Sobras da pecuária e da vinha geram combustível sólido

Os resíduos existem, sejam na floresta, na vinha ou nos dejetos animais. A equipa da UTAD transforma-os em pellets para aquecimento

Há décadas, nas aldeias usavam-se os dejetos, as chamadas bostas de vaca, recolhidas nos campos após estarem secas, para serem usadas como matéria combustível nos fornos que a seguir iam cozer o pão. Até se usava para selar as portas dos fornos. Era uma forma de obter recursos da biomassa, como agora uma equipa da Universidade de Trás-os-Montes (UTAD) procura desenvolver. "Não inventámos a pólvora. Antes era a utilização direta, agora chega a um produto final melhorado", diz Amadeu Borges, o responsável pela investigação de produção de um biocombustível sólido resultante do aproveitamento de desperdícios de engaço e bagaço de uva, podas da vinha e de olival e de dejetos animais e outros subprodutos agropecuários.

No Laboratório de Ciências Térmicas, a equipa do curso de Engenharia Mecânica já fez ensaios com produção de pellets, os pequenos aglomerados constituídos exclusivamente por biomassa, usualmente com forma cilíndrica. E como o estudo já está avançado, com a caracterização feita, a fase da passagem à prática, numa exploração agrícola transmontana só ainda não avançou por falta de financiamento.

Foi há 15 anos que a valorização da biomassa começou a ser estudada na UTAD, para aproveitar as sobras deixadas nas explorações agropecuárias e nas vinhas. "O que se pretende é valorizar essa biomassa, em vez de ser queimada, que é aquilo que os agricultores normalmente fazem", aponta Amadeu Borges. O trabalho começou com a valorização energética de biomassa endógena, primeiro com os sobrantes da cultura da vinha e depois com a integração de outras biomassas, "que causam impacto ambiental, como os dejetos de animais, sobretudo os que resultam dos ruminantes - biomassa não digerida - e que pode ser aproveitada para a produção de energia".

A forma mais convencional de biomassa são os resíduos florestais, hoje já aproveitados para produção de combustíveis sólidos. "Essa biomassa já está mais que caracterizada e sabemos que é combustível para os incêndios. Se ela não existisse se calhar parte deste grande problema que nos assola estaria resolvido. O que procuramos num passado recente é pegar em biomassas que eram consideradas sem qualquer aproveitamento, caso das vides, dos engaços da uva e outros sobrantes da agricultura, mas também em resíduos das instalações agropecuárias", explicou o professor de engenharia mecânica.

Muitos destes resíduos eram aproveitados na agricultura como fertilizante. "Acontece que o mercado está cheio desse biofertilizante, ensacado, prontinho a ser transportado e distribuído. Já o que sai das agropecuárias tem cheiro forte, não está embalado e acabamos aqui a caracterizar todo o potencial para a produção de calor. Não só pelo aproveitamento mais convencional, que é a queima direta - pegar nela e introduzi-la em caldeiras -, mas também para conseguir produtos de um maior valor acrescentado, o biocarvão quer seja pelo processo de pirólise seja por gaseificação."

A fazer o mestrado, Bruna Soares, de 25 anos, está a trabalhar com biomassas, seja de que natureza for. "Fazemos ensaios com diversos tipos de biomassa no gaseificador. É tentar obter melhores carvões e com processos mais eficientes. Os ensaios são muito diversos, para avaliar o teor de cinzas, de voláteis, de humidade."

Na equipa, Miguel Oliveira, de 36 anos, está a trabalhar numa base de caracterização da biomassa sem qualquer tratamento, juntando o que resta da cultura da vinha com outras biomassas para atingir um produto final que conduza às verdadeiras vantagens da utilização de uma biomassa. "Na prática tenho feito ensaios com as biomassas, caracterizá-las, e depois fazer a junção. Inicialmente foi só com vinha, agora também com os dejetos, com várias amostras."

Amadeu Borges lembra que "convém nunca esquecer que, ao queimar biomassa, associamos sempre a libertação de CO2. Sabemos que o balanço é neutro mas existem outros compostos - caso do enxofre - que podem ser elevados e que podem originar outros compostos maus". Daí a necessidade de caracterizar e efetuar ensaios, para perceber que junções podem ser feitas.

"Com este conjunto de biomassas no mesmo pellet, podemos ter um poder calorífero o mais alto possível , reduzir o teor de cinzas resultantes - obviamente que ninguém quer um pellet de um produto que gere muita cinza - e que se mantenha firme até ir para a caldeira, o recuperador de calor, o que quer que seja", completa o professor da UTAD. "A conjugação das mais variadas biomassas sejam de origem vegetal ou animal vão conduzir aquilo que achamos ser o pellet perfeito, com baixas emissões de tudo o que é nocivo, baixo teor de cinza, alto teor calorífero e menos sensível às deformações quando o teor de humidade do ar aumenta."

Nesta altura, a investigação já conta com quatro tipos de dejetos animais, inicialmente era só com um. "O objetivo é alargar o espetro de utilização de dejetos, ver vantagens e desvantagens, obter melhores resultados."

Se fosse para pôr um produto no mercado, "já saberíamos fazê-lo", assegura Amadeu Borges. Há várias empresas interessadas mas não existem neste momento os financiamentos. Há a matéria-prima, há a vontade de resolver um problema ambiental. É pegar nos resíduos e valorizá-los quer para autoconsumo de energia quer para comercializar na base sólida.

A empresa que mais perto esteve de avançar é uma exploração agropecuária, uma pocilga com 2000 porcos, mas as quintas com vinha também já se interessam. "Uma, sozinha, dificilmente iria ter rentabilidade, mas poderia ter os próprios pellets e garantir o aquecimento." Para os portugueses em geral, a base sólida é aquela para a qual "já estão mais mentalizados quando se fala de biomassa, na forma do pellet".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG