Sofia Corradi: "O Erasmus é hoje exatamente o que pensei em 1969"

A professora italiana, vencedora do Prémio Carlos V , foi a grande impulsionadora do programa de intercâmbio de estudantes na Europa

O Erasmus tem agora uma nova fase: o Erasmus Plus, no qual defende Portugal pode ser um dos grandes beneficiadores, porquê?
Com o Erasmus Plus há algumas mudanças importantes, que já estão em aplicação desde 2014. Há já projetos financiados e realizados. Erasmus primeiro era apenas para os países que pertenciam à UE, tirando o Erasmus Mundus, mas este era uma coisa pequena. Agora, muitas das ações de Erasmus Plus são extensíveis a países de outros continentes. Mas isto não é dito claramente, é dito apenas com frases pequenas e quando não é um especialista a ler o guia Erasmus Plus se calhar não percebe. Porque durante a preparação, como acontece nas leis, há alguém que diz "juntamos isto" e outro diz "não metemos só uma palavra mais". Por exemplo, no Erasmus Plus está em diversos pontos frases como esta: "nesta ação podem participar países pertencentes à União Europeia [UE] ou não. Então, isso significa todo o mundo, porque os países ou fazem parte da UE ou então não. Como em Portugal se fala a mesma língua de um certo outro continente, que é a América Latina, ou seja, o grande Brasil. Estender a cooperação entre instituições do continente europeu às instituições dos outros continentes será uma coisa complicada, mas vocês parem com vantagem. Devendo fazer coisas novas é melhor começar onde é mais fácil e a comunhão da língua é uma coisa que facilita muito.

E porquê que o Erasmus Plus não é claro neste incentivo a projetos fora da Europa?
Ora porque nasceu como todas as leis. Enquanto se preparam há um que diz mete isto, outro que diz tira aquilo. Se tivessem dito que todas as ações de Erasmus Plus são abertas a todos os países do mundo, seguramente alguém teria dito "é preciso reflectir ainda, se calhar já não há tempo". Então ficou como nas outras leis: "podem participar todos os países da UE" e alguém disse "então porque não consentir que outros entrem". Daí meterem o "não" para abrir as portas, mas isto quer dizer que se abriu a todos os países do mundo.

Porquê esta cooperação e não convidar os países de fora a Europa a concorrer aos projetos?
Acredito que o melhor é começar com uma cooperação entre países porque todas as universidades europeias têm uma coisa importantíssima: um gabinete Erasmus e relações internacionais, muito bem organizado, com pessoas que falam várias línguas, com tesoureiros que sabem como se faz a contabilidade internacional e se uma universidade sul-americana diz que tem uma boa ideia para um projeto e são eles a coordenar, depois os seus tesoureiros não sabem a contabilidade que é preciso adotar na Europa. É melhor, então, que uma universidade portuguesa lance a ideia e depois cuide da contabilidade e da organização. Depois de uma primeira experiência conjunta, a universidade brasileira aprendeu como se faz e já pode fazer sozinha a seguir. Até porque há desconfiança às vezes. Até aqui falei apenas de universidades porque são elas que como participam no projeto Erasmus têm os gabinetes de relações internacionais bem organizados que já sabem como estes programas funcionam, mas com o Erasmus Plus agora pode participar qualquer organização séria. Por exemplo, um sindicato de trabalhadores, uma ONG (não que tenha sido constituída um mês antes, mas que tenha dado provas de seriedade) ou então consórcios entre instituições.

E quais são os próximos passos do Erasmus?
Ninguém sabe (risos), mas o investimento no Erasmus Plus é uma cifra enorme. São 15 mil milhões de euros, não são 15 milhões. Em geral, sempre disse que as leis boas, não se sabe porquê, nascem sempre pobres. Esta, pelo contrário, que já provou ser uma lei boa (em 30 anos, toda a gente o diz), nasceu rica. Porque confluem aqui muitos investimentos: da UE, das regiões locais, dos governos nacionais, das próprias instituições que dão bolsas de estudos, contributos. Mesmo que não se vejam: pode ser alojamento grátis, por exemplo. Depois, há muitas coisas que são grátis para os Erasmus como bilhetes para o teatro, idas a bares e discotecas. Eu sempre fui ao teatro - especialmente em Paris - com bilhetes gratuitos. E esta vida estudantil, que é um pouco boémia, mas é uma vida com pouco dinheiro, que se a fazemos nós agora é triste, mas quando se é estudante é uma coisa alegre. Pode-se perguntar então onde ficam os estudos? Mas quando estás feliz, estudas com vontade. Quem não fez Erasmus dificilmente compreende o que isto é.

Está orgulhosa do percurso do programa Erasmus?
Sim porque cresceu, mas o Erasmus é hoje exatamente como o tinha pensado em 1969. Quando fazia reuniões com reitores eu explicava que queria criar uma cultura da mobilidade estudantil, porque naquela época quase todos eram contra. Tinha sempre preparado um comunicado de imprensa e normalmente, ninguém o publicava (risos). Mas eu fazia-o, sempre 300 cópias. Mandava-o pelo correio para todas as pessoas que conhecia, todas as pessoas com quem me cruzava recebiam também o memorando. Uma vez foi ao ministério da educação e tinha na mala três ou quatro cópias do memorando de uma destas reuniões e vejo ao longe no corredor um importante funcionário do ministério e corri para lhe dar o documento, ele viu-me e deve ter pensado "lá vem outra vez a senhora Corradi com alguma folha para ler". E quando olho ele já não estava no corredor, continuo a andar e ele estava escondido atrás de uma cortina (risos). Quando me ponho a pensar o quanto fui indiscreta... Outra ocasião estava num sítio onde estava um reitor de uma universidade inglesa que era um ilustre estudioso e tinha sido eleito presidente da associação dos reitores europeus, e eu queria dar-lhe também o meu documento. Mas comecei mal o discurso. Disse: "presidente Albert Slosman está livre esta noite?" E ele percebeu que eu não me tinha exprimido bem e respondeu em tom de brincadeira: "Claro que para si estou livre esta noite". E eu disse-lhe: "então leia o meu memorando". E ele com aquele humor inglês disse-me: "Obrigada. E este trabalho de casa é obrigatório?" (risos) Isto para dizer que eu fiz tudo aquilo que podia, porque eu não tinha nenhum poder real, ninguém precisava de mim. Eu só podia procurar persuadir toda a gente de que a minha ideia era boa e por isso não deixava ninguém em paz.

Como teve a ideia?
Quem não conhece a história do programa Erasmus pode pensar que é uma bela ideia tida na Europa. Não, o Erasmus é uma coisa pela qual lutou uma estudante - que fui eu - que partiu da base. Erasmus não é um programa top-down, é um programa bottom-up, e como todas as coisas bottom-up responde a um desejo daqueles que são interessados. Quando um estudante começa a ter 19, 20, 21 anos por instinto, como um pássaro quando as asas despontam tem vontade de voar fora do ninho, o estudante universitário tem vontade de voar fora do ninho da sua casa, do seu país. Vai para outro país com uma mente amigável, desejoso de estabelecer boas relações. E funciona. A ideia surgiu depois da guerra que a Itália viveu. Os restos de material militar (tanques, canhões, balas, camiões, bombas), muitas coisas de metal foram vendidos à indústria de ferro e metal e o dinheiro foi depositado nos bancos italianos. Como o dinheiro não podia ir para os Aliados, surgiu a ideia genial de um certo senador Fulbright de usar o dinheiro da guerra a fazer a paz. E aí deram-se bolsas de estudos para os alunos americanos estudarem em Itália e permitir aos alunos europeus estudar nos EUA. E eu fui uma das que beneficiou das bolsas de estudo Fulbright e fui para a Columbia University. Era aluna de direito. Estudei, fui ao teatro, conheci a população. Estive ali um ano, deram-me o diploma voltei a Itália, em outubro de 1958. Fui ao gabinete do estudante da minha universidade porque me parecia óbvio que me reconhecessem os estudos que fiz nos EUA. Mas lá não perceberam o que é que eu estava a pedir. Pedi para falar com o diretor da secretaria que olhou para o diploma da universidade e disse com desdém: "Columbia University? Nunca ouvi falar". Disse que o meu pedido era uma coisa de loucos, que eu não podia ter aquele reconhecimento, que tinha ido divertir-me e depois eles é que deviam dar-me a licenciatura. Disse-me que fosse para casa estudar se quisesse ter a licenciatura. E na época tive de resignar-me. Mas quando se jovem - e também agora - quando o mundo não nos agrada dizemos "agora chegou eu e mudo o mundo". Depois por 18 anos, não me resignei. Foi a minha luta. Os grandes especialistas, os ministros, as pessoas com mentalidade aberta, quando eu começava a explicar esta minha ideia do estudo no estrangeiro com reconhecimento do grau na pátria ao fim de 30 segundos estavam convencidos. Em Itália, naquela época a burocracia era muito antiquada. Parecia que tinham o máximo prazer em dizer não. Diziam que não iam estudar, mas divertir-se e que isto era uma coisa que nunca se faria. Estávamos no início dos anos 1970. A verdadeira resposta europeia começou quando o Parlamento Europeu passou a ser eleito e começaram a prestar atenção aos projetos dos cidadãos. E começou um projeto piloto que durou dez anos: entre 1976 e 1986 antes de lançar Erasmus. Para ver se este intercâmbio funcionava. Neste tempo foram feitos mais de 500 projetos, por isso, já não era um projeto-piloto. Mas a UE não tinha nada nos tratados sobre Educação. Era preciso fazer subterfúgios até a aprovação final do programa não havia uma base legal nos tratados. Até o conselho de ministros da educação era inexistente, eles reuniam, decidiam coisas e depois era um próximo conselho de ministros europeu, por exemplo da agricultura ou da indústria, que ratificava as suas decisões. O programa Erasmus tem duas datas de nascimento com a distância de um mês, porque primeiro deliberou o conselho da educação e depois foi ratificado por um outro conselho de outra área. Nos tratados não se falava na educação, só de formação profissional. Os tratados falavam que não se podia harmonizar os sistemas educativos. O próprio Processo de Bolonha é feito pelas universidades, a UE está fora da discussão por causa da harmonização entre os sistemas. Portanto era tudo coisas feitas com subterfúgios. Por isso, às vezes penso que coragem que tive! Ir contra os tratados, contra as normas vigentes. Era borderline, quase ilegal. Mas quando as coisas estão na direção em que a humanidade deve seguir, elas avançam.
Hoje veja temos um programa em que já participaram são quase 4 milhões de estudantes, mas como sublinhou Umberto Eco há um milhão de erasmianos mais, que são os filhos dos estudantes que se conheceram no programa Erasmus. Agora têm entre um mês e 20 anos e dizem-me que muitos deles se chamam Erasmo ou Erasmina. Esta é uma coisa dulcíssima e mostra que a vida continua não obstante qualquer dificuldade.

