Um "festival para todos" onde a inclusão vai à boleia da música

Pedro Pereira e Ana Marques são a prova do sucesso de um festival com forte marca social, cuja 6ª edição arrancou ontem

Chama-se skoog e tem a forma de um cubo com cinco cores diferentes, que se liga a um computador. Mas não estamos a falar de um brinquedo, mas sim de um instrumento musical criado em 2008 e que Pedro Pereira fará "brilhar" amanhã quando o Ensemble Juvenil de Setúbal, formado por jovens músicos oriundos da cidade e região de Setúbal, subir ao palco do Fórum Luísa Todi para interpretar Amor como Sal, pelas 17.30. "Vou estar nervoso, sou um bocado nervoso. Mas respiro fundo três vezes e fico mais relaxado. É que nada pode falhar, sabe?", justifica o jovem músico de 23 anos, autista com síndrome de Asperger, um dos casos de sucesso de inclusão à boleia da música. Essa é, aliás, uma das bandeiras do Festival de Música de Setúbal, que ontem começou e onde todos têm lugar.

A partilhar o palco com Pedro vai estar Ana Marques, já na rota profissional do clarinete. "Ali somos todos iguais. É a música que nos guia", explica. Os espetáculos começaram ontem para quatro dias "únicos no mundo", como garante Fernando Molina. Até domingo a cidade estará "inundada" de música com o "sal" como tema, unindo cerca de 1500 jovens de escolas locais, dos colégios aos bairros problemáticos, concertos clássicos com orquestras consagradas, exposições, workshops, instalações sonoras interativas e ainda apresentação de novos instrumentos musicais.

"Tem de ser tudo muito bem ensaiado e logo com o computador devidamente instalado, porque a responsabilidade é grande e os imprevistos acontecem", assume Pedro Pereira, que começou pela percussão e já estuda piano. O jovem admite, ainda assim, que a pressão não lhe retira o sono, até porque a conjugação entre a experiência e a técnica ajudam este músico com assumidas "necessidades especiais", mas que traduz uma das histórias de sucesso do festival sadino. "O festival mudou a minha vida. Poder estar aqui a transmitir estados de alma a quem nos escuta é fantástico", justifica, orgulhando--se de há uns anos ter aceitado "com toda a garra", diz, o convite da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental para integrar o projeto.

Sobre a orquestra que integra elogia sem hesitar o único patamar em que estão todos os músicos: "Somos uma orquestra prestigiada que nos torna todos iguais. O mais importante é mostrar que a música é para todos, independentemente de diferenças, seja cego, surdo ou mudo, ou da etnia", reforça, corroborado por Ana Marques, que aos 20 anos também integra o Ensemble Juvenil, encontrando-se já a frequentar a Escola Superior de Música.

Toca clarinete há seis anos - o mesmo instrumento que a mãe tocava na banda filarmónica -, tendo abraçado este projeto inclusivo desde a primeira edição. Hoje, já na rota do profissionalismo, testemunha que o festival sadino é de tal forma sui generis que chega a ficar com as emoções à flor da pele. "Tenho imagens dos concertos e ensaios que arrepiam. Acabamos de tocar e vemos sorrisos nas caras das pessoas, no público e no palco", descreve, explicando que por aqui "não há distância entre músicos e público. Nos outros concertos vamos de preto e direitinhos, tocamos, as pessoas batem palmas, levantamo-nos e saímos. Aqui sentimos a presença das pessoas, que riem e choram. No fim ainda há convívio, porque ficam à nossa espera", relata.

Um festival "único no mundo"

É por estas e por outras que Fernando Molina garante que o festival é "único no mundo". O coordenador do projeto de percussão, que visita regularmente as escolas da região para preparar a performance no festival (inclui escolas do ensino público normal e instituições de ensino especial), é profissional do ramo há 30 anos com projetos musicais nos quatros cantos da terra, justificando ser este o único projeto musical onde há lugar para todos. "De profissionais a amadores, portugueses e estrangeiros, de estudantes de música a estudantes que não sabem música", exemplifica, alertando que um dos desafios ao longo dos quatro dias passa por juntar profissionais às comunidades locais para tocarem juntos.

Aliás, assegura que a envolvência da comunidade local é uma batalha ganha, numa altura em que já está mobilizada cerca de 10% da população de Setúbal (cerca de 12 mil pessoas).

Trompetista que voltou aos palcos

Clarence Adoo é um convidado especial deste ano, um trompetista profissional que ficou paralisado num acidente há 20 anos e que agora volta a tocar com instrumentos especialmente inventados para si, "inspirando novas gerações que até aqui apenas podiam ousar sonhar tornar-se músicos", descreve a organização do festival, que por estes dias vai ainda exibir a Sinfonieta de Lisboa, com o maestro Vasco Pearce de Azevedo, a violoncelista Irene Lima e o saxofonista Pedro Corte-Real (vencedor do Prémio Jovens Músicos 2015), o pianista brasileiro Marcelo Bratke (em colaboração com a artista visual Mariannita Luzzati) e o violoncelista Filipe Quaresma, que junta forças com jovens dos coros de Lisboa e de Setúbal.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG