"Surpreenderam-me os agradecimentos dos presidentes [Marcelo e Jorge Fonseca]"

Um salvamento no rio Tejo, em Lisboa, transformou o cabo-verdiano José Brito num "herói", com direito a felicitações dos Presidentes de Portugal e de Cabo Verde, homenagens e entrevistas, mas para este filho de Santiago ajudar é "natural".

José Brito, natural da Assomada, na ilha cabo-verdiana de Santiago, foi para a cidade da Praia ainda menino, acompanhando a mãe, peixeira de profissão, no caminho entre a praia da Gamboa e São Filipe, onde vendia o peixe.

"Zé di Cizina", como é conhecido, substituiu a mãe nestas andanças, quando esta ficou doente, e era no cais da Praia que passava grande parte do tempo.

Em 2004 veio para Portugal para receber um tratamento, acabando por ficar. Assim que a saúde o permitiu, procurou um trabalho no centro de emprego e, consciente dos seus dotes na cozinha, aceitou trabalhar como cozinheiro na Vitae - Associação de Solidariedade e Desenvolvimento Internacional.

Os amigos enaltecem o seu arroz de pato e a cachupa, o prato mais típico de Cabo Verde, mas sobretudo as qualidades e o gosto em ajudar o próximo.

Por esta razão, os utentes do centro Vitae, procurado por pessoas que enfrentam dificuldades, como sem-abrigo, não estranharam a atitude de José Brito que, em 12 de dezembro, saltou para as águas do Tejo para salvar um homem que ali tinha caído, na zona da Praça do Comércio.

Pai de cinco filhos, José estava acompanhado por um deles aquando do salvamento, e foi este que às câmaras de televisão que o entrevistaram nos dias seguintes disse que tinha "o melhor pai do mundo".

Quase um mês depois deste ato heroico, José Brito disse à Lusa que ficou surpreendido com o alarido e garantiu que faria tudo de novo, não pela fama, mas sim porque fez "o que devia ter sido feito".

"Zé di Cizina" critica aqueles que, em vez de salvarem quem precisa, optem por filmar a desgraça. Curiosamente, foi graças a uma filmagem, divulgada nas redes sociais, que o seu ato heroico atingiu tamanha projeção, atravessando fronteiras e chegando à sua terra natal, de onde surgiram muitas mensagens e telefonemas de parabéns.

Dois dos muitos telefonemas que recebeu foram especiais, pois do outro lado estavam o Presidente da República do seu país, Jorge Carlos Fonseca, e o chefe de Estado português, Marcelo Rebelo de Sousa.

"Fiquei muito surpreendido com o telefonema do Presidente da República português. Jamais pensei, nem queria acreditar, mas reconheci a voz, pois já tinha estado ao pé dele quando este visitou a associação onde trabalho", disse.

Confessa que ficou "um bocado nervoso", mas agradeceu, tal como o fez quando Jorge Carlos Fonseca lhe ligou, agradecendo o ato de coragem.

As homenagens não ficaram por aqui: Foi recebido pelo embaixador de Cabo Verde em Portugal, que lhe transmitiu que as ilhas o estavam a seguir e a acompanhar os desenvolvimentos após o salvamento.

"O que mais me surpreendeu foram os dois presidentes dos dois lados [Cabo Verde e Portugal] a me agradecer pela coragem, pelo que fiz", referiu.

Mas outros gestos o marcaram, como os depoimentos dos amigos nos programas de televisão, a enaltecer a sua forma de ser, e os utentes do centro, muitos sem-abrigo, que o aplaudiram quando regressou ao trabalho.

"O que mais gostei foi ouvir da boca destas pessoas que não ficaram surpreendidos, pois sabem que eu não podia fazer outra coisa", afirmou Brito, acrescentando: "Fico contente com a forma como me elogiaram e por me darem os parabéns pelo que fiz, como fico contente quando as pessoas para quem trabalho me dão os parabéns quando o prato que cozinho está especialmente bom".

Da família que deixou em Cabo Verde também chegaram muitos elogios, assim como dos familiares que estão já em Portugal e que se sentiram especialmente orgulhosos com o seu José.

Aos poucos, numa altura em que nada é totalmente normal devido à pandemia de covid-19, a vida de José Brito vai entrando na normalidade.

E já que o seu gesto atingiu tamanhas proporções, gostaria que o mesmo chegasse mais longe, mostrando que "as pessoas não devem virar as costas ao outro".

"Gostava que as pessoas ficassem mais atentas ao outro, mais humildes um com o outro. Hoje em dia, no mundo em que vivemos, muitos só pensam em si. Devem olhar mais para os outros. E na altura de filmar, pensem se não serão mais úteis a ajudar", apontou.

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