Sonho cumprido. Um homem sereno que chora

José Ferreira que vive sozinho na aldeia de Casas da Serra, concelho de Boticas, foi ao Estádio do Dragão ver o jogo FC do Porto-Benfica a convite dos portistas.

18h45. O encontro estava marcado frente ao Dragão Arena. Há milhares de adeptos em redor do estádio, o jogo começaria dali a duas horas e pouco. A caminho, vindo de Casas da Serra, José Ferreira vem no carro de Maria José Afonso, da Rádio Montalegre, com João Bragança, repórter de imagem do FCP. À frente seguem, noutro carro, Ricardo Amorim, jornalista do Porto Canal(*), e Leonel Castro, repórter fotográfico da Global Imagens.

Já escureceu quando chegam. Entramos minutos depois no interior do estádio, nas zonas de acesso reservado - dali a instantes passaríamos por Pinto da Costa que tinha acabado de chegar; pelos autocarros estacionados, lado a lado, de Benfica e FC Porto; pelo longo corredor interno que rodeia o estádio. Saímos dos carros. José Ferreira encosta-se a um pilar. Está vestido a rigor com roupa desportiva oferecida pelo Futebol Clube do Porto. Aproximo-me. Olha-me hesitante. Só quando retiro a máscara, porque percebo a desconfiança, é que me reconhece. "Estou aqui por causa de si... e da Maria, da Maria." E nada mais diz. Parece-me atordoado, mas sereno, com tudo o que de novo está a viver pela primeira vez. "Adapta-se com facilidade, mas não fala", diz a Maria.

A entrada no estádio, por uma das rampas de acesso ao relvado, é feita devagar. José Ferreira fica estupefacto perante o que vê: uma multidão, um estádio cheio, luzes, cantares, jogadores em aquecimento, câmaras de televisão, fotógrafos, jornalistas. Ali a poucos metros está a claque dos Super Dragões. O homem da aldeia abandonada continua impávido. Só por um momento estremeceu.

"Tem a possibilidade de estar no relvado, de ir a sítios onde a maioria das pessoas não vai, mas ele não expressa alegria. Pareceu-me mais espanto, mas senti que esteve, que foi feliz. Quando estávamos perto da claque, cá em baixo, estoiraram uns petardos e ele tremeu, ficou aflito. Tive que lhe explicar o que era aquilo, o que significava", conta Ricardo Amorim.

Alguns dos jovens da claque chamam-me, estão curiosos com o homem que espantado olha tudo em seu redor. Explico em segundos quem é e porque ali está. Por instantes, a alegria dos cânticos, naqueles jovens, é quebrada. "Eh, pá! É bonito o que estão a fazer, é muito fixe."

"A meio da tarde, do dia 26, recebi uma mensagem com a reportagem", explicar-me-ia dias depois Ricardo Amorim, e "depois o meu Instagram ficou inundado: "olha para esta história", "vê o que podem fazer"... todos pediam para que o FCP realizasse o sonho do senhor zé. O Miguel Guedes, entretanto, também partilha a reportagem e foi tudo num momento, no espaço de uma hora, desde a malta do Porto, as pessoas do Instagram, toda a gente a partilhar e a perguntar, a pedir que ele viesse ao estádio. Até que depois, falou-se internamente entre a Comunicação e o Marketing, e ficou decidido. No dia seguinte começámos a planear tudo".

O jogo está prestes a começar. Subimos para as bancadas. José Ferreira senta-se de mãos cruzadas, apertadas. Tudo lhe é estranho. Está assoberbado. "Tanto povo", diz. Nem dez minutos passados, trocamos olhares. Fico sobressaltado: há lágrimas nos olhos de José Ferreira. Aperto-lhe as mãos. "Está tudo bem?" Sei que me responde, mas não percebo. O ruído do estádio abafou a resposta.

Ao contrário de todos, José Ferreira continua sentado, sereno, a cada golo do FC Porto. Não grita, não bate palmas... nada, como se estivesse invadido por uma avalanche de mundo. "É-lhe difícil, não consegue deitar cá para fora as emoções", diz Ricardo Amorim.

E de repente, lágrimas. Maria José Afonso abraça-o e pergunta-lhe: "Está feliz não está?" A resposta é curta: "Estou, estou..."

(*) Veja a reportagem na quinta-feira, 13, às 21h00, no Porto Canal. Cadeira de Sonho, com José Ferreira

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