"Todos os professores deviam fazer um curso de riso"

"Corrigir comportamentos de adultos que já carregam hábitos há 20 ou 40 anos é pesado. Mas podemos evitar que as crianças adquiram esses comportamentos"

O seu refúgio é na Lousã mas o coração é do mundo. "Nasci em Espanha, tenho passaporte inglês e sou casada com um alemão. Os meus filhos nasceram em Portugal." Assim se apresenta Joanne Helms, 47 anos, conhecida pelo nome artístico de Ana Banana, a ensinar os portugueses a rir há 21 anos. Fundadora da associação Escola do Riso, ali promove a risoterapia e o ioga do Riso, tendo já formado mil pessoas nestas técnicas inovadoras originárias da Índia.

Filha de pais ingleses, nascida em Málaga, Espanha, Joanne tem dois filhos, uma de 19 anos, fruto de uma relação com um português, e um de nove anos, filho de um alemão.

Joanne, que é daquelas pessoas agitadas e sempre envolvida em mil projetos, garante ter uma "solução para o país", para implementar num pilar fundamental: a Educação. "Todos os professores deviam fazer um curso de risoterapia e de inteligência emocional, de dois dias, para depois usarem esse conhecimento com os alunos na escola. Basta dois dias para ensinar esta técnica. Com isto, os professores conseguiam resolver a falta de atenção na aula e o desrespeito aluno-professor, que existe hoje em dia", garante Joanne. Refugiada no silêncio e na calma proporcionados pela serra da Lousã, a terapeuta do riso projeta, com um entusiasmo contagiante, os benefícios que a técnica teria nas escolas portuguesas: "Rapidamente surgiria amizade genuína entre alunos e professores. Resolvia-se também o problema do bullying, da falta de autoestima. Como o riso liberta endorfinas, também diminuiriam as toxicodependências dos jovens."

É uma "solução estupidamente fácil", garante, com uma boa gargalhada. Há anos a desenvolver workshops de terapia e ioga do riso em empresas, hospitais e a particulares, Joanne Helms quer agora focar-se cada vez mais nas novas gerações. "Corrigir comportamentos de adultos que já carregam hábitos há 20 ou 40 anos é pesado. Mas podemos evitar que as crianças adquiram esses comportamentos." A Escola do Riso lançou agora um novo projeto pedagógico: um grupo de crianças que está a construir uma aldeia, uma Ecovila. E também vão formar pessoas como "líderes do riso" que ficarão habilitados a treinar os outros na cura da gargalhada, que "ajuda a resolver problemas nervosos e emocionais".

E Portugal, é um país de tristonhos? Joanne ri-se e diz que não. Quando chegou a Portugal há 21 anos apanhou "uma surpresa": os portugueses sabem rir. São até "os melhores" nesta arte. "Riem genuinamente, dão risadas facilmente e conseguem uma transformação de estado de espírito muito grande, da tristeza para a alegria. Vê-se logo o impacto benéfico do riso neles. O povo português sabe chorar e o choro é muito parecido ao riso. Outros povos são mais contidos. O riso genuíno é saudável e transformador." Joanne, que já viajou por todo o mundo a levar a terapia do riso aos vários povos, garante que "os finlandeses ou alemães não são assim, são contidos nas emoções". Por isso é que ao fim de uma sessão os resultados são visíveis nos portugueses: "Ficam brutalmente melhores. saem animados, esperançoso, felizes."

A terapia do riso permite também melhorar o desempenho profissional de cada um, ao estimular a autoconfiança e a satisfação com a vida. "Na Dinamarca várias empresas que usaram a técnica no longo prazo , aumentaram os seus lucros em 30 a 35%."

Joanne Helms é uma apaixonada pela vida e por Portugal. Ainda se lembra quando aqui chegou e viveu em Alfama, numa altura em que as regras europeias chocavam com os hábitos dos bairros lisboetas onde o povo assa sardinhas na rua. "Muitos portugueses venderam as suas terras no interior por quase nada. Tornaram-se empregados de shopping e foram viver para apartamentos minúsculos em Lisboa." Esse abandonar das terras deixou-a "muito triste". Por isso viu na crise económica que o país viveu nos últimos anos "uma oportunidade". "Com a crise voltámos a ver as famílias a aproveitarem as terras, a apanhar azeitona. Lembraram-se, por necessidade, do amor pela terra. Mas ainda bem. É preciso amar Portugal visceralmente porque este país ainda tem uma cultura muito ligada à terra. No Verão, os netos ainda vão passar tempo com os avós à terra, sendo que agora tem Wi Fi", conta, entre risos.

Joanne não viu o período da troika como uma fase negra para o país por causa dessa fuga para a frente que permitiu a muitos. "Não olho para a crise de uma forma negativa, porque tira as pessoas de um estado sonâmbulo. Muitas foram empurradas para uma nova vida. Conheço arquitetos que ficaram sem trabalho e buscaram alternativas. O problema na cultura portuguesa é a ansiedade de jogar pelo seguro".

Ativista pelos outros, Joanne tentou receber refugiados na Lousã mas a Câmara "não acolheu nenhum", o que a deixou "zangada". "Temos uma obrigação moral de receber os refugiados. Os portugueses sempre foram emigrantes."

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