconhecer como valor ingénito, tem para Vicente Jorge Silva uma dimensão "muito cristã". Em sentido amplo e abstrato, também personificada pelo Papa Francisco.

Aliás, o percurso de Paquete de Oliveira é tudo menos linear. Foi sinuoso até. Era o próprio que reconhecia já ter feito "muitos trajetos diferenciados", numa história que se começou a desenhar como padre. Entrou no Jornal da Madeira, próximo da diocese da ilha, como chefe de redação, onde permaneceu até 1966. A afinidade com a comunicação parecia, de resto, escrita nas estrelas.

Quase uma década mais novo do que o amigo, Vicente Jorge Silva recorda os tempos em que Paquete de Oliveira, ainda menor, era crítico de cinema naquele jornal e foi impedido de continuar as suas crónicas "porque alguém se queixou ao bispo" de que "não tinha idade para ver filmes para maiores de 18 anos". Nada que o tenha feito esmorecer. Em 1973, licenciou-se em Ciências Sociais, no ramo de Sociologia, na Pontifícia Universidade Gregoriana, curso que desaparecera do mapa do ensino superior no nosso país.

Regressou a Portugal em 1974, adoentado e, já afastado da Igreja, foi surpreendido pela Revolução dos Cravos - quando se preparava para ir para o Brasil com uma bolsa do Banco Mundial. Passou pelo Diário de Notícias da Madeira e em 1976 rumou ao continente para colaborar com o Expresso, depois com o Diário de Lisboa e ainda com o Jornal de Notícias.

Já depois do doutoramento em Sociologia da Comunicação e da Cultura no Instituto Superior do Trabalho e da Empresa (ISCTE-IUL), ganhou notoriedade junto dos portugueses quando, entre 1992 e 1997, foi comentador do Casos de Polícia, da SIC. Aí, realça Felisbela Lopes, valeu ser uma "âncora de credibilidade", num programa que "podia resvalar com facilidade para um jornalismo mais sensacionalista".

Mais: a investigadora gaba-lhe a predisposição para o risco. "Pôs-se sempre à prova, no terreno. Nunca se esqueceu de fazer a ponte com a prática, a tradução daquilo que se ensina nas universidades", acrescenta. Sem lhe regatear elogios, Mário Mesquita eleva a fasquia e equipara o amigo ao Robert Ezra Park, uma das figuras de proa da Escola de Chicago, que também teve um pé no jornalismo e outro na sociologia. "Teve um papel pioneiro a cruzar as duas áreas", fundamenta o antigo diretor do DN, atualmente professor na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS).

Apesar de largos anos de docência - no Ministério da Educação e em diversas instituições universitárias, a última das quais o ISCTE -, recusou fechar em definitivo o capítulo da comunicação social. E, como cumpria os requisitos do Conselho de Opinião da RTP, foi chamado para um "último exame oral", como admitiria mais tarde ao DN: chegou a provedor do telespectador do canal público.

Inquebrantável e quando o corpo pedia que pudesse acordar diariamente sem ter agenda predefinida, a partir de dezembro de 2013, Paquete de Oliveira ainda abraçou um derradeiro desafio: o de provedor do leitor do Público.

Estava no segundo mandato no cargo, apesar do cancro que já o ia debilitando. Reconhecendo que a doença já se notava na escrita, Vicente Jorge Silva enaltece a postura "bastante estoica e combativa" do amigo, que Felisbela Lopes confirma "nunca se ter fechado em torres de marfim".

Aos seus entes queridos, como a mulher Céu Neves, grande repórter do DN, e os dois filhos, André e Ricardo, ambos formados em Medicina, Paquete de Oliveira deixa aos 79 anos um legado de uma vida cheia e a tal bondade. Mesmo mergulhado na luta contra a maior das adversidades: a morte.

Lúcido e assertivo, disse amiúde ter horror a biografias. Contudo, se deixasse, como admitiu, uma nota curricular, o título seria lapidar: "Fisicamente, morre-se uma única vez; socialmente, podemos morrer e nascer várias vezes."

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