Ser professor de Português em África: um mundo de desafios

Entrevista a Rui de Azevedo, coordenador da rede de ensino de Português do Instituto Camões em vários países africanos

Através das equipas que coordena, o ensino do nosso idioma faz parte do quotidiano na África do Sul, Botswana, Namíbia, Suazilândia e Zimbabué. Vive em Pretória e não se imagina a voltar já a Portugal.

Qual é o maior desafio da função de coordenador para o ensino de Português no âmbito da realidade africana?

Tenho dois grandes desafios: um deles é tentar dar uma relevância à língua portuguesa, contribuir para a internacionalização da língua portuguesa na África Austral; o segundo, sendo difícil de concretizar, é consolidar o nosso papel junto da comunidade portuguesa. Hoje há cada vez mais interessados na língua portuguesa. Só 40% dos nossos alunos são portugueses, ou seja, o português é a sua língua de herança. Cerca de 11% são lusófonos, contudo a maioria é estrangeira. Têm o português como segunda, mesmo terceira, língua. Esta rede de ensino, promovida pelo Instituto Camões, não cuida apenas da língua como língua de herança. Temos uma série de programas que visam a internacionalização e outros que são vocacionados para a comunidade. Tentar convencer as pessoas de que a nossa língua é um idioma cujo domínio é muito importante para qualquer futuro, para os filhos, por exemplo, não é evidente para muitos. É algo em que acredito: é crucial em termos geoestratégicos, económicos e profissionais nesta região africana.

Muitas famílias de origem portuguesa optam por falar inglês em casa...

É verdade que muitos pais não falam português com os filhos. E pouco importa se chegaram aqui da ilha da Madeira ou de uma qualquer zona do continente. O facto de optarem por não exercitar o português e transmitir essa herança é uma das nossas desvantagens. Torna a nossa tarefa mais árdua e precisamos de tempo. Estive a trabalhar como leitor do Instituto Camões, nomeadamente em Moçambique, e a realidade é diferente. Ser leitor é um trabalho extraordinário: formar professores de Português, estar em sala de aula, partilhar experiências, perceber como atingir as metas a que nos propomos. Moçambique é outra realidade. Como coordenador, a preocupação é a rede de ensino e uma perspetiva global deste projeto.

Não é fácil em nenhum dos países que gere, contudo a África do Sul assume características distintas?

Todos os países são diferentes. A Namíbia tem uma pequena comunidade portuguesa, por exemplo, cerca de duas mil pessoas, aqui são mais de meio milhão. A nossa comunidade na África do Sul chegou depois das independências dos países africanos - a partir dos anos 1950 - e viveram, aqui, o apartheid de forma muito concreta. Houve uma necessidade de inserção na sociedade. Os estrangeiros tinham uma vida difícil, eram também vítimas de segregação. A inserção levou a que a língua, o português, fosse "arquivado". A passagem do idioma, de geração para geração, não era uma prioridade, mas dito isto é preciso sublinhar que se ensina Português nas escolas deste país desde a década de 1960. Temos os resistentes, é verdade, contudo existem igualmente aqueles que até nasceram aqui e continuam a falar português por serem próximos dos avós. Os avós são essenciais.

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