Como recebeu a noticia de que tinha ganho o prémio Carlos V?
Durante uma semana não acreditei (risos). Quando comecei a receber estes emails não acreditava. Há um ano pediram-me o meu currículo porque tinha sido uma das indicadas para o prémio. E eu mandei, mas não disseram-me mais nada e até me esqueci. Pensei que já tinham entregado a outra pessoa. Depois começaram a chegar estes emails e eu não acreditava, pensei que era uma brincadeira de mau gosto. Em suma, demorei uma semana a perceber que era verdade. Estou contente, embora ache que seja muito superior às minhas capacidades.

A Academia de Yuste quando anunciou o prémio sublinhou que este era uma homenagem a um projeto que une a Europa. Acha que a Europa está unida?
Acredito que a Europa como todas as coisas humanas tem qualidades e defeitos. A Europa está muito mais unida hoje do que há 50 anos, estes últimos anos tem sido uma fase de critica, de reflexão da parte de alguns. Por exemplo, espero que a Grã-Bretanha não saia da UE, mas se saem implicam-se só a eles, a Europa também, mas quem é implicado sobretudo são os cidadãos ingleses. E a vida, mesmo a vida de todos nós, é um continuo de passar de uma crise à outra. Podemos fazer o paralelo de como se aprende a viver ou se aprende a nadar: não se aprende a viver de forma tranquila, avançando sempre à mesma velocidade. Como para aprender a nadar não se pode aprender numa piscina com água calma e onde se chega sempre ao fundo, é preciso saber nadar num mar um pouco agitado, onde nem sempre se consegue tocar no fundo, mas se deve aprender que quando vem uma onda grande é preciso suster a respiração e esperar que ela passe. E acredito que o Erasmus ajude nessa aprendizagem, porque não é uma organização perfeita, há percalços, mas os estudantes aprendem a resolver esses problemas, porque não estão abandonados, podem procurar ajuda.

Gosta de ser conhecida como a Mamã Erasmus?
Enternece-me muito. Não sei porque me deram esta alcunha. Mas na vida de todos há sempre uma pessoa, uma velha tia, uma avó, um avô que nos encoraja, normalmente é alguém mais velho. Penso que os estudantes me deram esta alcunha porque se aperceberam que eu sou uma mãe encorajadora. Não me importo até porque as alcunhas são sempre mais certas que os nomes. Vejamos o filósofo Platão, o nome verdadeiro nem o conhecemos. Era a sua alcunha, porque ele praticava pugilato e tinha as costas largas (platon). E os seus fãs incentivavam-no dizendo "costas largas, costas largas", que é Platão. Ou S. Francisco de Assis, nem se sequer se chamava Francisco, era João. Mas o seu pai, um mercador, foi a Florença em negócios, conheceu uma senhora francesa e casou com ela, levou-a para Assis, aí passou a ser conhecida como a francesa (Francesca) e o filho dela passou a ser o filho de Francesca, logo Francesco. César porque ele nasceu com um corte feito na barriga da mãe, ele era de uma família muito rica e fez Erasmus em Rodes, Grécia, o nome dele era Caio Julio e acabou a ser alcunhado como César para dizer o rapaz do corte. Então esta alcunha agrada-me muito porque é positiva.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG