"Se antes era difícil fazer algumas pessoas cumprirem o isolamento, agora vai ser pior"

Quem está infetado ou em isolamento vai poder sair no dia 30 para ir votar. A decisão é do governo. Médicos de Saúde Pública dizem que há muitos exemplos desde do início da pandemia de quem não quer cumprir o isolamento e que a partir daqui ainda pode ser pior. O Presidente da ASMSP diz que "o problema não é o eleitoral em si, mas o que advém desse ato". Porque, hoje, um dos problemas ainda é muitos infetados darem todos os contactos de risco para serem rastreados e a doença não se propagar.

No início da pandemia, era difícil fazer a população perceber que, ao testar positivo, tinha mesmo de ficar em isolamento. Houve quem quebrasse as regras, houve quem só regressasse a casa com a polícia e houve até quem omitisse a positividade e propagasse a doença. No início, foi ainda mais difícil fazer cumprir isolamento a quem testava positivo e estava assintomático, como se não tivesse doença. Em outros atos eleitorais houve que explicar a quem estava infetado que devia cumprir isolamento, chegando a haver situações em que foram os populares a chamar a GNR ou a polícia para fazer com que algumas pessoas infetadas regressassem a casa quando quiseram votar. Hoje, "passará a ser difícil ter autoridade para colocar pessoas em isolamento e fazê-las cumprir. Haverá quem vá achar que tem critérios para não cumprir", comenta ao DN o presidente da Associação Portuguesa dos Médicos de Saúde Pública (APMSP).

Em causa está a decisão do governo sobre o direito ao voto de pessoas infetadas ou em isolamento. Recorde-se que a decisão foi anunciada nesta quarta-feira, após um parecer da Procuradoria-geral da República (PGR) ter concluído que os eleitores infetados com covid-19, com ou sem sintomas, bem como os contactos de risco em isolamento, poderão sair no dia 30, estritamente para exercer o seu direito de voto, mas num horário específico para o fazerem. Posto isto, foi definido o período das 18.00 às 19.00 e estes eleitores devem usar máscaras específicas, cirúrgicas ou FFP2, usar a própria caneta e não utilizar transportes públicos para se dirigirem à assembleia de voto, tendo de ir a pé ou em viatura própria. Para os médicos de Saúde Pública, a questão agora "não é o ato eleitoral em si, mas o que advém desta decisão".

Infetados continuam sem dar todos os contactos de risco

Gustavo Tato Borges disse ao DN que, nesta fase, e já com as regras de isolamento mais aliviadas pela Direção-Geral da Saúde (DGS), o que está a ser difícil é fazer com que alguns infetados declarem todos os contactos de risco. Há ainda quem diga que vive sozinho, quando do seu agregado familiar fazem parte três a quatro pessoas; quem diga que está em teletrabalho, quando a profissão que indica não o permite, quem diga ter estado de férias sozinho quando foi infetado, quando depois se confirma que está em casa com a família ou a trabalhar. Ou seja, em matéria de isolamento, muitas vezes para não prejudicar situações laborais ou pessoais, há mentiras e omissões para não se cumprir o isolamento. Por isso, reforçou o médico, "agora, vai ser ainda pior".

O médico contou ao DN que, nestes dois anos de pandemia, houve momentos em que a luta dos médicos de saúde pública era fazer com que as pessoas entendessem a necessidade de isolamento de quem testava positivo, até em relação a outros familiares com quem coabitavam, ou que cumprissem as normas definidas pela DGS, que é a autoridade de saúde nacional. "Tivemos colegas que foram a tribunal responder a processos de Habeas Corpus por haver quem recorresse da medida de isolamento", conta. Portanto, "já vimos de tudo e tivemos de lidar com o todo o tipo de desculpas para fazer com que a população cumprisse o isolamento e não andasse a propagar a doença. E agora temos esta permissão", critica.

Haverá pessoas que vão cumprir, outras não

No entanto, o médico de saúde pública acredita que "haverá muitas pessoas que cumprirão as recomendações feitas para ir votar, mas outras não, porque não há forma de fiscalizar e de se saber quem está positivo ou não e quem vai sair de casa e para onde". Para Gustavo Tato Borges, "o risco principal associado a esta situação nem é o foco da doença, acredito que esta será uma situação marginal no número de casos, sem grande tradução epidemiológica, o problema é o que virá a partir daqui". Acrescenta: "Como vamos ter autoridade para fazer alguns cumprirem o isolamento? Quantos contágios vão ser possíveis porque as pessoas deixarão de sentir obrigação em cumprir isolamento? A questão não é o ato eleitoral em si, é o que advém desse mesmo ato".

O presidente da APMSP argumentou ainda com o facto de a quebra do isolamento não ser uma realidade de agora, mas desde o início da pandemia. "Tivemos pessoas que testaram positivo, tinham sintomas e que continuaram a ir trabalhar. Outras que deviam ficar em isolamento por contacto com positivos e não ficavam e depois testaram positivo. Tivemos crianças de pais com guarda partilhada que estavam com um dos pais que testou positivo, ficaram em isolamento, mas como não tinham sintomas foram para o outro pai e a seguir testaram positivo e colocaram toda a outra família em isolamento".

Mas há mais. "Agora, e já depois de a DGS ter classificado as turmas escolares de baixo risco, alguns colegas, no caso de infetados em infantários e creches, quiseram dar isolamento de dois a três dias às restantes crianças, até fazerem o teste de rastreio e só regressarem se estivessem negativas, e houve logo pais que não aceitaram, porque a norma não o previa". Como explicou: "Os dois ou três dias de isolamento tentavam apenas travar a propagação de casos, porque é uma população onde o contágio é mais fácil, e até evitar a realização de muitos testes em crianças tão pequenas". Rematando: "Como vê, temos exemplos de tudo o que possa imaginar".

Estes casos não são a maioria, admite. "A maioria da população tem cumprido as regras, mas esta decisão do governo vai fazer com que muitos considerem que têm critérios para não ficarem em isolamento". Neste momento, perante o número de casos que o país está a ter atualmente, a preocupação dos médicos de saúde pública "é travar a transmissão da doença".

Ou seja, "já houve uma mudança grande no paradigma de investigação de casos. Não é tanto encontrar a cadeia de transmissão, mas impedir que a doença seja transmitida a partir daquele caso".

Portugal está numa fase em que muitos especialistas começam a pedir que se mude a forma como se olha para doença e que se mudem também as regras de vigilância. Resta saber se essa fase chegará depois de 30 de janeiro.

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